Tradutor

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A "arroganciocracia" das castas incultas



MÁFIAS ou “V” conversa com a Ex-tátua da Justiça - 1

Vera Vassouras


Máfia - qualquer (qualquer) organização criminosa que usa métodos inescrupulosos, regida por princípios de segredos e silêncios solidários, com o fim de estabelecer leis próprias e buscar se manter no comando do poder constituído. (Houaiss, com alguns ajustes.)

O Brasil (observa a sabedoria popular) é governado por três máfias: a branca, da medicina, a vermelha, dos políticos, e a preta, dos juízes. Seu fundamento ocorre no mesmo período do advento da chamada demo-cracia. Na cidade antiga, reservada aos cidadãos com direito a voto (excetuando-se estrangeiros e escravos). Médicos, advogados e empresários transformam-se em políticos em causa própria e dos membros de sua espécie. Direitos para poucos, deveres para o resto. Privilégios para uns, deveres para outros, e todos sob a égide do que se convencionou denominar Cortes, Estaduais ou Supremas. Nascem nos moldes das realezas que tiveram suas cabeças poupadas pelos acordos com mercenários, pederastas e saqueadores, travestidos de revolucionários. Intocáveis, cada vez que sua “caixinha preta” está para ser aberta: a opinião publicada volta-se contra o legislativo, que faz seu jogo.

Enquanto isso, os médicos calam-se à espera da expansão dos mercados das doenças, pois o legislativo, no meio da opinião publicada, votará o aumento das áreas de transgenia. Aumentar os próprios salários é imoral, somente o Judi(ci)ário pode fazê-lo. Matar o sub-solo, disseminar doenças, destruir o meio ambiente, saquear diariamente o povo: “é legal”!

Especialistas na criação de leis (para isso são convidados especiais em encontros reservados) atuam por contradições e contra-senso, às vezes por meio de torturas físicas e mentais, técnicas inquisitoriais modernamente denominadas “processos e procedimentos”. Ungidos por deus, são os executores nativos das ordens das máfias, protegidos por “julgadores vitalícios de aluguel”. Quanto aos políticos-parlamentares, suas agremiações são compostas pelos membros das outras máfias, incluindo-se o que na antiguidade denominavam-se agregados, atualmente denominados assessores, funcionários ou, simplesmente “empresários”, gerados dos “meios” de comunicação, legalmente transferidos às máfias nacionais e internacionais, sob a insígnia da liberdade de mercado. Na intimidade continuam a se tratar como “irmãos”. Suas bases encontram-se espalhadas por todo o território nacional: Escolas, Igrejas, Faculdades, Ordens, Seminários, Seitas e Clubes de Investimentos e Beneficência. Católicos, apostólicos e romanos, mantendo íntima relação com o Império do qual são, querem e desejam ardentemente continuar fazendo parte, mesmo na qualidade de um simples soldado, adestrado, amorfo. Imagine-se uma das paupérrimas cidades da mais recôndita região do país. Não tem energia elétrica, não tem saúde, não tem saneamento, não tem, afinal, futuro. Todavia tem uma cadeia, um juiz, uma Câmara Municipal, um médico para atender as “famílias” e uma televisão (ligada a um gerador). Enrolam-se como serpentes numa cova, formando um espetáculo terrível ao olhar da inteligência. Não creditam em liberdade pois, vinculados a juramentos e segredos. São prisioneiros de irmandades medievais. Cortesãos, bajuladores e promíscuos. Não respeitam o indivíduo, pois não têm individualidade, só lhes resta a (in)consciência do grupo, do corpo, das membranas que os conforta e protege na aparência de “corpo-ração”. Vivem, em pleno século XXI, como animais ferozes. Espantalhos comandados por tradições pagãs metamorfoseadas pelas ordenações do Império Católico Apostólico e Romano e Bárbaro e pseudo-Brâmane e Ariano, portanto. Castas. Não há igualdade. Existem apenas por e pelas corpo-rações. Seu sistema: o hierárquico (1). Seu princípio: a autoridade (2). Seus instrumentos: o medo e a obediência. Sua finalidade: manter, a qualquer preço, a fé e a esperança na lógica da dominação: encarcerar, matar, torturar a todos os que se atreverem a manter a independência e a criatividade. Seu destino: nosso destino! E seja o que deus quiser!!!

