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sexta-feira, 14 de junho de 2013

São Paulo, ontem: de Londres a Istambul...


OPINIÃO



    Manifestantes no início do protesto, Teatro Municipal


(imagens da página do Movimento Passe Livre/Facebook)


Polícia de Alckmin mata saudades da ditadura



CELSO LUNGARETTI


Está em curso uma escalada de fascistização em São Paulo, orquestrada pelo governador Opus Dei Geraldo Alckmin, com a cumplicidade de figurinhas carimbadas e tendo como principais provocadores os brucutus da tropa de choque da PM

Nunca me senti tão velho como nesta quinta-feira (13), quando, acamado com forte gripe, só fiquei sabendo pela mídia e pelas redes sociais que a Polícia Militar barbarizara o centro de São Paulo, reprimindo bestialmente os manifestantes que (até então) protestavam pacificamente contra o aumento das tarifas de transporte coletivo.

Foi a confirmação do que venho alertando há anos (vide aqui, p. ex.): está em curso uma escalada de fascistização em São Paulo, orquestrada pelo governador Opus Dei Geraldo Alckmin, com a cumplicidade de figurinhas carimbadas como o reitor TFP João Grandino Rodas (da USP) e tendo como principais provocadores os brucutus da tropa de choque da PM, vulgo Rota (aquela que se orgulha de ter coadjuvado o terrorismo de estado nos anos de chumbo, que é sempre denunciada pelas entidades internacionais de defesa dos direitos humanos por suas execuções maquiladas em resistência à prisão e que os vereadores paulistanos da bancada da bala querem homenagear com uma salva de prata).

A aposta dessa gente é numa nova ditadura. E, se o governo federal a continuar subestimando, o ovo da serpente vai ser chocado até que uma crise de maiores proporções crie um cenário favorável à sua eclosão. Os petistas parecem gostar de viver perigosamente; eu detesto saber que há uma lâmina de guilhotina pendente sobre minha cabeça.

Como estive ausente do palco dos acontecimentos, prefiro não produzir um relato jornalístico da nova blitzkrieg.

Sirvo-me, então, dos principais trechos do depoimento do jornalista e historiador Elio Gaspari, colunista da Folha de S. Paulo e de O Globo, que me pareceu o mais satisfatório da grande imprensa.


A PM começou a batalha da Maria Antônia

Quem acompanhou a manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus ao longo dos dois quilômetros que vão do Theatro Municipal à esquina da rua da Consolação com a Maria Antônia pode assegurar: os distúrbios de ontem começaram às 19h10, pela ação da polícia, mais precisamente por um grupo de uns 20 homens da Tropa de Choque, com suas fardas cinzentas, que, a olho nu, chegaram com esse propósito. Pelo seguinte:

Desde as 17h, quando começou a manifestação na escadaria do teatro, podia-se pensar que a cena ocorria em Londres. Só uma hora depois, quando a multidão engordou, os manifestantes fecharam o cruzamento da rua Xavier de Toledo.

Nesse cenário havia uns dez policiais. Nem eles hostilizaram a manifestação, nem foram por ela hostilizados.

Por volta das 18h30 a passeata foi em direção à praça da República. Havia uns poucos grupos de PMs guarnecendo agências bancárias, mais nada. Em nenhum momento foram bloqueados.

Numa das transversais, uns 20 PMs postaram-se na Consolação, tentando fechá-la, mas deixando uma passagem lateral. Ficaram ali menos de dois minutos e se retiraram. Esse grupo de policiais subiu a avenida até a Maria Antônia, caminhando no mesmo sentido da passeata. Parecia Londres.

Voltaram a fechá-la e, de novo, deixaram uma passagem. Tudo o que alguns manifestantes faziam era gritar: "Você é soldado, você também é explorado" ou "Sem violência". Alguns deles colavam cartazes brancos com o rosto do prefeito de São Paulo, "Malddad".

Num átimo, às 19h10, surgiu do nada um grupo de uns 20 PMs da Tropa de Choque, cinzentos, com viseiras e escudos. Formaram um bloco no meio da pista. Ninguém parlamentou. Nenhum megafone mandando a passeata parar. Nenhuma advertência. Nenhum bloqueio, sem disparos, coisa possível em diversos trechos do percurso.

Em menos de um minuto esse núcleo começou a atirar rojões e bombas de gás lacrimogêneo.
Chegara-se a Istambul.

Atiravam não só na direção da avenida, como também na transversal. Eram granadas Condor. Uma delas ficou na rua que em 1968 presenciou a pancadaria conhecida como "Batalha da Maria Antônia"... 

Elio Gaspari

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Fernando Haddad: "São Paulo repudia a violência"


ATIVISMO SIM, VIOLÊNCIA NÃO



20 centavos de aumento: duas moedinhas de 10. Reajuste muito abaixo da inflação. Que poderia ter vindo em janeiro, mas foi adiado até agora.

Mais de 200 pessoas detidas. Disparos, gritaria, confrontos, quebra-quebra. Gente sangrando. Violência de todos os lados. Ontem à noite, a maior cidade do País virou uma "praça de guerra". E na próxima terça tem mais...

