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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

"Jornalismo" 2010: o Brasil tem a imprensa que merece?

O ABC! reproduz excelente artigo encontrado e lido no blog Com Texto Livre e originalmente publicado no site do Observatório da Imprensa. A velha mídia, que neste momento faz retrospectivas muitas vezes jornalisticamente deploráveis e indigentes dos 8 anos do governo Lula, omitindo e deturpando muitos fatos, também pode e deve ser objeto de um olhar crítico de todos nós. Em 2010 eles deitaram e rolaram, tratando a inteligência dos leitores, ouvintes e espectadores com pouco caso. Está mais do que na hora do Brasil ter uma imprensa à altura do importante papel que começa a desempenhar politicamente no mundo. O Brasil não merece isso que está aí... 

 

Jornalismo apressado e mal feito


O jornalismo brasileiro, que já não era muito assertivo, termina 2010 vestido em forma de grande ponto de interrogação, jornalismo que acha, além de improdutivo, entediante investigar os fatos e os dados antes de publicar a matéria.

Mais alguns dias e adeus 2010. Tempo de pensar (e repensar) sobre tudo o que foi notícia e não merecia e também sobre tudo o que não foi notícia, e merecia. Momento especialmente propício para refletirmos se realmente o Brasil tem a imprensa que merece. Sim, porque é mais fácil mudar o curso do rio São Francisco do que ver nossa velha imprensa deixar de lado os velhos cacoetes que tanto lhe entortaram a escrita através dos anos. É mais fácil redesenhar a pirâmide da mobilidade social no Brasil do que ver ser resgatada de forma inconteste a credibilidade de parte considerável de nossos meios de comunicação.

Mas é também momento de passar em revista as muitas idas e vindas de uma imprensa quase sempre errática ao longo do ano. Imprensa que não precisou se esforçar muito para nos deixar estupefatos com o pouco caso com que princípios básicos do bom jornalismo foram relegados a segundos e terceiros planos: objetividade jornalística, relevância das pautas, importância e raridade de temas, investigação responsável antes da publicação de denúncias, respeito ao chamado "outro lado" e por aí afora.

Período de altos e baixos e onde os baixos predominaram quase que ininterruptamente. A seguir, o resultado da faina laboriosa de meus dois neurônios de estimação para me contar como foi 2010.


Previsão furada

Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, em entrevista publicada na revista Veja (nº 2127, de 22/8/2009) aposta que o governo, apesar da imensa popularidade do presidente Lula, não conseguirá fazer o sucessor – no caso, a ministra Dilma Rousseff. Também afirma que o PT está em processo de decomposição. Como vimos nem uma coisa, nem outra. Montenegro como vidente tem sido excelente presidente do Ibope.


A longa jornada em busca do fato novo

Recorrente em todo o ano foi a busca desenfreada de vistosos veículos de comunicação por fatos novos, aqui entendidos como aqueles fatos capazes de frear o favoritismo da então candidata governista Dilma Rousseff e, simultaneamente, alavancar a candidatura oposicionista de José Serra. Ao longo do ano foram rotulados como fatos novos coisas antigas, sem qualquer sombra de ineditismo, como a muito falada e pouco conhecida ficha da terrorista "Vanda" nos anos de chumbo, a quebra do sigilo fiscal de quase 4.000 brasileiros – sendo que destes apenas cinco ou seis cidadãos recebiam pesado e explícito apoio da imprensa diária e semanal, escrita, radiofônica e televisiva, cobrando sempre em tom alarmante urgentes providências para se descobrirem os beneficiários de tais malfeitos.


A grande imprensa abdicou de utilizar a percepção, a intuição e a inteligência jornalística para responder a questões importantes como estas: a quem interessaria (no duro mesmo!) a quebra do sigilo fiscal nos últimos meses de 2009 de Eduardo Jorge Caldas Pereira, vice-presidente do PSDB, de seus companheiros de partido, de Samuel Klein (dono da Casas Bahia) e da apresentadora da TV Globo Ana Maria Braga? Quem estaria mais necessitado de um balão de oxigênio que atendesse pelo nome fato novo?


