Termina a primeira semana do ano e da Presidenta Dilma no governo. Hora talvez de um pequeno balanço.
E uma coisa curiosa, assustadora, desoladora, até, para os mais sensíveis, é constatar que a velha mídia continua a mesma, ou seja, mais velha e podre do que nunca, apesar do novo ano, das novidades no Planalto e no País...
Elitista, preconceituosa, ressentida, vingativa, parcial, cheia de "cacoetes", sempre procurando "pêlo em ovo" quando se trata do governo popular e da vida do Presidente Lula, o pseudojornalismo da mídia tradicional continua a todo vapor em sua eterna campanha contra o pobre Luiz Inácio... doença que parece não ter cura.
Sábado passado, dia primeiro de janeiro de 2011, o Presidente Lula passou a faixa presidencial e o governo do País para a Presidenta Dilma Rousseff, numa solenidade belíssima, com momentos marcantes, emocionantes, acompanhados por milhões de brasileiros.
Dilma assumiu, começou a trabalhar já no dia seguinte, domingo, recebendo vários chefes de Estado que marcaram audiência, e Lula e dona Marisa deixaram Brasília, voltando a São Bernardo, onde sempre viveram, para tocar sua vidinha como qualquer família.
A velha e carcomida mídia deixou em paz o torneiro mecânico presidente que diuturnamente criticou?
"Obsessora encarnada" do presidente agora ex, a Folha de S. Paulo, acompanhada por outros veículos de comunicação, passou a farejar cada passo de Lula, que continuou refém dos jornalistas de plantão em frente ao seu prédio, não tendo direito sequer de sossegadamente ir até à padaria da vizinhança fazer o que qualquer cidadão faz pela manhã: comprar pão.
E aí Lula e família, pra fugir do assédio doentio de uma mídia mesquinha e provinciana, numa "fuga espetacular", com chuva e tudo rumou pro litoral, para uma base do Exército no Guarujá, onde imaginava estar a salvo da mídia obsessora. Ledo engano. Também lá teve sua privacidade invadida, por repórteres que se aproximaram por barco da praia onde se encontra Lula e familiares. E o noticiário denuncista correu solto, insinuando que o ex-presidente usufruía indevidamente das acomodações militares. Até o ministro da Defesa, Nelson Jobim, precisou ser mobilizado, vir a público e dar declarações para esclarecer que Lula ocupa a base legalmente, como convidado do ministro e do Exército.
E as perseguições continuaram... A obsessora descobriu que o Itamaraty concedeu passaportes diplomáticos a filhos e neto do ex-presidente, e passou a noticiar isso como se fora um afronta ao Estado de Direito etc. etc. Até o Presidente da OAB veio a público pedir que os passaportes fossem devolvidos. Pedido que ao que parece será atendido sem qualquer resistência nos próximos dias.
Falta grandeza à mídia brasileira. Falta classe. Falta elegância. Falta educação. Falta compostura. Falta criatividade. Sobram preguiça, futricaria, leviandade, ignorância.
Falta jornalismo à velha mídia brasileira.
Cidadania, Comunicação e Direitos Humanos * Judiciário e Justiça * Liberdade de Expressão * Mídia Digital Editoria/Sônia Amorim: ativista, blogueira, escritora, professora universitária, palestrante e "canalhóloga" Desafinando o Coro dos Contentes...
Tradutor
sábado, 8 de janeiro de 2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Machismo, ignorância e tacanhice
Eles "se acham".
Modernos (modernosos), em dia com os avanços da tecnologia, equipados com a mais sofisticada parafernália eletrônica, sua arrogância reina na internet, no Twitter, no Facebook, nas redes sociais todas...
Ditam regras, proferem vereditos, do alto de sua ignorância travestida de sapiência. Não tem pra ninguém.
No entanto, só crescem por fora. A alma pequena e a mente limitada não seguem os adereços tecnológicos. O crescimento interior não acompanha a expansão externa.
Nas profundezas mais recônditas, o preconceito se alastra como um câncer.
E aí, os recursos todos da mais moderna tecnologia eletrônica só servem mesmo para dar vazão às suas indigentes, mesquinhas e tacanhas visões de mundo, à podridão de suas entranhas. Ridicularizações, zombaria, julgamentos apressados e levianos, insinuações maldosas, desdém, menoscabo. Por vezes, ameaças. Explícitas ou dissimuladas.
O preconceito contra a mulher está arraigado em corações e mentes, está disseminado em todos os estratos da sociedade. Até entre os cidadãos que se julgam os mais progressistas.
Conviver, combater, transformar. Um trabalho árduo para qualquer mulher. Presidenta, blogueira ou simples cidadã.
Leiam abaixo artigo de Marcelo Semer, a propósito de mais este desafio que se coloca à Presidenta Dilma e a todas as mulheres.
Dia primeiro de janeiro de 2011, o país assistiu a cena até então inédita: uma mulher recebendo a faixa de presidente da República e passando em revista as tropas militares.
Enquanto o Brasil parava para ouvir o discurso de Dilma, parte dos twitteiros que acompanhavam plugados à cerimônia se deliciava fazendo comentários irônicos e maldosos sobre a primeira vice-dama, Marcela Temer.
Loira, jovem e ex-miss, a esposa de Michel Temer virou imediatamente um trending topic.
Foi chamada de paquita, diminuída a seus atributos físicos e acusada de dar o golpe do baú no marido poderoso e provecto. Tudo baseado na consolidação de um enorme estereótipo: diante da diferença de idade que supera quatro décadas e uma distância descomunal de poder, influência e cultura, só poderia mesmo haver interesses.
