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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dilma: "Viva Mandela! Para sempre!"


Presidenta Dilma Rousseff, nas exéquias de Nelson Mandela:



“Trago aqui o sentimento de profundo pesar do governo e do povo brasileiro, e tenho certeza de toda a América do Sul, pela morte deste grande líder, Nelson Mandela (…) Madiba, como carinhosamente vocês o chamaram, constitui exemplo e referência para todos nós.”

“Ele soube fazer da busca da verdade e do perdão os pilares da reconciliação nacional e da construção da nova África do Sul. Devemos reverenciar esta manifestação suprema de grandeza e de humanismo. Sua luta transcendeu suas fronteiras nacionais. Deixou lições não só para seu querido continente africano, mas para todos que buscam a liberdade, a justiça social e a paz no mundo.”

“O governo e o povo brasileiro se inclinam diante da memória de Nelson Mandela. Transmito aos seus familiares, ao presidente Zuma e a todos os sul-africanos nosso profundo sentimento de dor e pesar. Viva Mandela. Para sempre.”



Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

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Em nome do Povo Brasileiro, Dilma celebra o grande líder Mandela


NELSON MANDELA (1918-2013)


Joanesburgo, África do Sul.


Nós, nação brasileira, que trazemos com orgulho sangue africano em nossas veias, choramos e celebramos o exemplo desse grande líder.
                                                                           Presidenta Dilma Rousseff




DILMA: “MANDELA É MODELO PARA TODOS OS POVOS”


:
Ao discursar em cerimônia a Nelson Mandela, presidente Dilma Rousseff ressalta que o ex-presidente da África do Sul "deixou lições não só para seu querido continente africano, mas para todos aqueles que buscam a liberdade, a justiça e a paz no mundo"; muito aplaudida, a chefe de Estado brasileiro disse que Mandela "inspirou a luta no Brasil e na América do Sul" e que "nós, nação brasileira, que trazemos com orgulho sangue africano em nossas veias, choramos e celebramos o exemplo desse grande líder"

Leia a matéria completa no Brasil 247.

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dilma é escolhida para homenagear Mandela


A presidenta Dilma Rousseff discursará durante o funeral de Nelson Mandela, amanhã, em Johanesburgo, no estádio Soccer City. No programa oficial está incluída a participação de amigos e familiares de Mandela, além do secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon e dos líderes mundiais Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, Li Yuanchao, vice-presidente da China, e os presidentes da Namíbia, Hifikepunye Pohamba, da Índia, Pranab Mukherjee, de Cuba, Raul Castro, e da África do Sul, Jacob Zuma. 

Dilma embarcou nesta segunda-feira para a África do Sul acompanhada pelos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e José Sarney. 

É uma honra para o Brasil e para a presidenta poder prestar, junto dos ex-presidentes, a última homenagem a Nelson Mandela.



Programa Oficial



Por que Dilma foi escolhida para falar na homenagem a Mandela


Fernando Brito


A escolha da Presidenta Dilma Rousseff como um dos seis chefes de Estado - os outros são Barack Obama, Raúl Castro, de Cuba, Pranab Mukherjee, da Índia, o vice Li Yuanchao, da China e Hifikepunye Pohamba, da vizinha Namíbia - que discursarão na cerimônia oficial em memória de Nelson Mandela, amanhã, na África do Sul, não é apenas uma honra concedida ao nosso país, uma das maiores populações negras fora do continente africano.

É um ato que tem outros significados.

O primeiro deles, a evidência do papel que o nosso país desempenha hoje, tanto entre os Brics que integramos ao lado da África do Sul, quanto em toda a comunidade das nações.

É, também, um reconhecimento à postura histórica da diplomacia brasileira em favor da descolonização e do fim da discriminação no continente africano, iniciada com gigantes como o embaixador Ítalo Zappa, nos anos 70, e que ganhou novo e magnífico impulso a partir do Governo Lula, que elevou ao primeiro plano o nosso relacionamento com a África, sob o descaso de inúmeros bocós, que achavam isso uma tolice.

A África, que ninguém se iluda, será a terceira onda de desenvolvimento do mundo moderno, iniciada no final do século 20 com a Ásia, depois deslocada para a América Latina.

