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sábado, 13 de outubro de 2012

Kassab: mais uma "pedra no sapato" de José Serra


Há muitas perguntas que José Serra, candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, precisa responder a propósito da desastrosa administração do prefeito Gilberto Kassab. 

No caso (tenebroso!) de vir a ser eleito, manterá a cidade de São Paulo "militarizada", ou seja, administrada nas subprefeituras por coroneis reformados da Polícia Militar?

Outra questão de interesse público: servidores municipais de subprefeitura continuarão à vontade para violar a Lei Orgânica do Município, fazendo conluio com particulares para lesar terceiros em questões de regularização de imóveis?






PERGUNTAS A JOSÉ SERRA


JOSÉ DIRCEU

A ligação entre o tucano e o prefeito Gilberto Kassab não pode ser dissolvida na memória dos paulistanos. A pergunta inevitável é: como Serra vai explicar o desastre de uma gestão iniciada justamente por decisão dele?

Confirmada a realização de segundo turno em São Paulo entre Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB), e superado o malfadado "fenômeno" Celso Russomanno, chegamos ao momento em que o candidato tucano, inevitavelmente, terá de começar a prestar contas da péssima gestão de seu aliado e atual prefeito, Gilberto Kassab (ex-DEM, hoje PSD), uma das piores do país, e dos desmandos seus e de seu partido.

No início da campanha, Serra até tentou desvincular-se de Kassab - e de sua alta rejeição -, mas percebeu que seria impossível evitar essa "pedra" em seu sapato, afinal, a ligação entre os dois não pode ser dissolvida na memória dos paulistanos.

A pergunta inevitável é: como Serra vai explicar o desastre de uma gestão iniciada justamente por decisão dele?

Kassab, vice na chapa de Serra em 2004, assumiu como prefeito quando o tucano renunciou ao cargo (um ano e três meses depois!) para se candidatar ao governo do Estado. De acordo com pesquisa Datafolha realizada em agosto, a administração Kassab é aprovada por apenas 24% da população e reprovada por 36%. Com um dos piores desempenhos entre os prefeitos das capitais, sua nota média dada pela população é de 4,4.

Outra pergunta que não quer calar: como o candidato tucano vai explicar os escândalos que cercam a história do consórcio Kassab-Serra à frente da prefeitura? O que dizer, por exemplo, do caso Hussein Aref Saab, funcionário de confiança da dupla, acusado de receber propina para liberar alvarás de novos empreendimentos imobiliários na capital e de acumular irregularmente um patrimônio de mais de R$ 50 milhões? E a instalação de verdadeiras máfias em áreas fundamentais para a população, como a coleta de lixo, o transporte, o fornecimento de merenda e uniformes escolares?

Como explicar a crescente queda de qualidade de vida na maior e mais rica cidade do país, cujos problemas de falta de planejamento atingem a mobilidade urbana, as áreas de Saúde e Educação, passando por uma sórdida política higienista, que expulsa e agride, ao invés de acolher, os cidadãos mais vulneráveis?

E o que dizer, Serra, da série de incêndios ocorridos nas favelas da capital e das suspeitas de que estejam relacionados aos interesses da especulação imobiliária? Nos últimos seis anos, já ocorreram mais de 200 incêndios em favelas paulistanas, 33 do início deste ano até agora. Uma delas, a favela do Moinho, na região da Barra Funda, já foi atingida duas vezes apenas este ano.

Por que só São Paulo tem tantos incêndios, a maioria em locais com maior valorização imobiliária? E por que a CPI instaurada para apurar essas suspeitas não anda? Talvez porque o candidato, quando ainda prefeito, tenha extinto o programa de prevenção de incêndio nas favelas?

E mais: Serra vai continuar escondendo o chamado "mensalão tucano", esquema de desvio de recursos públicos para financiamento da campanha de um dos fundadores de seu partido, o então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, candidato à reeleição em 1998, cuja denúncia aguarda julgamento do Supremo Tribunal Federal?