Quem são os promotores das manifestações contra o aumento das passagens e por que não aceitaram o diálogo?

Por que a Polícia Militar extrapolou ontem?

A quem interessa tudo isso?

(Globo News transmitindo ao vivo, tentando levar os conflitos à esfera federal, à presidenta Dilma... Jornalismo de esgoto alvoroçado... 2014 vem aí!...)

Anistia Internacional, apreensiva, divulga nota de alerta.

Em meio ao clima de beligerância instalado nas ruas e avenidas de São Paulo, e acompanhando de seu gabinete as movimentações dos manifestantes e da polícia, o Prefeito Fernando Haddad declarou que não recua do aumento na tarifa e continua aberto ao diálogo, como sempre esteve. Desde que parem com a violência.


Prefeito repudia violência e reitera que tarifa de R$ 3,20 será mantida

Haddad afirmou que nova tarifa será mantida e que todos os esforços foram feitos para que o reajuste ficasse bem abaixo da inflação

O prefeito Fernando Haddad reiterou nesta quinta-feira (13), em coletiva de imprensa na sede da Prefeitura, que o reajuste da tarifa de ônibus de São Paulo não será revisto, e repudiou a violência durante os protestos na cidade. “Vou repetir para deixar bastante claro. Não pretendo, porque o esforço que foi feito ao longo do ano para que o reajuste da tarifa fosse muito abaixo da inflação foi enorme. E ele (aumento) vai significar investir mais de R$ 600 milhões em subsídios”, disse o prefeito.

O prefeito afirmou que considera legítima toda e qualquer manifestação e expressão democrática. “O que a cidade repudia é a violência. São Paulo está acostumada às manifestações. O que a cidade não aceita é a forma violenta de se manifestar e se expressar. Com isso não compactuamos”, disse Haddad. “A renúncia à violência é o pressuposto de diálogo”.

Haddad disse que os compromissos firmados durante a campanha para o transporte público da capital estão sendo cumpridos nos primeiros meses de gestão. “O reajuste abaixo da inflação, o Bilhete Único Mensal (em fase de cadastramento) e corredores e faixas exclusivas de ônibus (46 km já foram implantados). É isso que está previsto no meu programa de governo e é isso que vai ser feito”.

O prefeito lembrou que, no início das manifestações, “deixou as portas abertas para o diálogo e foi recusado por parte dos manifestantes. Antes de qualquer violência ter acontecido na cidade. E depois, todos conhecem a história”.

Sobre a violência, Fernando Haddad disse que a prefeitura mantém diálogo permanente com a Secretaria de Segurança Pública do Estado e com o governador Geraldo Alckmin. “A Guarda Civil Metropolitana, a Polícia Militar e Polícia Civil estão desde o primeiro momento em contato permanente. Inclusive eu mesmo e o governador”.

O prefeito comentou ainda o fato de o próprio movimento afirmar que estaria sem liderança. “É o que eles próprios dizem. Que não se coordenam, que não há lideranças, não há responsáveis, ninguém se apresenta como responsável pelo que está acontecendo”.

Segundo Haddad, a Prefeitura de São Paulo está buscando novas formas de financiamento do transporte público. “A Prefeitura está aberta a qualquer tipo de debate, qualquer assunto desses, educação, saúde, transporte público... Sempre vai interessar aos administradores públicos e sobretudo aos prefeitos. O que todo prefeito quer é beneficiar, favorecer o transporte público. Mas nem sempre há meios disponíveis para isso. Então é buscar novas formas de financiamento, de investimentos. Isso é um debate que interessa a qualquer dirigente municipal”.

Reajuste

A tarifa de ônibus em São Paulo foi reajustada no último dia 2 de junho, passando de R$ 3 para R$ 3,20. O aumento de 6,67% ficou abaixo da inflação acumulada desde janeiro de 2011, quando passou a vigorar a tarifa anterior de R$ 3. De acordo com a inflação calculada pelo IPC/Fipe para o período (14,4%), o reajuste poderia chegar a mais de R$ 3,40. A Prefeitura subsidiará o sistema de ônibus em R$ 1,25 bilhão durante o ano de 2013.

Para reajustar a tarifa apenas no mês de junho e abaixo da inflação, a Prefeitura, ao lado do Governo do Estado, fez um esforço orçamentário e conseguiu junto ao Governo Federal uma desoneração de tributos (Medida Provisória que zerou a alíquota do PIS/COFINS).

A mudança da tarifa não altera o sistema de integração gratuita por três horas para o bilhete comum e de duas horas para os demais bilhetes. A integração dos ônibus com o metrô e os trens da CPTM passou a custar R$ 5. Para os estudantes, a cota de junho foi calculada com base no valor de R$ 1,60, metade da nova passagem.

Portal PMSP


Anistia Internacional defende solução pacífica para impasse entre manifestantes e autoridades


                                                                                                                Luiz Baltar

A Anistia Internacional vê com preocupação o aumento da violência na repressão aos protestos contra o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também é preocupante o discurso das autoridades sinalizando uma radicalização da repressão e a prisão de jornalistas e manifestantes, em alguns casos enquadrados no crime de formação de quadrilha.