A tribuna do tributo a Mandela reunirá América Latina e Ásia à Africa. Barack Obama está lá pela especialíssima circunstância de ser um negro o presidente da mais poderosa Nação do Mundo.

Bush, certamente, não estaria na lista.

Os gestos, na diplomacia, muito além dos obséquios e gentilezas, têm significado político.

E neste ato de memória, é evidente, há uma visão de futuro.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Mandela e o futuro de todos nós


Eu lutei contra a dominação dos brancos e lutei contra a dominação dos negros. Eu cultivei a esperança do ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas e em harmonia e têm oportunidades iguais. É um ideal pelo qual eu espero viver e alcançar. Mas, se preciso for, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.
                                                                            Nelson Mandela






O significado de Mandela para o futuro ameaçado da humanidade


Leonardo Boff

Nelson Mandela, com sua morte, mergulhou no inconsciente coletivo da humanidade para nunca mais sair de lá porque se transformou num arquétipo universal, do injustiçado que não guardou rancor, que soube perdoar, reconciliar pólos antagônicos e nos transmitir uma inarredável esperança de que o ser humano ainda pode ter jeito. Depois de passar 27 anos de reclusão e eleito presidente da África do Sul em 1994, se propôs e realizou o grande desafio de transformar uma sociedade estruturada na suprema injustiça do apartheid que desumanizava as grandes maiorias negras do país, condenando-as a não-pessoas, numa sociedade única, unida, sem discriminações, democrática e livre.

E o conseguiu ao escolher o caminho da virtude, do perdão e da reconciliação. Perdoar não é esquecer. As chagas estão aí, muitas delas ainda abertas. Perdoar é não permitir que a amargura e o espírito de vingança tenham a última palavra e determinem o rumo da vida. Perdoar é libertar as pessoas das amarras do passado, é virar a página e começar a escrever outra a quatro mãos, de negros e de brancos. A reconciliação só é possível e real quando há a admissão completa dos crimes por parte de seus autores e o pleno conhecimento dos atos por parte das vítimas. A pena dos criminosos é a condenação moral diante de toda a sociedade.


Uma solução dessas, seguramente originalíssima, pressupõe um conceito alheio à nossa cultura individualista: o ubuntu, que quer dizer: “eu só posso ser eu através de você e com você”. Portanto, sem um laço permanente que liga todos com todos, a sociedade estará, como na nossa, sob risco de dilaceração e de conflitos sem fim.


Deverá figurar nos manuais escolares de todo mundo esta afirmação humaníssima de Mandela: "Eu lutei contra a dominação dos brancos e lutei contra a dominação dos negros. Eu cultivei a esperança do ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas e em harmonia e têm oportunidades iguais. É um ideal pelo qual eu espero viver e alcançar. Mas, se preciso for, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer".


Por que a vida e a saga de Mandela funda uma esperança no futuro da humanidade e de nossa civilização? Porque chegamos ao núcleo central de uma conjunção de crises que pode ameaçar o nosso futuro como espécie humana. Estamos em plena sexta grande extinção em massa. Cosmólogos (Brian Swimm) e biólogos (Edward Wilson) nos advertem que, a correrem as coisas como estão, chegaremos por volta do ano 2030 à culminância desse processo devastador. Isso quer dizer que a crença persistente no mundo inteiro, também no Brasil, de que o crescimento econômico material nos deveria trazer desenvolvimento social, cultural e espiritual é uma ilusão. Estamos vivendo tempos de barbárie e sem esperança.


Cito o insuspeito Samuel P. Huntington, antigo assessor do Pentágono e um analista perspicaz do processo de globalização no término de seu O choque de civilizações: “A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da civilização; em grande parte no mundo elas parecem estar evaporando; numa base mundial, a civilização parece, em muitos aspectos, estar cedendo diante da barbárie, gerando a imagem de um fenômeno sem precedentes, uma Idade das Trevas mundial, que se abate sobre a Humanidade”(1997:409-410).