Periodicamente, reúnem-se com os mais “notáveis” pela opinião publicada e redigem “princípios constitucionais de algum estado”, nos quais incluem todos os privilégios das cortes e, quando inquiridos, vestem-se com “cláusulas pétreas” e “direitos adquiridos” e escrevem livros, criam dogmas, seduzem platéias de sonâmbulos em seus “cafés filosóficos”. Promovem as mais antagônicas, contraditórias e ridículas “interpretações legais”, conduzindo a sociedade ao desespero. Criam falsos dilemas e com os “meios de comunicação” mantêm os “outros” em intermináveis discussões sem finalidade, crítica e sem conteúdo. Esperanças inúteis calcadas na fé de um “destino” que está fora das possibilidades humanas de modificação.

Médicos podem matar, parlamentares podem saquear, juizes podem torturar e, todos, políticos-médicos, políticos-parlamentares, políticos-juízes vivem às gargalhadas, (d)equilibrando-se sobre os cadáveres que vão deixando pelo caminho. Cadáveres de gentes, cadáveres de animais, cadáveres de árvores, homens e mulheres-cadáveres. Jovens? Mas, cadáveres. Máfias apresentando seu espetáculo civilizatório: crânios, ossos e hipnose coletiva. Além disso, essa tradição é hereditária. O político não é uma pessoa, é um parlamentar. O juiz não é uma pessoa: é um juiz. Um médico não é uma pessoa: é um médico. E sob seus argumentos científicos e, portanto, incontestáveis: ciências políticas, ciências médicas, todo o horror é permitido, todo clamor é conduzido, toda a vergonha se esconde por trás das cortinas do palco no qual a verdade foi proibida de adentrar.

A patologia é hereditária. E a massa só é chamada a partir do centro. Do centro para a periferia e, novamente, da periferia para o centro, neste circo fortalecido pela propaganda e pelos “engenheiros da educação” para o sistema e seu mercado.

Demo-cracia, ARROGÂN-CIO-CRACIA é o seu nome!

Arrogância de castas incultas, arrogância das máfias ainda protegidas por seus soldadinhos de chumbo. Arrogância virtual.

A verdade queima.

(1) Que se entenda por hierarquia, por exemplo, a luz do sol, a verdade inexpugnável, independente de nosso denominado sensualismo, jamais esta hierarquia vulgar e predatória.


(2) Que se entenda por autoridade a sabedoria, a consciência, a liberdade individual, jamais esta autoridade que pretende reduzir pessoas a classificações numéricas de exércitos especializados.


Vera Vassouras é advogada, Mestra em Filosofia do Direito, professora universitária, tradutora e escritora, autora de O mito da igualdade jurídica no Brasil - Notas críticas sobre a igualdade formal.


*

Eliana Calmon: "Desafinando o Coro dos Contentes"



A democracia é barulhenta. Indignados nas praças e ruas, "botando a boca no trombone", abrindo a boca cidadã...


Na semana que passou, curiosamente, o embate não veio das manifestações do povo indignado nas praças e ruas, mas brotou nos gabinetes, nos palácios. E daí chegou à velha mídia, quem diria?!... Alvíssaras!


Instalado o embate público entre a Banda Boa e a Banda Podre do Judiciário, entre a turma do "deixa como está pra ver como é que fica" e o pessoal do "Cansei da Bandidagem Togada", a sociedade, surpresa, assistiu e participou.


                                                                 Ministra Eliana Calmon  
                                                         Corregedora Nacional de Justiça


Isso é só o começo.


Há que continuar "desafinando o coro dos contentes".


O ABC! veio para isso. E apoia incondicionalmente a ministra-corregedora-guerreira, a atuação ampla do Conselho Nacional de Justiça e a moralização do Judiciário.


Viva a Democracia! Viva a Liberdade de Expressão!


Por um Judiciário aberto, moderno, não elitista, transparente e cidadão! 


Viva o barulho
A democracia é barulhenta. Movimenta-se. Não é paralítica, como diz Machado de Assis em crônica famosa do fim do século XIX.
Sob essa premissa é que Wadih Damous, presidente da OAB-RJ, analisa o cenário brasileiro, em que casos de corrupção se multiplicam e é destampado o conflito sobre a competência de o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) agir como órgão correcional. Conflito iluminado pela ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça, que rasgou o manto da hipocrisia: “Há bandidos escondidos atrás da toga”.
Damous fala dessa situação conturbada em que se insere a ministra.
“A democracia faz com que isso venha à tona. Essas práticas também aconteciam na ditadura, só que não havia Ministério Público livre, Congresso livre e, ademais, a imprensa estava amordaçada.”
Ele prossegue: “A impressão é de que só acontece agora. Mas o que vemos é algo arraigado na administração pública desde a Colônia. O importante é que órgãos como o CNJ possam punir aqueles que se desviam da ética ou praticam irregularidades nas suas funções”.
Viva o barulho! Abaixo o silêncio!

