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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O QUE QUER A FOLHA DE S. PAULO?

Em qualquer país do mundo civilizado, uma pessoa que enfrenta corajosamente uma feroz e sanguinária ditadura militar, como o fez Dilma Rousseff aos vinte e poucos anos, sendo barbaramente torturada, é motivo de reverência, de respeito, de orgulho nacional.

Para o jornalismo nefasto perpetrado pela Folha de S. Paulo, ao que tudo indica, a presidente eleita Dilma Rousseff deve receber tratamento oposto, sendo publicamente execrada, vilipendiada.

O que quer a raivosa Folha de S. Paulo, na sua sanha para obter acesso aos autos da ação contra Dilma? Como este enfurecido jornal usará as informações contidas no processo? De um veículo de comunicação que apoiou os algozes pode-se esperar alguma dignidade em relação à vítima?

O artigo reproduzido abaixo, publicado no blogue Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha, analisa este fato gravíssimo e suas eventuais consequências para a estabilidade institucional e para o próprio jornal.

Qual será a manchete da Folha?


Publicado em 17/11/2010   Vi o Mundo  http://www.viomundo.com.br/

por Mair Pena Neto, em Direto da Redação


Qual será a manchete da Folha de S.Paulo quando tiver acesso aos autos do processo da ditadura contra a presidente eleita Dilma Rousseff, garantido pelos ministros do Superior Tribunal Militar? “Dilma participou do assalto a cofre de Ademar de Barros”, “Dilma tomou parte de assalto a banco que resultou na morte de inocentes”, “Dilma delatou companheiros”?

Qualquer que seja a escolha do jornal paulista diante do que poderá constar no processo, qual será a intenção de publicá-la? Fiz a mesma pergunta aqui neste espaço, antes do segundo turno das eleições presidenciais, quando estava evidente o objetivo da Folha de tentar interferir na votação de 31 de outubro com algum fato que pudesse macular a imagem da então candidata. E a repito agora, com Dilma eleita, para tentar compreender até onde está disposto a ir o jornal na sanha de deslegitimar a candidata escolhida pela maioria do povo brasileiro.

Não há nenhum problema em recuperar o passado de pessoas públicas, mesmo que este as denigra, desde que baseado em fatos e fontes confiáveis. Apresentar o papa Bento 16 como ex-integrante da juventude nazista, por exemplo, é indiscutível, pois imagens e registros atestados historicamente o comprovam. Isso não impede que os católicos o reconheçam como líder máximo da sua Igreja, contextualizando o ocorrido no tempo e no espaço.

O problema no caso de Dilma é que a Folha parece afoita em dar vazão a registros que foram obtidos em circunstâncias excepcionais. Dilma não compareceu a uma delegacia para prestar esclarecimentos, acompanhada de seu advogado, e nem respondeu a um processo legítimo. Muito do que consta nos autos de seu processo provavelmente foi obtido enquanto estava pendurada num pau de arara ou sentada na cadeira do dragão sendo barbaramente torturada.

Uma publicação jornalística com o mínimo de seriedade teria que levar isso em conta e não reproduzir simplesmente o que diz um processo suspeito, produzido por um governo que rompeu a ordem constitucional do país e adotou a tortura como instrumento de obter confissões, contrariando os princípios mais básicos dos direitos humanos. Foi esta conduta que os jornais adotaram quando a ditadura tentou apresentar a morte do jornalista Vladmir Herzog como suicídio. Ninguém, talvez com exceção da empresa que publica a Folha, aceitou a versão como verdade. O que provinha da ditadura não era confiável sob nenhuma hipótese.

Confissões sob tortura não têm valor jurídico. E reproduzi-las pura e simplesmente, escudando-se no fato de se tratarem de documentos oficiais, seria de uma leviandade ímpar. Outro agravante de tal divulgação seria legitimar a ditadura militar, um dos períodos mais cruéis e trágicos da história brasileira, confiando exclusivamente na veracidade dos documentos que produziu. O Brasil ainda não fechou a página do que se passou naqueles 25 anos para aceitar passivamente fatos originados nos porões do regime.

Não espero que a Folha não o faça. O jornal publicou coisa muito pior, como a ficha falsa de Dilma antes mesmo de a campanha começar. Talvez seja até uma tentativa de encontrar algo que repare a “barriga” do jornal ao publicar, sem nenhum critério de verificação, a tal ficha, proveniente de um site de ultradireita. Ou então, iniciar um terceiro turno, apresentando as armas para o combate sem tréguas que desempenhará nos próximos quatro anos.

