Tradutor

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dilma vê a tragédia no Rio

"Conto com todos vocês. E todos vocês podem contar comigo", disse a Presidenta Dilma ao povo em várias ocasiões, antes de assumir o governo.

Hoje, acompanhada de alguns ministros e do governador do Rio de Janeiro, a Presidenta sobrevoou áreas atingidas pelas chuvas, e desceu para ver de perto os estragos em Nova Friburgo, o município com maior número de mortos. 


Presidenta Dilma Rousseff durante visita às áreas atingidas pelas chuvas no estado do Rio de Janeiro _ (Nova Friburgo, RJ, 13/01/2011) _ Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
                                                                                  Foto: Roberto Stuckert Filho/PR


Ontem foram liberados R$ 780 milhões para estados e municípios atingidos pela calamidade por meio de Medida Provisória assinada pela Presidenta.

Na sua primeira aparição pública fora de Brasília após a posse, Dilma seguiu o "estilo Lula", que ao longo dos oito anos de governo sempre esteve pessoalmente em áreas atingidas por catástrofes.

A Presidenta, que se encontra no Palácio Guanabara, deve falar com a imprensa ainda hoje, antes de voltar a Brasília.

Assange, Battisti, Dilma...



Quantos foram e ainda são hoje, no mundo, humilhados, ofendidos, perseguidos, encarcerados, "desaparecidos"? Quantos, famosos ou desconhecidos, em países islâmicos ou no primeiro mundo, em longínquos vilarejos mas também em grandes cidades e até em megalópoles, quantos são ainda hoje vítimas do preconceito, da arrogância, da prepotência, do abuso de poder? Quantos são ainda hoje ameaçados, ilegalmente constrangidos, de variadas maneiras intimidados? Quantas vezes o Estado, que tem por obrigação constitucional proteger cidadãos em situação de vulnerabilidade, é o primeiro a se aliar aos opressores?

Assange, Battisti, Dilma... subversivos, guerrilheiros, terroristas... ou idealistas, ativistas, defensores de direitos fundamentais da pessoa humana. Depende do olhar e dos valores de quem analisa, de quem julga, de quem profere vereditos...

Assunto mais que atual. E para a reflexão de todos nós a respeito, publico um texto clássico, escrito por um filósofo latino, Sêneca, contemporâneo do maior dos revolucionários.




Maus não são os que parecem ser, os que apenas parecem ser. E o que tu chamas de asperezas, adversidades, abominações, são coisas até proveitosas às pessoas que as têm de suportar, e mesmo a todos os homens, pelos quais velam os deuses, os sofrimentos, injustamente impostos, acabam tornando-se merecimento para os que os recebem e castigo para os que se livram deles a qualquer preço.

Em geral, as perseguições atingem os bons, exatamente porque são bons. Não chores sobre o sofrimento dos bons, para que não se tenha a idéia de que eles são desventurados. Não te espantes, se te digo que ser esmagado pela perseguição não é, geralmente, uma desgraça para o homem, mas antes uma felicidade e uma honra.


"Mas será proveitoso - perguntas - ser lançado ao exílio, reduzido à indigência, ter de enterrar a esposa e os filhos, ser vilipendiado pela ignomínia e mutilado pela tortura?"


Se te parece estranho que isso seja proveitoso, também te há de parecer estranho que alguns sejam curados com ferro e fogo, como pela fome ou pela sede. Mas se considerares que a alguns, por remédio heróico, lhes quebram e arrancam os ossos, lhes extraem veias e amputam determinados membros, que não poderiam ficar unidos ao resto do corpo sem prejudicá-lo, também hás de reconhecer, forçosamente, que certos males beneficiam aos que os suportam.

Da mesma forma certas vantagens, certos prazeres, certas recompensas e honrarias aviltam e desfiguram aos que delas se beneficiam. Entre muitas e magníficas sentenças de nosso Demétrio, há uma de que sempre me lembro, e que diz que nada parece mais infeliz do que o homem que nunca sofreu contrariedades, pois, assim, nunca foi provado. Os deuses o desprezam, não lhe dando oportunidade de construir sua fortaleza de ânimo e vencer as injustiças.


É próprio dos pouco dignos não sofrer perseguições, pois estão sempre de acordo com os poderosos, como se dissessem: - "Para que vou me opor a um adversário temível?" Sobre estes, o opressor nem precisará descer sua mão pesada. Acovardam-se com um simples olhar. O próprio opressor os despreza, e respeita mais aqueles que o enfrentam com valor, mesmo quando são esmagados. O próprio opressor gosta de medir suas forças com quem também tem força, e tem vergonha de lutar contra um homem resignado à derrota e à submissão. O gladiador considera uma ignomínia combater com um inferior e sabe que o vencido sem perigo é um vencido sem glória.