Ministro do STF: "O Judiciário precisaria ser reinventado"



Nesse momento em que a sociedade brasileira assiste e por vezes participa do embate entre a Banda Boa e a Banda Podre do Judiciário, vale a pena ler de novo entrevista do ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, há quase dois anos.



DOMINGO, 3 DE JANEIRO DE 2010

A toga já não esconde o aleijão

Do Blog Gilson Sampaio


O Ministro Joaquim Barbosa nada mais faz do que corroborar a avaliação que o povo faz do judiciário na pequena entrevista abaixo. Na wikipedia pode-se ler um pouco de sua notável biografia. Não será surpresa se o PIG, tucanodemos, FIESP/DASLU, trogloditas golpistas e torturadores de plantão tentarem ‘impixar’ o Ministro que não é branco e nem tem olhos azuis. Ah! sim, na genealogia do Ministro não há sinais de sangue nobre europeu.

A justiça brasileira não passa de uma matriz de um clube fechado, só acessível a ricos e poderosos, com franquias espalhadas pelo país. Há exceções, que o Ministro Joaquim Barbosa representa com muita dignidade. Ainda assim, são acossados, tal como o Juiz De Sanctis, que virou réu no processo contra o escroque Daniel Mendes.

A justiça está nua, a toga não consegue mais esconder o padrão que nos países ditos civilizados é só desvio.

A justiça do país é um só aleijão.

*****

"O Judiciário teria de ser reinventado"


Ministro do STF diz que juízes têm responsabilidade pelo aumento da corrupção

O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), há dois anos ganhou notoriedade por relatar o processo do mensalão do PT e do governo Lula. Em 2009, convenceu os colegas a abrir processo contra o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) para apurar se ele teve participação no mensalão do PSDB mineiro. Em entrevista ao GLOBO, Joaquim não quis comentar o mensalão do DEM, que estourou recentemente no governo de José Roberto Arruda, do Distrito Federal. Mas deixou clara sua descrença na política e sua dificuldade para escolher bons candidatos quando vai votar. E o ministro, de 55 anos, não poupou nem os tribunais: "O Judiciário tem uma parcela grande de responsabilidade pelo aumento das práticas de corrupção em nosso país".

Entrevista a Carolina Brígido – O Globo

Por que aparecem a cada dia mais escândalos envolvendo políticos? A corrupção aumentou ou as investigações estão mais eficientes?

JOAQUIM BARBOSA: Há sim mais investigação, mais transparência na revelação dos atos de corrupção. Hoje é muito difícil que atos de corrupção permaneçam escondidos.

O senhor é descrente da política?

JOAQUIM: Tal como é praticada no Brasil, sim. Porque a impunidade é hoje problema crucial do país. A impunidade no Brasil é planejada, é deliberada. As instituições concebidas para combatê-la são organizadas de forma que elas sejam impotentes, incapazes na prática de ter uma ação eficaz.

A quais instituições o senhor se refere?

JOAQUIM: Falo especialmente dos órgãos cuja ação seria mais competente em termos de combate à corrupção, especialmente do Judiciário. A Polícia e o Ministério Público, não obstante as suas manifestas deficiências e os seus erros e defeitos pontuais, cumprem razoavelmente o seu papel. Porém, o Poder Judiciário tem uma parcela grande de responsabilidade pelo aumento das práticas de corrupção em nosso país. A generalizada sensação de impunidade verificada hoje no Brasil decorre em grande parte de fatores estruturais, mas é também reforçada pela atuação do Poder Judiciário, das suas práticas arcaicas, das suas interpretações lenientes e muitas vezes cúmplices para com os atos de corrupção e, sobretudo, com a sua falta de transparência no processo de tomada de decisões. Para ser minimamente eficaz, o Poder Judiciário brasileiro precisaria ser reinventado.

Qual a opinião do senhor sobre os movimentos sociais no Brasil?