Essa é uma pequena mostra do quanto Dilma deve sofrer para romper as barreiras atávicas do preconceito de gênero, ainda impregnadas na sociedade.
Se não fosse justamente pela superação dos estereótipos, aliás, Dilma jamais teria chegado aonde chegou.
Mulher. Divorciada. Guerrilheira. Ex-prisioneira. Quem diria que seria eleita para ser a chefe das Forças Armadas?
Superar estereótipos é o primeiro passo para romper preconceitos.
O exemplo de Lula mostrou, todavia, como sua tarefa não será fácil.
O país aprendeu a conviver com a sapiência de um iletrado retirante, mas os preconceitos regionais e o ódio de classe não se esvaziaram tão facilmente. A avalanche das "mensagens assassinas", twitteiros implorando por um "atirador de elite" na posse, só comprova o resultado alcançado pelo terrorismo eleitoral.
Dilma sabe dos obstáculos a vencer e é por este motivo que iniciou seu discurso enfatizando o caráter histórico do momento que o país vivia, fazendo-se de exemplo para "que todas as mulheres brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher".
Em dois discursos recheados de assertivas e recados, não faltou uma lembrança emocionada a seus companheiros de luta contra a ditadura, que tombaram pelo caminho.
Mais tarde, receberia pessoalmente suas ex-colegas de prisão. Não esqueceu das "adversidades mais extremas infligidas a quem teve a ousadia de enfrentar o arbítrio". Não se arrependeu da luta, justificando-se nas palavras de Guimarães Rosa: a vida sempre nos cobra coragem.
Mas, mulher, adverte Dilma, não é só coragem, é também carinho.
É essa mulher, misto de coragem e carinho, que seu exemplo espera libertar do jugo de uma perene discriminação.
Discriminação que torna desiguais as oportunidades do mercado de trabalho, que funda a ideia de submissão, e que avoluma diariamente vítimas de violência doméstica, encontradas nos registros de agressões corriqueiras e no longo histórico de crimes ditos passionais, movidos na verdade por demonstrações explícitas de poder, orgulho e vaidade masculinas.
Temos um longo caminho pela frente na construção da igualdade de gênero.
Nossos tribunais de justiça são predominantemente masculinos, porque os cargos de juiz foram explícita ou implicitamente interditados às mulheres durante décadas. Houve quem justificasse o fato com as intempéries da menstruação e quem estipulasse que professora era o limite máximo para a vida profissional da mulher.
Nas guerras ou ditaduras, as mulheres, além dos suplícios dos derrotados, ainda sofrem com freqüência violências sexuais, que simbolicamente representam a submissão que a vitória militar quer afirmar.
Mulheres são maioria nas visitas semanais de presos. Mas quando elas próprias são encarceradas, as filas nas penitenciárias se esvaziam. Com muito sofrimento e demora, sua luta é para garantir os direitos já conferidos a presos homens.
Sem esquecer as incontáveis mulheres de triplas jornadas, discriminadas pela condição quase servil de dona de casa, que se obrigam a cumular com suas tarefas profissionais e maternas.
Que a posse de Dilma ilumine esse horizonte ainda lúgubre de preconceito, no qual os estereótipos da mulher burra, submissa e instável, predominam na sociedade.
E que, enfim, possamos aprender, com as mulheres, a respeitar sua igualdade e suas diferenças.
Pois, como ensina Boaventura de Sousa Santos, elas, mais do que ninguém, podem dizer:
"Temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza. Temos o direito a sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza".
Façamos, assim, de 2011, um ano mulher.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Portal Terra/05.01.11
Modernos (modernosos), em dia com os avanços da tecnologia, equipados com a mais sofisticada parafernália eletrônica, sua arrogância reina na internet, no Twitter, no Facebook, nas redes sociais todas...
Ditam regras, proferem vereditos, do alto de sua ignorância travestida de sapiência. Não tem pra ninguém.
No entanto, só crescem por fora. A alma pequena e a mente limitada não seguem os adereços tecnológicos. O crescimento interior não acompanha a expansão externa.
Nas profundezas mais recônditas, o preconceito se alastra como um câncer.
E aí, os recursos todos da mais moderna tecnologia eletrônica só servem mesmo para dar vazão às suas indigentes, mesquinhas e tacanhas visões de mundo, à podridão de suas entranhas. Ridicularizações, zombaria, julgamentos apressados e levianos, insinuações maldosas, desdém, menoscabo. Por vezes, ameaças. Explícitas ou dissimuladas.
O preconceito contra a mulher está arraigado em corações e mentes, está disseminado em todos os estratos da sociedade. Até entre os cidadãos que se julgam os mais progressistas.
Conviver, combater, transformar. Um trabalho árduo para qualquer mulher. Presidenta, blogueira ou simples cidadã.
Leiam abaixo artigo de Marcelo Semer, a propósito de mais este desafio que se coloca à Presidenta Dilma e a todas as mulheres.
Reduzir preconceito de gênero não é tarefa fácil para Dilma
Roberto Stuckert Filho/Divulgação Dilma Rousseff acompanhada de Lula, Marisa, Michel Temer e Marcela Temer na cerimônia de posse |
Marcelo Semer
De São Paulo (SP)
De São Paulo (SP)
Dia primeiro de janeiro de 2011, o país assistiu a cena até então inédita: uma mulher recebendo a faixa de presidente da República e passando em revista as tropas militares.
