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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cidadão Lula fala para o mundo

O cidadão do mundo Luiz Inácio Lula da Silva, que participa em Dakar, no Senegal, da 11a. edição do Fórum Social Mundial, discursou hoje criticando países e líderes do G-20, grupo dos países mais ricos, e afirmando que a África precisa de oportunidades, não de ajuda.

Abaixo alguns trechos do pronunciamento do ex-presidente.

"Não pensem que lá [G-20] tem sensibilidade para o problema da fome, para os pobres do mundo. Só fomos chamados para as reuniões dos países ricos porque eles estavam em crise e precisavam da nossa ajuda."

"No Fórum nos reunimos para dizer que um outro mundo é possível e necessário. Esse é um sonho que não vamos abandonar nunca.”

“É cada vez mais forte a consciência de que o Consenso de Washington faliu. Aqueles que com arrogância nos davam instruções não evitaram a crise. Hoje somos parte essencial e incontornável da solução da crise internacional.”

"Até recentemente predominava a tese de que o desenvolvimento só era possível para uma pequena fatia da população, qualquer esforço para afrontar a pobreza era visto, e ainda o é, como assistencialismo e populismo. A história está se encarregando de desmentir essas teorias. Felizmente já não predomina a tese do estado mínimo, mas não podemos substituir um neoliberalismo que faliu por um nacionalismo primitivo e autoritário.”

“É hora de colocar o desenvolvimento e a democracia no centro da agenda africana e mundial.” 

"Não há soberania real sem soberania alimentar."

“Nos 29 países que visitei como presidente constatei a vitalidade com que esse continente irmão afirma seu desenvolvimento, sem ingerências externas e com democracia.”

“A África tem um futuro extraordinário, e esse futuro está chegando.”

Lula voltou a se desculpar pela escravidão no Brasil, como já havia feito em 2005. E pediu o reconhecimento de um estado palestino que seja “economicamente viável, socialmente integrado e que esteja em paz com Israel”.

“Mais do que ajuda, a África precisa de oportunidade.”

Apagão, Blecaute, Lambança do Diabo...

Escuridão, Queda de Energia, Interrupção, Desligamento automático...

O nome pouco importa.

Oito estados do Nordeste, 46 milhões de pessoas, ficaram às escuras por várias horas na madrugada de sexta-feira, 4. Milhares não puderam dormir pelo calor e pernilongos, pois não havia como ligar ar condicionado e ventiladores.

Problemas em hospitais, presídios, aeroportos, trânsito... Assaltos, ameaças de violência, clima de medo.

A mídia tradicional começou a falar em "apagão da Dilma", "apagão no governo Dilma". As primeiras vozes oposicionistas e oportunistas começaram a se levantar... Horas depois do problema e no momento em que a presidenta não aceita constrangimentos e ameaças e começa a colocar técnicos no comando de várias empresas do setor elétrico, há séculos dominadas por políticos.

Algumas manchetes nos portais jornalísticos do dia:

"Apagão atinge Nordeste do Brasil" (Jornal do Brasil)

"Apagão atinge várias capitais do Nordeste" (O Dia)

"Apagão no Nordeste deixa moradores sem água" (R7/Record)

"Apagão afeta 8 estados do Nordeste" (Rede TV!)

"Apagão afeta abastecimento de água e agências da Caixa em PE" (iG)

"Apagão atinge parte do Nordeste" (G1)

"Apagão atinge 8 estados do Nordeste" (Globo/Bom Dia Brasil)

"Falhas no sistema elétrico estariam por trás do apagão do Nordeste" (Band)

"Presidiário morre em Pernambuco em meio a tumulto durante apagão" (Estadão)

"Oposição culpa falta de qualificação por apagão no Nordeste" (Terra)

"Dilma soube do apagão de madrugada" (Estadão)

"Dilma ficou sabendo do apagão pela internet" (iG)

"Apagão: Nordeste às cegas" (O Globo)

"Dilma cobra providências sobre apagão do Nordeste" (O Globo)



Apagão Nordeste


No Tuiter, a hashtag #apagão figurou nos "trending topics"...

Nas primeiras horas da manhã, uma presidenta preocupada pediu explicações e providências ao ministro Lobão.

Ministro fez pronunciamento e deu entrevista.

Porta-voz da presidenta veio a público dar explicações.

Posts no Blog do Planalto...

Cadê a Blogosfera, perguntamos aqui, diante da ausência do assunto nos blogs ditos jornalísticos.

Os blogueiros continuaram tratando da Revolução no Egito, WikiLeaks, Lula, Battisti, regulação da mídia, PSDB, FHC...

