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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O analfabeto político e o analfabeto midiático


MÍDIA GOLPISTA



"O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar.

Não desconfia que, em muitas TVs, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o 'dono da voz' (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos."

"O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público."


O analfabeto midiático 

Celso Vicenzi*


Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas.



Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis.

Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ, denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar.

Não desconfia que, em muitas TVs, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos.

Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “Então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”.

Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista.

O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos.

Lê pouquíssimo, geralmente best-sellers e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público.

Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. 

Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

* Jornalista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ensinamentos de um verdadeiro revolucionário


O JOIO E O TRIGO



"Desconfie do mais trivial, na aparência, singelo. E examine, sobretudo, o que parece habitual. Suplico expressamente: não aceite o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar. 

Há homens que lutam um dia, e são bons; há homens que lutam por um ano, e são melhores; há homens que lutam por vários anos, e são muito bons; há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis."





"Nada deve parecer impossível de mudar"

Camila Nogueira 


Bertolt Brecht é nosso convidado em mais uma etapa da série Conversas com Escritores Mortos.

“Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue 
obrigá-los a fazer justiça.”

Bertolt Brecht foi um poeta, dramaturgo e diretor de teatro alemão, conhecido principalmente pela Ópera dos Três Vinténs. A obra foi adaptada para o cinema três vezes. A música “Mack the Knife”, vinda do musical, é um clássico do jazz, e foi gravada por artistas como Frank Sinatra, Louis Armstrong, Bobby Darin, Ella Fitzgerald, Robbie Williams e Michael Buble. Brecht, um socialista fervoroso, é nosso convidado para mais uma “Conversa com Escritores Mortos”.

Herr Brecht, o senhor foi um entusiasta das ideias marxistas e sempre se manteve muito ligado com a política, não é mesmo?

Eu sempre fui politizado, pois acredito que apenas quando somos instruídos pela realidade podemos mudá-la. Devo acrescentar que, para mim, o pior analfabeto é o analfabeto político.

Mesmo? Por quê?

Ele não ouve, não fala, nem participa de eventos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe e da farinha, do aluguel, dos sapatos e da medicina, tudo depende de decisões políticas. O analfabeto político é tão estúpido que é com orgulho que afirma odiar política. O imbecil não imagina que é da ignorância política que nascem as prostitutas, as crianças abandonadas, os piores ladrões de todos, os péssimos políticos, corruptos e lacaios de empresas nacionais e multinacionais.

Quando o ouço falar de prostitutas e ladrões, não posso deixar de me lembrar de sua vasta obra teatral. Sua colaboração musical mais famosa foi Die Dreigroschenoper, a Ópera dos Três Vinténs, uma adaptação da Ópera dos Mendigos de John Gay. Na Ópera dos Três Vinténs, temos como protagonista Macheath, ou Mack the Knife, um anti herói com códigos morais bem questionáveis. Não quero ser indiscreta, mas gostaria de saber se o senhor simpatiza com seu personagem.


Mack, como você disse, é um anti herói. É um personagem complexo e levemente sádico, além de ser um assassino. Mas, se você quer saber a verdade, parafraseio meu próprio personagem, o célebre Macheath: “Não sei o que é pior: Roubar um banco ou fundá-lo.”

Essa é uma verdade incontestável.


Talvez sim, talvez não. Tenho para mim que a única verdade realmente incontestável e imutável é que a vida é uma vadia e então você morre.

Uma verdade levemente pessimista.

Mas, ainda assim, verdade! A maior parte das pessoas teme a morte, e eu lhes diria uma única coisa: temam menos a morte do que a vida insuficiente.

Na Ópera dos Três Vinténs o senhor passou, muito habilmente, uma mensagem de apelo social e de crítica contra o capitalismo, ambos mesclados com uma comédia muito divertida. Mas o que você realmente quis dizer com a história de Mack the Knife?


Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem.

Que margens são essas?


Posso destacar uma: a justiça. A justiça é simples e solenemente feita para a exploração daqueles que não a compreendem ou daqueles que, presos em uma situação miserável, são impedidos de obedecê-la.

Entendo.

E os tribunais são lamentáveis – verdadeiras piadas! Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue obrigá-los a fazer justiça.

E qual atitude o senhor considera que deve ser tomada para acabar com a desigualdade social?


Alimentar os pobres. Para quem está em uma boa posição social, falar de comida é coisa baixa. É compreensível: eles já comeram.


Hmmm…


Esses senhores pensam que têm a missão de purificar os pobres dos sete pecados. Mas antes deveriam alimentá-los, e então começar a pregação – caso contrário, que proclamem sua bela filosofia, mas esperem pelo pior. Todos aqueles que se limitam a rezar deveriam perceber, de uma vez por todas, que o mundo continua girando. Não importa o quanto tentem disfarçar ou quais são as mentiras que contam, primeiro vem a comida e depois a moral.

Herr Brecht: alguma declaração final?


Desconfie do mais trivial, na aparência, singelo. E examine, sobretudo, o que parece habitual. Suplico expressamente: não aceite o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar. Há homens que lutam um dia, e são bons; há homens que lutam por um ano, e são melhores; há homens que lutam por vários anos, e são muito bons; há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis.

Diário do Centro do Mundo

*

domingo, 29 de abril de 2012

Brecht: O Analfabeto Político



Brecht. Sempre lúcido.





O Analfabeto Político



O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.


analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.






Link do vídeo
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Brecht: Se os tubarões fossem homens



Brecht: sempre instigante.



                                                          Foto: Teatro Escola Cacotim



Se os tubarões fossem homens


Bertold Brecht*


Link do vídeo



Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. 

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos, com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas sempre tivessem água renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana; imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres têm gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas; nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia, a fim de poder encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo, os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si, a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre eles e os peixinhos de outros tubarões, existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo por isso impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos, da outra língua de peixinhos silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores, e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos, sob seus acordes, a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões, sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos.

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria, essa religião, que só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam, inclusive, comer os menores; isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam, assim, mais constantemente, maiores bocados para devorar, e os peixinhos maiores, que deteriam os cargos, valeriam pela ordem, entre os peixinhos, para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso: só então haveria civilização no mar. Se os tubarões fossem homens.

* Escritor e dramaturgo alemão (1898-1956), escreveu obras com forte cunho político-social. Foi perseguido pelos nazistas.
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domingo, 4 de dezembro de 2011

Você é um Analfabeto Político?



O Analfabeto Político


Bertolt Brecht, dramaturgo alemão


O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.


O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.


Saia do marasmo! Não se deixe manipular! Indigne-se! Abra a Boca, Cidadão!




Link do vídeo

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