Seja qual for o propósito, ele parece tudo, menos jornalístico. O empenho do jornal se coaduna muito mais com os seus próprios interesses do que com os interesses do país. Seja lá o que contiverem os autos, a sua publicação servirá, sobretudo, para diminuir ainda mais o tamanho da Folha de S. Paulo, que já saiu bem reduzida da recente eleição.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

LULINHA, ESPELHO DA ERA LULA

Mídia + Política + Verdade = Jornalismo Cidadão


O jornal O Dia desta quinta-feira inicia uma reportagem especial, bem sacada, interessantíssima, sobre a saga do menino Luiz Inácio Matias da Silva, o Lulinha, como retrato dos 8 anos de governo Lula. A matéria mostra como a realidade transformada por políticas públicas e programas sociais da Era Lula associada à criatividade e verdade factual podem render bom jornalismo. Os ingredientes a mídia conhece. Basta querer fazer.   

http://odia.terra.com.br/portal/brasil/html/2010/11/especial_luiz_inacio_matias_da_silva_o_lulinha_do_camarista_meier_125256.html

 

E veja abaixo post do Mídia Mundo, considerando a matéria do Lulinha a melhor de 2010.



A melhor matéria do ano é de O Dia

Uma boa reportagem precisa de planejamento. O Dia (Rio de Janeiro, RJ) planejou por 8 anos a fantástica matéria sobre o menino Luiz Inácio Matias da Silva, que completará 8 anos no último dia de governo de seu homônimo Presidente da República.

Lulinha é um personagem urbano descoberto pelo jornal. Sua vida, a melhoria de vida de sua família, é o retrato perfeito de um período em que o Brasil cresceu. Nenhuma estatística é melhor que essa história.

Uma reportagem como essa precisa de inteligência criativa, de apostas, de disposição. Primeiro para achar o personagem, depois para segui-lo por 8 longos anos.

O Dia merece todos os prêmio de jornalismo por essa sensacional matéria. Pena ter dado mais peso na capa à subida do salário mínimo do que à melhor história do ano. Erro de edição logo no dia em que não poderia errar.

O "LADO" EM QUE SEMPRE ESTIVE...

Eu tenho um lado. Eu não mudei de lado.

Portanto, como autora, editora deste espaço, este blogue tem um lado.

Chamem de esquerda, progressista, alternativo, independente... Eu chamo de cidadão.

Este é um Blogue Cidadão. E procura atuar na construção e em defesa da cidadania.


Minha História de Vida

Não fui presa nem torturada. Mas dentro dos espaços que tive nos anos 70 e 80, como estudante da mais importante universidade brasileira e como filha de pai nordestino, operário de mente progressista, combati o estado de exceção em que vivíamos, ajudei com muito orgulho a derrubar a feroz e sanguinária ditadura militar instalada pelo Golpe de 64, assinando manifestos, frequentando assembleias, atos públicos, passeatas, fugindo muitas vezes da repressão policial... Nos anos 90 e 00, fui patrulhada, perseguida, prejudicada e demitida de duas universidades públicas em que trabalhei. Nunca sofri violência física. "Apenas" violência psicológica e linchamento moral.

Se um dia eu tivesse atuado na grande (?!) imprensa, certamente não teria "durado" muito lá... Tenho perfil independente. Escrevo aquilo em que acredito. Não tenho vocação pra subserviência e abomino sabujice.

Estou aqui pra fazer minha parte. Sem arrogância, sem ilusões. Mas com convicção.

Este não é um blogue intelectual. De vez em quando posto aqui artigos escritos por intelectuais, por gente que pensa o País. Os objetivos (ambiciosos?) do blogue são: trazer informação clara, correta, que muitas vezes não aparece na mídia tradicional; informar os leitores sobre direitos básicos do cidadão, que muitos desconhecem; estimular a discussão de temas que envolvem Comunicação, Mídia e Poder, abrindo espaço para quem quiser se manifestar de modo educado sobre os assuntos tratados aqui; denunciar a atuação danosa da mídia corporativa, velha mídia, mídia tradicional contra o povo brasileiro e a soberania do País;  por meio de ideias, palavras e ação, monitorar, esclarecer, informar, denunciar, mobilizar; colaborar para a democratização da comunicação no Brasil.

Este é um Blogue Cidadão. Este blogue se filia à Blogosfera Cidadã.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O que a Folha realmente comemora?


Está aberto o processo da ditadura contra Dilma

17 de novembro de 2010 às 12:58h


Superior Tribunal Militar acata pedido do jornal e libera acesso ao arquivo. Quais serão as consequências da divulgação das informações agora?

por Celso Marcondes, em CartaCapital




“STM libera processo da ditadura contra Dilma”: essa é manchete de capa da edição desta quarta-feira 17 do jornal Folha de S.Paulo. A matéria principal ocupa quase toda a página 4 e na abertura já comemora: “advogada da Folha diz que resultado é vitória ‘de toda a sociedade’ ”.

Essa “vitória” que o jornal encampa em nosso nome começou a ser organizada em setembro deste ano, quando a Folha protocolou mandado de segurança no Superior Tribunal Militar. Na ocasião, ela argumentou que era direito de todos os brasileiros saber o histórico da candidata antes que as urnas presidenciais fossem abertas.

No STM, o julgamento foi suspenso duas vezes, mas a Folha não se fez de rogada, em 19 de outubro apelou para o Supremo Tribunal Federal, na esperança de que ele determinasse a abertura dos arquivos antes da realização do segundo turno. Relatora do caso, a ministra Cármem Lúcia, devolveu o caso ao STM, que só agora, por 10 votos contra 1, liberou o acesso do ávido jornal paulistano ao processo.