Acrescento a opinião do conhecido filósofo e cientista político Norberto Bobbio que, como Mandela, acreditava nos direitos humanos e na democracia como valores para equacionar o problema da violência entre os Estados e para uma convivência pacífica. Em sua última entrevista declarou: "Não saberia dizer como será o Terceiro Milênio. Minhas certezas caem e somente um enorme ponto de interrogação agita a minha cabeça: será o milênio da guerra de extermínio ou o da concórdia entre os seres humanos? Não tenho condições de responder a esta indagação".


Face a estes cenários sombrios, Mandela responderia seguramente, fundado em sua experiência política: sim, é possível que o ser humano se reconcilie consigo mesmo, que sobreponha sua dimensão de sapiens àquela de demens e inaugure uma nova forma de estar juntos na mesma Casa.


Talvez valham as palavras de seu grande amigo, o arcebispo Desmond Tutu, que coordenou o processo de Verdade e Reconciliação: "Tendo encarado a besta do passado olho no olho, tendo pedido e recebido perdão e tendo feito correções, viremos agora a página — não para esquecer esse passado, mas para não deixar que nos aprisione para sempre. Avancemos em direção a um futuro glorioso de uma nova sociedade em que as pessoas valham não em razão de irrelevâncias biológicas ou de outros estranhos atributos, mas porque são pessoas de valor infinito, criadas à imagem de Deus".


Essa lição de esperança nos deixa Mandela: nós ainda viveremos sem discriminações se pusermos em prática de fato o Ubuntu.


Leonardo Boff escreveu 
Cuidar da Terra, proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record, Rio, 2010.

Blog do Leonardo Boff

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Ivete: a "Galinha dos Ovos de Ouro" no "Carnaval da Exclusão"


Vivo como monja: tenho a companhia amorosa e leal de dois cãezinhos de estimação, sou cercada por plantas e árvores, escrevo, leio, cozinho, faço orações e meditação.

E enfrento criminosos também. Afinal, eles não me deixam viver em paz e violam meus direitos.

Para quem, como eu, não gosta de folia, os dias de Carnaval são uma boa desculpa para "refletir sobre a vida" e "pensar o Brasil".

A entrevista publicada hoje na Folha nos ajuda a fazer isso.

Afinal, que país é esse, que mesmo na alegria e na folia, discrimina, privilegia, esbulha e exclui?


                                                Ivete Sangalo/Facebook/Carnaval 2013

A Bahia virou a terra de uma artista só: Ivete Sangalo

Presidente do Olodum diz que divisão desigual de recursos no carnaval empobrece a Bahia e que "Afródromo" empurraria negros para gueto


NELSON BARROS NETO 

É Carnaval em Salvador, e João Jorge Rodrigues, 57, presidente do Olodum, crava: há um monopólio na divisão de recursos na folia da Bahia, que é "terra de uma artista só" - Ivete Sangalo.

Na força da cantora, o líder do "bloco mais aclamado e conhecido no planeta", em suas palavras, vê um caráter étnico: ela é branca.

A vinda a Salvador de atrações como o sul-coreano Psy, diz, é mais um retrato de uma Bahia que não valoriza seus artistas, sua negritude.

João Jorge falou à Folha na sede do Olodum, em um belo sobrado encravado no Pelourinho. Em seguida, tinha outra entrevista: com o americano Spike Lee, 55, que filma "Go Brazil Go!", documentário sobre a ascensão econômica do país, que também vai abordar o Brasil da perspectiva racial.

Sobre isso, ele sentencia: a capital baiana "é campeã mundial de apartheid". Sobretudo nos dias de folia.

Mestre em direito público pela Universidade de Brasília (UnB), João Jorge vai na contramão do discurso dominante entre os envolvidos no Carnaval de Salvador.



Folha - Enquanto cresce a participação popular em blocos de rua no Sudeste, o Carnaval é criticado na academia e por referências do samba e do próprio axé.

João Jorge - O Carnaval do país é um retrato do Brasil atual. Ele é um Carnaval discriminatório, segregado, com mecanismos que reproduzem o capitalismo brasileiro: a grande exclusão da maioria em benefício de uma minoria.

Seria ingenuidade esperar que no Carnaval de Salvador, de São Paulo, do Recife ou do Rio nós tivéssemos democracia, oportunidade, igualdade. Você passa 359 dias no ano praticando toda forma de violência institucional, de racismo institucional, e você quer que em seis dias o Carnaval seja democrático?

