Tradutor

terça-feira, 4 de outubro de 2011

As chamas da Liberdade




“V” conversa com a Ex-tátua da Justiça - 2




Vera Vassouras




Olá, formosa dama, linda noite, não? Perdoe-me a interrupção. Talvez a senhorita pretendesse passear… apenas desfrutar a paisagem. Não importa. Creio que é chegado o momento de uma breve conversa. Ah! Eu me esqueci de que não fomos apresentados. Eu não tenho um nome, mas pode me chamar de V.

Madame Justiça… este é V. V… esta é madame Justiça. Olá, madame Justiça!

- “Boa noite, V.”

Pronto. Agora que já nos conhecemos, para ser sincero, outrora fui um admirador seu. Até imagino o que está pensando.

- “O pobre rapaz tem uma queda por mim… uma paixão juvenil”.

Perdoe-me, mas não é este o caso. Eu dizia a meu pai: Quem é aquela moça? E ele respondia: É a madame Justiça. Ao que eu replicava: Como é bela. Eu a admirava, apesar da distância. Ainda criança, ao passar na rua, admirava sua beleza. Por favor, não pense se tratar apenas de uma atração física, em absoluto. Eu a amava como pessoa, como IDEAL. Isso foi há muito tempo, agora, confesso que há outra…

“O quê? Que vergonha, V.! Traindo-me com uma MERETRIZ de lábios pintados e sorriso vulgar!”

Eu, Madame? Permita-me uma correção. Foi sua INFIDELIDADE que me arremessou aos braços dela!

Ahá! Ficou surpresa, não? Pensou que eu desconhecia suas escapadelas? Enganou-se. Eu SEI de tudo. Na verdade, não me surpreendi quando soube que você flertava com homens de uniforme.

- “Uniforme? E-eu não sei do que você está falando. Sempre foi você, V., o único amor em minha vi…”

Mentirosa! Meretriz! Ousa negar que se deixou envolver por ele com suas braçadeiras e botas?

Ah! O gato comeu sua língua? Foi o que pensei. Muito bem. A verdade foi revelada. Você não é mais MINHA Justiça. É a dele. Recebeu outro em sua cama. Faça bom proveito de seu novo amante.

- “Snif! Snif! Q-quem é ela? Como se chama?

Seu nome é ANARQUIA, e ela me ensinou mais como amante do que você supõe. Com ela aprendi que não há sentido na justiça sem LIBERDADE, é honesta, não faz promessas e nem deixa de cumpri-las como você. Eu costumava me indagar porque você nunca me olhou nos olhos. Agora eu sei. Por isso, adeus, cara dama. Nossa separação não me entristece, uma vez que não é mais a mulher que eu amei outrora. Eis um último PRESENTE, deixo a seus pés.

(V. coloca um artefato em forma de coração aos pés de sua ex-amada. Após a explosão, observa as chamas…)

As CHAMAS da liberdade. Que adorável! Quanta justeza, minha preciosa anarquia… Oh beldade, até hoje, eu te desconhecia!

Fonte: “V” de Vendetta.

Vera Vassouras é advogada, Mestra em Filosofia do Direito, professora universitária, tradutora e escritora, autora do livro O mito da igualdade jurídica - Notas críticas sobre a igualdade formal.


*

Nenhum comentário:

Postar um comentário