Na próxima semana será publicada a ata da sessão e a partir daí os repórteres da Folha poderão se deliciar com a leitura de tudo o que os ditadores e seus funcionários escreveram sobre nossa presidenta eleita quando ela tinha cerca de 20 anos.

Até aqui, o que, em síntese, todos sabem, é que Dilma Rousseff combateu a ditadura militar desde muito jovem. Militou numa organização guerrilheira chamada Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares, ficou presa por mais de dois anos, foi torturada barbaramente e depois de libertada retomou sua vida no Rio Grande do Sul.

Do meu ponto de vista, é o suficiente, não preciso saber mais. Fico satisfeito em ter conhecimento que, mesmo usando de métodos que nunca aprovei, ela teve a coragem de combater os terroristas que tomaram de assalto o governo e o Estado brasileiro em 1964. Eram eles, como se sabe, militares, apoiados e sustentados por civis, entre os quais muitos empresários, inclusive da área de comunicação.

No entanto, para muita gente conhecer este resumo daquela fase da vida de Dilma não bastou. Desde o momento em que ela foi cogitada como candidata do presidente Lula, a internet foi dominada por uma onda de mensagens que questionavam o currículo militante da candidata. Taxada de cara como “terrorista” até uma ficha falsa foi montada, a descrever os atentados, sequestros e assaltos a banco nos quais ela teria se metido.

A mesma Folha, na época, foi o único jornal que embarcou na história da suposta ficha e a publicou em primeira página, com os devidos comentários desairosos. Sem ouvir antes a acusada. Revoltada, Dilma reagiu, pediu direito de resposta, o jornal foi obrigado a lhe dar espaço e a recuar na denúncia, reconhecendo que não tinha atestado a autenticidade da peça montada não se sabe aonde, o que se constituiu num dos episódios mais vergonhosos da história recente do jornal.

Porém, seus proprietários não pararam por aí e durante toda a campanha eleitoral colocaram jornalistas para investigar este período de sua vida. Não faltaram entrevistas com ex-companheiros de militância, nem com ex-militares ou carcereiros que teriam tido contato com Dilma nos anos 70. O que se buscava então era, digamos, algo mais concreto no currículo da militante: teria participado de algum sequestro ou assalto? Atirado ou matado alguém? Delatado companheiros? Em nenhum momento, porém, qualquer jornalista, depois de muitas entrevistas e pesquisas em outros arquivos que existem pelo País, conseguiu qualquer prova de participações ou atos da jovem de 20 anos em eventos semelhantes.

O que imaginavam os que pretendiam “conhecer melhor a história” da candidata era que, se acusada concretamente de participação numa ação violenta, haveria material de combustão suficiente para abalar sua campanha eleitoral. Numa sociedade pronta para ser comovida por campanhas conservadoras incentivadas por parte da grande mídia, é fácil imaginar a repercussão que teria uma manchete do tipo “Dilma participou de assalto que ocasionou morte de inocente”.

Esta manchete – ou similares – nunca chegou à televisão ou aos grandes jornais, embora tenha frequentado à exaustão a internet. Durante a campanha de José Serra, porém, cansamos de assistir a insinuação: “no meu currículo não há manchas, nem zonas obscuras”, ele dizia sempre, a deixar claro que o candidato “do bem” não tinha nada a esconder, mas a “do mal” deveria ter.

Às vésperas da realização do segundo turno, a liminar da Folha de S. Paulo endereçada ao STF gerou uma onda de rumores nas campanhas. Esperava-se que uma “grande novidade” vinda da abertura do processo causasse comoção suficiente para abalar a trajetória da candidata rumo à vitória nas urnas. A sabedoria da ministra Cármem Lúcia, porém, tirou do Supremo a responsabilidade pela decisão e inviabilizou o final da história antes do pleito.

Dentro de alguns dias o caso terá seu desfecho. Todo o Brasil saberá o que está escrito na ficha real de Dilma Vana Rousseff guardada no cofre militar até aqui. Saberemos finalmente se a presidenta eleita – não diplomada ainda -, no auge dos seus 20 anos, participou ou não de assaltos, sequestros e atentados. Conheceremos também como foi seu comportamento nas masmorras.

Estará tudo lá, escrito, bonitinho, preto no branco, apenas marcado pela ação do tempo. Com carimbos, assinaturas, rubricas e protocolos. Também pareceres, fotos, recortes de jornais, talvez. Tudo com as devidas chancelas de Humberto de Alencar Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.

Os jornalistas da Folha devorarão avidamente as informações do processo e nos brindarão com um resumo delas. Outros órgãos de imprensa, como já fizeram no dia de hoje com a decisão do STM, repercutirão tudo.

Aí então, uma parte dos brasileiros dirá: nada me toca, continuo a admirar a coragem que a presidenta tinha aos seus 20 anos. Se ela de fato participou de algum ato violento, seus algozes já a fizeram pagar por isso. Mesmo assim, não reconheço nenhuma credibilidade nos arquivos infectos e nos processos manchados de sangue dos generais que escreveram o pior momento da nossa história. E credibilidade é matéria prima da imprensa.