A situação é pior na Bahia?

Aqui, ainda mais. Você tem um segmento que tem os melhores patrocínios, maior visibilidade, todos os recursos. Há cordas separando os blocos do povo.

Estamos falando da possibilidade de o Carnaval ser mais generoso. Além de ser uma festa da alegria, proporcionar também àqueles que fazem cultura ter apoios tão generosos quanto o de quatro grupos. Mas é ilusão achar que isso mudará em curto prazo. Os atores que podiam brigar por isso estão às vezes mais preocupados em fazer parte do jogo.


O chamado "Afródromo" ajuda ou atrapalha o cenário? [a iniciativa de Carlinhos Brown e outras seis entidades de criar um novo circuito, exclusivo para os blocos afro, estrearia neste ano, mas foi adiada pela nova gestão na prefeitura]

O Olodum tem brigado muito para sair mais cedo e poder ser visto pela televisão. Para que empresas patrocinem de forma equitativa os blocos afros.

Ao mesmo tempo, eles resolveram fazer algo separado. O que a sociedade mais quer é que os negros escolham um gueto para ir e se afastem da disputa com eles. É como se soubéssemos o lugar em que deveríamos ficar, em vez de aparecermos na Barra, no Campo Grande.

Mais ainda: obriga o poder público a ter gastos com outro circuito, quando os recursos poderiam ser distribuídos de uma forma melhor.


Até que ponto o monopólio afeta a festa, a música local?

A diversidade, que antes era a riqueza do Carnaval, foi diminuindo, e hoje o Ilê Aiyê, o Filhos de Gandhy, a Timbalada e o Olodum correm um pouco no meio disso.

Mas nos demais lugares você não tem novidades. A Bahia virou a terra de uma artista só. Parece que os outros estão todos mortos.


Isso mata os artistas emergentes, mata os que estão trabalhando e, em vez de fortalecer essa própria artista, a fulmina, porque é a galinha dos ovos de ouro aberta para pegar ovos. A festa faz de conta que está enriquecendo uma pessoa, mas na verdade está empobrecendo uma cidade, um Estado.

A pessoa é Ivete Sangalo?

Sim, ela.

E como o senhor vê a vinda de celebridades como o sul-coreano Psy, para ações publicitárias, com o discurso de prestigiar o Carnaval?

Essa mudança, de a gente precisar de elementos como esses, é uma coisa recente, tem 20 anos. Antes, as pessoas vinham para participar, para conhecer o Carnaval de Salvador. Com o tempo, passou a ser: "Eu quero que você venha para você ser importante para o Carnaval". Inverteu. O Carnaval é que era importante para essas pessoas.


O pessoal pergunta: qual é a atração deste ano do Olodum? É a banda Olodum. A banda mais internacional da Bahia: 37 países, quatro Copas do Mundo, tocou com os últimos 30 grandes nomes da música mundial. Na visão de outros grupos, outros artistas, eles não são atrações no Carnaval de Salvador, atração é o coreano, é a atriz da Globo.

A novidade do Olodum é o samba-reggae, é a força biológica da música que a gente tem, a música de protesto...

E existem novas músicas do Olodum assim?

Tem, e atuais. Agora, qual rádio que toca pagode, sertanejo e funk vai tocar música de protesto? Vou dar um exemplo bem simples: ninguém consegue mudar a ordem do desfile de Salvador, porque foi imposta pelo capital. A ordem é: quem tem mais dinheiro.

Mas qual prefeito ou governador vai dizer: "A gente banca o Carnaval, dá segurança, saúde, infraestrutura, gasta R$ 84 milhões, e todos terão de cumprir a seguinte diretriz - será um desfile alternativo, com um bloco afro, depois um afoxé e um bloco de trio. Um bloco travestido e um trio independente. Em horários que todos possam aparecer na TV". Quero ver qual autoridade da Bahia vai fazer isso.

E Claudia Leitte? Parte do público e da crítica diz que ela tenta repetir Ivete, que não teria identidade...