JOAQUIM: Temos um problema cultural sério: a passividade com que a sociedade assiste a práticas chocantes de corrupção. Há tendência a carnavalizar e banalizar práticas que deveriam provocar reação furiosa na população. Infelizmente, no Brasil, às vezes, assistimos à trivialização dessas práticas através de brincadeiras, chacotas, piadas. Tudo isso vem confortar a situação dos corruptos. Basta comparar a reação da sociedade brasileira em relação a certas práticas políticas com a reação em outros países da America Latina. É muito diferente.

Como deviam protestar?

JOAQUIM: Elas deviam externar mais sua indignação.

É comum vermos protestos de estudantes diante de escândalos.

JOAQUIM: O papel dos estudantes é muito importante. Mas, paradoxalmente, quando essa indignação vem apenas de estudantes, há uma tendência generalizada de minimizar a importância dessas manifestações.

A elite pensante do país deveria se engajar mais?

JOAQUIM: Sim. Ela deveria abandonar a clivagem ideológica e partidária que guia suas manifestações.

O próximo ano é de eleições. Que conselho daria ao eleitor?

JOAQUIM: Que pense bem, que examine o currículo, o passado, as ações das pessoas em quem vão votar.

Quando o senhor vota, sente dificuldade de escolher candidatos?

JOAQUIM: Em alguns casos, tenho dificuldade. Sou eleitor no Rio de Janeiro. Para deputado federal, não tenho dificuldade, voto há muito tempo no mesmo candidato. Para governador, para prefeito, me sinto às vezes numa saia justa. O leque dos candidatos que se apresenta não preenche os requisitos necessários, na minha opinião. Não raro isso me acontece. Não falo sobre a eleição do ano que vem, porque ainda não conheço os candidatos.

*

sábado, 1 de outubro de 2011

Eliana Calmon, a "bandidagem togada" e o fundo do poço



Chegamos ao fundo do poço, segundo a ministra-corregedora Eliana Calmon, do Conselho Nacional de Justiça. Vivemos um "abismo". Há no Brasil um "esgarçamento ético", uma "intimidade indecente entre cadeias de poderosos", e a sociedade já está mostrando muita "impaciência" com isso.


O Brasil precisa fazer uma escolha, se quer sobreviver como nação civilizada.


Não dá mais para conviver com a corrupção desenfreada. Muito menos dentro do poder que deveria estar a serviço da legalidade.


Doa a quem doer, o Judiciário tem que passar por uma "limpeza pesada".


Esta semana assistimos e participamos do embate entre a banda boa e a banda podre do Judiciário. Na semana que vem tem mais, quando o Supremo Tribunal Federal se pronunciará a respeito das restrições que parte da magistratura tenta impor ao CNJ.


De que lado ficará a mais alta Corte de Justiça do Brasil ?


Esta blogueira e o ABC! apoiam incondicionalmente a ministra-corregedora-guerreira em sua luta pela moralização do mais arcaico, retrógrado e oligárquico dos poderes.


Por um Judiciário aberto, transparente, moderno, não-elitista, democrático e cidadão!


Ouçam o áudio de trecho da entrevista da ministra.






Link do vídeo-áudio


*

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Judiciário Imperial: na contramão da sociedade brasileira



Eles se consideram acima do Bem e do Mal. Intocáveis. Semideuses. Ou quem sabe um Reino Angelical.


Mas... segundo a Corregedora Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, em entrevista na última terça-feira, não é bem assim... No Judiciário há infiltração de "bandidos que estão escondidos atrás das togas". E reiterou no dia seguinte, se recusando a uma retratação: "Eu quero é proteger a magistratura dos bandidos infiltrados"...


Esta expressão "bandidagem togada", empregada por quem sabe do que está falando, provocou um caos, um rebuliço, uma crise no Judiciário, um "atracamento verbal" entre o Imperial Presidente do Supremo, ministro Cezar Peluso, que divulgou até nota de repúdio, e a corajosa ministra-corregedora, que mostrou não temer poderosos.


O Brasil mudou. Está mudando. Avançando. E esta casta retrógrada e arrogante não se deu conta.


Abaixo, mais uma contribuição ao debate-embate que se estabeleceu na sociedade: entre o aberto e o fechado, entre a modernidade e o arcaico, entre o democrático e o oligárquico, entre o público e o privado. Entre o imprescindível e o abominável. 