Porém, haverá quem vá dizer: não avisamos? Vocês elegeram uma terrorista.

O efeito que este debate irá causar ninguém sabe medir. É fato, porém, que a Folha comemora hoje a “vitória de toda a sociedade”. Enquanto ela comemora, muitos arquivos e processos continuam fechados. E torturadores e seus mandantes caminham impunes por nossas ruas. Ou morrem de velhice.


* Celso Marcondes é jornalista, editor do site de CartaCapital e diretor de Planejamento da revistal.

[a partir do Blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha   http://www.viomundo.com.br/]

O que quer a mídia golpista ?

                                         
Eles brigam com os fatos.

Eles não aceitam a derrota.

Eles não respeitam a VONTADE SOBERANA DO POVO BRASILEIRO.

Eles - os veículos da grande (?!), velha e apodrecida mídia. Eles - as elites, as classes dominantes. Eles - o candidato e os partidos derrotados na eleição presidencial.

O que eles tentaram ao longo da campanha eleitoral?

Fomentar um clima de terror, obscurantismo, conflagração... semeando ódio, preconceito, intolerância...

O que eles tentam agora, após a eleição, depois de declarada a vitória de Dilma Rousseff?

Criar dois brasis: o Brasil "bem-nascido", o Brasil do avanço, o Brasil "cheiroso" (o deles, claro), que teria como presidente "o mais preparado", "o mais competente", "o mais experiente", e o Brasil do atraso, da ignorância, da vagabundagem (o dos nordestinos, o dos pobres do Bolsa-Família, o dos eleitores de Dilma).

O que eles buscam nos autos do processo contra a jovem subversiva?

Informações "comprometedoras", que permitam afirmar que a presidente eleita pegou em armas, matou, roubou...

O que eles querem com isso tudo?

Dar sequência ao linchamento moral iniciado na campanha. Conspurcar, manchar, emporcalhar, difamar, injuriar, caluniar, constranger, desestabilizar, inviabilizar...

Dar continuidade a séculos de dominação, esbulho, privilégios.

Há algo de muito podre no reino da Dinamarca...




Folha de S. Paulo terá acesso a processo contra Dilma

O Superior Tribunal Militar autorizou na tarde de ontem (16) o acesso do jornal Folha de S. Paulo aos autos do processo movido contra Dilma Rousseff na época em que ela foi perseguida, presa e torturada pela ditadura militar. O jornal, que entrou com este pedido em maio último, poderá a partir da próxima semana, quando a autorização deverá ser publicada no Diário da Justiça, consultar a ação sofrida por Dilma, inclusive fazendo cópias dos autos.

Determinação do Presidente do STM, Carlos Alberto Soares, havia proibido qualquer consulta ao processo durante a campanha à presidência. O Ministro manifestou temer uso eleitoral das informações contidas nos autos.

Dilma, nos anos 70, era uma jovem estudante, foi processada e ficou presa por quase 3 anos, quando foi seviciada pelos militares, num período sombrio que o Brasil viveu.

Os autos do processo em que foi condenada por subversão contêm informações sobre Dilma e mais 71 militantes da organização de esquerda VAR-Palmares, que lutava para derrubar o governo militar instalado pelo Golpe de 64.

Presidente eleita no último 31 de outubro, Dilma já se manifestou várias vezes a favor da ampla e irrestrita liberdade de imprensa, mas deixou claro que no seu governo deverá estabelecer o marco regulatório no setor das comunicações, o que é considerado pela velha mídia uma tentativa de implantar censura aos meios de comunicação.

Uma das perguntas que se faz neste momento é: como a Folha de S. Paulo, jornal francamente contrário ao governo popular do Presidente Lula e um dos sustentadores da candidatura oposicionista, utilizará as informações contidas no processo de Dilma, num momento em que a presidente eleita se prepara para assumir o comando do País?

Ainda hoje este blog trará mais detalhes e opinião sobre esta questão, e acompanhará todo o desdobramento desta decisão do STM e o uso que a mídia fará das informações obtidas.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mídia golpista x Mídia cidadã - entrevista

O Abra a Boca, Cidadão! continua na sua incansável cruzada para esclarecimento do povo brasileiro a respeito das "ligações perigosas" entre mídia e poder, mídia e elites, ou seja, para mostrar ao cidadão os interesses inconfessáveis que estão nas sombras, por trás de boa parte do conteúdo veiculado pela mídia impressa e pelas emissoras de rádio e televisão.

Nesse sentido, reproduz aqui entrevista da filósofa e jornalista Bernadette (Baby) Siqueira Abrão, concedida ao Instituto Hypnos. Baby esmiuça essas relações mídia-poder-classes dominantes, e fala também da importante atuação dos blogueiros independentes na recente campanha eleitoral que acabou por eleger Dilma Presidente.


A mídia em debate

Anderson Felix 14 de novembro de 2010 - Posted in: Textos Hypnos
O Instituto Hypnos conversou com a jornalista Bernadette Siqueira Abrão para discutir a Mídia brasileira. No momento em que se encerra mais uma eleição e que se discute a regulamentação dos meios de comunicações, é mais do que necessário esclarecer alguns dos problemas que cercam a atividade jornalística.

