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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Revolução virtual: vejo, logo existo

A hora da "revolução virtual"
Controle mental: Relaxe, "O Grande Irmão" pensa por nós
  
Manuel Freytas


Tradução: Vera Vassouras*  

Relaxem, aspirem "energia positiva", não se carreguem de "negativismo" com os problemas do mundo (estar bem com o universo significa "estar bem com você mesmo"), não se deprimam com sobrecargas de reflexões cósmicas inúteis, não filosofem pensamentos críticos, atuem no positivo, respirem "boa onda", exercitem a "auto-realização criativa", cultivem o corpo, cultivem os gostos, cultivem a amizade, cultivem a família, cultivem a moda, cultivem "sempre no positivo", sejam amáveis, não rompam a corrente, deixem que as coisas "fluam" naturalmente, sem preconceitos, sem contaminantes, sem ideologias de mudanças preestabelecidas, sejam livres, suprimam conflitos estressantes, e unam-se solidariamente na grande rede planetária do "Grande Irmão". O que pensa (e soluciona) os problemas do mundo por todos nós.


Um dia o indivíduo-massa (feminino-masculino) despertou e disse: Olho a televisão e logo existo.

E outro dia, despertou e disse: Utilizo a Internet e só existo pelas redes sociais.

Sem sabê-lo, tinha ingressado na era do "homo-videns", finalmente projetado (e realizado) através das ondas do ciberespaço estendidas como um grande encadeamento caçador de cérebros.

Seu mundo se converteu em uma tela. Conecto-me pela TV-tela, converto-me em "solitário virtual", e realizo meus sonhos pela Internet-tela. A vida e os projetos sempre começam por um sonho. Assim têm afirmado historicamente os ídolos do cinema de Hollywood. Que surgiram de uma tela.

Fora da tela, o mundo é duvidoso. Está cheio de "teorias conspirativas", de duvidosas hipóteses sobre o "bem e o mal" implícitos na natureza humana. Fora da tela, o mundo está povoado de "política" e de "ideologia", de críticas saturadas de falsas certezas. Quero "ser eu", não um ente manipulado pela política e pelas ideologias. Não há maus nem bons, não há sistema dominante, só estamos nós e nossas circunstâncias.

Melhor a tela (da TV e do computador). Tranquiliza-me, informa-me, conecta-me com um mundo de imagens que "valem mais do que mil palavras", a TV "mostra" a realidade quase sem palavras, e a Internet me permite contá-la, sem intermediários, sem que ninguém me diga o que devo fazer e pensar.

Vivam as redes: Vivam os SMS, vivam os contatos em tempo real, viva a interatividade, viva a comunicação planetária sem limites, viva o Twitter, viva o Facebook, viva eu e minha circunstância, vivamos todos os que transformam o mundo com a tecnologia digital, vivam os que possibilitaram nosso trânsito do mundo velho ao mundo novo. Vivam os que inventaram a tela. Fonte de toda razão e justiça.

E imediatamente chegou o Grande Irmão.

Pergunta: Que faz um adicto da tela tele-informatizada (o mundo fashion do Twitter e do Facebook) em seu tempo livre?  

Resposta: Vota e consome.

Consome produtos, consome roupas, consome espetáculos, consome cultura, consome alienação informatizada, consome "dias da mãe", consome casamentos e divórcios pagos, consome natal, consome idéias "fashion", consome férias guiadas, consome ídolos cômicos convertidos em estereótipos sociais dos jovens, consome individualismo existencial, consome teorias e discursos que ocultam a origem da riqueza e da pobreza, consome informação que oculta a explicação do por que três bilhões de seres humanos vivem na pobreza ou em indigência extrema, consome o espetáculo da riqueza (da minoria) que vive pelos bilhões que não consomem, consome e vota em eleições periódicas com políticos ofertados como um produto em uma prateleira, vota e elege governos títeres dos bancos e transnacionais, que manipulam a economia e o destino da humanidade, consome e vota pesquisas orientadas a preservar a sociedade de consumo e a "governabilidade" do sistema, vota, vota e vive definitivamente segundo os sábios ensinamentos e direções do "Grande Irmão" que lhe fala desde as telas informatizadas do sistema capitalista globalizado.