Enquanto o Brasil parava para ouvir o discurso de Dilma, parte dos twitteiros que acompanhavam plugados à cerimônia se deliciava fazendo comentários irônicos e maldosos sobre a primeira vice-dama, Marcela Temer.
Loira, jovem e ex-miss, a esposa de Michel Temer virou imediatamente um trending topic.
Foi chamada de paquita, diminuída a seus atributos físicos e acusada de dar o golpe do baú no marido poderoso e provecto. Tudo baseado na consolidação de um enorme estereótipo: diante da diferença de idade que supera quatro décadas e uma distância descomunal de poder, influência e cultura, só poderia mesmo haver interesses.
Essa é uma pequena mostra do quanto Dilma deve sofrer para romper as barreiras atávicas do preconceito de gênero, ainda impregnadas na sociedade.
Se não fosse justamente pela superação dos estereótipos, aliás, Dilma jamais teria chegado aonde chegou.
Mulher. Divorciada. Guerrilheira. Ex-prisioneira. Quem diria que seria eleita para ser a chefe das Forças Armadas?
Superar estereótipos é o primeiro passo para romper preconceitos.
O exemplo de Lula mostrou, todavia, como sua tarefa não será fácil.
O país aprendeu a conviver com a sapiência de um iletrado retirante, mas os preconceitos regionais e o ódio de classe não se esvaziaram tão facilmente. A avalanche das "mensagens assassinas", twitteiros implorando por um "atirador de elite" na posse, só comprova o resultado alcançado pelo terrorismo eleitoral.
Dilma sabe dos obstáculos a vencer e é por este motivo que iniciou seu discurso enfatizando o caráter histórico do momento que o país vivia, fazendo-se de exemplo para "que todas as mulheres brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher".
Em dois discursos recheados de assertivas e recados, não faltou uma lembrança emocionada a seus companheiros de luta contra a ditadura, que tombaram pelo caminho.
Mais tarde, receberia pessoalmente suas ex-colegas de prisão. Não esqueceu das "adversidades mais extremas infligidas a quem teve a ousadia de enfrentar o arbítrio". Não se arrependeu da luta, justificando-se nas palavras de Guimarães Rosa: a vida sempre nos cobra coragem.
Mas, mulher, adverte Dilma, não é só coragem, é também carinho.
É essa mulher, misto de coragem e carinho, que seu exemplo espera libertar do jugo de uma perene discriminação.
Discriminação que torna desiguais as oportunidades do mercado de trabalho, que funda a ideia de submissão, e que avoluma diariamente vítimas de violência doméstica, encontradas nos registros de agressões corriqueiras e no longo histórico de crimes ditos passionais, movidos na verdade por demonstrações explícitas de poder, orgulho e vaidade masculinas.
Temos um longo caminho pela frente na construção da igualdade de gênero.
Nossos tribunais de justiça são predominantemente masculinos, porque os cargos de juiz foram explícita ou implicitamente interditados às mulheres durante décadas. Houve quem justificasse o fato com as intempéries da menstruação e quem estipulasse que professora era o limite máximo para a vida profissional da mulher.
Nas guerras ou ditaduras, as mulheres, além dos suplícios dos derrotados, ainda sofrem com freqüência violências sexuais, que simbolicamente representam a submissão que a vitória militar quer afirmar.
Mulheres são maioria nas visitas semanais de presos. Mas quando elas próprias são encarceradas, as filas nas penitenciárias se esvaziam. Com muito sofrimento e demora, sua luta é para garantir os direitos já conferidos a presos homens.
Sem esquecer as incontáveis mulheres de triplas jornadas, discriminadas pela condição quase servil de dona de casa, que se obrigam a cumular com suas tarefas profissionais e maternas.
Que a posse de Dilma ilumine esse horizonte ainda lúgubre de preconceito, no qual os estereótipos da mulher burra, submissa e instável, predominam na sociedade.
E que, enfim, possamos aprender, com as mulheres, a respeitar sua igualdade e suas diferenças.
Pois, como ensina Boaventura de Sousa Santos, elas, mais do que ninguém, podem dizer:
"Temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza. Temos o direito a sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza".
Façamos, assim, de 2011, um ano mulher.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Portal Terra/05.01.11
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Dilma e seu "momento mágico"
Muitas vezes, uma imagem vale mais que mil palavras. E é preciso aprender a ler também as imagens, as atitudes. E apreender sua dimensão, seu significado.
Abaixo, uma cena pra lá de emocionante. Não uma simples quebra de protocolo. Mais que isto. Uma declaração de amor. Um "momento mágico".
Da Presidenta, do Brasil, do Povo Brasileiro.

(foto do blog Professor Hariovaldo)
Abaixo, uma cena pra lá de emocionante. Não uma simples quebra de protocolo. Mais que isto. Uma declaração de amor. Um "momento mágico".
Da Presidenta, do Brasil, do Povo Brasileiro.

(foto do blog Professor Hariovaldo)
Dilma e a mesquinhez da mídia
Na transmissão da posse pela GloboNews, a jornalista Cristiana Lobo bateu o olho na nova placa do Rolls-Royce presidencial, e desdenhou da mudança de gênero: "Presidenta da República". O mesmo faz o resto da velha mídia, que grosseiramente insiste em não acolher um singelo pedido da Presidenta. Certamente rejeitarão também suas mãos estendidas. Ignorantes pretensamente globalizados e cosmopolitas que são. Paciência. É pelos frutos que se conhecem as árvores...