Capas da Folha de S.Paulo

O jornal paulista continuou sua trajetória política de "morde-e-assopra" em busca de um cada vez mais impossível equilíbrio entre ser pró-governo e pró-oposição. Mas não deixou de reduzir a pó sua alegação recorrente de pairar acima dos partidos políticos, suas metas, desafios, anseios e motivações. Isto aconteceu num domingo (5/9/2010), quando estampou em sua capa a manchete que terá carregar durante muitos anos como pura irresponsabilidade jornalística: "Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma". A reportagem atribuía à então candidata Dilma Rousseff um erro na cobrança da tarifa social de energia elétrica quando era ministra das Minas e Energia. Segundo o Tribunal de Contas da União, o desperdício foi de R$ 989 milhões no tempo em que Dilma ocupava aquela pasta (2003-2005). A notícia estava destinada a se contrapor à propaganda eleitoral, que apresentava a candidata à Presidência pelo PT como uma eficiente gestora e colocava em xeque essa imagem.


A propósito, informe-se que a tarifa social foi criada em 2002, ainda durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. As mudanças solicitadas pelo TCU ocorreram em 2007, dois anos depois da saída de Dilma da pasta. A lei que regula a tarifa social foi alterada em 2010.


A inusitada manchete reunindo em poucos caracteres acusação explosiva de erro monumental (falha), cifra impressionante (R$ 1 bi) e ainda o nome bem estampado da candidata-líder (Dilma) em pesquisas de opinião na corrida para o Palácio do Planalto, tinha tudo para chamar a atenção de qualquer observador da mídia minimamente comprometido com o embate petistas versus demotucanos. Alguns tuiteiros se recusaram a aceitar esse papel(ão) do jornal paulista e divulgaram milhares de mensagens de 140 caracteres sugerindo outras manchetes para o jornal da Barão de Limeira. Pincei três: "Em 2000, Dilma aconselhou o FHC: não precisa investir em energia. O risco de racionamento é zero"; "Dilma joga moeda de um real na pista de Congonhas e derruba avião da TAM"; "Erro de Dilma soterra mineiros no Chile e é a principal pedra que impede a saída dos mineiros chilenos da mina".


Jornalismo apressado e mal feito

O jornalismo brasileiro, que já não era muito assertivo, termina 2010 vestido em forma de grande ponto de interrogação, jornalismo que acha, além de improdutivo, entediante investigar os fatos e os dados antes de publicar a matéria. Com bem poucas exceções sobrevivemos doze meses sob o império do "grande Se", sob o domínio do "achismo", desde as coisas mais banais até às mais importantes para o país. Às favas com a busca da verdade, imparcialidade, busca incessante pela objetividade jornalística. É como se as primeiras páginas dos jornais, seus espaços nobres e vistosos, se transformassem do dia para a noite em editoriais alagadiços, transbordando de uma seção a outra, de uma editoria a outra, irrompendo em colunas de notas políticas, avançando por sobre o colunismo social e até mesmo impregnando o espaço dos leitores com a opinião amplamente vociferada em flamejantes editoriais.


Ufa! Mas não fica por aí. Durante a exibição do Jornal da Globo do dia 27/8/2010, o apresentador William Waack perde a paciência e grita "Cala Boca" durante a entrevista da ex-ministra Dilma Rousseff.


Reinações dos especialistas em opinar

Em 2010, as notícias foram divulgadas de forma mais adjetivadas que o normal. Pouco de substância. Opinião quase sempre exacerbada, tingida por cores ideológicas. Quanto mais os grandes jornais e revistas do país tratavam de mostrar ao longo de 2010 seu decantado – mas nunca explícito – não-alinhamento partidário, mais seus colunistas carregavam nas tintas para defender seu candidato ao Planalto.