Indicação: Vera Vassouras*



Judiciário que se acha acima do bem e do mal no olho do furacão

Onda encrespada de indignação adia decisão do STF contra controle da sociedade sobre seus atos


Eu não tenho que me desculpar. Estão dizendo que ofendi a magistratura, que ofendi todos os juízes do país. Eu não fiz isso de maneira nenhuma. 
Eu quero é proteger a magistratura dos bandidos infiltrados”.
“As portas estão se fechando. Parece haver um complô para que não se puna ninguém no Brasil.”
"A quase totalidade dos 16 mil juízes do país é honesta, os bandidos são minoria. Uma coisa mínima, de 1%, mas que fazem um estrago absurdo no Judiciário"


Eliana Calmon, 66 anos, ministra do STJ, corregedora do CNJ.


“A associação sempre defendeu que o CNJ tem que exercer um controle externo da magistratura, e é imprescindível para esse controle que o conselho tenha uma função correcional e fiscalizatória. Há embasamento constitucional para isso e não é possível que, principalmente os órgãos de segunda instância, exerçam sua atividade sem fiscalização. E mais, com relação aos juízes de primeira instância, o CNJ interferindo, pode garantir a independência desses juízes se houver abuso ou excesso pelas Corregedorias.”


Juiz José Henrique  Rodrigues Torres, presidente da Associação Juízes para a Democracia.


O folclore forense tem duas pérolas emblemáticas: uma diz que o bom advogado conhece as leis, o ótimo advogado conhece os magistrados; outra, que os juízes se acham deuses, os desembargadores têm certeza.


Tais peças caem como luvas nessa extravagante polêmica sobre o papel do Conselho Nacional de Justiça, que o corporativismo dos intocáveis quer abaixo de zero, já que, de fato, ele não é nem a sombra do que se esperaria de um órgão capaz de inibir o perigoso absolutismo judicante.


Perigo explicitado em letra de forma pela ministra Eliana Calmon, cujas palavras sensatas ecoaram em todas as páginas de leitores do país, numa onda encrespada, muito mais incisiva do que as encenações de ONGs profissionais, que, curiosamente, tentam fazer o povo acreditar que a corrupção é restrita à classe política.


Tanto barulho por quase nada
  
Na verdade, desembargadores e juízes pilhados em delitos tão lesivos que lhes custaram o constrangimento da prisão têm na aposentadoria com todas as vantagens a maior punição no âmbito do CNJ, criado pela Emenda Constitucional  n° 45, de 30 de dezembro de 2004.  Em seus seis anos de existência, o órgão, que é presidido pelo próprio chefe do Poder Judiciário, aplicou apenas 50 punições até hoje: 24 magistrados foram aposentados compulsoriamente, 15 afastados liminarmente, 6 colocados à disposição, 3 removidos e 2 censurados.


O CNJ é o acanhado arremedo do que seria um indispensável órgão de controle do Poder Judiciário e isso se deve à sua própria composição: dos 15 conselheiros, 9 são magistrados, o que levou, em março de 2008, Paulo Lobo, então representante da OAB, a afirmar que só uma composição paritária – magistrados e não magistrados – garantiria a consecução do seu desiderato.


As favas contadas contra a Constituição


Não obstante, apesar do circunscrito poder de punição, a busca de blindagem contra os malfeitos no Judiciário parecia favas contadas se não fosse o grito pungente da ministra Eliana Calmon. Se entrasse em pauta na fatídica quarta-feira, 28 de setembro, pelo menos 35 desembargadores faltosos seriam reabilitados num passe de mágica. Entre eles, alguns já punidos, que anulariam as decisões do CNJ e voltariam a seus lugares como se o STF tivesse passado uma borracha em suas trapaças.


A alegação da Associação dos Magistrados Brasileiros é inacreditável porque as funções do CNJ estão inscritas na própria Constituição Federal, a partir da aprovação da Emenda 45.


O parágrafo 4º do seu artigo 103-b define claramente as atribuições do Conselho Nacional de Justiça. Em seu inciso III, estabelece-se como uma delas “receber e conhecer das reclamações contra membros ou órgãos do Poder Judiciário, inclusive contra seus serviços auxiliares, serventias e órgãos prestadores de serviços notariais e de registro que atuem por delegação do poder público ou oficializados, sem prejuízo da competência disciplinar e correicional dos tribunais, podendo avocar processos disciplinares em curso e determinar a remoção, a disponibilidade ou a aposentadoria com subsídios ou proventos proporcionais ao tempo de serviço e aplicar outras sanções administrativas, assegurada ampla defesa”.