E sobre a privataria tucana - irregularidades documentadas sobre as privatizações que ocorreram durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do qual Serra participou ativamente e cujas denúncias o atingem diretamente? Nada a dizer, candidato?

Serra seguirá negando a compra de votos para garantir a aprovação da emenda que permitiu ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reeleger-se, e que só não foi investigada porque a base governista, agraciada com verbas e cargos, recusou-se a assinar requerimento para instalação de CPI, e também porque o então presidente contava com apoio da grande mídia?

E o que Serra tem a falar sobre a sua habitual prática de loteamento de cargos públicos por apoio político - vide acordo recém fechado com o PTB de Roberto Jefferson neste segundo turno da eleição paulistana, fruto de mero fisiologismo e não em torno de princípios e programa de governo? Acordo selado sem que o candidato mencionasse o julgamento da Ação Penal 470, que ele tanto tem explorado de forma hipócrita e eleitoreira contra Haddad.

Neste ano o PSDB, partido de Serra, foi o campeão de candidatos barrados pela Lei da Ficha Limpa. Dos 317 prefeituráveis "fichas sujas", nada menos que 56 são do PSDB, um número preocupante, especialmente para um partido que se arvora como arauto da ética.

Por que Serra não se pronuncia sobre nada disso? Ele e todos de seu partido e aliados políticos têm a presunção da inocência, mas também o dever de dar à sociedade explicações sobre fatos tão graves.

Será que o candidato tucano não vai abandonar a postura falso-moralista e enxergar que a população paulistana não irá esquecer que utilizou o cargo de prefeito como trampolim político, descumprindo a promessa que fez aos seus eleitores e abandonando a prefeitura nas mãos de Kassab? Serra mentiu por escrito e depois disse que o documento que assinou, comprometendo-se a ficar quatro anos no cargo, tratava-se de um "papelzinho".

Até quando José Serra vai continuar subestimando a inteligência do eleitor de São Paulo e deixar tantas questões sem resposta?

Serra e toda a mídia que o apoia ostensivamente podem até se calar. Mas este silêncio certamente terá um preço. Pelos apontamentos do Datafolha, divulgados nesta semana, Fernando Haddad está na dianteira com dez pontos à sua frente: 47% a 37%, vantagem que deve se ampliar.

Para além das mentiras e contradições de Serra, essa preferência por Haddad e o PT está na forma de governar, no conjunto de propostas, no pensar novo e na força de um projeto popular de país que está mudando a vida das pessoas e tem nas experiências municipais suas grandes incubadoras.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

São Paulo em Chamas: quem se importa?


Os incêndios são provocados pela seca? O trânsito complicado, tema de todas as semanas, impede a mobilização dos bombeiros? Nesse caso, diante de tanta regularidade nas ocorrências, não seria o caso de criar um sistema preventivo, com postos avançados nas áreas mais vulneráveis? Como funciona o sistema de defesa civil nessas regiões? O que acontece depois do incêndio? Os barracos são reconstruídos? O espaço é dominado e revendido por traficantes? Há vereadores envolvidos? O que acontece com os cidadãos que perdem documentos – inclusive o título de eleitor – nesses incêndios?

A questão é grave e se for investigada devidamente... Há muitos interesses inconfessáveis por trás. Por isso a chamada grande imprensa apenas tangencia o assunto.





FOGO NA FAVELA
O jornalismo dos pobres

Luciano Martins Costa

Na Folha de S. Paulo saiu apenas uma fotografia, com uma legenda de duas linhas, e no Estado de S. Paulo uma notícia curta num rodapé de página, nas edições de terça-feira (11/9). O fato é o 33º incêndio ocorrido em favelas da cidade de São Paulo apenas neste ano. Desta vez, a ocorrência foi em Paraisópolis, na Zona Sul, e novamente a imprensa faz apenas um registro burocrático do incidente.