Fiquemos em apenas uma exemplificação que já estará de bom tamanho. Consideremos, a título ilustrativo, o caso Merval Pereira, principal comentarista de política do jornal O Globo e da rádio CBN, que no curto período de 15/6/2010 a 17/8/2010 criou e tratou de difundir ao máximo sua alcunha para Dilma Rousseff – a laranja eleitoral. Ele escreveu coisas como:


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"De um lado, a candidata oficial, Dilma Rousseff, transformada pelo próprio Lula em sua `laranja´ eleitoral..." (O Globo, 15/6/2010);
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"Ela já era figura proeminente antes mesmo de surgir do bolso do colete de Lula para ser impingida ao eleitorado como sua `laranja eleitoral´" (O Globo, 6/7/2010);
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"...que o seu eventual primeiro mandato será o terceiro de Lula, o que pode transformá-la em uma mera `laranja eleitoral´ do seu mentor" (O Globo, 16/7/2010);
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"... enquanto Dilma a cada dia valoriza mais o papel de `laranja eleitoral´ de Lula..." (O Globo, 11/8/2010);
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"Mas, como não é ele que concorre, e sim uma sua `laranja eleitoral´, a transferência de votos ainda não é total, e possivelmente não será" (O Globo, 17/8/2010).


A conferir se o sapiente comentarista das Organizações Globo irá, a partir do dia 1º de janeiro de 2011, elevar sua criação linguística à condição de pronome de tratamento regular para quando se referir à presidente Dilma Rousseff grafar algo como "Dilma Rousseff, a Presidente Laranja do Brasil".


O falso debate camuflando reais intenções

A imprensa clamou desde a primeira semana do ano até esta semana que no Brasil a liberdade de expressão estava por um triz. O risco vinha embutido em qualquer ideia, qualquer iniciativa, qualquer autoridade do governo que ousasse mencionar a (já) imperiosa necessidade de regulamentar – minimamente que seja – os veículos de comunicação. Para aproveitar o bordão presidencial, tomo a liberdade de, solene como sói acontecer, declarar que nunca antes na história deste país se usufruiu de tanta liberdade – opinião, expressão, imprensa – como nos dias atuais.


Ficou evidente que o combustível por trás da luta por liberdade de expressão no Brasil está na manutenção dos monopólios midiáticos, a liberdade para decidir a seu bel-prazer o que deve ser consumido pela sociedade sem qualquer consulta aos poderes constituídos. A grande imprensa se fecha em copas quando o assunto é a regulamentação dos artigos 223 e 224 da Constituição de 1988. E se abre de par em par quando é defender seus interesses corporativos, quase sempre em benefício direto de não mais que uma dezena de famílias.


Previsão furada de 2010 para 2010

Oscar Quiroga, astrólogo do jornal Estado de S. Paulo que recebeu amplo espaço da revista Veja (2161, 21/4/2010) para reunir a confraria dos astros em apoio ao candidato José Serra à Presidência, afirmou nas páginas da revista que, considerando "a notável coincidência de que no dia 10 de abril, quando sua pré-candidatura a presidente foi formalizada, o planeta Urano tenha atingido a localização em que o Sol se encontrava no momento do seu nascimento", e agregado o fato de que "Júpiter também atingirá a posição de seu mapa natal no fim de maio e de setembro, o que é outro sinal positivo para seu desempenho como candidato à Presidência... seria tolice não arriscar a afirmação de que José Serra deve ser o próximo presidente do Brasil".


Como vimos, os astros ouvidos por Veja entendiam tanto de futuro quanto o deputado eleito Tiririca de processo legislativo.


Tipo de não-fato potencializado pela imprensa

O tumulto que aconteceu no dia 20/10/2010 no bairro do Campo Grande, no Rio de Janeiro, entre simpatizantes das candidaturas de Serra e Dilma, teve como maior protagonista uma bolinha de papel que quicou na calva de José Serra. Foi difícil para a imprensa, principalmente a televisiva, informar bem seus telespectadores – cada qual assumindo a versão favorável a seu candidato à presidência. Entretanto, é preciso relatar os fatos como eles aconteceram e, entre os telejornais exibidos na noite daquela quarta-feira (20/10), parece que apenas o SBT Brasil conseguiu mostrar toda a sequência dos acontecimentos.


Na matéria, fica claro que o objeto que atingiu a cabeça do candidato foi uma simples bolinha de papel. Não foi uma pedra, nem um rolo de papel, nem um rolo de adesivos – versão final comprada pelos jornais do dia – como publicaram os principais portais de notícias. Resumo da ópera: o caso Bolinha de Papel virou jogo online no portal UOL com a chamada: "Teste sua pontaria atirando bolinhas de papel no candidato José Serra. Mova o mouse para os lados para apontar e quando Serra aparecer, clique para jogar as bolinhas e marcar muitos pontos."