No sábado, um blog de ativismo e variedades publicou um post falando mais do "apagão verdadeiro", o  tucano, em 2001.

Hoje o ministro das Minas e Energia se reune no Rio com várias autoridades ligadas ao setor elétrico para definir as causas do problema. Deve haver pronunciamento oficial.

Uma das linhas editoriais do Abra a Boca, Cidadão! é "Comunicação, Mídia e Poder". Vamos acompanhar o assunto na mídia. Não nos interessa, claro, a questão técnica. Mas o desdobramento do fato na mídia, nos meios políticos, na oposição, eventuais manipulações, buscando um desgaste no governo e na imagem da presidenta etc. etc.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Fórum Social Mundial Dakar 2011

"Um Outro Mundo É Possível"


Com esta divisa histórica, começa hoje em Dacar, Senegal, África, a 11a. edição do Fórum Social Mundial, espaço democrático caracterizado pela pluralidade e diversidade.

Movimentos sociais do mundo todo e organizações da sociedade civil mais uma vez se reunem para debater, refletir, partilhar experiências, formular propostas e alternativas em torno de 12 eixos temáticos.

O Governo Federal participa com a Secretaria Especial de Direitos Humanos, Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, Secretaria Especial de Mulheres, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério da Cultura, Ministério da Saúde, sob a coordenação do ministro Gilberto Carvalho da Secretaria Geral da Presidência da República.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, participará do Fórum, assim como o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva.

Abaixo, os 12 eixos temáticos que serão trabalhados no Fórum.



FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2011


FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2011


COMISSÕES E EIXOS TEMÁTICOS

Para este Fórum, organizações da sociedade civil e movimentos sociais de todo o mundo identificaram 12 eixos temáticos, em torno dos quais serão organizadas as atividades. São eles:
  1. Por uma sociedade humana fundada sobre princípios e valores comuns de dignidade, diversidade, justiça, igualdade entre todos os seres humanos, independentemente dos gêneros, culturas, idade, deficiências, crenças religiosas, condições de saúde, e pela eliminação de todas as formas de opressão e discriminação baseadas no racismo, xenofobia, sistema de castas, orientação sexual e outros.
  2. Por uma justiça ambiental e por um acesso universal e sustentável da humanidade aos bens comuns, pela preservação do planeta como fonte de vida, especialmente da terra, da água, das florestas, das fontes renováveis de energia e da biodiversidade, garantindo os direitos dos povos indígenas, originários, tradicionais, autóctones e nativos sobre seus territórios, recursos, línguas, culturas, identidades e saber.
  3. Pela aplicabilidade e efetividade dos direitos humanos - econômicos, sociais, culturais, ambientais, civis e políticos - especialmente os direitos à terra, à soberania alimentar, à alimentação, à proteção social, à saúde, à educação, à habitação, ao emprego, ao trabalho decente, à comunicação, à expressão cultural e política.
  4. Pela liberdade de circulação e de estabelecimento de todas e todos, mais particularmente dos migrantes e solicitantes de asilo, das pessoas vítimas de tráfico humano, dos refugiados, dos povos indígenas, originários, autóctones, tradicionais e nativos, das minorias, das pessoas sob ocupação, dos povos em situação de guerra e conflitos, e pelo respeito de seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais.
  5. Pelo direito inalienável dos povos ao patrimônio cultural da humanidade, pela democratização dos saberes, das culturas, da comunicação e das tecnologias, valorizando os bens comuns com o fim de visibilizar os saberes subjugados, e pelo fim do conhecimento hegemônico e da privatização dos saberes e das tecnologias, e por uma mudança fundamental do sistema de direitos de propriedade intelectual.
  6. Por um mundo livre dos valores e estruturas do capitalismo, da opressão patriarcal, de todas as formas de dominação por potências financeiras, das transnacionais e dos sistemas desiguais de comércio, da dominação colonial e por dívidas.
  7. Pela construção de uma economia social, solidária e emancipatória, com padrões sustentáveis de produção e de consumo e um sistema de comércio justo, com suas prioridades centradas nas necessidades fundamentais dos povos e no respeito à natureza, garantindo sistemas de redistribuição global com taxas globais e sem paraísos fiscais.
  8. Pela construção e ampliação de estruturas e instituições democráticas, políticas e econômicas – locais, nacionais e internacionais – com a participação dos povos nas tomadas de decisão e no controle dos assuntos públicos e dos recursos, respeitando a diversidade e a dignidade dos povos.
  9. Pela construção de uma ordem mundial baseada na paz, justiça e segurança humana, no direito, ética, soberania e autodeterminação dos povos, condenando as sanções econômicas a favor de regras internacionais sobre o comércio de armas.
  10. Pela valorização das histórias e lutas da África e da Diáspora e sua contribuição à humanidade, reconhecendo a violência do colonialismo.
  11. Pela reflexão coletiva sobre os movimentos sociais, o processo do Fórum Social Mundial e as perspectivas e estratégias para o futuro, garantindo suas contribuições à realização efetiva de um outro mundo possível e urgente para todos e todas.
  12. Pela interaprendizagem de paradigmas alternativos à crise da civilização hegemônica da modernidade/colonialidade eurocêntrica, por meio da descolonialidade e socialização do poder, especialmente nas relações entre Estado-Mercado-Sociedade; os direitos coletivos dos povos, a desmercantilização da vida e do "desenvolvimento", e a emergência de subjetividades e epistemologias alternativas ao racismo, eurocentrismo, patriarcado e antropocentrismo.