(Foto copiada do blog Terra Brasilis)
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Anistia, Comissão da Verdade e a lamentável fala do general
A propósito da criação de uma Comissão da Verdade pelo Congresso, pedido feito no discurso de posse da ministra Maria do Rosário, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, e das declarações infelizes do general ministro do GSI, chamado pela Presidenta Dilma a esclarecer suas afirmações, reproduzo abaixo artigo do jornalista Eric Nepomuceno, publicado agora à tarde no site da CartaCapital.
O direito à memória: uma lei discutível, palavras que envergonham
Por Eric Nepomuceno*
Em meados de dezembro, faltando duas semanas para o final do governo Lula, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA condenou o Brasil por não haver punido os responsáveis pelas prisões, torturas, mortes e desaparições de 62 membros do Partido Comunista do Brasil na região do Araguaia, entre 1972 e 1974. Naquele período foram mobilizados cerca de cinco mil soldados (entre eles, unidades de elite do Exército) para derrotar pouco mais de 80 guerrilheiros. A sentença da OEA se estende por 126 páginas, e afirma de maneira inequívoca que as disposições da Lei de Anistia decretada em 1979 não podem impedir as investigações e as sanções a essas graves violações dos direitos humanos. Diz que se trata de disposições que são “incompatíveis com a Convenção da OEA, carecem de efeitos jurídicos e não podem continuar representando um obstáculo para a investigação dos fatos, nem para a identificação e punição dos responsáveis”.
Dito em outras palavras, de maneira direta: a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA fez o que o Supremo Tribunal Federal brasileiro deixou de fazer. E o que o governo de Lula (com exceções como seu ministro de Justiça, Tarso Genro, e o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi) não quis ou não teve peito de levar adiante: dizer que a Lei de Anistia de 1979, quando o país ainda vivia debaixo dos rigores de uma ditadura encastelada no poder, é espúria e inconstitucional. Lula tampouco se animou a instalar a Comissão da Verdade, que levaria – levará? – a que se saiba quem fez o quê, e o que foi feito, e como foi feito, para que nunca mais ocorra o que ocorreu. Não para punir ninguém, que não é preciso chegar a tanto: só para que se recupere o direito à memória.
Lula deixou essa mancha em seu governo, apesar dos esforços de Genro e Vanucchi. E deixou também, na herança entregue a Dilma Rousseff, a presença incômoda, bizarra e poderosa do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que se mostrou absolutamente submisso aos quartéis. Foi, no governo de Lula, o principal aríete dos setores mais retrógrados da Igreja, das Forças Armadas, dos meios de comunicação e da sociedade. Defendeu a todo custo que a anistia imposta pela ditadura em 1979 – a única possível na época – efetivamente alcançou os dois lados. Aos que se opuseram a essa ditadura e aos que exerceram a barbárie em nome do Estado. Vale recordar que os opositores foram punidos com perseguição, exílio, prisão, tortura, morte, desaparição. Os assassinos e torturadores perambulam por aí com a certeza de que jamais serão punidos.
O tema não é novo, e há pelo menos uma década e meia é tratado com uma cautela tão extrema que mais justo seria chamá-la de temor. O governo de Fernando Henrique Cardoso bem que avançou bastante, mas com muita prudência, reconhecendo excessos do Estados, uma entidade sem rosto nem nome. Lula poderia ter avançado muito mais por essa trilha. Bem que quis levar adiante o Plano Nacional de Direitos Humanos, iniciado pelo seu antecessor. Tropeçou com o poder do medo, e ficou por aí.
No ano passado, a Ordem dos Advogados defendeu a tese de que a lei de anistia não incluía torturadores e assassinos. A iniciativa foi fulminada pelo Supremo Tribunal Federal. Argumento escuso da corte suprema: não era admissível revisar a Lei de Anistia. Acontece que ninguém queria revisar nada: tratava-se apenas de decidir se a Lei era ou não aplicável aos responsáveis por crimes de lesa humanidade, que são imprescritíveis à luz do direito. Uma infinidade de acordos internacionais firmados pelo Brasil dizem claramente que não há anistia para quem cometeu essa classe de crime.
Quando ministro da Justiça, Tarso Genro chegou a defender um argumento insólito: os torturadores e violadores agiram fora da lei da própria ditadura, uma vez que não existiam ordens formais de serviço ou qualquer norma legal que permitissem a tortura, a execução sumária ou o sequestro e desaparição de pessoas que se encontravam sob a tutela do Estado. Foi em vão: no Brasil persiste o temor esdrúxulo às casernas, que dizem que o que importa é olhar para a frente, e que não há que se perder tempo olhando o passado. Como se uma coisa impedisse a outra.
Maria do Rosário, substituta de Paulo Vanucchi na secretaria de Direitos Humanos no governo de Dilma Rousseff, pediu, em seu discurso de posse, que o Congresso crie uma Comissão da Verdade para que se saiba o que ocorreu nos porões da ditadura e que seus responsáveis sejam conhecidos. Não falou em punição. Assegurou que não se trata de revanchismo ou vingança, mas do direito à memória e à verdade. Do direito dos familiares de mortos e desaparecidos enfim saberem o que aconteceu com eles, e como aconteceu.
Num instante veio a resposta do general José Elito Siqueira, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional: é preciso olhar para a frente, o que passou, passou. É história. Se houve desaparecidos, não há por quê sentir vergonha ou se vangloriar.