Baby, como gosta de ser chamada, é graduada e pós-graduanda em Filosofia (USP), formação que lhe permite lançar um olhar mais profundo e crítico sobre a comunicação. Além disso, tem experiência na editoração de livros didáticos e paradidáticos de filosofia, além de manter os blogues parallaksis.blogspot.com e parallakismundo.blogspot.com. Acompanhe a entrevista a seguir.

Hypnos - A imprensa é formadora de opinião? Qual foi a influência da mídia nesse processo eleitoral?
Baby – Vou falar em mídia, como um todo, não apenas em imprensa (a mídia impressa). Eu diria que ela não “forma” opinião porque seu objetivo não é a formação de ninguém. “Formar” é um conceito que envolve educação, estímulo à elaboração criativa, e a mídia está muito longe de proporcionar isso.

O que ela faz é divulgar seu ideário em reportagens, editoriais, comentários, análises. Como a mesma mensagem é repetida à exaustão, em formatos diferentes, os leitores/ouvintes/telespectadores acabam se convencendo de que ela é verdadeira. Nesse sentido, o que a mídia faz é propaganda de sua ideologia. Isso não é formar opinião e sim impor ideias, valores. E não se trata de uma prática nova. É muito antiga e virou objeto de reflexão de muitos pensadores, como Niezstche, Marx e Engels, o pessoal da Escola de Frankfurt, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Noam Chomsky, Armand Mattelart, Gilles Deleuze, Jean Baudrillard…

Para usar uma linguagem marxista, o que a mídia faz é impor a ideologia da classe dominante à classe dominada até que esta se convença de que essa ideologia é sua e a defenda, e a reproduza.

Uma análise de Chomsky e Edward S. Herman da mídia estadunidense produziu um livro, Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media [Consenso fabricado: a economia política da comunicação de massa] e uma teoria: o modelo da propaganda.

O livro é o resultado das análises que ambos fizeram sobre os meios de comunicação dos Estados Unidos e mostra que esses meios são corporações submetidas ao jogo competitivo do mercado. Como dependem dos anúncios (de empresas e do governo), colocam os interesses corporativos e políticos acima do interesse público.

O modelo que Chomsky e Herman desenvolveram pode ser aplicado à indústria midiática da maioria dos países. Como indústria, ela precisa vender para lucrar; por isso, é guiada pela lógica e pelos poderes do mercado. Segundo Chomsky e Herman, isso a leva a selecionar as notícias que publica, bem como o tratamento que dá a elas.

Isso ficou claríssimo na campanha eleitoral deste ano. Os ataques à candidatura de Dilma Rousseff, a Lula e ao PT pareciam coordenados por um comando central que usava todos os meios à disposição (jornais, revistas, rádio, TV, internet) para divulgar e fazer repercutir as mesmas acusações, a mesma ladainha.

Um pesquisador do futuro, que decida entender o Brasil por meio dessa mídia, concluiria que vivemos numa ditadura conduzida por terroristas, sem liberdades civis, com a consciência seduzida pelo programa Bolsa Família, com a mídia amordaçada.

Esse pesquisador, ao confrontar o país produzido pela mídia com a realidade, teria enorme dificuldade em entender como os meios de comunicação que se diziam amordaçados tinham a liberdade de dizer tudo o que queriam; como o presidente criticado conseguia índices altíssimos de aprovação popular se era dominado por “forças terríveis”, como disse Serra em seu discurso de 31 de outubro, resgatando Jânio Quadros e a imagem que a mídia corporativa fazia de Lula; como uma terrorista conseguiu se eleger primeira presidente do Brasil e, o mais óbvio, como esse governo ditatorial, terrorista, manipulador, terrível, permitia a realização de eleições livres, o exercício sem restrições da democracia liberal. Esse pesquisador acabaria defendendo a tese de que a mídia, para impor sua ideologia, precisa distorcer a realidade.

H. A mídia não vê com bons olhos qualquer iniciativa do governo que vise melhorar a atividade jornalística, sob o argumento de que esse papel cabe apenas à sociedade. Por outro lado, o baixo nível educacional parece deixar essa mesma sociedade à mercê dos grandes grupos econômicos e de comunicação. Qual seria, então, o caminho para o aprimoramento do trabalho jornalístico?
B. Mas não é o governo que toma essas iniciativas, é a própria sociedade! As sugestões do Plano Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH3) e da 1ª. Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) foram dadas pela sociedade civil organizada, depois de muita discussão em consultas e audiências públicas em todo o país.

A mídia corporativa – essa mesma mídia que grita a favor da liberdade de desinformar, de enganar o público, e chama isso de “liberdade de expressão”, “liberdade de imprensa” e outras expressões vazias, não explicitadas, não conceituadas – foi convidada a participar desses debates mas recusou-se. Essa é uma questão importante. Em vez de levar suas propostas para uma discussão democrática, a mídia preferiu continuar aquartelada em suas trincheiras, de onde dispara jargões por meio de suas metralhadoras giratórias (repórteres, “comentaristas”, cronistas etc.), frases de efeito que agradam a certa classe média desinformada, que não conhece nem mesmo a história recente de seu país, que nunca ouviu falar dos pensadores que mostraram o funcionamento do jogo capitalista e em que tipo de manipulação, de imposição ele se apoia.