Capas de Veja

A revista Veja mostrou pouca criatividade para tentar influir na campanha eleitoral de 2010. Bateu – com gosto, muito gosto – no governo Lula. Se fosse contratada pela oposição dificilmente conseguiria realizar melhor trabalho de desconstrução de oito anos de governo. Algumas das recentes edições do carro-chefe da Editora Abril trouxeram na capa, sempre carregando na cor vermelho-escarlate, chamadas como...


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"Lula, o mito, a fita e os fatos" (edição 2140);
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"Caiu a casa do tesoureiro do PT" (edição 2155);
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"Ele cobra 12% de comissão para o PT" (edição 2156);
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"O monstro do radicalismo" (edição 2173).


Vejamos as edições das três semanas anteriores ao primeiro turno das eleições deste ano: a edição nº 2181, de 8/9/2010, trazia na capa a ilustração em primeiro plano de um polvo se enroscando no brasão da República. Manchete: "O partido do polvo"; e o subtítulo: "A quebra de sigilo fiscal de filha de José Serra é sintoma do avanço tentacular de interesses partidários e ideológicos sobre o Estado brasileiro". A edição nº 2182, de 15/9/2010, repetia na capa a mesma ilustração, sendo que agora o polvo enrosca seus tentáculos em maços de dinheiro.


Manchete: "Exclusivo – O polvo no poder"; subtítulo: "Empresário conta como obteve contratos de 84 milhões de reais no governo graças à intermediação do filho de Erenice Guerra, ministra-chefe da Casa Civil, que foi o braço direito de Dilma Rousseff". A ediçãonº 2183, de 22/9/2010, tem novamente na capa o famoso molusco marinho lançando gigantescos tentáculos dentro do espelho d´água do Palácio do Planalto. A manchete: "A alegria do polvo", um balão daqueles de revista em quadrinhos e delimitado por raios abarcava a interjeição: "Caraca! Que dinheiro é esse?"


Há que se destacar, ainda, o perfil eminentemente partidário da revista Veja: em 54 semanas, nenhuma capa foi dedicada ao sr. Índio da Costa, muito menos ao sr. Paulo Preto, menos ainda ao Dersa e ao Rodoanel de São Paulo. O Brasil ter sido o último a sentir os efeitos da crise econômica mundial e também o primeiro a desta sair... não foi, definitivamente, assunto jornalístico à altura da capa de Veja.


Deu no WikiLeaks

Julian Assange, com seu WikiLeaks, deu uma levantada na moral da velha imprensa ao instrumentalizá-la com formidáveis 250.725 documentos diplomáticos do governo dos Estados Unidos. The New York Times, El País, Le Monde, The Guardian e Der Spiegel foram os principais veículos por ele escolhidos para repercutir segredos diplomáticos que criaram – e continuarão a criar – embaraços ao governo Obama e saias justas à sua secretária de Estado, Hillary Clinton. Sintomático que um expoente do que autodesigna jornalismo científico, claramente gerado nos meios digitais, tenha requerido a experiência e tradição da velha imprensa para "filtrar" dezenas desses documentos e torná-los acessíveis com um mínimo de contextualização possível às massas da sociedade.


Preso por supostos crimes sexuais ocorridos na Suécia, Julian Assange teve inicialmente seu pedido de fiança negado. O recebimento de fundos em contas do WikiLeaks foi literalmente bloqueado pela Mastercard, Visa, PayPal e Amazon. Todas, grandes multinacionais estadunidenses.


No caso do Brasil, onde a grande imprensa tenta nos vender a todo custo a impressão de que a liberdade de expressão está com suas horas contadas, nada de substancial foi publicado, seja na forma de editoriais ou não, em defesa do australiano. E, no entanto, concordo integralmente quando o cineasta Michael Moore o descreve como "um pioneiro da liberdade de expressão, do governo independente e da revolução digital do jornalismo".


A grande novidade em nosso Brejo da Cruz foi, com grande possibilidade de acerto, a importância assumida pela WikiLeaks, seu impressionante grau de articulação e mobilização e seu recado aos Senhores Tradicionais da Mídia, como a dizer: "Baby, e nós... ainda nem começamos!"