Aos seus 64 anos, o general é da turma de 1969 do Exército, quando a tortura corria solta no Brasil. Ele tinha 23 anos. É um pouco mais velho que eu. E, sendo quase da mesma idade, posso admitir que ele não soubesse o que acontecia. Que não tenha participado de nada. Mas não é fácil admitir que não saiba, agora, o peso de suas palavras.
Não, general: é, sim, uma tremenda vergonha que tenham acontecido desaparições. E outra vergonha é dizer o que o senhor disse. Ao dizê-lo, o senhor ofende a minha memória, ofende a farda que veste. Uma vergonha, general. Uma vergonha. Oxalá tudo não tenha passado de um mal-entendido, apesar da clareza de suas palavras.
*Eric Nepomuceno é jornalista e escritor. Texto publicado originalmente no Página/12
Em meados de dezembro, faltando duas semanas para o final do governo Lula, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA condenou o Brasil por não haver punido os responsáveis pelas prisões, torturas, mortes e desaparições de 62 membros do Partido Comunista do Brasil na região do Araguaia, entre 1972 e 1974. Naquele período foram mobilizados cerca de cinco mil soldados (entre eles, unidades de elite do Exército) para derrotar pouco mais de 80 guerrilheiros. A sentença da OEA se estende por 126 páginas, e afirma de maneira inequívoca que as disposições da Lei de Anistia decretada em 1979 não podem impedir as investigações e as sanções a essas graves violações dos direitos humanos. Diz que se trata de disposições que são “incompatíveis com a Convenção da OEA, carecem de efeitos jurídicos e não podem continuar representando um obstáculo para a investigação dos fatos, nem para a identificação e punição dos responsáveis”.
Dito em outras palavras, de maneira direta: a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA fez o que o Supremo Tribunal Federal brasileiro deixou de fazer. E o que o governo de Lula (com exceções como seu ministro de Justiça, Tarso Genro, e o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi) não quis ou não teve peito de levar adiante: dizer que a Lei de Anistia de 1979, quando o país ainda vivia debaixo dos rigores de uma ditadura encastelada no poder, é espúria e inconstitucional. Lula tampouco se animou a instalar a Comissão da Verdade, que levaria – levará? – a que se saiba quem fez o quê, e o que foi feito, e como foi feito, para que nunca mais ocorra o que ocorreu. Não para punir ninguém, que não é preciso chegar a tanto: só para que se recupere o direito à memória.
Lula deixou essa mancha em seu governo, apesar dos esforços de Genro e Vanucchi. E deixou também, na herança entregue a Dilma Rousseff, a presença incômoda, bizarra e poderosa do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que se mostrou absolutamente submisso aos quartéis. Foi, no governo de Lula, o principal aríete dos setores mais retrógrados da Igreja, das Forças Armadas, dos meios de comunicação e da sociedade. Defendeu a todo custo que a anistia imposta pela ditadura em 1979 – a única possível na época – efetivamente alcançou os dois lados. Aos que se opuseram a essa ditadura e aos que exerceram a barbárie em nome do Estado. Vale recordar que os opositores foram punidos com perseguição, exílio, prisão, tortura, morte, desaparição. Os assassinos e torturadores perambulam por aí com a certeza de que jamais serão punidos.
O tema não é novo, e há pelo menos uma década e meia é tratado com uma cautela tão extrema que mais justo seria chamá-la de temor. O governo de Fernando Henrique Cardoso bem que avançou bastante, mas com muita prudência, reconhecendo excessos do Estados, uma entidade sem rosto nem nome. Lula poderia ter avançado muito mais por essa trilha. Bem que quis levar adiante o Plano Nacional de Direitos Humanos, iniciado pelo seu antecessor. Tropeçou com o poder do medo, e ficou por aí.
No ano passado, a Ordem dos Advogados defendeu a tese de que a lei de anistia não incluía torturadores e assassinos. A iniciativa foi fulminada pelo Supremo Tribunal Federal. Argumento escuso da corte suprema: não era admissível revisar a Lei de Anistia. Acontece que ninguém queria revisar nada: tratava-se apenas de decidir se a Lei era ou não aplicável aos responsáveis por crimes de lesa humanidade, que são imprescritíveis à luz do direito. Uma infinidade de acordos internacionais firmados pelo Brasil dizem claramente que não há anistia para quem cometeu essa classe de crime.
Quando ministro da Justiça, Tarso Genro chegou a defender um argumento insólito: os torturadores e violadores agiram fora da lei da própria ditadura, uma vez que não existiam ordens formais de serviço ou qualquer norma legal que permitissem a tortura, a execução sumária ou o sequestro e desaparição de pessoas que se encontravam sob a tutela do Estado. Foi em vão: no Brasil persiste o temor esdrúxulo às casernas, que dizem que o que importa é olhar para a frente, e que não há que se perder tempo olhando o passado. Como se uma coisa impedisse a outra.
Maria do Rosário, substituta de Paulo Vanucchi na secretaria de Direitos Humanos no governo de Dilma Rousseff, pediu, em seu discurso de posse, que o Congresso crie uma Comissão da Verdade para que se saiba o que ocorreu nos porões da ditadura e que seus responsáveis sejam conhecidos. Não falou em punição. Assegurou que não se trata de revanchismo ou vingança, mas do direito à memória e à verdade. Do direito dos familiares de mortos e desaparecidos enfim saberem o que aconteceu com eles, e como aconteceu.
Num instante veio a resposta do general José Elito Siqueira, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional: é preciso olhar para a frente, o que passou, passou. É história. Se houve desaparecidos, não há por quê sentir vergonha ou se vangloriar.
