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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Black Blocs: anarquistas ou desajustados?


LIBERDADE DE EXPRESSÃO, SIM. VIOLÊNCIA, NÃO.




Black Blocs/RJ/Facebook


A democracia não é suicida

Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político

A partir das passeatas e quebra-quebras de junho, os governos estaduais e os poderes federais voltaram a colocar o problema dos conflitos metropolitanos no quadro mais geral de uma sociedade que se urbaniza com velocidade recorde, sem que os serviços públicos e privados de massa tenham atendido, em quantidade e qualidade, às necessidades daí derivadas. Do ponto de vista das empresas do mercado, as multidões se despersonalizam, perdem humanidade, e passam à contabilidade como números sem rosto, tal qual cabeças de gado. O transporte de verduras e legumes de nossa dinâmica agricultura pelas modernas estradas já construídas ou em vias de inauguração é, seguramente, mais bem cuidado do que o de homens e mulheres, a força de trabalho nacional, que são amontoados aos empurrões em trens, ônibus e vans.

Estatísticas sanitárias e de habitação servem para emoldurar a rotineira paisagem de desconforto e carências que caracteriza a vida dessa população, dentro e fora de casa. Se isto não justifica a prática de atos criminosos, os inegáveis esforços do governo federal na execução do que prometeu não devem silenciar a magnitude dos problemas herdados de um estado oligárquico, destituído de instrumentos de implementação eficiente e eficaz dos programas que cria. O Brasil paga vultosa promissória evidenciada pelo hiato entre o muito que se faz e o tanto que se precisa fazer enquanto se criam as instituições capazes de tornar realidade as boas intenções de qualquer governo. Aí está a recente criação da PPSal, motivo de gritos espumantes dos conservadores, para atender a um problema que um Estado elitista jamais enfrentaria: como garantir o cumprimento da legislação especial das reservas do pré-sal, particularmente no que se refere aos destinos dos recursos originados pelo petróleo sejam efetivamente dirigidos à educação, à saúde e ao fundo social. Esse problema não ocorreria ao governo de Campos Salles nem ao de seu admirador contemporâneo, Fernando Henrique Cardoso.

Isto posto, vale comentar as crônicas que romantizam o “anarquismo de feição violenta” de black blocs e assemelhados. Não vejo e nunca vi encanto algum no anarquismo. Se os primeiros embates de junho criavam uma compreensível confusão entre os que aderiam de boa fé a uma tática radical em vista de solucionar um problema, hoje não há dúvida alguma de que os “manifestantes” e “ativistas”, como os chamam as suaves apresentadoras da TV Globo, espécie de duas novas ações produtivas a serem incorporadas ao catálogo das profissões do Ministério do Trabalho, mascarados e apetrechados para a depredação e a agressão, não passam de catapora social. Quando entrevistados não conseguem produzir duas frases sucessivas com sujeito, verbo e predicado. Nem anarquistas são, mas simples desajustados, fenômeno corriqueiro em sociedades de urbanização acelerada.

Se o fenômeno é explicável, não é justificável. E nem cabe recorrer à legislação de proteção aos pobres e sacrificados membros da classe trabalhadora para isentar os autores da estúpida destruição de patrimônio público, quando não a petulância de pretender invadir e impedir os trabalhos de instituições fundamentais da democracia. A democracia não é um regime suicida. Se esses tatibitates se acham relevantes porque estariam mostrando à sociedade brasileira uma das variantes da violência anárquica, é hora de que sintam de corpo presente o gosto da violência democrática. Prisão para eles, com ou sem resistência.


4 comentários:

  1. Quem julga o Black Bloc de fora não sabe das agruras cotidiana nas vidas desses moleques, as quais ninguém dá a mínima, chama ainda de reclamações infantis, e coisas que o valha, tem muitos detalhes aí, mas não vou me estender. Do conforto de onde muita gente está, geralmente seguros e estabilizados, vendo da televisão, saturado de sentidos televisivos, não sabem como é. Então, a violência deles é justificável sim!!!

    O Estado é que usa a violência como primeiro recurso, quando deveria ser o último, mas e daí, eles estão questionando justamente o modo como a sociedade exerce seu pode covardemente, com embargos, com exploração, com precariedade. Os representantes do Estado não vão nunca questionar seu próprio poder e privilégios. Estou muito interessado no que os bloc têm a dizer.

    A violência contra o policial foi explorada do mesmo jeito que Israel explora os conflitos com a Palestina. A mesma técnica midiática. E para quê? E para quem?

    Então, mera coincidência de jornalismos imparciais, né, não?

    Mas, sim, os jovens precisam sofrer muitos anos até se quebrarem. O que eles não desejam, para então nada descobrir além do que já sabiam desde antes. Não se trata de democracia, se trata de banalizar a injustiça social.

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    1. Há quem diga que são filhos da elite, com suas vidas vazias, buscando emoções fortes etc. Não tenho condições de opinar. O jornalista Luís Nassif pede a prisão deles e diz que os Black Blocs da PM deveriam ser contidos. É uma equação complexa, esta.

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    2. Olha, eu não confio no Nassif...

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    3. Tudo bem. É bom desconfiar de todos... pelo menos não confiar cegamente. Mas ele mostra que a violência está dos dois lados. Aliás, a Polícia Militar é herança da ditadura. Nem deveria existir mais tal como é... Uma coisa é gente com ideologia, que segue princípios, ainda que discutíveis. Outra são baderneiros, ladrões, oportunistas de todo tipo... Você há de concordar comigo que o povo, a sociedade, os cidadãos não podem ficar desprotegidos, à mercê sabe-se lá de quem...

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