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email - wlaraujo9@gmail.com

Dilma Rousseff X Folha de S. Paulo

Manchete principal de capa da Folha de S. Paulo de hoje, 22 de dezembro: "Para 83%, Dilma vai ser igual ou melhor que Lula". Veja abaixo parte da capa do jornal.


 Assinantes da Folha de S.Paulo e do UOL podem ler aqui a íntegra das notícias da edição impressa desta quarta-feira 22/12

Quem diria?! O Datafolha, instituto de pesquisa do Grupo Folha, cujo jornal Folha de S. Paulo fez campanha intensiva, leviana e feroz contra a então candidata a presidente Dilma Rousseff, Folha de S. Paulo que recorreu à Justiça para ter acesso aos autos do processo da ditadura contra a então "subversiva" Dilma, nos anos 70, procurando utilizar dados da ação para atacar a presidenta eleita, essa mesmíssima Folha de S. Paulo estampou hoje uma manchete extremamente favorável a Dilma e ao governo.

Não teve jeito. Como esconder ou subverter os dados da pesquisa? Obviamente, os resultados da pesquisa poderiam ter sido publicados num espaço menor, sem destaque. Mas foi trombeteado na manchete principal. E como ninguém aqui é "marinheira de primeira viagem", perguntamos: O que quer a Folha de S. Paulo? O que poderia estar por trás desse "afago"?

A Folha de S. Paulo e toda a velha mídia têm interesses relativos à distribuição de verba publicitária governamental, por exemplo. Seria visando tais interesses que a Folha procura de certa forma uma "reconciliação" com a presidenta eleita?

A Folha de S. Paulo tem anunciantes, por exemplo. Grandes empresas, grandes negócios, inclusive com o governo, PAC e companhia ilimitada...

Nossa intenção aqui é sempre que possível ler as entrelinhas, o que pode estar por trás da notícia. Sobretudo no que diz respeito à velha e apodrecida mídia. Dizem que "o brasileiro não tem memória". Mas esta blogueira costuma ter. E a recente campanha eleitoral, ferocíssima contra Dilma Rousseff, foi quase um linchamento moral.

Portanto, reproduzimos a notícia da Folha abaixo, a partir do portal, e sugerimos uma leitura crítica, uma análise e reflexão mais profunda sobre os dados e a interpretação do jornal. Afinal, de boas intenções o inferno está cheio...


Governo Dilma será igual ou melhor que Lula para 83%

Silvio Navarro
São Paulo
22/12/2010

A presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), fará um governo igual ou melhor que o do presidente Lula para 83% dos brasileiros, revela pesquisa Datafolha.

De acordo com o instituto, a expectativa de 53% dos entrevistados é que a gestão da petista seja similar à do antecessor. Outros 30% avaliam que ela se sairá melhor.

A estratificação do levantamento mostra que Dilma obtém seus melhores índices na fatia da população menos escolarizada, mais jovem e que declara renda mensal de até cinco salários mínimos.

Foram ouvidas em todo o país 11.281 pessoas, de 17 a 19 do mês passado.

A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Para 73%, o futuro governo de Dilma será ótimo ou bom. É o segundo percentual mais alto de expectativa sobre o mandato de um presidente eleito desde a redemocratização do país.

Em dezembro de 2002, a expectativa positiva sobre Lula era de 76%.

Os números de Dilma superam os do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) tanto no primeiro mandato (70%) como no segundo (41%). Fernando Collor (1990-92) obteve 71%.

Não foi feita pesquisa em 2006.

Os picos positivos foram demonstrados no Nordeste do país, especialmente em Pernambuco (78%), no Ceará (79%) e em Minas Gerais (80%). No Sul, o índice de otimismo cai para 68%.

PROMESSAS

O instituto sondou o percentual de confiança dos eleitores sobre o cumprimento de promessas de campanha. Uma parcela de 31% disse acreditar que ela cumprirá a maioria das promessas, outros 59% esperam que cumpra parte delas, e 6% acham que não realizará nenhuma.

Os números são similares ao que o brasileiro esperava de Lula em 2002. À época, 31% acreditavam que ele fosse cumprir suas promessas.