Aos seus 64 anos, o general é da turma de 1969 do Exército, quando a tortura corria solta no Brasil. Ele tinha 23 anos. É um pouco mais velho que eu. E, sendo quase da mesma idade, posso admitir que ele não soubesse o que acontecia. Que não tenha participado de nada. Mas não é fácil admitir que não saiba, agora, o peso de suas palavras.
Não, general: é, sim, uma tremenda vergonha que tenham acontecido desaparições. E outra vergonha é dizer o que o senhor disse. Ao dizê-lo, o senhor ofende a minha memória, ofende a farda que veste. Uma vergonha, general. Uma vergonha. Oxalá tudo não tenha passado de um mal-entendido, apesar da clareza de suas palavras.
*Eric Nepomuceno é jornalista e escritor. Texto publicado originalmente no Página/12
Presidenta Dilma: Manda quem pode...
E pelo noticiário dos jornais e portais nestes primeiros dias de governo, parece que a Presidenta Dilma já está delimitando seu território, imprimindo sua marca, fazendo cobranças, mostrando a que veio...
"Manda quem pode e obedece quem tem juízo"... não é o que diz a sabedoria popular?
Pois então. A Presidenta Dilma, talvez hoje a mulher mais poderosa do mundo, se considerarmos os 190 milhões de brasileiros sob seus cuidados, já começou a implementar uma "rotina dura" dentro do governo, com seus assessores e ministros. E até pediu explicações ao general ministro do Gabinete de Segurança Institucional sobre suas desastradas declarações à imprensa favoráveis à ditadura e suas vítimas...
Sai o Presidente bonachão, chorão, coração mole... e entra a "Dama de Ferro", também chorona e beijoqueira, como vimos nas solenidades da posse, afinal, como ela mesma declarou no discurso na Câmara, "mulher também é carinho"...
Mas agora é hora de união e trabalho. Tempo de arregaçar as mangas, tomar pé da situação, fazer escolhas, tomar decisões, cobrar, comandar. Doa a quem doer.
Leiam abaixo notícia do Portal IG sobre o estilo "non-stop" da Presidenta, que já está vigorando no Planalto...
A eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República já previa alterações na rotina do Planalto, com seguranças e ajudantes de ordem mulheres, mas é o estilo da primeira presidenta brasileira que mudou o ritmo do dia a dia dos ministros e assessores. Conhecida por ser exigente e perfeccionista, Dilma deu sinais logo no dia seguinte a sua posse de como pretende conduzir a sua gestão à frente do País.
Os ministros que haviam trabalhado com Dilma quando a presidenta era chefe da Casa Civil do governo Lula não estranharam o estilo "non-stop" da petista. Já os novatos na Esplanada brincam nos bastidores que “acabou a paz” na rotina diária com a nova chefe.
Dilma não esperou o primeiro dia útil do ano e deu início aos trabalhos no terceiro andar do Palácio do Planalto no último domingo, quando recebeu chefes de Estado de outros países para discutir questões internacionais. Na segunda-feira, após reuniões com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Marco Maia, Dilma parou para almoçar. A presidenta, no entanto, não quis perder tempo com deslocamentos e comeu no próprio gabinete.
Candidato a presidente da Câmara pelo PT, o deputado Marco Maia (RS) teve uma reunião com Dilma na tarde de segunda-feira. Apesar de se tratar de um primeiro encontro apenas protocolar, Dilma pediu detalhes sobre as negociações para a disputa pelo comando da Casa. Maia definiu Dilma como firme, porém tranquila. Os dois foram colegas de secretariado no governo de Olívio Dutra.
"Manda quem pode e obedece quem tem juízo"... não é o que diz a sabedoria popular?
Pois então. A Presidenta Dilma, talvez hoje a mulher mais poderosa do mundo, se considerarmos os 190 milhões de brasileiros sob seus cuidados, já começou a implementar uma "rotina dura" dentro do governo, com seus assessores e ministros. E até pediu explicações ao general ministro do Gabinete de Segurança Institucional sobre suas desastradas declarações à imprensa favoráveis à ditadura e suas vítimas...
Sai o Presidente bonachão, chorão, coração mole... e entra a "Dama de Ferro", também chorona e beijoqueira, como vimos nas solenidades da posse, afinal, como ela mesma declarou no discurso na Câmara, "mulher também é carinho"...
Mas agora é hora de união e trabalho. Tempo de arregaçar as mangas, tomar pé da situação, fazer escolhas, tomar decisões, cobrar, comandar. Doa a quem doer.
Leiam abaixo notícia do Portal IG sobre o estilo "non-stop" da Presidenta, que já está vigorando no Planalto...
Pontual e exigente, Dilma inaugura nova rotina no Planalto
Presidenta não se abala em interromper almoços e já mostrou que não quer atrasos nas reuniões da equipe de governo
Andréia Sadi e Adriano Ceolin, iG Brasília | 04/01/2011
Foto: Agência Estado
Reuniões como a da coordenação política do governo agora acontecem pontualmente, diferentemente do que ocorria sob Lula
Os ministros que haviam trabalhado com Dilma quando a presidenta era chefe da Casa Civil do governo Lula não estranharam o estilo "non-stop" da petista. Já os novatos na Esplanada brincam nos bastidores que “acabou a paz” na rotina diária com a nova chefe.
Dilma não esperou o primeiro dia útil do ano e deu início aos trabalhos no terceiro andar do Palácio do Planalto no último domingo, quando recebeu chefes de Estado de outros países para discutir questões internacionais. Na segunda-feira, após reuniões com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Marco Maia, Dilma parou para almoçar. A presidenta, no entanto, não quis perder tempo com deslocamentos e comeu no próprio gabinete.