Não posso falar disso, porque esse é um problema dessas cantoras, desse tipo de personalidade cuja força é o caráter étnico. A força delas é que são cantoras brancas. Se elas se imitam ou não, não posso dizer nada, é o mercado que elas escolheram. De serem cantoras brancas, que dominam todo o mercado de publicidade, todo o mercado de shows, e que uma compete com a outra.


Recentemente, uma delas colocou o filho para subir no palco, e a outra fez o mesmo.


E tem a gravidez de cada uma, tudo que é feito para gerar notícia. Estou preocupado inclusive com Spike Lee, para ele não engravidar ninguém aqui nesse período [risos], para criar notícia, entendeu?

Agora, um fato é importante: elas exercem um papel importante na música brasileira e souberam dar um ar profissional a isso que é uma resposta também às demandas da própria comunidade negra. Você, com ótimas cantoras negras aqui, numa cidade de maioria negra, não capitalizar isso é um erro estratégico. Para você ver a força do racismo e da alienação. As cantoras negras da Bahia seriam milionárias nos EUA.

E os desfiles das escolas de samba no Rio e em São Paulo?

Olha, eles foram importantes nos anos 10 e 20 do século passado para formar uma cultura do samba. Depois, foram engessados pelo modelo de desfile, pelo sambódromo e continuam sendo um espetáculo maravilhoso... De ver. Mas sem participação ampla, e isso difere do Recife, de Olinda e de Salvador.

Por isso o Rio está tendo essa explosão de blocos de rua, mostrando que as pessoas cansaram desse modelo da fantasia, das alas, da batida, de 90 minutos de desfile. Sem falar da guerra publicitária, dos enredos patrocinados.


Em algum momento o Carnaval foi uma festa popular?

Nunca, ainda não é e talvez não seja. É uma festa de multidões, mas que tem uma repressão muito grande sobre tudo. O Carnaval é extremamente limitado, onde se desfila, se bate foto, é preciso pagar taxas. E não é isso que é vendido para o mundo.

Veja, um dos fenômenos mais interessantes do Carnaval é a visibilidade da homossexualidade. Mas é também no Carnaval em que os homossexuais são mais agredidos. Ao mesmo tempo em que parece que a cidade fica liberal, receptiva ao outro, ela é extremamente conservadora.

O Carnaval está migrando para ter os bailes de novo, os camarotes, uma estrutura mais apartada ainda do que se conseguiu ter nos blocos de trio nos horários de desfile.


Mas o Olodum segue nela...

O Carnaval não é a salvação, não é o fim do mundo. É algo importante para a civilidade que precisa emergir, mas não se resolvem os problemas das cidades sem o confronto. O Carnaval é a cara da sociedade. Só em um momento o brasileiro se mostra como ele é. É no Carnaval.


Brasil 247 e Folha Online

Destaques do ABC!

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dia de Mandela: África celebra os 94 anos do ativista



Dignidade. Integridade. Coragem.


Sempre em defesa da Liberdade e dos Direitos Humanos.






Mandela celebra 94 anos com atos 

por toda a África do Sul


                                Atos por todo país marcam o 94º aniversário de 
                                Nelson Mandela   Foto: AP

Os sul-africanos comemoraram nesta quarta-feira o aniversário de 94 anos de Nelson Mandela com bolos gigantes, cantorias em massa de "Parabéns a Você" e 67 minutos de boas ações, uma para cada ano de luta do líder anti-Apartheid contra o governo de minoria branca.


Mas, além dos tributos para o primeiro presidente negro da África do Sul, o dia revelou a disputa inconveniente entre empresas, políticos e instituições de caridade por uma fatia da glória de "Madiba", o nome do clã pelo qual ele é carinhosamente conhecido.

O Congresso Nacional Africano (CNA) divulgou um louvor de 1.450 palavras ao seu ex-líder totêmico, exortando as 50 milhões de pessoas do país a "continuar a construir a África do Sul dos sonhos de Madiba".

No entanto, apenas semana passada, a heroína anti-Apartheid e ex-mulher de Mandela Winnie Madikizela-Mandela estava acusando o CNA em uma carta que vazou de "tratamento pobre" da família e de querer mencioná-los somente "quando temos de ser usados para alguma pauta".