Aliás, “incidente” é a palavra escolhida pelos jornalistas quando se referem a um acontecimento negativo de uma maneira distanciada.

Mas, como tratar dessa forma indiferente um fato tão crucial para tantas pessoas? Afinal, as vítimas são aquela parte da população que está excluída dos direitos mais básicos entre todos os cidadãos.

Para ficar apenas nas estatísticas, que compõem a abordagem predileta da imprensa quando se trata de “incidentes” que afetam a população mais pobre, convém registrar que, neste ano, São Paulo teve exatamente um incêndio por semana em favelas.

Será que a insensibilidade dos jornais em relação aos paulistanos que vivem em circunstâncias precárias chega a embotar até mesmo a natural curiosidade dos profissionais da imprensa? Se houvesse um incêndio por semana em praças ou parques nas zonas mais bem aquinhoadas com equipamentos urbanos, como estariam reagindo os jornais?



Alguma coincidência

No Estadão de terça-feira, as estatísticas registram que, em pouco mais de um ano, os incêndios em favelas já deixaram 1.386 pessoas desabrigadas. Esses são os números oficiais, baseados nos pedidos de bolsa-aluguel feitos pelos que perdem suas moradias, pagos até que as famílias sejam realocadas.

Diz o jornal que, em 2006, eram 5 mil os desalojados por incêndios, enchentes e outras ocorrências. Neste ano, a prefeitura está pagando 27.422 auxílios-moradia, ou seja, esse é o número mínimo de pessoas que perderam suas casas e ainda não foram reinstaladas em outras moradias.

Não é preciso muita imaginação para se chegar ao grau de transtornos e sofrimento que atingem esses brasileiros: além de serem obrigados a viver em alojamentos precários, sem perspectiva de um teto decente, muitos acabam deslocados para longe de seus trabalhos, para longe das escolas e creches de seus filhos – quando havia tais benefícios.

O registro burocrático dos incêndios em favelas é a manifestação mais escrachada da visão de mundo que predomina nas redações: os jornais são capazes de dedicar página inteira, em edição dominical, para falar de hospitais para cães, mas não demonstram nenhum interesse em saber por que há tantos incêndios em favelas.

Em alguns casos, um mínimo de curiosidade mandaria averiguar alguma coincidência entre certos eventos e projetos de avenidas que estão travados pela existência de barracos no trajeto. Em outros, seria o caso de investigar se os incêndios guardam alguma coincidência com processos judiciais por reintegração de posse de imóveis valorizados pela falta de espaços na cidade.


Sem perguntas

Desde o polêmico episódio da expulsão dos ocupantes do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), quando compraram a versão oficial, os jornais parecem ter abandonado o assunto das moradias precárias.

Mas a fumaça de barracos queimados não pode ser ignorada, mesmo porque os programas populares da televisão vasculham a cidade com seus helicópteros e têm registrado todos esses acontecimentos.

O que chama atenção é a insensibilidade dos jornais diante de tantas perguntas sem respostas – ou tantas respostas sem perguntas.

Mesmo que se admita que a vida dos favelados não tem o charme de uma nova butique para animais de estimação, é de se esperar que haja pelo menos alguma curiosidade nas redações quanto à frequência e regularidade dos acontecimentos.

Os incêndios são provocados pela seca? O trânsito complicado, tema de todas as semanas, impede a mobilização dos bombeiros? Nesse caso, diante de tanta regularidade nas ocorrências, não seria o caso de criar um sistema preventivo, com postos avançados nas áreas mais vulneráveis? Como funciona o sistema de defesa civil nessas regiões? O que acontece depois do incêndio? Os barracos são reconstruídos? O espaço é dominado e revendido por traficantes? Há vereadores envolvidos? O que acontece com os cidadãos que perdem documentos – inclusive o título de eleitor – nesses incêndios?

São muitas as perguntas que caberiam nessa pauta. Mas o silêncio da imprensa diz o suficiente.


Observatório da Imprensa

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