A exigência de uma investigação prévia a nível de corregedorias locais não passa de um expediente procrastinatório e, como declarou a ministra Eliana Calmon, “é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga."


Tolerância corporativa acima de tudo


São fartos os exemplos de tolerância corporativa em todos os tribunais. Mas uma investigação de 2004 no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desencadeada a propósito do escândalo envolvendo a disputa pelo controle da Brasil Telecom, é uma peça emblemática.


Então, denúncias do escritório Andrade & Fichtner levaram à nomeação de uma comissão integrada por três ex-presidentes do TJ-RJ, que detectou fraudes em distribuições dirigidas de 11 processos, todos envolvendo grandes somas de dinheiro. 


Ao final da investigação, apenas 4 funcionários subalternos foram punidos. De posse do relatório, que citava 7 desembargadores, sem imputar-lhes culpas, o presidente do TJ-RJ, Miguel Pachá, informou que remeteu o caso para o Ministério Público. “Só o ministério público pode investigar”, afirmou. Segundo Pachá, o tribunal foi “até o limite que a lei permitia”, uma vez que “a lei não permite que a Justiça investigue”. Depois, não se falou mais nisso e a investigação ganhou o caminho da sepultura.


Ao assumir, a corregedora já sabia onde pisava


Não é de hoje que a ministra Eliana Calmon, bacharel da inquieta turma de Direito da Universidade Federal da Bahia de 1968, denuncia o ambiente deletério no âmbito do Judiciário.


Há exatamente um ano, no dia 27 de setembro de 2010, pouco depois de assumir a Corregedoria do CNJ, ela foi incisiva em entrevista a uma revista semanal:


  1. “Não é incomum um desembargador corrupto usar o juiz de primeira instância como escudo para suas ações. Ele telefona para o juiz e lhe pede uma liminar, um habeas corpus ou uma sentença. Os juízes que se sujeitam a isso são candidatos naturais a futuras promoções. Os que se negam a fazer esse tipo de coisa, os corretos, ficam onde estão”.
  2. “Hoje é a política que define o preenchimento de vagas nos tribunais superiores, por exemplo. Os piores magistrados terminam sendo os mais louvados. O ignorante, o despreparado, não cria problema com ninguém porque sabe que num embate ele levará a pior. Esse chegará ao topo do Judiciário”.
  3. “Recentemente, para atender a um pedido político, o STJ chegou à conclusão de que denúncia anônima não pode ser considerada pelo tribunal”.
  4. “Se a Polícia Federal recebe a denúncia, investiga e vê que é verdadeira, e a investigação chega ao tribunal com todas as provas, você vai desconsiderar? Tem cabimento isso? Não tem. A denúncia anônima só vale quando o denunciado é um traficante? Há uma mistura e uma intimidade indecente com o poder”.
Um guarda-chuva para  atitudes pouco recomendáveis


A preocupação da Associação de Magistrados em esvaziar o CNJ tem muito a ver com o mau comportamento de muitos dos seus integrantes. Hoje mesmo, o respeitado colunista esportivo Juca Kfouri cita reportagem do jornalista Marcelo Auler, do LANCE, para informar que a CBF está patrocinando um torneio de futebol entre juízes federais espalhados pelo país na Granja Comary, com tudo pago pela entidade.


“Não é a primeira vez que a CBF faz gentilezas a magistrados, porque ficaram famosos os vôos da alegria por ela promovidos nas Copas do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, e em 1998, na França, quando até desembargadores da Justiça do Rio de Janeiro, com suas mulheres, foram convidados da CBF em hotéis cinco estrelas” – observa Kfouri.


Depois de lembrar que há na Justiça vários processos envolvendo a CBF, ele acentua: “Ricardo Teixeira já foi condenado, em agosto de 2000, a seis anos de reclusão por prestar informações falsas às autoridades fazendárias, mas a sentença ficou por tanto tempo para ser decidida no STJ (Superior Tribunal de Justiça) que, quando foi, o crime já estava prescrito e ele se livrou da condenação”.


Faz pouco, o jovem ministro José Antonio Dias Toffoli faltou a um julgamento no STF  para participar do casamento do advogado criminalista Roberto Podval na ilha de Capri, no sul da Itália.


