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sábado, 25 de janeiro de 2014

São Paulo: 460 anos de vida e 30 anos do Comício das Diretas Já


LINHA DO TEMPO



Quando menina, meu pai, operário e janista, após o jantar, entretinha longas conversas sobre política com meu avô Olímpio, ademarista fanático. Havia muitos comícios, e esse pai progressista, de esquerda, sem que soubesse de ideologias, nos levava, a mim e a meus irmãos, para ouvir discursos inflamados de Carvalho Pinto, Franco Montoro, Ulysses Guimarães... na periferia da cidade de São Paulo.

Dia de eleição, 15 de Novembro, era dia de celebração. De tempos em tempos, comemorava-se a festa da democracia, mais ainda que da República. Caçula, eu ia para a seção eleitoral com minha mãe, entrava com ela na "cabine indevassável", uma espécie de "tenda", e aí ela votava. Por vezes, ela deixava que eu fizesse o "xis" no quadrinho que ela indicava... 

Essas foram minhas primeiras, queridas e inesquecíveis aulas de democracia e cidadania, recebidas de pai e mãe com pouquíssimo estudo, mas de mente aberta, avançada, libertária.

Tempos depois, já estudante da USP e da Cásper Líbero, nos anos de chumbo, a menina aprendiz de democracia se transformou numa ativista, indo pras ruas e praças do centro da cidade, em passeatas e atos públicos, lutando pela derrubada da ditadura militar e a volta do País ao Estado Democrático de Direito.

bravo povo de Piratininga se somou a milhões de cidadãs e cidadãos dos quatro cantos do País para fazer história, acabar com as atrocidades e sepultar o arbítrio.

Hoje, sob o comando de mãos limpas e dignas, a Pauliceia Desvairada festeja seus 460 anos e os 30 anos do histórico comício das Diretas Já.

Comemoremos o aniversário desta cidade vibrante e acolhedora!

Celebremos a Liberdade e o Estado Democrático de Direito!


Eu estava lá...

25.01.1984, Praça da Sé, gigantesco comício pelas Diretas Já, 
pela derrubada da ditadura militar

terça-feira, 11 de setembro de 2012

São Paulo e os "cacarecos messiânicos"


Quando menina, meu pai, operário e partidário de Jânio Quadros, entretinha, após o jantar, longas conversas sobre política com meu avô Olímpio, ademarista fanático. Havia muitos comícios e esse pai progressista, de esquerda, sem que soubesse de ideologias, nos levava, a mim e a meus irmãos, para ouvir discursos inflamados de Carvalho Pinto, Franco Montoro, Ulysses Guimarães... 

Dia de eleição, 15 de Novembro, era dia festivo. Comemorava-se a festa da democracia, mais ainda do que da República. Caçula, eu ia para a seção eleitoral com minha mãe, entrava com ela na "cabine indevassável", uma espécie de "tenda", e aí ela votava. Por vezes, ela deixava que eu fizesse o "xis" no quadrinho que ela indicava...

Essas foram minhas primeiras, queridas e inesquecíveis lições de democracia e cidadania, na periferia da cidade de São Paulo.

Tempos depois, já estudante da USP e da Cásper Líbero, nos anos de chumbo, a menina aprendiz de democracia se transformou numa ativista, indo pras ruas e praças do centro da cidade, em passeatas e atos públicos, lutando pela derrubada da ditadura e a volta do País ao Estado Democrático de Direito.

Muitos anos depois, é triste para a paulistana que desde muito cedo se acostumou a participar ativamente dessa festa e dessas lutas, ver no que se transformou esse momento tão importante para o País e para a sociedade. 

Dói ver São Paulo amargando os efeitos de uma escolha equivocada e infeliz e sob o risco de trocar a "mediocridade imobiliária" por uma "nulidade messiânica", como se só tivéssemos merecimento para o caos e a empulhação.

O que aconteceu na maior e mais importante cidade brasileira?

Pra onde foram os brios do bravo povo de Piratininga?

Vamos nos permitir eleger novamente uma farsa, um engodo?

De cacareco em cacareco, aos trancos e barrancos, qual será o destino da triste Pauliceia Desvairada?


                Praça da Sé, palco das Diretas-Já, marco 
            zero da cidade.


Eleição paulistana traz de volta o voto messiânico


Uma sequência de governos personalistas e messiânicos 
não produziu um plano de futuro para São Paulo, diretrizes 
que tracem um rumo de qualidade de vida e não de 
aprofundamento das desigualdades. Foto: Antônio Milena/ABr

Mais uma vez a cidade que movimenta o terceiro orçamento do País chega às urnas sem convicção de que modelo de desenvolvimento deseja. A polarização entre situação e oposição chegou a um ponto em que a maioria dos eleitores parece ter abandonado a vontade de avaliar propostas e pensar em como São Paulo pode vir a ser uma cidade mais humana, acolhedora, menos fechada em grades e muros, com mobilidade tranquila e serviços públicos de qualidade.