É um pessoal carente de cultura, de ideias, acrítico, que repete o que lê e assiste sem nunca parar para pensar se isso corresponde ou não à realidade. São os fantoches mergulhados na hiperrealidade, conceito de Jean Baudrillard que cabe com perfeição na mídia corporativa brasileira. Baudrillard também afirmou que os meios de comunicação de massa são um “discurso sem resposta”.

A comunicação, diz, pressupõe troca, interlocução e responsabilidade por aquilo que se diz, e isso não existe na relação mídia-público.

O problema, para Baudrillard, está no modelo elaborado pelo linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), que se baseia na simples transmissão e recepção da informação. Nesse modelo, aquele que transmite a mensagem é ativo, ao passo que quem a recebe tem um papel passivo: apenas recebe, ou “sofre” (para usar um termo aristotélico), a ação.

Quando o receptor se transforma em transmissor, repete a mensagem recebida, reproduzindo o modelo. Veja como isso é sério, seriíssimo: esse tipo de comunicação não permite o diálogo, excluindo “a reciprocidade e o antagonismo entre os interlocutores”, como escreve Baudrillard no artigo Requiem for the Media [Réquiem para a mídia]. Por não permitir a troca, as mídias de massa promovem a não comunicação.

Elas falam, mas impedem a fala do outro.

É essa “natureza unilateral” da comunicação, segundo Baudrillard, a responsável pelo sistema que integra poder e controle social.

Como esse modelo se reproduz no mundo político e econômico, o público não tem espaço para se expressar, debater e influir nas decisões que afetam sua vida. Quando ele faz isso formalmente, em audiências públicas previstas pela legislação brasileira, a mídia corporativa desvirtua as propostas do público e as ataca como riscos à tal “liberdade de imprensa”. Ora, isso é fazer propaganda de seu próprio ideário, é impedir o debate democrático de fatos, modelos, ideias. É a tentativa de impedir a liberdade do público de se manifestar. Ou seja: a mídia pode falar e fazer o que quiser, o público não. Se isso for a democracia propalada pela mídia corporativa, fujamos dela!

Outra questão importantíssima é a concessão de licenças para rádio e TV. Vamos entender um pouco isso.

Para funcionar, rádios e TVs dependem de sinais eletromagnéticos, que constituem um espectro que é público, isto é, de todos nós, cidadãos brasileiros (no caso do Brasil, óbvio).

Esses sinais são concedidos às redes de rádio e TV pelo governo – que concede as licenças para uso dos sinais como representante dos cidadãos. Acontece que os critérios para a concessão de tais licenças são tudo, menos cidadãos. Só as consegue quem tiver ligações políticas privilegiadas, poder, muito dinheiro.

Na verdade, essas pessoas – incluindo políticos, o que é proibido por lei – obtêm as concessões para transformar as estações de rádio e TV em empresas privadas submetidas ao jogo do mercado, que fabricam os produtos que bem entendem, vendendo-os aos anunciantes por preços altíssimos. Esses preços são baseados na média de audiência dos produtos, isto é, os programas.

Ou seja, além de ser alijado da concessão das licenças, de não influir nos critérios para essas concessões, o público, com sua audiência, dá lucro às grandes redes de rádio e TV. E em troca, o que recebe? Uma programação que chega a ser bizarra, que usa e estimula o preconceito, a intolerância, o bullying, a violência…

As exceções são muito raras.

Os chefes de programação costumam dizer que o público gosta das bobagens que vão ao ar. Falácia. O público não tem é escolha. Não há um único canal comercial com programas realmente alternativos ao padrão que as próprias redes criaram. Então a cidadã e o cidadão que chegam em casa cansadas (os), que vão preparar o jantar para a família e querem uma distração, ligam a TV ou o rádio e acompanham o que lhe é oferecido. Dizer que isso é escolha é falsear a realidade.

No momento em que o público decide tomar para si o seu direito de dar ou renovar as concessões, que impõe critérios para ceder as licenças de uso do espectro eletromagnético, a mídia corporativa grita como se tivesse sido golpeada de morte.

Ora, o que quer o público? Vejamos algumas das propostas da Confecom.

Elas dizem respeito à veiculação de conteúdos nacionais e regionais produzidos de maneira independente e de conteúdos educativos, culturais, informativos e ambientais de países latino-americanos; à criação de núcleos comunitários de comunicação, para fornecer aparatos técnicos e instrumentais à sociedade e permitir que ela construa, socialize e discuta suas próprias produções; à criação de programas educativos, para jovens, que abordem os direitos das mulheres e coíbam a violência de gênero; à fiscalização e à punição para rádios e TVs que desvalorizem, depreciem ou estigmatizem crianças e minorias historicamente discriminadas e marginalizadas (negros, LGBTs, comunidades de terreiro, mulheres, pessoas com deficiência, idosos e indígenas, entre outros); a criação de redes locais e regionais de rádios públicas, estatais e comunitárias. Ou seja, são propostas que levam à abertura e à diversidade, ao respeito do outro, do diferente, à participação do público na programação, que retiram da mídia o que ela tem de estigmatizador e preconceituoso, que privilegiam a liberdade cidadã, não a imposição da ideologia dominante.