Ensaio de catástrofe

Sabem o que aconteceria se as maiorias planetárias deixassem de votar e de consumir produtos supérfluos (70% da oferta da sociedade de consumo capitalista) e só consumisse o que fosse essencial para sua sobrevivência?
Como primeiro efeito, as bases do "consumismo" em massa (a pedra angular do funcionamento dos lucros e da economia capitalista a nível planetário) seriam derrubadas e o sistema entraria em colapso pela "superprodução" em escala global desatando uma onda de desemprego e de conflitos sociais em todo o planeta.

Como segundo efeito, se as maiorias deixassem de votar ruiriam as instituições jurídicas e políticas do capitalismo, que ficariam "deslegitimadas", terminariam a "governabilidade" e a "democracia representativa" do sistema capitalista em escala global.

O que aconteceria se a humanidade descobrisse que vive dentro de um "sistema" (econômico, militar, político e social) que controla e dirige o mundo a partir da destruição da capacidade totalizadora do cérebro humano?

O que aconteceria se as maiorias descobrissem que o "individualismo" é uma estratégia de domínio (dividir para reinar) que o sistema implementa para manter as maiorias na ignorância e paralisar as lutas sociais coletivas contra o sistema?

Vejo televisão e logo existo. Quem programa os conteúdos e os valores que difunde a televisão?

Utilizo a Internet e somente existo pelas redes sociais. Quem controla e fixa as regras do jogo das redes sociais?

O que aconteceria se o mundo inteiro descobrisse que sua conduta está manipulada por meio de controle mental orientado a direcionar a conduta coletiva com a ideologia individualista?

E se descobrisse que o ser humano não é nada mais do que uma mercadoria vivente destinada a produzir lucro capitalista às empresas e bancos que depredam o planeta convertido em um lixo apocalíptico que já começa a estalar por todos os lados?

O que aconteceria se se descobrisse que as catástrofes ecológicas não são fenômenos naturais senão fatos emergentes (o aquecimento global) da irracionalidade demencial das empresas transnacionais que controlam os recursos naturais e os sistemas econômicos produtivos sem planejamento, e só orientados aos lucros privados em todo o planeta?

Possivelmente, se descobrissem a estratégia subjacente por detrás da comunicação "individualista", Twitter, Facebook e o resto das redes sociais também sofreriam um Apocalipse. Ao invés de servir ao "individualismo socializado" se converteriam em uma ferramenta incontrolável da consciência social em escala planetária.

É o que teme o "Grande Irmão", o que guia o mundo desde as telas informatizadas a partir de uma ideia de força.

Criticar e pensar o mundo desde uma totalidade científica que lhe dê sentido e explicação é estar fora da realidade. O compromisso com a conscientização e as lutas sociais ativas pela mudança de um mundo injusto por um mais justo é pura "teoria da conspiração". Esqueça: Esse mundo não existe: O mundo só é como você o percebe. O universo é um conjunto de imagens soltas que só adquirem sentido dentro dos limites de tua conduta e de tua personalidade. Por tanto, "Viva a revolução virtual!".

Relaxem, ponham-se acomodados. Não há necessidade de pensar nem de transformar nada em função social, o "Grande Irmão" pensa e transforma tudo por todos nós.

Pelo menos, até que chegue o Apocalipse sem convite.

______

Nota da Tradutora  -  Todos nós que estamos vinculados à verdadeira humanização estamos fartos dos discursos virtuais que, quando tentam solicitar do leitor um minuto de reflexão, tornam-se cansativos e são excluídos com um simples toque numa tecla. O conteúdo virtual da comunicação está a serviço do sistema, seja elogiando-o, seja apresentando, sem necessidade de convite, novas fórmulas para o aperfeiçoamento da escravidão mental. Horas desperdiçadas sem uma resposta efetiva de união dentre aqueles que se fixam nos discursos e não gastam um minuto sequer para planejar formas de extinção do sistema e suas instituições psicóticas. Nenhuma ação para o fomento de estratégias desvinculadas dos modelos seculares de exploração e alienação. Talvez uma perda de tempo? Não existe mais razão lógica para a continuidade dessa luta? Estamos prisioneiros desse universo virtual que nada mais faz senão denunciar os resistentes e aumentar as contradições entre aqueles que se julgam capazes de verdadeiras mudanças? Perdemos a capacidade de pensar com nossas próprias cabeças? Até quando?

* Vera Lúcia Conceição Vassouras é Mestra em Filosofia do Direito pela Universidade de São Paulo (USP), advogada militante, professora universitária, tradutora, escritora, autora do livro O mito da igualdade jurídica no Brasil - notas críticas sobre a igualdade formal.