                                                                     Banner lateral FSM 2011

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Apagão também na blogosfera?

O assunto mais importante do noticiário nacional ontem foi o apagão-blecaute-interrupção de energia em oito estados do Nordeste nas primeiras horas da madrugada. E nas primeiras semanas do governo Dilma. O que seria um "prato cheio" para a oposição, as elites e a velha mídia.

Amanhecemos lendo a repercussão dos fatos nos portais informativos (iG, Terra, Estadão, Folha, G1, O Globo...), as medidas tomadas pelo governo, os contratempos gerados em vários estados, as possíveis causas do problema... antes de escrever nossos posts a respeito. Depois, sofremos aqui no bairro um "apagão tucano", ficamos sem energia elétrica quase o dia todo e só voltamos à internet no final da tarde.

A presidenta, ao que tudo indica, foi eficiente. Conhecedora profunda do sistema elétrico brasileiro desde que foi ministra das Minas e Energia, logo cedo chamou o ministro Edison Lobão para explicações, exigiu medidas de fiscalização e manutenção mais rigorosas  e determinou que o ministro viesse a público para pronunciamento e entrevista sobre eventuais causas e providências. 

O esclarecimento e o pronunciamento definitivos do governo serão dados, no entanto, na segunda-feira, após reunião do ministro das Minas e Energia com várias autoridades do setor elétrico.

Dois fatos chamaram nossa atenção: a velha mídia não teve muito interesse em usar o episódio para desgastar o governo, mantendo o destaque em seus noticiários para os conflitos no Egito. Pelo menos até o momento. E a blogosfera pouco ou nada postou a respeito.

O mais importante jornalista-blogueiro, salvo engano, não fez 1 post sequer sobre o assunto ao longo do dia de ontem. Nem seus colegas também jornalistas ligados a grandes redes de televisão.

O acontecimento do dia e seus desdobramentos para o governo Dilma não eram importantes para a blogosfera e seus leitores? O tratamento dado pela velha mídia não mereceria ao menos ser acompanhado? O apagão-blecaute-queda de energia pegou os blogueiros desprevenidos? Faltou agilidade na cobertura do fato?

O jornalismo dos blogs que se dizem jornalísticos sofreu também um "apagão"?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Falta energia e sobra politicagem

Depois de 6 (seis) horas de "apagão" em bairro da cidade de São Paulo, esta cidadã-blogueira pode retomar suas atividades na internet.

A AES Eletropaulo, consultada primeiramente por volta de 11 hs., informou que o corte de energia se devia a reparos previamente programados, e que o religamento estava previsto para as 14 hs. A cidadã-blogueira protestou, pois não havia sido comunicada, como é de praxe, e foi cuidar de outras atividades "offline"...

Por volta das 14:45 hs., ainda sem energia elétrica em casa, a cidadã-blogueira novamente ligou para a companhia energética, reclamando da informação errada que recebera, sendo informada que houvera problemas nos reparos e a nova previsão de religamento mudara para 18 hs.!!! Novo protesto da cidadã-blogueira e indagação se tal corte não teria relação alguma com o "apagão do Nordeste", se o restante da cidade estava normal... Silêncio do outro lado da linha... A atendente prefere não comentar.

Por volta das 16 hs., felizmente, a AES Eletropaulo errou na previsão, e o fornecimento de energia foi retomado.

O ministro das Minas e Energia fez um comunicado sobre a falta de energia em vários estados do Nordeste nesta madrugada, atribuindo a interrupção de fornecimento provavelmente a problemas técnicos numa estação em Pernambuco. O governo continua averiguando as causas do ocorrido.

No Blog do Planalto, no portal iG e em outros sites informativos os leitores encontrarão informações detalhadas sobre o problema, que gerou, claro, vários contratempos.