É por isso que a mídia grita. Porque a ela não interessa veicular conteúdo cidadão. Por quê? Porque esse conteúdo, teoricamente, ao não reproduzir a ideologia dominante, abrirá espaço para que as pessoas conheçam outros pontos de vista, outras realidades culturais, o que as levará a comparar, a distinguir – enfim, a pensar, e a pensar criticamente. E a exigir cada vez mais qualidade e isenção de uma mídia interessada apenas em seus próprios lucros e em seu próprio poder.

Esse mesmo público, e não o governo, propôs, na Confecom, a criação de Conselhos de Comunicação nos âmbitos federal, estaduais e municipais, com membros eleitos, para garantir o direito humano à comunicação, a regulação de conteúdos veiculados pelas mídias, as políticas de concessão de licença de funcionamento de rádios e televisões. A mídia tem é que brigar com o público, não com o governo. Mas como brigar com o público significa perder audiência e, portanto, lucro, a mídia bate no governo e convence a audiência a ficar contra algo que só irá beneficiá-la. Isso é a “democracia” da mídia? Mais uma vez: fujamos dela.

Uma programação culturalmente diversificada, como quer a sociedade civil, não resolve o problema da educação no Brasil, mas ajuda a exercitar o pensamento ao oferecer informações variadas, pontos de vista diferentes – meios para o público fazer comparações, discernir, escolher aquilo com que se identifica e entender o porquê da identificação. Além disso, o público transforma o monólogo em diálogo ao participar diretamente da programação, ao elaborar conteúdo para ela. Tudo isso amplia o horizonte cultural de uma sociedade. A mídia, ao se opor a essas propostas, opõe-se a essa ampliação do horizonte cultural da sociedade brasileira. É preciso denunciar isso.

H. A imprensa se diz livre e democrática. Entretanto, casos como o da demissão da colunista Maria Rita Kehl do Estadão depois de publicar o artigo Duas medidas – que se opunha ao editorial de apoio a Serra -, parecem contradizer isso. Como você analisa esse aspecto comum à mídia brasileira?
B. É evidente, por tudo que foi dito até aqui, que a mídia só pode mesmo reivindicar a liberdade de desinformar, de impor seu ideário, de manter um monólogo prejudicial à sociedade. Ao distorcer as notícias segundo seus próprios critérios, a mídia impede o público de conhecer os vários aspectos que compõem um acontecimento, um fenômeno. Privado disso, da informação completa, isenta dos filtros midiáticos, o público não tem como exercer seu direito de livre pensamento, de livre expressão, de livre escolha. Suas avaliações ficam prejudicadas porque se baseiam em apenas um lado da história: o que a mídia quer que ele saiba. Seu conhecimento, sua capacidade de julgamento e sua consciência, portanto, são manipulados. Discuto esses tópicos e os perigos a que eles levam no meu novo livro, que sairá no ano que vem e que ainda não tem título definitivo.

Quanto à Maria Rita Kehl, para ser muito sincera, nunca entendi como o Estadão a convidou e menos ainda como ela aceitou o convite. São propostas de vida e de pensamento opostas, como ficou claro no episódio do desligamento dela do corpo de colaboradores. Uma pena, porque a Maria Rita é das poucas cabeças inteligentes com espaço na mídia corporativa.

A situação esclareceu o que o jornal entende por “liberdade de imprensa”. É essa a liberdade que queremos? Claro que não. Por isso é preciso discutir conceitos. O que é liberdade? O que é informação? O que é liberdade de informação? O que é liberdade de expressão e de imprensa? Quando essas coisas vierem a debate, a máscara da mídia cairá.

H. Qual a importância da internet para disponibilizar e democratizar o acesso à informação? Os jornalistas que se opõem à chamada grande imprensa utilizam a web para se comunicar?
B. Veja você que interessante é analisar a internet. É o típico exemplo que foge ao maniqueísmo, ao modelo que reduz a multiplicidade da vida a “bem” ou “mal”, a “bom” ou “mau”.

Analisar a internet é ser obrigado a colocar esse modelo de lado, a juntar bom e mau, bem e mal, a aprofundar a reflexão, levando-a ao campo da diversidade de premissas e de argumentações, a chegar a conclusões às vezes conflitantes e a elaborar um novo tipo de crítica. Isso leva ao exercício do pensamento, que faz muito bem à elaboração de juízos independentes do consenso fabricado e imposto pela mídia.

A internet é tudo aquilo que a crítica diz dela, mas também é tudo aquilo que os aficcionados afirmam dela. Bem, mal, mais ou menos – enfim, tudo cabe nela.