São Paulo: blogueira de volta da Delegacia da Mulher

Boa tarde, queridos amigos, amigas, leitores e leitoras, blogueiras e blogueiros solidários...

Estou de volta da 5a. Delegacia da Mulher, na cidade de São Paulo, onde fiz declarações confirmando todos os termos da REPRESENTAÇÃO CRIMINAL protocolizada lá no final de junho.

Quero agradecer mais uma vez o carinho de vocês, a companhia, as manifestações de apoio e solidariedade. 

À minha querida amiga e blogueira paranaense, que me ligou aqui um pouco antes de eu sair, me trazendo conforto e afeto, e ao sempre presente Gilberto "Virgulino"... rsss, amigo, irmão, companheiro de blogosfera, que me ligou enquanto eu me encontrava na DDM e também depois quando eu saí... tivemos uma grande conversa... meu abraço cheio de gratidão e afeto. Contem sempre comigo em tudo o que precisarem.

A Vida e a Luta continuam.

Violência contra Mulher é VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS das Mulheres.

COMBATA! DENUNCIE!



*









São Paulo: blogueira na Delegacia da Mulher


Trinta e quatro (34) dias após denúncia/representação criminal por várias violências sofridas, tentativa de agressão física e ameaças de morte, como relatado aqui, estarei logo mais, às 10 hs., na 5a. Delegacia de Defesa da Mulher da cidade de São Paulo, no bairro do Tatuapé, prestando depoimento e buscando reparação a direitos violados.


Vou serena, sem qualquer animosidade, reiterar o que já foi explicitado na denúncia.


Como já venho dizendo neste espaço, a questão é maior, não se refere apenas a desinteligências entre locadora e locatários. E meu blog começou a incomodar, porque venho tratando aqui de várias questões que antes ficavam em convenientes e restritas esferas institucionais. 


Peço que me acompanhem detidamente neste dia. Corro riscos dentro e fora de casa. Todos sabemos o País em que vivemos.


Mais tarde estarei de volta.


Aos meus amigos virtuais e presenciais, encaminho mensagem particular daqui a pouco.


Grande e afetuoso abraço a todos os que estão solidários com esta blogueira-cidadã.


Violência contra Mulher é VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS das mulheres.


DENUNCIE!










Aproveito para deixar uma singela homenagem a todas as marias, a todas as mulheres que atuam no mundo tendo como valores a Dignidade, a Integridade e a Justiça.




Milton Nascimento e Fernando Brandt

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria...

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....

Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê...


*

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

E quando MULHERES violentam mulheres?


Quando se fala em violência contra a mulher imediatamente se pensa em espancamentos, tapas, socos, pontapés, hematomas, cara inchada, sangue, ferimentos etc. E a primeira ideia que vem é a de um macho brutamontes, troglodita, marido ou companheiro, truculento, autoritário, ignorante, que se aproveita de sua força física para subjugar, humilhar e ferir uma esposa ou companheira indefesa.

Essa é "apenas" uma das modalidades de violência contra a mulher. A mais visível, a mais comum, a mais chocante, a que por vezes vai parar na mídia. 

Mas há outras tantas modalidades de violência contra a mulher. Muitas delas silenciosas, quase invisíveis. Violência moral, psicológica, patrimonial, institucional. E os agentes também vão muito além de maridos, companheiros, irmãos, sobrinhos, inquilinos... 

Sim. Há violência contra mulher desferida por mulheres. E aí temos AS trogloditas em ação. Muitas vezes, do alto de seus sapatos de bico fino e de seu péssimo e hediondo caráter...

Imaginem MULHERES que violentam mulheres. Façam um exercício de imaginação.

Absurdo dos absurdos. Ridículo dos ridículos.

Mas acontece. E muito. E muitas vezes com mulheres da mesma "família"... Não nos rincões. Mas na maior cidade brasileira.

Aqui me refiro apenas às trogloditas que eu tenho o infortúnio, a má sorte, a desgraça de conhecer... e que promovem insultos, ridicularização, ameaças, constrangimentos, intimidações  contra mulher, mantendo-a numa espécie de "cárcere privado", num isolacionismo, cerceando sua liberdade de ir e vir, violando seus direitos fundamentais e sua dignidade.  

Que vergonha! Que ridículo! Imaginem, senhoras, se a sociedade brasileira tiver o desprazer de conhecer suas identidades!...

As sórdidas. 

Violência contra Mulher é VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS das Mulheres.

DENUNCIE!