Candidato a presidente da Câmara pelo PT, o deputado Marco Maia (RS) teve uma reunião com Dilma na tarde de segunda-feira. Apesar de se tratar de um primeiro encontro apenas protocolar, Dilma pediu detalhes sobre as negociações para a disputa pelo comando da Casa. Maia definiu Dilma como firme, porém tranquila. Os dois foram colegas de secretariado no governo de Olívio Dutra.
Após uma manhã com agenda pesada na segunda-feira, o novo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, fez uma parada rápida para almoçar antes da maratona vespertina no ministério. Sentou-se em um restaurante para comer e, menos de 15 minutos após chegar ao local, recebeu uma ligação da presidenta chamando para uma conversa. Cardozo disse que já estava terminando de comer e iria encontrá-la imediatamente. Em tom de ironia, a nova chefe respondeu: ‘’Embrulha e traga para comer aqui. Não tem comida no seu ministério, não?”. O novo ministro caiu na gargalhada, largou o prato cheio e seguiu para o Palácio do Planalto.
Na primeira reunião de coordenação política, onde estiveram presentes os principais ministros de Dilma, a presidenta deu mais uma indicação de como será a rotina no Planalto. Marcada para as 18 horas, a reunião começou pontualmente, diferentemente do que acontecia na época do antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido por seus atrasos. Após agenda intensa durante o dia, o encontro de Dilma com Antonio Palocci, José Eduardo Cardozo, Luiz Sérgio, Miriam Belchior, Helena Chagas e Guido Mantega durou três horas. Hoje, por volta das 9h30, a presidenta já estava despachando no terceiro andar do Planalto.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Dilma e a "Solidão do Poder"
Após todas as concorridas, emocionantes e exaustivas solenidades da festa de posse, na tarde e noite do sábado, primeiro dia do ano, já no domingo a Presidenta Dilma teve várias reuniões com Chefes de Estado e representantes de governos estrangeiros que solicitaram audiência.
Ontem, primeiro dia útil do ano, a Presidenta também encarou outra série de encontros: com os Presidentes da Câmara e do Senado, com o Presidente do STF, com ministros do seu governo. E no final da tarde, sorridente mas com um olhar visivelmente cansado, comandou a primeira reunião de coordenação, com oito ministros e mais o vice-presidente, quando foi agendada a primeira reunião ministerial, para o próximo dia 14, para se analisar o cenário da economia mundial.
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Tantas solenidades e formalidades, inúmeros compromissos, beijos, abraços, apertos de mão, sobe-escadas-desce-escadas, sobe-rampa-desce-rampa, sob os cliques implacáveis de máquinas sofisticadas de um batalhão de repórteres, pedidos descabidos de jornalistas profissionais (?) por declarações e entrevistas, assédios despropositados dos inevitáveis "papagaios de pirata" e outros "ilustres desconhecidos" e "oportunistas de plantão", buscando uma foto e seus "cinco minutos de fama", claro...
Depois de "sobreviver" heroicamente a toda esta maratona político-midiática, a Presidenta Dilma em algum momento nestes primeiros dias de governo terá um "encontro consigo mesma", experimentará provavelmente alguns minutos de solidão, em que constatará ao mesmo tempo o Poder depositado em suas mãos e todos os interesses, muitos descaradamente mesquinhos, que a rodeiam...
E buscará talvez refúgio e acolhimento em algumas leituras e livros, esses eternos amigos, procurará, quem sabe, luzes, apoio, aconselhamento, para tomar as decisões mais acertadas que deverá enfrentar no turbilhão do Poder.
Conselheira fiel do Presidente Lula, de quem Dilma se aproximará para estabelecer uma interlocução confiável, luminosa, esclarecedora?
Publico abaixo artigo em forma de carta, do professor e conferencista Stephen Kanitz [aqui], sobre esse momento complexo que certamente será vivido em algum instante pela Presidenta.
Ontem, primeiro dia útil do ano, a Presidenta também encarou outra série de encontros: com os Presidentes da Câmara e do Senado, com o Presidente do STF, com ministros do seu governo. E no final da tarde, sorridente mas com um olhar visivelmente cansado, comandou a primeira reunião de coordenação, com oito ministros e mais o vice-presidente, quando foi agendada a primeira reunião ministerial, para o próximo dia 14, para se analisar o cenário da economia mundial.
Tantas solenidades e formalidades, inúmeros compromissos, beijos, abraços, apertos de mão, sobe-escadas-desce-escadas, sobe-rampa-desce-rampa, sob os cliques implacáveis de máquinas sofisticadas de um batalhão de repórteres, pedidos descabidos de jornalistas profissionais (?) por declarações e entrevistas, assédios despropositados dos inevitáveis "papagaios de pirata" e outros "ilustres desconhecidos" e "oportunistas de plantão", buscando uma foto e seus "cinco minutos de fama", claro...
Depois de "sobreviver" heroicamente a toda esta maratona político-midiática, a Presidenta Dilma em algum momento nestes primeiros dias de governo terá um "encontro consigo mesma", experimentará provavelmente alguns minutos de solidão, em que constatará ao mesmo tempo o Poder depositado em suas mãos e todos os interesses, muitos descaradamente mesquinhos, que a rodeiam...