Assim também procede a fortuna: busca os mais fortes, os que não têm medo, os mais tenazes. Prova a Múcio com o fogo, o Fabrício com a pobreza, a Rutilo com o desterro, a Régulo com a tortura, a Sócrates com o veneno, a Catão com a morte.

Só na adversidade se encontram as grandes lições de heroísmo. Será que Múcio foi um infeliz ao segurar na mão direita a tocha acesa e ao infligir-se a si mesmo o castigo de seu erro, pondo em fuga com a mão queimada o rei que não pudera afugentar com a mão armada? Teria alcançado glória maior se estivesse acalentando a mão no seio de uma amiga? E Fabrício, ao lavrar seu pequeno campo, nas horas de folga do exercício do governo, no qual fazia a guerra tanto a Pirro como às riquezas, e porque, à luz da lamparina de sua casa modesta, não come outra coisa senão as raízes e as ervas que plantou e colheu com suas próprias mãos?

E Rutilo, será um infeliz por ter sofrido uma condenação da qual os juízes que o condenaram se envergonharão através dos tempos, e por ela responderão ao longo dos séculos? O que o honra, exatamente, é a grandeza com que se portou diante dos juízes perversos, e preferiu perder o direito de viver na própria pátria, negando-se sempre a negociar sua consciência com Sila, o ditador, a quem respondeu viajando ainda mais longe de Roma, quando o tirano o convidava a voltar. Sua resposta altiva ao ditador era que ficasse ele com os que se compraziam na submissão e contemplavam sem revolta o sangue derramado na rua e as cabeças dos senadores do povo no lado serviliano e as hordas de assassinos rondando soltos a cidade, e os milhares de cidadãos romanos degolados num mesmo lugar, depois de haverem jurado fidelidade, e até exatamente por isto. Fiquem com tudo isso - dizia o exilado - os que preferem a desonra ao desterro.


E a Régulo, a quem torturaram, arrancaram a pele, encheram-lhe o corpo de feridas, obrigaram-no a não dormir - quem era superior: ele, ou os torturadores? Seu tormento foi grande, mas sua glória foi maior. Porque sofria pela causa do povo romano.


Sêneca - Lúcio Eneo Sêneca - nasceu em Córdoba, no ano 4 antes de Cristo. Morreu em Roma, em 65, de nossa era. Filho de Sêneca, o Retórico, é o mais importante dos filósofos do neo-estoicismo latino. Recebeu excelente educação na Espanha e mudou-se para Roma, a fim de exercer a advocacia. Teve êxito e, por isto mesmo, provocou a perigosa hostilidade de Calígula, o que o obrigou a abandonar a vida pública, consagrando-se, então, à filosofia estóica. Foi ministro de Nero, reuniu enorme fortuna, caiu em desgraça e Nero ordenou-lhe que se matasse. Com perfeita serenidade estóica, abriu as veias e matou-se. Escreveu vários tratados e uma série de cartas. O texto acima é de seu tratado sobre a providência.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Dilma: "Ministro sugere; Presidente é quem veta"

Das declarações infelizes do ministro-general Elito, do Gabinete de Segurança Institucional, afirmando que mortos e desaparecidos na ditadura não devem ser motivo de vergonha, já nos ocupamos aqui, registrando que o general foi chamado pela Presidenta a dar explicações, se retratar etc. e tal.

Sobre o "estilo Dilma de governar", além do que escrevemos e reproduzimos no ABC!, lemos no Blog da Folha (PE) que a Presidenta teria dado uma espécie de "puxão de orelhas" também no ministro da Fazenda Guido Mantega, que andou declarando que vetaria aumento do salário mínimo acima dos R$ 540,00 pretendidos pelo governo. Dilma teria colocado as coisas no devido lugar dizendo a Mantega que "Ministro 'sugere', Presidente é quem veta"...

Escolhidos, indicados, não concursados, Ministros de Estado são também servidores públicos. Sua função constitucional é servir, auxiliar o Presidente da República na direção da administração federal. E não criar problemas, celeumas, polêmicas. Pra isso já existe a velha e golpista mídia...

A propósito do significado da palavra "ministro" e da consequente delimitação de suas atribuições, reproduzo abaixo post do interessante blog Palavras e Origens, do escritor e professor Gabriel Perissé, que recomendo aos leitores do ABC!



Ministro serve para servir


Ministro que não serve... não serve para ministrar. É o que nos ensina a etimologia.