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domingo, 31 de julho de 2011

Cidadão abriu a boca...

Tem que ser assim. Não tem outro jeito.

Aguardamos providências urgentes do Mais Poderoso dos Poderes da República contra a "dona Clara". Ela precisa aprender que acima dela está a Lei...

Entrevista com um escravo



O maranhense João resolveu buscar trabalho no Pará, onde homens valem menos que bois. Por Felipe Milanez. Foto: Bernardo Loyola
Marabá, sexta-feira. O sol da manhã confirma a época da seca e anuncia o calor que virá durante a tarde. Atrás do muro alto em uma rua de terra à margem de um córrego, fica o abrigo da Comissão Pastoral da Terra chamado “cabanagem”. Trata-se de um espaço feito para receber trabalhadores em situação de risco. O nome faz referência à revolta de negros e índios ocorrida na Amazônia no período regencial. João me aguarda para a conversa. Ele saiu do Maranhão em novembro para procurar emprego no Pará. Deixou para trás a mulher e um casal de filhos. Acabou aliciado por um “gato”. Trabalhou seis meses praticamente sem receber, por causa da dívida na cantina. Um dia sofreu um acidente. Pediu as contas, a dona da fazenda, de nome Clara, disse que não tinha o que lhe pagar. Ele ameaçou ir à Justiça. Ela retrucou: “Rapaz, se tu quiser ir, tu pode ir. Porque na minha fazenda quem manda é eu, não é a polícia”. Fugiu com 200 reais no bolso.
Pergunto qual era o trabalho dele na fazenda.
“Era cortando juquira (erva daninha que atrapalha o pasto) e ajudante de fazer cerca na fazenda.”
Fazia isso no Maranhão?
“Não, vim fazer aqui.”
O que é a cantina?
“É onde vende bota, foice, arroz, feijão, óleo, essas coisas assim de fazenda, sabe? Café, açúcar, sabão.”
Eles cobravam?
“Cobravam. Olha, lá no barraco que eu tava, nem energia não tem. O litro de óleo que a gente compra lá, tudo vai pra nota, pro caderno. A água lá onde os meninos estão é água de rio. E lá onde eu tava é um córrego, desse córrego ela botou um cano e encostou uma mangueira da grossura de um dedo nesse cano para puxar água pro pneu. Nesse pneu, o gado bebe, a gente toma banho, bebe e também tira para fazer comida.”
Quantas pessoas estão trabalhando?
“Nós tem cinco pessoas lá cortando juquira, tem dois vaqueiros e o rapaz encarregado do serviço.”
O que a fazenda produz?
“Só gado mesmo. É uma fazenda de gado.”
É grande?
“É. Praticamente só de juquira que ela queria fazer esse ano é 100 alqueires.”
O que ela tinha prometido pagar?
“Ela pagava 25 reais a diária. E pra mim, nesses oito meses, ela me pagou 500 reais: 300 pelo trabalho e 200 pela indenização da minha mão, para eu poder ir embora. Foi a primeira vez que eu vim fazer a denúncia aqui. Porque isso não é correto. Eu vim do Maranhão para trabalhar, sem carteira assinada, trabalho seis meses, o cara me aleija, por culpa dela, aí ela não me paga direito, e ainda fala que é muito caro. Ela falou pra mim que eu tô caro pra ela, ó.”
Como saiu da fazenda?
“Saí escondido.”
Como?
“Eu só falei pro seu Ronaldo (o aliciador): ó seu Ronaldo, eu vou denunciar a fazenda, porque a gente não tá recebendo nada. Ele não queria que eu viesse porque ele ficou com medo de pegar para ele, porque ele que tava devendo. Eu expliquei: olha, senhor, eu não tô indo denunciar você, eu tô indo denunciar a fazenda. Porque é a fazenda que tá devendo nós todos.”
Ele ficou com medo de quê?
“Ele ficou com medo, assim, porque ele não tinha costume. Como eu também não tenho. Mas eu sei que é errado e eu vim procurar o direito.”
Como era a cantina?
“A cantina é dentro da sede mesmo. Um dia morreu uma vaca, às 8 horas da manhã, engatada no arame. Quando o vaqueiro achou, era 6 horas da tarde, e urubu já tinha furado a vaca. Aí ela (a dona da fazenda) mandou limpar e vender a carne toda para os que pegaram serviço. A vaca tava empazinada já. Uns 15 ou 20 dias, foram pegar um gado, e aí quebrou um boi. Quebrou um boi e passaram três dias lá dentro do pasto com o boi quebrado. Com três dias o boi morreu. Ela fez o mesmo, mandou limpar e vender de novo.”
Ela vendeu por quanto?
“Cinco reais o quilo.”
Como se paga?
“Na conta. Trabalhou um rapaz lá, que ele pegou um quarto de um boi, e não teve com o que pagar. Pois ela botou na conta do seu Ronaldo para ele pagar. Sendo que não tinha nada a ver, e ela passou para ele pagar.”
Vocês pagavam?
“Não, a gente não pagava. A gente só trabalha mesmo para comer. Lá realmente é uma escravidão muito séria, igual aquelas das antigas. Sabe como é? A gente trabalha para pagar o que come lá.”
Você não conseguia juntar dinheiro?
“Não, nunca consegui nada. Tá fazendo cinco meses que eu não boto nenhum centavo para a minha família. Seis meses que eu trabalhei e dois meses que eu fiquei parado sem poder trabalhar, até agora. Para você ver, a diferença desse braço aqui, que ele tá secando, comparando com esse aqui.”
O que aconteceu?
“É por causa do indivíduo que torou o tendão e os ossos aqui. Eu não tenho esse nervo aqui não. Foi o rapaz que torou, por causa da minha foice. Quando eu cheguei pro serviço, disse: ‘Seu Zé, me dá a minha foice, que tu pegou’. Ele disse: ‘Não, essa foice é minha. Rapaz, essa é minha, tu não conhece o que é teu?’ Aí ele, louco, né, fez ar de rir e disse: ‘Então pega a tua foice’. Na hora que eu levei a mão para pegar a foice, ele levou a foice de força assim. Até acredito que ele botou para torar foi o meu braço. Mas eu puxei, pegou esses três dedos aqui, mas só aleijou esses dois. Esses dois dedos aqui praticamente estão mortos, não tem como movimentar eles.”
A foice era de alguém ou da fazenda?
“Era minha, porque a fazenda não dá nada. Tudo é a gente que compra.”
Quanto pagou?
“Quinze reais.”
O saldo seria como?
“A gente trabalha numa diária, descontando 15, aí fica 10, né, porque é 25 a diária. Mas aí ficou por isso mesmo, porque nunca peguei dinheiro.”
E o resto dos 10 ia pra você ou tinha de pagar alguma coisa a mais?
“Qualquer coisa que pegava era descontado na diária, o gato acertava se a gente tivesse saldo. Como a gente nunca teve, ficou assim mesmo.”
E depois?
“Fui ao hospital. A dona da fazenda disse que pagava o que tinha de ser pagado. E se os dedos não voltassem ao normal, ela pagava os dedos. Mas ela não pagou nem os dias que eu tinha trabalhado nem os que eu fiquei parado. A indenização dos dedos foi 200 reais. E ainda falou que era muito, que tava caro pra ela.”