O ABC! vai acompanhar todos os desdobramentos, até porque, como já previsto aqui, será feito uso político do acontecimento pelos que estão sem palanque, sem holofotes e sem mídia: a velha e "boa" oposição, ou seja, ACMNeto, tucanoides & Cia.

Aviso aos navegantes: o ABC!, embora blog cidadão, defensor da ampla liberdade de expressão, não publica comentários contendo palavras chulas, vulgaridades, grosserias... endereçadas à presidenta Dilma ou a qualquer outro cidadão ou cidadã.

Dilma e o "apagão"...

Começando nosso dia de trabalho na "trincheira virtual", as primeiras notícias que lemos nos grandes portais não são nada alvissareiras.

Um apagão aconteceu nesta madrugada deixando vários estados do Nordeste sem energia elétrica algumas horas. Por conta disso, aconteceram tumultos, atos de vandalismo, pequenos roubos e outras ocorrências do tipo.

A Presidenta Dilma e os setores do governo responsáveis pela área ainda não se pronunciaram.

Os oportunistas de plantão, claro, já saíram exigindo explicações da presidenta e do ministro de Minas e Energia. A oposição deve entrar com algum pedido de CPI, provavelmente. Já que está sem palanque e precisa de holofotes...

Não nos esqueçamos que ontem a presidenta mostrou quem está no comando, não cedeu às pressões do deputado peemedebista Eduardo Cunha (RJ), que há séculos controla Furnas, e contrariando vários interesses nomeou um técnico, executivo da iniciativa privada, para a presidência da empresa.

Dilma quer "por ordem na casa", e os detentores de interesses espúrios podem estar com esse blecaute "mostrando as garras", medindo forças com a presidenta.

Apagão moral, político? Problemas técnicos, mesmo?

Vamos acompanhar o noticiário, as apurações e o pronunciamento oficial que deve vir nas próximas horas.

Por enquanto:

Presidenta Dilma, conte com todo o nosso apoio, desta blogueira e do Abra a Boca, Cidadão!

Não temos procuração para falar em nome de quem quer que seja, mas acreditamos que a "brava gente brasileira" que apoiou o governo do presidente Lula durante oito anos e que soberanamente colocou o comando do País em suas mãos não lhe faltará em nenhum momento.

Conte conosco! Estamos com a senhora, presidenta Dilma!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Mulheres revolucionárias

Assim como a presidenta Dilma, também participei da resistência contra a feroz e brutal ditadura militar (1964-1985), que levou 21 longos anos para ruir.

Anos mais nova, enquanto ela estava encarcerada e era barbaramente seviciada no início dos anos 70, eu ainda cursava o colégio estadual em bairro operário na periferia da cidade de São Paulo. 

Em meados da década de 70, cheguei à maior universidade brasileira. Foi nesse ambiente e nessa época, em que o movimento estudantil de resistência fervilhava, promovendo assembleias, atos públicos, passeatas, que passei a atuar contra o regime de exceção, dentro e fora da universidade.

Mais de uma década depois, no início da redemocratização do País, já na área editorial, fui convidada a estruturar uma editora de esquerda, e tive oportunidade de fazer a produção editorial de um livro importante na época, Rosa, a Vermelha, sobre a vida e a obra da revolucionária Rosa Luxemburgo. O filme da diretora Margarethe von Trotta que levou para as telas a vida e a trágica morte de Rosa estava para ser lançado no Brasil.

Olhando para trás por um momento... recordando aqueles "anos de chumbo", e voltando ao presente, pensando na presidenta Dilma, em sua história de vida, de perseguida, presa e torturada, senti alegria, contentamento, por ter vivido e estar vivendo momentos tão especiais na história brasileira.

Assim como Rosa, a presidenta manifestou sua indignação contra o arbítrio e o autoritarismo e começou sua militância revolucionária muito jovem, nos anos de colégio.

A biografia de Dilma nesse aspecto foi muito atacada na campanha eleitoral. Elites, mídia, setores mais retrógrados e conservadores não tiveram ou não quiseram ter a grandeza de reconhecer o extraordinário nos anos de guerrilheira da presidenta.


Presidenta Dilma Rousseff passa em revista as tropas das Forças Armadas após cerimônia no Congresso Nacional _(Brasília, DF, 01/01/2011) _Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
                                                                                              Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Para mim, o que foi condenado na história de vida de Dilma era e é, na verdade, o fundamento principal, o motivo maior para colocá-la na Presidência. Sua resistência corajosa ao arbítrio, sua superação dos traumas do cárcere e tortura, sua reconstrução de vida pessoal e profissional só podem ser fonte de orgulho e reverência para todos nós brasileiras e brasileiros civilizados.