E buscará talvez refúgio e acolhimento em algumas leituras e livros, esses eternos amigos, procurará, quem sabe, luzes, apoio, aconselhamento, para tomar as decisões mais acertadas que deverá enfrentar no turbilhão do Poder.
Conselheira fiel do Presidente Lula, de quem Dilma se aproximará para estabelecer uma interlocução confiável, luminosa, esclarecedora?
Publico abaixo artigo em forma de carta, do professor e conferencista Stephen Kanitz [aqui], sobre esse momento complexo que certamente será vivido em algum instante pela Presidenta.
Dilma e a Solidão do Poder
Presidente do Brasil
Um dos grandes problemas de todo presidente de empresa, empresário, governador e Presidente da República é a síndrome da solidão do poder.
Ela surge logo depois da posse, depois da euforia da conquista, quando cai a ficha que você é o chefe supremo da organização.
Harry Truman, Presidente dos EEUU em 1930, colocava na sua mesa a placa "Os pontapés terminam aqui".
Ou seja, o Presidente não pode mais culpar os outros pelos seus fracassos. Ele ou ela são os únicos culpados.
A culpa pelas decisões equivocadas da sua empresa ou governo será sempre sua, o que gera imensa solidão.
E esta solidão, Exma Sra. Dilma, poderá lhe tornar presa de dois grupos de subordinados.
O primeiro é a turma dos puxa-sacos.
Eles percebem que o presidente da empresa está inseguro e mentem descaradamente dizendo que tudo está bem, que o presidente é o máximo, que as decisões foram brilhantes. É o que está acontecendo com Hugo Chávez.
Aí, o presidente tende a procurar cada vez mais os puxa-sacos, e eles ganham cada vez mais poder.
O segundo grupo é a turma do "deixa comigo" e dos "eu resolvo este problema para o senhor/a".
Inseguro, o presidente começa a delegar cada vez mais decisões que ele deveria tomar e os "deixa comigo" ganham cada vez mais poder.
Aí, a solidão do poder entra na sua fase aguda.
É quando o presidente percebe que seus "melhores" auxiliares não são auxiliares, mas pessoas que estão lutando para substitui-lo, mais dia menos dia.
Nesta fase, o presidente começa a não confiar mais em ninguém, não discute mais com ninguém e começa a tomar todas as decisões sozinho.
É o aconteceu com Stalin, na sua fase "Stalinista".
Outros sucumbem à solidão do poder entrando em depressão, tomando calmantes, procurando sexo como Bill Clinton.
A solução para a "Solidão do Poder" é a criação de um pequeno grupo de "consiglieris", um nome muito infeliz, mas eu explico.
O consiglieri ficou famoso no filme O Poderoso Chefão, onde Don Corleone tinha um conselheiro irlandês, brilhantemente interpretado por Robert Duvall.
Por que um irlandês? Porque um irlandês jamais teria ambições políticas de ser líder da máfia italiana.
Pedir conselhos para os subordinados que querem seu cargo é querer ser traído ou ver tudo sendo vazado para a imprensa.
Foi o erro de Lula quando escolheu você sabe quem.
Presidentes de empresas criam Conselhos Consultivos ou de Administração, que são compostos de outros presidentes ou consultores aposentados, e portanto não são ameaça.
Bons consiglieris jamais tomarão por você as decisões que precisam ser tomadas nem lhe puxarão o saco.
Consiglieris sempre lhe dirão a verdade. Darão as informações que o presidente precisa para tomar suas decisões.
Consiglieris têm a função primordial de auxiliar outras pessoas a tomar a decisão certa, nunca insinuarão a decisão a ser tomada, uma sutil diferença.
Um consiglieri jamais dirá, acho que Ministro Y deve ser substituído ou que o Programa Z deve ser descontinuado.
Ele faria as perguntas apropriadas para aprimorar a sua capacidade de tomar decisões, e não substituí-la. "Por que a V. Exma. não consulta o fulano e sicrano, ou analisa este dado?" Apontaria consequências não abordadas, aspectos ainda não analisados, sugeriria outras pessoas a serem consultadas, mas a decisão seria sempre sua.
Um consiglieri faz você crescer como pessoa.
Todos nós deveríamos desenvolver um ou dois consiglieris pessoais.
Eu sugiro que a V. Exma. converse com meu amigo, Claudio Galeazzi, um dos melhores turn-around managers do Brasil.
Ele faz o que a V. Exma. pretende fazer no primeiro ano de mandato. Ele melhor do que ninguém, poderá alertar os erros a serem evitados. Será um excelente consiglieri.
Pelo que me consta, Lula a escolheu porque você era uma excelente Consiglieri.
Lula confidenciou a um amigo meu que você era uma entre poucos Ministros que o ajudavam a tomar a decisão certa, que colocava todos os ângulos da questão, que não insinuava que decisão deveria ser tomada, pelo menos não no primeiro momento.
Ou seja, que você era intelectualmente honesta, algo que a imprensa nunca comentou. Foi por isto que Lula escolheu você quando tinha várias outras opções, algo que tenho certeza ele ainda não lhe contou, porque ficaria mal com os demais Ministros.
Os consiglieris nas empresas servem ao cargo, não cobiçam o cargo.
O peso do cargo de Presidente da República continuará insuportável, mas se você constituir um pequeno grupo fora do poder, que não cobiça o poder, que somente tem como objetivo aguçar o seu pensamento e capacidade de decidir, você não ficará tão sozinha nem vulnerável.
Pense nisso.
Atenciosamente, seu eterno contribuinte de impostos cada vez mais insuportáveis,
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