 

Compro, logo existo...



Aos que substituíram o "ser" pelo "ter"...

Aos que escolheram ser consumidores no lugar de cidadãos...

Aos que colaboram a cada minuto com sua inconsciência, ignorância e boçalidade para o estado terminal do planeta.




Link do vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=lgmTfPzLl4E&feature=player_embedded#at=14

Blog do Castor... redecastorphoto.


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sábado, 30 de julho de 2011

Vem aí a CPI da Violência contra Mulher


Na volta do recesso parlamentar agora em agosto, será instalada no Senado uma CPMI para tratar da questão da violência contra mulheres.

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito será composta por senadoras e deputadas federais e terá como um dos objetivos principais esclarecer por que muitas autoridades não cumprem seu papel constitucional de apurar e coibir crimes contra mulheres, engrossando com isso o caldo da impunidade.

O ABC!, que é blog jornalístico e humanista, mais que feminista, tem todo interesse em continuar tratando desta questão, por se tratar de VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS, até por que esta blogueira-cidadã há anos vem sendo "vítima preferencial" de violência de gênero, moral, psicológica, patrimonial e institucional, como relatado em vários posts, inclusive na Carta Aberta à Presidenta Dilma Rousseff, publicada na última quarta-feira, que pode ser lida clicando aqui.

Abaixo, artigo da senadora Lúcia Vânia alerta para a urgência da sociedade brasileira entender e coibir estes crimes.