Abaixo, reproduzo um texto introdutório que escrevi em 1988 para o capítulo que reune cartas selecionadas de Rosa Luxemburgo no livro Rosa, a Vermelha.



Revolução e humanismo


Revolucionária militante, teórica marxista, pensadora rigorosa, combatente incansável.

Quando se fala de Rosa Luxemburgo, pensa-se imediatamente num destes aspectos, fundamentais, certamente, na complexa personalidade desta mulher que marcou com a vida, a obra e a trágica morte a história da revolução e do movimento pelo socialismo no século XX.

Além de numerosos ensaios e artigos de caráter político-econômico, ainda hoje pouco ou mal conhecidos, Rosa Luxemburgo escreveu vários artigos sobre arte e literatura, e cartas, que só recentemente têm chegado ao conhecimento do público. E é sobretudo nas cartas que encontramos uma outra dimensão desta personalidade apaixonante: a mulher sensível, a amiga fiel, a amante apaixonada, o ser humano desconhecido.


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"A mais implacável energia revolucionária e a mais generosa humanidade, eis aquilo que inspira o verdadeiro socialismo. Um mundo deve ser arrasado, mas a mínima lágrima vertida que pudesse ter sido impedida é uma acusação."


Revolução e humanismo, dureza e ternura, racionalismo e sensibilidade, firmeza, indignação e rebeldia, temperados por romantismo, emoção e paixão - sua correspondência revela-nos a concepção de existência da revolucionária, e permite-nos divisar uma verdadeira escritora e uma mulher fascinante.

Também como escritora de cartas Rosa foi muito produtiva: escrevia aos pais, a cada um dos quatro irmãos, a amigos, camaradas e socialistas de toda a Europa, ora reafirmando/esclarecendo suas posições políticas, se indignando contra a exploração, a covardia e a injustiça, ora simplesmente manifestando sua dimensão sensível e sonhadora:

"Espero morrer no meu posto: numa luta de rua ou na prisão." (a Sônia Liebknecht)

"A revolução é grandiosa: tudo o mais não passa de bagatela." (a Emanuel e Mathilde Wurm)

"O mundo é tão belo apesar de todos os horrores e sê-lo-ia ainda mais se não houvesse sobre a terra poltrões e covardes." (a Mathilde Wurm)

"A passagem de sua carta que mais me causou prazer foi aquela em que você diz que somos ainda jovens e capazes de arrumar nossa vida pessoal. Oh, Dyodyo, meu adorado, como desejo que você mantenha a promessa! (...) Nosso pequeno apartamento, nossa mobília, nossa biblioteca; trabalho tranquilo e regular, passeios a dois, uma ópera de tempos em tempos, um pequeno, bem pequeno, círculo de amigos que podem algumas vezes ser convidados para jantar; todos os anos férias no campo, um mês sem nenhum trabalho! (...) E, talvez, um bebezinho também? Não poderemos, nunca? Nunca? Dyodyo, sabe o que me aconteceu de repente durante um passeio pelo Tiergarten? Sem exagero! De repente, uma criancinha, de três ou quatro anos, loura, bem-vestida, se plantou na minha frente, a me olhar. Invadiu-me uma compulsão de raptar a criança, fugir para casa e guardá-la para mim. Dyodyo, será que nunca terei um bebê?

Nunca mais brigaremos em casa, não é? Nosso lar precisa ser calmo e tranquilo como o das outras pessoas. Sabe o que me preocupa? Sinto que já estou velha e feia. Você não terá uma mulher bonita com quem possa passear de braço dado pelo Tiergarten. (...)

Dyodyo, querido! Ponho os braços ao redor de seu pescoço, beijo-o mil vezes. Gostaria, como sempre sonho, que você me erguesse em seus braços. Porém você sempre se recusa dizendo que sou muito pesada." (a Leo Jogiches, camarada e amante)

"E eu sorria para a vida na penumbra de meu cárcere, como se possuísse um segredo mágico, pelo qual tudo o que há de mau e de triste se transformaria em luz e felicidade." (a Sônia Liebknecht)

Engraçadas, duras, ternas, cáusticas, objetivas, românticas, irônicas, comoventes, vivas, sutis - sempre muito bem escritas, as cartas constituem uma importante fonte de conhecimentos a respeito da intelectual e da ativista política, da mulher inteligente e sensível, interessada em música, literatura, pintura, ciências naturais, ecologia etc., do ser humano de dimensão extraordinária que foi Rosa Luxemburgo.