Os noivos ofereceram aos cerca de 200 convidados dois dias de hospedagem no Capri Palace Hotel, um cinco estrelas cujas diárias variam de R$ 1,4 mil a R$ 13,3 mil. Toffoli é relator de dois processos nos quais Podval é patrono dos réus. Antes, atuou em pelo menos outros dois casos de clientes de Podval.


Em 2006, - Mais de 40 juízes desfrutaram o feriado de 7 de Setembro numa praia da Bahia, com tudo pago pela Febraban – Federação Nacional dos Bancos. No mesmo ano, conforme relato do jornalista Fernando Rodrigues, a Associação dos Magistrados Brasileiros realizou seu 19º Congresso, em Curitiba, exibindo o patrocínio do Bradesco, Vale do Rio do Doce, Banco do Brasil, Nestlé e Volkswagen. “Essas empresas têm algo em comum. São partes em ações na Justiça. O patrocínio pode não garantir a elas julgamentos camaradas. Mas revela o abismo entre certas instituições e a sociedade” – escreveu Rodrigues.


“Poder Judiciário precisa ser reinventado”


Em entrevista à jornalista Carolina Brígido, em 3 de janeiro de 2010, o ministro Joaquim Barbosa, do STF, também reclamou do envolvimento do Poder Judiciário na sustentação do ambiente de corrupção em nosso país.


Falo especialmente dos órgãos cuja ação seria mais competente em termos de combate à corrupção, especialmente do Judiciário. A Polícia e o Ministério Público, não obstante as suas manifestas deficiências e os seus erros e defeitos pontuais, cumprem razoavelmente o seu papel. Porém, o Poder Judiciário tem uma parcela grande de responsabilidade pelo aumento das práticas de corrupção em nosso país. A generalizada sensação de impunidade verificada hoje no Brasil decorre em grande parte de fatores estruturais, mas é também reforçada pela atuação do Poder Judiciário, das suas práticas arcaicas, das suas interpretações lenientes e muitas vezes cúmplices para com os atos de corrupção e, sobretudo, com a sua falta de transparência no processo de tomada de decisões. Para ser minimamente eficaz, o Poder Judiciário brasileiro precisaria ser reinventado”.


O grito juvenil e valente da ministra Eliana Calmon, de 66 anos, tem tudo para ser um basta no ambiente de impunidade que tem no Judiciário numerosos usuários. De imediato, provocou os sentimentos de uma população que já não aguenta saber que para muitos advogados suas causas dependem da natureza do julgador e não do teor do seu arrazoado.


Hoje, são 70 milhões de processos que se arrastam numa berlinda desigual em que só existem prazos para as partes e cujos destinos estão entregues ao império da hermenêutica, onde  o instituto da liminar se vulgarizou num varejo atormentador,  sob o signo do costume inercial de que “decisão judicial não se discute, cumpre-se”.


A maioria do Supremo quer cristalizar esse ambiente. Na quarta-feira, deparou-se com a indignação generalizada dos cidadãos e deu um breque. Mas nada garante que não sacie a corporação com o mesmo protetor impermeável, ainda que camuflado sob a égide do sofisma e da malícia.

Consumando esse propósito, estará inviabilizando de vez o controle externo da sociedade sobre os atos do Poder Judiciário.

Blog do Pedro Porfírio


*Vera Vassouras é advogada, Mestra em Filosofia do Direito, professora universitária, tradutora, escritora, autora do livro O mito da igualdade jurídica no Brasil - Notas críticas sobre a igualdade formal e de diversos artigos.

Juízes chamam atuação do CNJ de "mordaça"



Os números são estarrecedores! E falam por si. Não é à toa que a Associação dos Magistrados Brasileiros pretende colocar restrições à atuação do Conselho Nacional de Justiça pela Adin que deverá ser apreciada na próxima semana no Supremo Tribunal Federal.


Vejam transcrição de trecho de notícia do Globo Online, com destaques do ABC!:


"SÃO PAULO - O número de magistrados condenados pela Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) este ano representa 1,3% dos casos arquivados no mesmo período. Segundo a assessoria do TJ, de 1º de janeiro até 21 de setembro, houve 460 arquivamentos de representações contra magistrados paulistas. Foram aplicadas penalidades em seis casos.