A diferença entre a expectativa em relação a Dilma e a que se tinha sobre o Lula está nas áreas de atuação de governo. Para 18% dos entrevistados, a gestão dela se sairá melhor na saúde. Em seguida, aparecem economia (12%) e educação (12%).

Quando se trata da expectativa sobre a área em que o novo governo terá o pior desempenho, destacam-se saúde (13%), combate à violência e segurança pública (13%).

Antes do primeiro mandato, 27% apostavam que a administração de Lula avançaria no combate ao desemprego, e 18%, na erradicação da fome e miséria. Para 10%, a economia declinaria.

Tanto Lula como Dilma marcam seus índices mais altos de "ruim ou péssimo" quando a expectativa é sobre o combate à corrupção (10% para ele, e 20% para ela).

A exemplo do que ocorreu em relação a Lula (43%), em 2002, agora os entrevistados acreditam que os "trabalhadores" serão os mais beneficiados pelo governo (33%).

Nos demais setores a serem beneficiados, no entanto, não há semelhanças. Em 2002, 14% citavam a agricultura, e 11%, a indústria, como áreas que seriam privilegiadas. Neste ano, aparecem políticos (13%) e bancos (10%).

Editoria de Arte/Folhapress

Folha.com

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Por que não um Brasil com Dilma e Lula?

"A bola está com a senhora, dona Dilma. Monte o seu time, que eu estarei na arquibancada, de camisa uniformizada, sem corneta, batendo palmas e nunca vaiando, sempre batendo palmas..."

Foi assim que o Presidente Lula respondeu a jornalistas que cobrem o governo em rápida entrevista no Palácio do Planalto, ao lado de Dilma, nos primeiros dias de novembro, logo após a vitória eleitoral de 31 de outubro. Lula deixou muito claro que não interferirá no governo Dilma, e que sempre estará ajudando, não criticando e desestabilizando, como apostam alguns.

Por outro lado, vemos na montagem do ministério que a presidenta eleita
tem mantido muitos ministros que serviram ao governo Lula, inclusive o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, unanimemente execrado na blogosfera. Isso tem provocado críticas de boa parcela da velha mídia, insinuando intervenção do presidente já na organização da nova equipe de governo.


                                                                                                   (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Ora, esses mesmos críticos sempre condenaram a inexperiência política da então candidata Dilma, e colocaram este fato como impeditivo para que fosse eleita para o posto mais importante do País.

Se falta experiência política à presidenta eleita, em Lula esse requisito sobra... Por que então, pensando no melhor para o Brasil, não aceitar algum aconselhamento do Presidente, não manter no comando ministros que tiveram um bom desempenho ou que garantem, talvez, alguma estabilidade, fazendo uma espécie de transição, sem mudanças drásticas num primeiro momento?

Como diria o Mino Carta, até o reino mineral sabia que Dilma foi escolhida para dar continuidade ao bem-sucedido e aprovadíssimo governo Lula. Qual o problema de nos primeiros tempos, enquanto a presidenta se aclimata, manter uma parcela considerável do ministério do seu antecessor?

Em seu pronunciamento ao povo brasileiro logo após confirmada a vitória no dia 31, Dilma, num agradecimento emocionado ao presidente, declarou de forma inequívoca que numa eventualidade não teria pejo de recorrer a Lula:

"Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito à sua porta, e tenho certeza e confiança que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade."


                                         (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O Brasil é mesmo um país sui-generis, peculiar, único. E dizem até que "Deus é brasileiro"...

Por que então, tendo uma dupla tão afinada, constituída por uma "gerentona" competentíssima e um "gênio" político, ambos dispostos a colocar todo o seu conhecimento, toda a sua aplicação, toda a sua capacidade de trabalho, a serviço do País, por que então o Brasil, que já revolucionou duas vezes, colocando um operário e uma mulher no comando do País, deveria abrir mão da possibilidade de contar ao mesmo tempo com ambos?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Brasil com Dilma e sem Lula

"Na minha cabeça funciona a seguinte tese: rei morto, rei posto", declarou o Presidente Lula na entrevista que concedeu no Planalto, junto de Dilma, dias depois da eleição.