Os "67 minutos" de caridade pelo Dia de Mandela também reabriram velhas feridas em meio a críticas de que esse é meramente um veículo para os brancos e a nova elite rica negra amenizar a culpa de estar no topo do que continua a ser uma das sociedades mais desiguais, mesmo 18 anos após o fim do Apartheid.

Liderando a acusação estava Luther Lebelo, chefe de um braço do CNA em Johannesburgo, que escreveu um artigo no jornal Sowetan sugerindo que o dia era sobre "pequenas atividades de caridade cosméticas" que só serviam para perpetuar as divisões de classe.

O Centro de Memória Nelson Mandela, conhecido guardião oficial da sua imagem, revidou no mesmo jornal, com particular exceção à referência de Lebelo à "chamada Fundação Mandela".

A brincadeira reflete uma visão amplamente aceita entre a maioria esmagadora negra da África do Sul de que os brancos conseguiram cooptar Mandela e sua imagem desde as primeiras eleições de todas as raças, em 1994.

O centro de Mandela também se envolveu em uma batalha comercial com os membros da sua família sobre a venda de roupas com a marca Mandela sob a etiqueta "46664", em homenagem ao número que ele recebeu durante seus 27 anos de prisão.

A linha de roupas, que inclui jeans de US$ 100 fabricados na China, foi lançada em Nova York com uma cerimônia glamourosa no consulado da África do Sul na quarta-feira, apenas uma semana depois de duas das netas de Mandela estrearem uma linha de camisetas, tops e bonés sob a marca "Long Walk to Freedom" (Longa Caminhada até a Liberdade), mesmo nome da autobiografia de Mandela.

Enquanto isso, longe de toda a gritaria, um Mandela cada vez mais frágil passou o dia com a família e amigos mais próximos - o ex-presidente dos EUA Bill Clinton - em sua antiga aldeia de Qunu, na remota província do Cabo Oriental.

A jornada de aniversário de Mandela com uma canção de aniversário a Madiba entoada por 20 milhões de pessoas em diversas localidades do país. Estudantes em suas escolas e empregados em seus ambientes de trabalho se somaram a esta iniciativa para desejar-lhe um dia feliz.

Mandela se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul após vencer as primeiras eleições multirraciais do país, em 1994, ano em que chegou ao fim o regime segregacionista do apartheid, imposto pela minoria branca sul-africana.

Sua mensagem de reconciliação e convivência entre as diferentes raças, que possibilitou a transição rumo a uma África do Sul democrática, lhe valeu o Nobel da Paz em 1993, prêmio que recebeu junto ao então presidente, Frederik Willem de Klerk.



Terra
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domingo, 8 de julho de 2012

Nadine Gordimer, 88 anos: vigorosa escritora e ativista



A Flip acabou em Paraty, "um lugar chamado poesia", como disse hoje de manhã a escritora "afro-escocesa" Jackie Kay, numa inesperada e emocionante declaração de amor à cidade.


Dias de alegria, de reencontros, descobertas e flânerie virtual pelas ruas estreitas da graciosa cidade, entre serras e águas, alma reconfortada com autores e textos.


"E agora, José?", indagaria o Poeta Maior.


Agora ainda mantenho o clima, trazendo matéria sobre Nadine Gordimer, uma brava escritora e ativista, que esteve na Flip anos atrás, e aos 88 anos continua usando sua ação e palavras combativas para denunciar injustiças e defender a liberdade, inclusive a de expressão.


Nobel de 1991, Nadine Gordimer investe contra o governo de seu país

Sul-africana militante histórica antiapartheid reafirma sua profissão de fé em prol da liberdade

Ubiratan Brasil

A fragilidade da escritora sul-africana Nadine Gordimer é apenas aparente. Aos 88 anos, seu físico, é certo, exibe limitações, mas seu rigor intelectual continua intacto. E beira à ferocidade quando se dispõe a lutar pela liberdade. Autora de mais de 30 livros - em sua maioria, crônicas sobre a deterioração social que marcou seu país durante o regime do apartheid -, ela construiu uma prosa em que dramatiza as difíceis escolhas morais surgidas em uma sociedade marcada pela segregação racial.