Na campanha eleitoral, por exemplo, só ficávamos sabendo da verdade dos fatos pela internet, pelos blogueiros independentes. A única exceção, em relação à mídia, é a Carta Capital, revista semanal dirigida por Mino Carta e com um corpo de jornalistas excelentes, que fazem jus ao título de jornalistas. Vão atrás da notícia e veiculam tudo que descobrem, sem sofrer censura do patrão e sem a orientação de publicar apenas aquilo que privilegia alguns e detona outros, segundo os caprichos dos acordos corporativos da classe dominante.

Fora a Carta Capital e o Brasil de Fato – este francamente à esquerda no espectro político –, foi nos blogues que a gente conseguia saber o que realmente acontecia nos bastidores das campanhas. Aí era possível ter a dimensão da tragédia, no sentido das alianças políticas, dos apoios, do que havia por trás de cada manchete da mídia corporativa.

Foi nos blogues e na Carta Capital que soubemos, por exemplo, do apoio da TFP e de grupos monarquistas à candidatura Serra, e dos factoides criados por esse pessoal de extrema direita – é preciso arranjar outro termo para classificá-los, porque “extrema direita” não diz exatamente quem é essa gente e o que postula; fascistas é uma expressão que talvez os defina mais adequadamente – para tumultuar e impedir o debate político, afastando os temas realmente relevantes naquele momento para apresentar visões dogmáticas e reducionistas de assuntos que remetem diretamente à laicidade do Estado e ao direito que cidadãs e cidadãos têm a decisões que dizem respeito a sua própria vida.

É engraçado que as Igrejas, ao condenar o sexo antes do casamento e o uso da camisinha, ao satanizar as mães solteiras, obrigando muitas ao aborto, venha posar de “defensora da vida”. Ora, que vida? A da mãe não conta? E o que é vida? Coisas assim devem ser estabelecidas por lei ou pela consciência de cada um? Religião e Estado podem dizer ao cidadão quais devem ser suas preferências sexuais, com quem manter união conjugal, obrigá-lo a ter filhos indesejados? Será que ao Estado não compete pôr em prática políticas públicas de proteção a todos os segmentos da sociedade, não apenas àqueles que obedecem a um certo padrão cultural, de base judaico-cristã?

Voltando a nosso tema, quem denunciou o uso político dos preconceitos foram os jornalistas independentes, em seus blogues, e a mídia “não alinhada” ao poder corporativo midiático. Eles forneciam munição para nós, militantes, rebatermos as acusações da direita explicando o que havia por trás das ditas “denúncias”.

Esses jornalistas permitiram o desmonte dos factoides da mídia corporativa. Ao informar corretamente, eles prestaram um enorme serviço à república e à democracia, permitindo que a verdade viesse à tona e entrasse no debate, que de outro modo seria pautado pela mídia dominante.

A internet permite que isso aconteça. Eu, por exemplo, tenho dois blogues – um de defesa dos direitos dos palestinos e da Palestina, outro com análises sobre o mundo feitas por gente séria e renomada sem espaço na mídia corporativa – que veiculam coisas que a mídia omite.

Muita gente que tinha uma noção distorcida e fabricada da Palestina, do Hamás, do Hizbollah, me diz que só ficou sabendo do que acontecia no Oriente Médio, de verdade, depois de acompanhar meu blogue. Era gente que acreditava na propaganda sionista – e os sionistas dominam a indústria da comunicação e do entretenimento, entre outros setores-chave, dando somente a sua versão dos fatos. Não fosse a internet, essa propaganda danosa não só aos palestinos, mas ao mundo, continuaria soberana.

O drama é que o acesso à internet ainda é restrito, não alcança todo o público. Por outro lado, muita gente que navega procura portais da própria mídia corporativa. Assim, além de popularizar o acesso à web, é preciso mudar a educação, as bases da educação, o modo como ela é exercida, para que os cidadãos possam realmente se beneficiar da internet, como usuários e como elaboradores de conteúdo. Lembremos, porém, que tudo é processo: não existe “fim da história” e a ideia iluminista de progresso com happy end foi para o rol das utopias há muito tempo. Por isso, mãos à obra sempre, sem descanso, para ampliar os nossos espaços, o espaço público, deste país.

Outro fenômeno importante, forte, sobretudo nos EUA, é o fim dos jornais impressos, que passam a existir apenas na internet. Eles foram perdendo leitores até se tornar inviáveis economicamente, e a internet significa uma redução brutal de custos. Aqui, o Jornal do Brasil já adotou essa solução para continuar existindo. O que ainda precisa ser pesquisado é se os jornais e as revistas impressos perderam leitores porque é possível ler notícias na internet ou se as notícias obtidas na internet, de fontes múltiplas, acabaram revelando a pobreza dos noticiários de jornais e revistas, o que levou o público a parar de lê-los. Seja como for, a base dessa mudança radical foi e é, sem dúvida, a internet.

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Graduado e Mestrando em Filosofia pela PUC-SP, é professor da rede de ensino paulista. twitter.com/felixideia

Enviado pela Vila Vudu

Extraído de Instituto Hypnos