A palavra se usa no campo da política e da religião. O poder dos ministros está a serviço dos outros. Em latim, ministerium designava o ofício do servo. Ministra significava "escrava", "assistente" e "sacerdotisa".

Dilma Rousseff e seu ministério (2011)

Na palavra latina minister está presente o comparativo minor, "menor". A grandeza de um ministro está em se tornar o menor de todos, aquele que se esforça por servir.

(09jan2011)






 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PresidentA, sim, mídia velha e ignorante!...

Para Cristiana Lobo, da GloboNews, que durante a transmissão da posse desdenhou da placa do Rolls-Royce presidencial alterada para "Presidenta da República", e para todos os demais "bobocas" da velha e ignorante mídia, que insistem em chamar a Presidenta Dilma Rousseff de "presidente"... o ABC! reproduz abaixo o artigo do grande linguista Marcos Bagno. Podiam ter passado sem essa...



Presidenta, sim!


11 de janeiro de 2011

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que as marcas desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública. 

Marcos Bagno/Linguista


CartaCapital




Dilma parabeniza a "Brasileiríssima Marta"

Marta superou alemãs Fatmire Bajramaj e Birgit Prinz para conquistar troféu da Fifa pelo quinto ano consecutivo  Foto: AFP


Motivo de orgulho para todas as brasileiras e todos os brasileiros, Marta é a Melhor Jogadora do Mundo pela 5a. vez consecutiva!!!

A brasileira n.1, Presidenta Dilma Rousseff, cumprimentou a jogadora em nota oficial:

Quero enviar minha saudação à brasileiríssima Marta, eleita pela quinta vez consecutiva a melhor jogadora de futebol do mundo. A conquista de tantos títulos, e ainda em sequência, é um feito sem precedentes, que enche de orgulho a todos nós, brasileiros. Especialmente agora, que o nosso país se prepara para sediar os dois maiores eventos esportivos do planeta: a Copa do Mundo e a Olimpíada.

Dilma Rousseff
Presidenta da República



Foto: AFP/Portal Terra

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Presidenta Dilma: nada de pirotecnia

Do site CartaCapital:


Dilma no governo


Nossa cultura política valoriza os elementos pessoais da liderança, mitificando seus atributos. O interessante é que a presidente rompe com esse paradigma. Por Marcos Coimbra. Foto: Ricardo Stuckert


Nossa cultura política valoriza os elementos pessoais da liderança, mitificando seus atributos. O interessante é que a presidente rompe com esse paradigma.


Neste começo de ano, a imprensa mostra que tem, para com a presidente Dilma, dificuldades parecidas com as que teve para com a candidata e a presidente eleita. É visível o desconforto que ela causa com seu discurso e suas ações. Enquanto a mídia quer que ela tire coelhos da cartola e surpreenda todo mundo, Dilma insiste em ser previsível.

A causa dos problemas é conhecida: a ideia de continuidade. Até agora nossos analistas não conseguiram entender o que significa uma coisa tão simples.

O tom geral da cobertura tem sido um misto de ânsia de encontrar a originalidade do governo e frustração por não conseguir identificá-la. É como se Dilma tivesse a obrigação de ser diferente, e, não o sendo, se tornasse uma “decepção”.

Nossa cultura política valoriza os elementos pessoais das lideranças, mitificando seus atributos e qualidades. Nos é difícil aceitar que elas não tenham traços que as distingam do cidadão comum, que as diferenciem da vida banal dos meros mortais. Para nós, o verdadeiro líder está além do povo, é feito de outra essência e possui uma transcendência inalcançável por ele.

No Brasil moderno, os três presidentes eleitos se apresentaram ao País como figuras excepcionais. Cada um a seu modo e tempo, Collor, Fernando Henrique e Lula foram assim caracterizados por suas campanhas e pela mídia, e foram assim percebidos pelas pessoas. Todos se tornaram personagens épicos.

Importa pouco como cada um terminou. Se Collor, de “jovem caçador destemido”, acabou cassado. Se a “inteligência portentosa” de Fernando Henrique, que o levou a derrotar a inflação, não o livrou do fracasso dos últimos anos. Se Lula, de metalúrgico nordestino “sincero, porém radical”, revelou-se um grande presidente, na opinião quase unânime dos brasileiros.

O relevante é que todos eram “extraordinários”. Até aqueles que chegaram ao posto pela força das circunstâncias vieram a ser assim percebidos, ao menos por alguns, pelo menos durante certos momentos. Mesmo Sarney e Itamar tiveram seus dias de carisma.