AFP

Se o trabalho do escritor está em risco, a liberdade do leitor também é ameaçada, diz Gordimer


E o fôlego segue perfeito: Nadine continua liderando o protesto contra as propostas draconianas do governo sul-africano para amordaçar a mídia. "Se o trabalho e a liberdade do escritor estão em risco, a liberdade de cada leitor também está ameaçada", disse ela ao Sabático, de sua casa, em Johannesburgo, em entrevista exclusiva, por telefone. O pretexto da conversa: o lançamento, no Brasil, do primeiro volume de Tempos de Reflexão (editora Globo), conjunto de artigos escritos entre 1954 e 1989; o segundo, que cobre o período 1990-2000, deve sair em novembro.

São textos tanto analíticos como confessionais. Ganhadora do Nobel de literatura de 1991, Nadine Gordimer reflete sobre a vida e a carreira, revelando-se autora e ativista política. Uma das grandes defensoras dos direitos de Nelson Mandela, advogado que se tornou o mais importante líder da África negra, Nadine lutou pela sua liberdade quando ele foi preso por atuar contra o apartheid.

A essência, na verdade, é a defesa incondicional da liberdade de expressão. A profissão de fé está em um artigo escrito em 1985, O Gesto Essencial. Ali, Nadine observa: "Os escritores que aceitam uma responsabilidade profissional na transformação da sociedade estão sempre procurando meios de concretizá-la que suas sociedades nunca poderiam imaginar, muito menos exibir: demandando de si mesmos meios que penetrarão como uma furadeira para liberar o grande jorro primal da criatividade, alagar os censores, limpar os códigos civis removendo sua pornografia de leis racistas e sexistas, lavar as diferenças religiosas, extinguir as bombas de napalm e os lança-chamas, eliminar a poluição da terra, mar e ar, e conduzir os seres humanos à rara fonte estival de alegria pura." E conclui: "Cada um tem sua própria varinha de vidente, mantida sobre o coração e o cérebro."

Tempos de Reflexão é notável também pelo relato aberto que Nadine faz de sua juventude, quando os hábitos dos brancos sobrepunham os dos negros. Na verdade, eram seres invisíveis - para ela, um dos fatores mais confusos que marcou seu crescimento na África do Sul era a estranha mudança na sua percepção dos africanos ao seu redor e na sua atitude em relação a eles. "Vim a ter consciência da presença deles com uma lentidão incrível, parece-me agora, como se por meio de uma faculdade que naturalmente deveria ter feito parte do meu equipamento humano desde o início", escreve ela em Uma Infância Sul-Africana, de 1954. Leia a seguir a entrevista em que Nadine fala, com invejável vigor, sobre sua incansável militância.
 

Seu trabalho atual se notabiliza principalmente pelo combate à censura em seu país. 


Sim, ainda corremos o risco da mordaça, pois agora a comissão que avalia a mídia ameaça voltar. Escrever pressupõe uma interação com os leitores. Se o trabalho e a liberdade do escritor estão em risco, a liberdade de cada leitor também está ameaçada. Depois de lutar tantos anos contra o apartheid, período em que vi pessoas morrendo pela causa da liberdade, não imaginava que fosse preciso lutar novamente contra o governo.


Como a senhora define seu engajamento?


Bem, sou uma escritora, portanto, a liberdade de expressão é primordial para minha atividade. Acredito na existência de duas bases para a liberdade. Uma é a de se poder votar à sua escolha e outra é a liberdade para se dizer o que pensa, seja a imprensa, seja o cidadão comum. Isso pode parecer um tanto óbvio para você, mas, acredite, é uma conquista para meu país.


Para a senhora, escrever é um caminho para compreender a vida?


Sem dúvida. É preciso desfrutar do direito de publicar livros e de expressar seus pensamentos. Digo isso porque um livro acaba sendo mais importante que jornais e revistas por conta de sua perenidade: ele se transforma em um testemunho para a posteridade.


De fato, suas palavras persistem há décadas, como comprova Tempos de Reflexão, repleto de textos ainda atuais. Ao escrever, como a senhora lida com a posteridade?


Não penso dessa forma, ou seja, em quão eterna será minha escrita. Minha preocupação é mais imediata, com a mensagem que espero passar, minha visão crítica e, especialmente, com a possibilidade de estabelecer a comunicação com o leitor.