De 2000 a 2011, houve 5.943 arquivamentos, e foram aplicadas penalidades em 89 casos. O número de arquivamentos de representações contra juízes e desembargadores foi maior em 2009, quando chegou a 720.

A maioria dos juízes paulistas recebeu penas leves. Das 89 condenações, foram aplicadas 36 advertências, 36 censuras, cinco remoções compulsórias (de uma vara para outra), e 11 foram postos em disponibilidade (o juiz é suspenso por até dois anos e recebe salário-base, sem benefícios). Só um juiz foi aposentado compulsoriamente."

Abaixo, nota da AMB na qual procura explicar ao cidadão brasileiro suas posições em defesa de juízes e desembargadores.



"Não aceitamos ficar amordaçados, sem independência de julgar", diz AMB em nota



RIO - A Associação de Magistrados Brasileiros (AMB) divulgou nesta sexta-feira uma nota em que não defende a extinção do poder disciplinar do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), "e sim requer a preservação do respeito aos preceitos constitucionais, que outorgam aos Tribunais de Justiça autonomia para julgar os Magistrados".


No texto, divulgado pela entidade para "esclarecer objetivos de ação contra resolução do CNJ", o presidente da entidade diz ainda que o Conselho deve manter sua função fiscalizadora e não ampliar seu poder disciplinar.


"O Conselho tem que atuar dentro de sua competência constitucional, pois não é mais um tribunal. Não se pode mudar a Constituição por uma resolução. Não aceitamos ficar amordaçados, sem independência de julgar", escreveu o presidente da AMB, Nelson Calandra, na nota.


Leia a íntegra:

"AMB esclarece objetivos de ação contra Resolução do CNJ

A Ação Direta de Inconstitucionalidade ajuizada pela AMB, no dia 16 de agosto, contra a Resolução 135, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), não pretende extinguir ou limitar o poder disciplinar do Órgão, conforme tem sido difundido, por alguns setores, na Imprensa. A Associação defende que o Conselho cumpra suas atribuições, de acordo com o disposto na Constituição Federal.

Ao CNJ, cabe fiscalizar a atuação das Corregedorias dos Tribunais Estaduais e somente utilizar seu poder disciplinar quando elas não estiverem, comprovadamente, funcionando dentro dos parâmetros estabelecidos pela legislação. Esse, inclusive, era o entendimento apoiado pela AMB e aplicado pelo próprio Conselho, em sua primeira composição.

Foi por considerar que a Resolução 135 modificou e distorceu a interpretação do texto constitucional com relação a sua competência que a AMB resolveu questionar o dispositivo, aprovado pelo Conselho no dia 15 de julho. Como principal argumento constitucional, sustentado pela Associação na ADI, está a possibilidade de o CNJ impor sanções aos Magistrados, desde que seja observada, primeiramente, a competência dos Tribunais.

A Resolução 135 autoriza o CNJ a processar os Magistrados, independentemente, de que as Corregedorias dos Tribunais Estaduais o façam. Entre as penas previstas, estão advertência, censura, remoção compulsória, disponibilidade, aposentadoria compulsória e demissão. A AMB ressalta, ainda, que o Conselho Nacional de Justiça não tem competência para alterar os critérios estabelecidos pela Constituição Federal.

Caso a Resolução 135 seja mantida, ocorrerá ainda que o CNJ - o qual possui função constitucional para atuar em ações de planejamento, coordenação, controle administrativo e aperfeiçoamento da Justiça brasileira - passe a ser também uma espécie de Tribunal.

Em respeito ao Estado Democrático de Direito e para garantir a independência de julgar dos Magistrados brasileiros, é que a AMB espera uma resposta positiva do Supremo Tribunal Federal no julgamento da questão, prevista para a próxima semana. Reitera-se que a Associação não defende a extinção do poder disciplinar do CNJ, e sim requer a preservação do respeito aos preceitos constitucionais, que outorgam aos Tribunais de Justiça autonomia para julgar os Magistrados.

Para a AMB, o Conselho deve manter sua função fiscalizadora e não ampliar seu poder disciplinar. De acordo com o Presidente Nelson Calandra, o objetivo não é cercear o CNJ. "O Conselho tem que atuar dentro de sua competência constitucional, pois não é mais um tribunal. Não se pode mudar a Constituição por uma resolução. Não aceitamos ficar amordaçados, sem independência de julgar", argumentou.

O Globo Online



*