Nesse modelo, a transição de um governo para outro sempre foi uma espécie de batalha (ainda que civilizada), cujo ápice eram os discursos de posse. Por meio deles, o novo presidente revelava quão diferente seria do anterior, em meio a frases de efeito e rompantes de eloquência. Não por outra razão, esses discursos precisavam ser esquadrinhados minuciosamente.

Nas eleições de 2010, Lula propôs outro enredo. Em vez de procurar no PT quem mais pudesse encarnar uma nova personalidade mitológica, pensou em alguém com qualidades terrenas. No lugar de imaginar uma agenda de campanha que acenasse para os sonhos, outra que todos conheciam, pois estava sendo implantada por seu governo.

Há quem veja a originalidade de Dilma no gênero, mas ela não é a mais importante. Por mais significativo que seja termos uma mulher na Presidência, a verdadeira mudança trazida por sua eleição não é essa. O decisivo é que Dilma rompe com o modelo da excepcionalidade do governante.

Para entender esse ponto, basta imaginar o que teríamos se Marina Silva tivesse vencido. Seria uma presidente mulher, mas que manteria ou, mais provavelmente, que acentuaria o arquétipo do presidente-herói (ou da presidente-heroína, tanto faz), de valorização das “biografias excepcionais”. Eleita, Marina representaria a consagração do carisma como fundamento da legitimidade presidencial.

Ninguém votou em Dilma sem saber o que ela diria no Congresso, na hora em que tomasse posse. Ninguém ficou ansioso querendo descobrir como seria seu ministério, ninguém aguardou revelações de seus ministros a respeito de novas políticas.

Em face da perplexidade da mídia, o curioso é que não há, no modo como começa o governo, nada de imprevisível. Foi isso que Dilma prometeu ao País, foi isso que ela disse que faria.

E foi isso que os eleitores entenderam e quiseram. O mais importante na eleição de Dilma é que seu caráter inovador foi submetido ao povo e por ele referendado. Foi o eleitor que quis que passássemos a ver que a Presidência da República pode ser ocupada por uma pessoa comum (desde, é claro, que seja qualificada e que represente o lado com o qual ele mais se identifica).

Dilma e a Ditadura do Judiciário

República é a forma de governo constituída por três poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário - independentes e harmônicos entre si, como dispõe o artigo segundo da Constituição Federal de 1988, a chamada Constituição Cidadã.

Em seu último dia de governo, o Presidente Lula decidiu soberanamente a pendência envolvendo o refúgio do escritor e ativista italiano Cesare Battisti no Brasil, negando sua extradição.

Setores progressistas da blogosfera e da sociedade em geral comemoraram a decisão do presidente, aguardando a iminente libertação de Battisti, que se encontra preso em Brasília.

Tal expectativa foi frustrada pela decisão do ministro Cezar Peluso, presidente do STF, no sentido de questionar a validade do ato do Presidente da República, atribuindo ao STF o julgamento da decisão de Lula.

Respeitáveis juristas, especialistas de outras áreas e blogueiros progressistas que vinham acompanhando o caso protestaram e estão alertando para o possível significado da intromissão do Judiciário em decisão soberana do Executivo. O entrevero pode evoluir para uma crise institucional a estourar no governo Dilma nos próximos tempos.

A sociedade precisa estar atenta a mais esta eventual tentativa de desestabilização de um governo legitimamente conduzido ao Poder.

Publico abaixo artigo do jornalista Rui Martins, postado no sábado, 08.01, no blog Quem Tem Medo do Lula?, que faz um alerta à cidadania para a gravíssima possibilidade de um golpe contra o governo da Presidenta Dilma Rousseff e já vislumbrando a instalação de um "caos" no País...


Já é um começo de golpe

 O que iremos viver, quando o ministro Gilmar Mendes se dignar a colocar na agenda do STF o « julgamento da decisão do presidente Lula », se a maioria, por um voto que seja, decidir anular a decisão de Lula ? Será que a presidenta Dilma aceitará essa intromissão do STF no poder do Executivo ? Em todo caso, será o caos.


Por Rui Martins (*)

Berna (Suíça)Se você faz parte dos 87% que apoiavam o governo Lula, fique alerta – no mais escondido covil de serpentes e escorpiões trama-se um golpe institucional contra o governo de Dilma, mesmo se esse governo começou com 62% de aprovação popular.

Desta vez, ao contrário do golpe de 1964, não se trama nos quartéis com o apoio declarado dos Estados Unidos. A trama é bem mais sutil – não se acena com a paranóia do perigo vermelho, mas com base em pretensos arrazoados jurídicos se quer desmoralizar e desautorizar o ex-presidente Lula e se colocar no ridículo a presidenta Dilma, que será destituída do poder de decisão.
 