O Abra a Boca, Cidadão! não tem motivos para desacreditar das palavras do Presidente da República, e desconfiar que seu comportamento como ex-presidente será diferente do que ele afirma agora.

O ABC! não tem motivo algum para dar crédito às declarações catastrofistas e apocalípticas do candidato derrotado Plínio Sampaio e da cientista política e comentarista Lucia Hippolito (ver posts anteriores), que auguram problemas para a Presidenta Dilma provocados pelo então ex-presidente Lula.

                                                                                          (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Lula amadureceu muito nos últimos 30 anos. Pessoalmente e politicamente. De líder sindicalista radical a estadista equilibrado, ponderado, respeitado internacionalmente. De inteligência extraordinária, conhece como ninguém cada palmo do terreno que  sua sucessora pisará. O "gênio do povo", como o chamou a economista Maria da Conceição Tavares, conhece como ninguém as garras afiadas da elite e da mídia conservadora que a serve...

Tendo consciência de tudo isso, e sabendo que os holofotes de todos os setores da sociedade, dos mais progressistas aos mais retrógrados, estarão a partir de primeiro de janeiro de 2011 focalizados na Primeira Mulher Presidente da República do Brasil, sua preferida, sua escolhida, sucessora e herdeira do seu legado, por que Lula contribuiria de alguma forma para a desestabilização do seu governo?

Como Ministra Chefe da Casa Civil, Dilma foi uma espécie de "Presidente Executiva", a chamada "gerentona do governo Lula", braço direito e mão de ferro do Presidente, cuidando das políticas todas, administrando, cobrando ministros, coordenando, monitorando... O "olho clínico" de Lula viu em Dilma pessoa da maior confiança e da maior competência. Daí sua escolha para dar continuidade a seu bem-sucedido governo.

A troco de quê o ex-presidente Lula tomaria qualquer atitude para comprometer o desempenho da Presidenta? Que interesse teria, qual vantagem Lula auferiria num eventual fracasso de sua sucessora?

O Abra a Boca, Cidadão! confia na sabedoria e maturidade política do Presidente Lula, reconhece e admira o amor do Presidente ao Brasil e ao povo brasileiro, aposta na competência política e gerencial da Presidenta Dilma e, diferentemente das más línguas, que investem e torcem por um rompimento entre Lula e Dilma, prefere acreditar que os dois saberão administrar com habilidade também o relacionamento institucional entre ambos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

"Previsões" sombrias para Dilma e o Brasil

"O que será do Brasil com Dilma e sem Lula"

Dando continuidade à série "O que será do Brasil com Dilma e sem Lula", inaugurada ontem, o ABC! tratará hoje da análise da "alma lulista" e do alerta para a presidenta eleita Dilma Rousseff, para o Brasil e para todos nós, feitos pela cientista política Lucia Hippolito, que vislumbra problemas após a posse.

                                                        (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Na semana que passou, na rádio CBN, Lucia Hippolito, em conferência matinal sobre o tema "A despedida de Lula", sugerido pelo âncora Heródoto Barbeiro, dissertou sobre as supostas dificuldades que o Presidente Lula vem demonstrando de deixar o Poder. Segundo a especialista na alma humana, sobretudo a alma lulista, o Presidente se transformou num "cantor das multidões", fazendo uma verdadeira turnê pelo País, com direito a inaugurações "até de pedra fundamental", discursos, lágrimas e todo tipo de comportamento ridículo, abominável e despropositado.

Numa outra conferência radiofônica vespertina, convidada a fazer sua apreciação sobre os 87% de aprovação do governo, Lúcia fugiu do tema, e em seus três minutos habituais, mesmo reconhecendo tal índice "um espetáculo", preferiu discorrer sobre as estranhas atitudes lulistas nos últimos dias. "O Presidente não está feliz, não está conseguindo curtir esse final do governo dele", decretou a cientista, afirmando que Lula tem se mostrado muito mesquinho e arrogante, toda hora criticando os derrotados da última eleição. Como de arrogância e mesquinharia ela entende bastante, talvez algum ensinamento possamos tirar de suas considerações...

O "Balanço de Governo 2003-2010" também foram alvo da sapiência de Lúcia, que ridicularizou o ato, chamando-o de "Pajelança no Palácio do Planalto" e "autolouvação"...