Em artigo, Lúcia Vânia conclama sociedade a debater tema da violência contra a mulher

Em artigo publicado no jornal semanal Tribuna do Planalto, a senadora Lúcia Vânia (PSDB/GO), presidente da Comissão de Infraestrutura, tratou do tema da violência contra a mulher. Segundo afirmou a senadora, pesquisas indicam que metade das mulheres latino-americanas é vítima de algum tipo de violência, em algum momento de suas vidas. Diversos outros dados foram apresentados pela senadora Lúcia Vânia para chamar a atenção da opinião pública de que a violência contra a mulher é “uma tragédia que acontece a cada momento, em todas as classes sociais, em todos os lugares e com pessoas que, muitas vezes, estão próximas a nós”.
Leia abaixo a íntegra do artigo:
Ainda a violência contra a mulher
Lúcia Vânia, senadora pelo PSDB de Goiás
Tenho me manifestado sobre a questão de gênero em artigos, pronunciamentos no plenário do Senado, em conferências, em audiências públicas e entrevistas. Faço-o como pessoa pública e como mulher, representante do meu Estado no Senado da República. A contundência dos dados que nos chegam é tão formidável que não posso deixar de voltar ao assunto, falando, especificamente, sobre a violência contra a mulher.
As pesquisas indicam que metade das mulheres latino-americanas é vítima de algum tipo de violência, em algum momento de suas vidas. A Organização Mundial de Saúde informa que de 85 a 115 milhões de meninas e mulheres são submetidas a alguma forma de mutilação genital por ano, em várias partes do mundo. O Instituto do Terceiro Mundo informa que, há dez anos, pelo menos 50% das mulheres árabes casadas eram espancadas por seus maridos ao menos uma vez ao ano, e 25% a cada seis meses. E essa situação não mudou substancialmente na atualidade.
Diagnóstico do Banco Mundial aponta que a prática de estupro e de violência doméstica são causas preponderantes da incapacitação e da morte de mulheres na idade produtiva, tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. No Brasil, especificamente, a cada quatro minutos uma mulher é agredida dentro do seu próprio lar, por pessoas com quem mantém relações afetivas. Por fim o Banco Mundial estima que uma em cada cinco mulheres no mundo já foram atacadas física ou sexualmente.
Cito esses dados para chamar a atenção da opinião pública de que a violência contra a mulher não é uma falácia e/ou uma crença sobre atos praticados em barracos sujos, por homens bêbados. Quero demonstrar que essa tragédia acontece a cada momento, em todas as classes sociais, em todos os lugares e com pessoas que, muitas vezes, estão próximas a nós. Isso pode estar envolvendo a moça que está assentada ao nosso lado num coletivo, com as nossas amigas, com a moça que está num show, a nossa mãe, a nossa tia, com a balconista, com a servente, com a médica. Isto é, nenhuma mulher está a salvo desse flagelo. Em qualquer das circunstâncias pode-se dizer que a violência contra a mulher é fruto da persistência de uma desigualdade histórica que tem perpetuado uma desigual relação de poder entre os sexos. É fruto, também, de uma concepção cultural errônea de subordinação e de inferioridade da mulher diante da figura masculina.
Não podemos nos cansar de dizer e de divulgar quaisquer que sejam as atitudes violentas contra a mulher, estamos falando, em suma, de discriminação. O Dr. Renato Ribeiro Velloso, membro do Instituto de Ciências Criminais, define, juridicamente, a violência como uma espécie de coação, ou forma de constrangimento, posto em prática para vencer a resistência de outrem, ou levar a outra pessoa a ceder alguma coisa, mesmo contra a sua vontade. Além da coação, a violência é ato de força exercido contra as pessoas, na intenção de violentá-las, devassá-las, ou delas de apossar. Muitos tipos de violências são sub-reptícias, sorrateiras mesmo e não deixam marcas. São ofensas verbais e morais, capazes de causar dores que superam a dor física, levando a mulher a perder a sua própria referência de cidadania.
A novidade preventiva é a Campanha Ponto Final, em desenvolvimento simultâneo no Brasil, Bolívia, Haiti e Guatemala, que busca mudar as atitudes, as crenças sociais, enfim, a cultura da sociedade em relação à posição da mulher dentro da sociedade. Mais uma vez conclamo a sociedade a debater a questão e a fazer reflexões que elevem a mulher ao patamar de i­gualdade dentro da estrutura so­cial, resgatando todos os seus direitos, co­mo so­cie­da­de civilizada que queremos ser.
Eduardo Mota – Assessoria de Comunicação da Liderança do PSDB no Senado
Foto: Cadu Gomes