O golpe não parece financiado só por dólares americanos, como no passado, mas igualmente por euros vindos da Itália. Aparentemente trata-se da extradição ou não extradição de um antigo militante italiano, Cesare Battisti, condenado num processo italiano fajuto à prisão perpétua, mas a verdade submersa do iceberg é bem outra.
 
Quem leu as revelações do Wikileaks quanto as opiniões dos EUA sobre Lula, considerado suspeito, e Celso Amorim, considerado antiamericano, e que acompanhou a campanha contra a eleição de Dilma, sabe muito bem haver interesses de grupos internacionais em provocar uma crise institucional no Brasil.
 
Será também a maneira de grupos econômicos estrangeiros impedirem a atual emergência do país como potência mundial. A Itália neofascista de Berlusconi com seu desejo de recuperar um antigo militante esquerdista é apenas um providencial pretexto para os grupos políticos e econômicos internacionais incomodados com o Brasil líder do G-20 e vitorioso contra os EUA na OMC.
 
O que se quer agora, com o caso Battisti, é subverter as instituições brasileiras, mergulhar-se o país numa confusão entre o poder do Executivo e o poder do Judiciário, anular-se uma decisão do ex-presidente Lula para se abrir o caminho a que a governança do Brasil seja sujeita à aprovação do STF. Para isso conta-se, como em 1964, com os vendilhões da nossa soberania e com os golpistas da grande imprensa.
 
Simples e prático, para se evitar que a presidente Dilma governe, vai se tentar lhe por um cabresto e toda decisão sua que desagrade grupos internacionais deverá ser anulada pelo STF. Por exemplo, a questão da exploração petrolífera do pré-sal poderá ser uma das próximas ações confiadas ao STF.
 
Se Dilma quiser renacionalizar as comunicações, já que a telefonia é questão estratégica, o STF poderá dizer Não e também optar pela privatização da Petrobras. Delírio? Não, os neoliberais inimigos de Lula e da política nacionalista, derrotados nas eleições, poderão subrepticiamente retirar, pouco a pouco, os poderes da presidenta e do Legislativo, para que fique apenas com o STF o governo ou o desgoverno do Brasil.
 
O próprio advogado de Cesare Battisti, acostumado com leis e recursos, nunca viu uma decisão presidencial ser posta em dúvida por um ministro do STF, e por isso falou em "golpe" tal como havíamos alertado.
 
Por sua vez, o atual governador do Rio Grande do Sul, que aceitou o pedido de refúgio de Battisti quando ministro da Justiça, não aguentou a decisão do ministro Cezar Peluso do STF de colocar em questão a validade da decisão do presidente Lula e declarou como "ilegal" e "ditatorial" o ato do ministro Peluso, do qual decorre um "prejuízo institucional grave" para o país e um "abalo à soberania nacional".
 
Faz dois anos, Tarso Genro concedeu refúgio a Battisti, que deveria estar em liberdade desde essa época. Mas o ato liberatório foi sustado pelo ministro Gilmar Mendes, que submeteu a questão ao STF, o que já consistia um ato arbitrario. Embora os ministros tenham decidido por 5 a 4 pela extradição, competia ao presidente a decisão final, o que foi reconhecido, depois de uma tentativa de reabertura do julgamento.
 
O presidente Lula justificando seu ato, dentro do permitido pelo Tratado mútuo de Extradição entre Brasil e Itália, com base num documento da Advocacía Geral da União, negou a extradição e a própria Itália entendeu o ato como definitivo. Ora, a decisão do ministro Cezar Peluso de pôr em dúvida a decisão do presidente Lula e reabrir a questão vai além de sua competência e fere uma decisão soberana.
 
É tentativa ou já é golpe, no entender do advogado Luiz Roberto Barroso, é ilegal e ditatorial segundo o ex-ministro da Justiça Tarso Genro, opiniões que vão no mesmo sentido de Dalmo Dallari e de outros juristas.
 
O que iremos viver, quando o ministro Gilmar Mendes se dignar a colocar na agenda do STF o "julgamento da decisão do presidente Lula", se a maioria, por um voto que seja, decidir anular a decisão de Lula? Será que a presidenta Dilma aceitará essa intromissão do STF no poder do Executivo? Em todo caso, será o caos.
 
É hora de reagir, antes que seja tarde demais.

*Rui Martins é jornalista. Foi correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. É autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criador dos "Brasileirinhos Apátridas" e da proposta de um Estado dos Emigrantes. É colunista do site "Direto da Redação" e vive em Berna, na Suíça, de onde colabora com o blog "Quem tem medo do Lula?".
 
(do site Direto da Redação)