Segundo a grande cientista, Lula "não soube manter uma relação institucional com a Presidência", "transformou a Presidência numa coisa familiar" e age como se fosse continuar no Poder. "Ninguém gosta de perder as delícias do Poder", disse a especialista na alma lulista. O Presidente, que "parece um rei", tem uma "dificuldade pavorosa de deixar o cargo".

Depois de dissecar em três minutos (quanta leviandade!) a alma do Presidente Lula, que se colocou na posição de "Paizão do País", para surpresa dos seus milhões de ouvintes Lúcia declarou "não saber o que está acontecendo" com o Presidente (quanta modéstia!), mas alertou que em 3 de fevereiro, por exemplo, se Lula "não gostar do negócio [!], ele liga pra presidenta e diz: 'Dilma, isto aqui está tudo errado' "... E do alto de seu incontestável saber a cientista vaticinou: "O Presidente pode criar muitos problemas para a presidenta eleita".

Fiquemos atentos, então, todos nós, inocentes e ignorantes que votamos errado duas vezes: num presidente ridículo, que não sabe se comportar no mais alto posto do País, e numa presidenta frágil, fraca, sem personalidade, que permitirá que seu governo seja desestabilizado por um antecessor no mínimo inconveniente...

sábado, 18 de dezembro de 2010

O que será do Brasil com Dilma e sem Lula?

Faltam apenas 13 dias para a posse da presidenta eleita Dilma Rousseff e o encerramento do governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As especulações, prognósticos e exercícios de futurologia sobre o Brasil após a Era Lula já começam a pipocar na mídia e sobretudo na internet.

O que será do Brasil sem Lula? Dilma fará um governo bem-sucedido, continuando a administração exitosa do seu antecessor? Lula conseguirá "desencarnar" da presidência como vem "prometendo" e ficará realmente fora do governo, ou haverá sugestões, intervenções, interferências?  Como serão as relações Dilma-Lula? Lula se afastará mesmo ou apenas "dará uma trégua", se preparando para um novo mandato em 2014? Como reagirá o povo mais humilde diante da "perda" de seu líder? 

                                                                                                    (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Há muitas perguntas que podem ser feitas neste momento, enquanto balanços de governo, confraternizações, despedidas, organização de novo ministério e expectativas, cogitações e muito estresse ante o dia da posse estão em andamento. O Brasil "ferve", num natural clima festivo de final de ano potencializado pela simultânea troca de governo.

No entanto, vozes dissonantes, desafinando o coro da euforia e do contentamento, já se fazem ouvir...

Ontem o candidato derrotado à presidência, Plínio de Arruda Sampaio (Psol), concedeu entrevista ao Portal Terra, e se manifestou com muito pessimismo sobre as relações Dilma e Lula.

Segundo Plínio, Lula já interferiu na formação do governo e vai fazer o mesmo quando Dilma estiver no comando. "Não dou dois anos para que ela brigue com ele. Eu conheço bem o presidente. Ele vai tornar a vida da criatura impossível. Não dá para não brigar", afirmou.

Plínio, que na última campanha eleitoral deixou aflorar um lado cômico, histriônico, o que lhe rendeu muito sucesso e visibilidade na mídia, aposta num rompimento entre Lula e Dilma na metade do governo, após uns dois anos, pelo menos. "É o máximo que ela vai aguentar", segundo Plínio. "Ele não vai deixar ela em paz. Lula transformará a vida de Dilma num inferno", arrematou.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Dilma Rousseff é diplomada Presidente da República

"Conto com todos e todas. E todos e todas podem contar comigo..."


A ex-ministra Dilma Rousseff (PT) foi diplomada presidente da República pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na tarde desta sexta-feira. Com um discurso de seis minutos e meio, ela exaltou a figura do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ressaltou a importância da chegada de uma mulher ao posto mais alto de comando do País.
 
"Nesse momento em que recebo o diploma mais alto da democracia quero reparti-lo com cada brasileira e, em especial, com cada brasileira. Para dizer que, pelo Brasil, que conto com todos e todas. E que todos e todas podem contar comigo", afirmou Dilma.


Foto: Agência Estado
Do Portal IG