A escolha do próximo prefeito parece que vai seguir uma rota menos elaborada, menos propensa a reflexões, mais focada em um personalismo inconsistente, com discursos e propostas que cabem em 140 caracteres. Faz muitos anos que a cidade caminha através de sua própria institucionalidade, sem a liderança de um projeto de desenvolvimento, sem a normativa de um plano diretor, ou sem a qualidade de uma gestão menos focada em seu próprio umbigo.

As ideias de um prefeito de São Paulo não deveriam ser simplistas a ponto de caber em posts de redes sociais e uns parcos minutos de tevê. A capital paulista é uma cidade complexa, com demandas proporcionais à sua grandeza metropolitana e soluções que envolvem uma enorme multiplicidade de saberes. Mas estas coisas não estão em jogo no diálogo (ou seria monólogo) com os eleitores.

Os esquetes mostrados na tevê e as falas dos candidatos a vereador mostram uma realidade que já deveria ter sido esquecida em um tempo em que os eleitores elegiam “Cacareco”, um hipopótamo do zoológico paulistano que foi o candidato a vereador mais votado em seu tempo. O messianismo ou a crítica escarrada ao cenário político destoa com a firmeza com que a cidade enfrentou momentos críticos da história política, como a Revolução Constitucionalista, que exigia do governo federal uma Constituição e eleições livres, ou durante os 27 anos de regime militar, que entre outras manifestações teve de enfrentar mais de um milhão de paulistanos e brasileiros em comícios que exigiram eleições diretas no Brasil.

São Paulo é um dos importantes centros da mídia brasileira, discute o país, mas é incapaz de olhar para seus bairros, para sua periferia e para seu centro, abandonado a ruínas, tráficos de toda espécie, contrabandos e escravidão em oficinas clandestinas que produzem a felicidade de sacoleiros de todo o país.

Uma cidade não pode simplesmente ser um repositório de fracassos e contentar-se em ser apenas isso. Pesquisa realizada em parceria entre a Rede Nossa São Paulo e o IBOPE, no início de 2012, apontou que 56% dos moradores de São Paulo abandonariam a cidade e iriam viver em outro lugar se pudessem. Ou seja, mais da metade das pessoas que moram em São Paulo já estariam longe se pudessem. No quesito qualidade de vida a cidade teve média de 4,9 em uma escala que vai de zero a dez. A cidade mais rica do país não consegue transformar dinheiro em qualidade de vida.

Algumas notas que os paulistanos deram à cidade:

Honestidade e Participação Política – 3,5

Transporte público e mobilidade – 4,3

Segurança – 4,4

Habitação – 4,5

Educação – 5,0

Saúde – 5,1

Nenhuma nota conseguiu ultrapassar a metade da escala, mas o que os paulistanos pensam de seus políticos é ainda pior. Apenas 17% acreditam que o desempenho da Prefeitura é ótimo ou bom, enquanto só 11% diz que a Câmara dos Vereadores tem um desempenho ótimo ou bom. Essa pesquisa foi divulgada pouco antes de 25 de janeiro, aniversário da cidade.

Este é o cenário que serve como pano de fundo para as eleições municipais de 2012 na cidade de São Paulo. Uma sequência de governos personalistas e messiânicos não produziu um plano de futuro para São Paulo, diretrizes que tracem um rumo de qualidade de vida e não de aprofundamento das desigualdades.

As opções postas para esta eleição mantêm as características do “eu resolvo” e as injunções políticas são as mais esdrúxulas possíveis, com inimigos declarados de décadas em pose de “melhores amigos”, antagonismos sem nexo de modelos muito parecidos de governar e soluções na linha do “prendo e arrebento”, no melhor estilo militarista do século passado.

Uma forma de arrancar a cidade dessa caminhada rumo a mais quatro anos de abandono é fortalecer a Câmara Municipal. Mas isso não vai acontecer se elegermos novos cacarecos. Não importa quem vencerá a eleição majoritária, São Paulo precisa de vereadores bem preparados e comprometidos com o desenvolvimento sustentável da cidade.

A própria Câmara Municipal deveria ter como meta recuperar a credibilidade diante da população, dando transparência a seu trabalho e propondo mais do que mudar nomes de ruas.

Dal Marcondes

(Envolverde)

CartaCapital

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