A senhora escreveu, certa vez, uma frase impactante: "A verdade não é tão bela como a luta para conquistá-la." Isso, de algum modo, se tornou a meta da sua escrita, não?


Para mim, a escrita tem de ser honesta, seja qual for seu formato: ficção, artigos, contos. Isso significa explorar por meio da palavra o que é a vida. Descobrir o que significa ser humano, englobando seu passado, os problemas atuais e as perspectivas de progresso para o futuro. Não me apego à religião, sou ateia, acredito apenas na existência das diferentes possibilidades de relacionamento que isso implica.


Como se deve lidar com o passado?


Obviamente não se pode esquecê-lo ou ignorá-lo - isso é estupidez. Mas deve existir um limite para que o passado não interfira em seus passos atuais e, principalmente, não seja a única forma de criar o futuro. Isso pode resultar na manutenção de um atraso social, o que, infelizmente, ainda se vê em muitas regiões da África.


E como a senhora analisa a atual situação da África do Sul?


O debate parece horrorizar nosso presidente Jacob Zuma, que tenta amordaçar a imprensa, especialmente a televisão. Isso é um crime, pois o governo deve ser transparente e não se preocupar em evitar o surgimento de críticas. É claro que não estou pregando uma total transparência - segredos militares têm de ser conservados, mas precisamos estabelecer uma relação mínima com os governantes e saber o que eles pensam, como planejam, o que executam. Tal atitude leva a outro problema grave, a corrupção, que, se não é uma exclusividade do meu país, aqui parece bem enraizada: as pessoas que estão no poder não conseguem se contentar com o que têm e se tornam facilmente corruptíveis. Tenho procurado participar de discussões em que programas sociais sejam prioritários nas decisões governamentais e que, principalmente, a verba separada chegue de fato ao seu destino. Talvez o que seja mais terrível na corrupção é sua grande capacidade maligna de desumanizar as pessoas.


Muitos textos de seu livro trazem lembranças pessoais. A senhora pretende escrever sua autobiografia?


Jamais. Minha vida pessoal pertence a mim e não pretendo compartilhá-la com ninguém. Claro que existem biógrafos que vasculham minha vida e minha obra, não tenho como evitar isso. Procuro apenas evitar excessos e mentiras. Minhas opiniões estão em minha obra, especialmente na que agora está sendo lançada no Brasil. Apesar de historicamente meu país estar mais conectado à Europa, eu espero que aumente a relação com o Brasil, pois, não apenas estamos geograficamente na mesma linha como temos mais antepassados em comum. Estive em Paraty para a Flip em 2007 (por conta disso, há um texto dela em Dez/Ten, publicado agora em comemoração à décima edição do evento), o que reforçou minha tese de que Brasil e África do Sul devem estreitar relações, não apenas comerciais mas principalmente culturais.


É possível dizer que muito da sua trajetória, por estar marcada por lutas pela liberdade, acaba se confundindo com sua escrita?


Isso é inevitável com qualquer escritor, independentemente do grau político de sua obra. Veja, quando leio uma biografia séria, direita, busco ali fatos sobre o envolvimento do biografado na vida pública. Também suas relações pessoais, frustrações, decepções e felicidade. Mas a biografia realmente terá valor para mim se encontrar uma análise de temas literários, uma metalinguagem. Ao avaliar minha obra, descobri recentemente que os livros foram escritos a partir de diferentes pontos de vista, personas distintas, tanto na primeira pessoa como na de um homem, uma criança, um mulher, uma pessoa jovem, outra mais velha. Há o sentido, olhando para trás, de que venho escrevendo o mesmo livro ao longo da minha vida. É uma espécie de viagem de descoberta. Lembro-me de uma pequena novela, chamada Novembro, de Flaubert, na qual ele apresenta um rascunho de temas que exploraria tão maravilhosamente depois - é visível perceber sua inabilidade para desenvolvê-los naquele momento. Sua vida, então, foi marcada pela descoberta de túneis escuros que o levaram àquele ponto desejado. É o que venho tentando fazer desde os meus primeiros trabalhos.


Estadão Online
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