O transporte público acessível é de fundamental importância para que a população possa exercer seu direito de ir e vir, tão importante quanto os demais direitos como educação, saúde, moradia, de expressão, entre outros.

É fundamental que o direito à manifestação e à realização de protestos pacíficos seja assegurado. A Anistia Internacional é contra a depredação do patrimônio público e atos violentos de ambos os lados e considera urgente o estabelecimento de um canal de diálogo entre governo e manifestantes para que se encontre uma solução pacífica para o impasse.

Anistia Internacional Brasil


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quinta-feira, 13 de junho de 2013

SP: 20 centavos de aumento e o caos na cidade


OPINIÃO



A maior metrópole latino-americana constitui um gigantesco laboratório de desafios e recursos.

Tem a escala necessária para gerar contracorrentes vigorosas, a ponto de sacudir e renovar a agenda da esquerda brasileira, após mais de uma década no comando do país. 

A deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade é obra meticulosa e secular de elites predadoras.

Ao longo de décadas, a Prefeitura consolidou-se aos olhos da população como um anexo dessa lógica expropriatória, quando deveria funcionar como um escudo do interesse coletivo.

Incapaz de se contrapor à tragédia estrutural que marca a luta pela vida em São Paulo, tornou-se uma ferramenta irrelevante aos olhos da cidadania.

A tragédia se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação institucional da cidade.

Daí para acender uma espiral de enfrentamentos bastam 20 centavos de diferença na tarifa.

Movimento Passe Livre/Facebook


A resposta é mais democracia

Saul Leblon



Não enxergar o elo entre as ruas e o ciclo histórico costuma ser fatal às lideranças de uma época.

Acreditar que o elo, no caso dos recentes protestos em São Paulo, está no aumento de 20 centavos sobre uma tarifa de transporte congelada desde janeiro de 2011, é ingenuidade.

Supor que a ordenação entre uma coisa e outra poderá ser restabelecida à base de cassetetes e pedradas é o passaporte para o desastre.

Desastre progressista, bem entendido.

A lógica conservadora nunca alimentou dúvidas existenciais ou políticas quanto a melhor forma de manter o caos nos eixos.

Esse é um apanágio do seu repertório histórico.

O colapso do trânsito, inclua-se nesse desmanche o custo e o tempo despendidos nos deslocamentos, é apenas o termômetro mais evidente de um metabolismo urbano comatoso.

Cerca de 1/3 dos paulistanos, aqueles mais pobres, residentes nas periferias distantes, levam mais de uma, e até mais de duas horas no trajeto da casa ao trabalho.

Os tempos indicados são referentes à ida; não consideram o gasto no retorno.

Os dados são de pesquisa recente do Ibope.

Não se produz uma irracionalidade desse calibre sem um acúmulo deliberado.

Estudos do Ipea reiteram a piora nas condições de transporte urbano das principais áreas metropolitanas do país desde 1992.

O Brasil tem a taxa de urbanização mais alta em uma América Latina que lidera o ranking mundial nesse indicador, diz a ONU.

O país concluiu a transição rural/urbana em três décadas, açoitado pela política de modernização conservadora do campo.

Isso se fez sob a chibata de uma ditadura militar.

E não poderia ter sido feito exceto assim.

A virulência do Estado ditatorial fez em um terço do tempo aquilo que as nações ricas levaram um século para realizar.

A coagulação da insensatez na atual "imobilidade urbana" reflete o saldo de perdas e danos dessa marcha batida da história.

O crescimento populacional desordenado das grandes cidades, agudizado pelas referidas migrações, é um dos alicerces da ruína.

Ancorada na omissão pública de décadas, a expansão irracional e especulativa da mancha urbana ganhou vida própria.

Com os desdobramentos logísticos sabidos: aumento das taxas de deslocamento e motorização; explosão dos congestionamentos e do custo do transporte na vida da cidade e no bolso de cada cidadão.

Não é figura de retórica dizer que esses ingredientes acionam o pino de cada bomba de gás lacrimogênio e faíscam o pavio de cada enfrentamento irrefletido nas batalhas campais registradas na cidade de São Paulo em menos de uma semana.

Repita-se: o conservadorismo tem certezas esféricas quanto a melhor forma de lidar com a nitroglicerina social contida nas cápsulas de concreto que ergueu no país nas últimas décadas.

Suas escolhas não podem ser as mesmas das forças progressistas.

O nivelamento regressivo acontecerá caso a inércia política ceda o comando dos acontecimentos à lógica da violência.

No caso dos protestos em São Paulo, a responsabilidade da autoridade municipal é superlativa.

Cabe-lhe reafirmar o divisor entre a gestão progressista de uma sociedade e a visão conservadora sobre os seus conflitos.

Carta Maior saudou a vitória de Fernando Haddad em 2012 por entender, como entende, que ele representa o resgate do cimento da democracia na reconstrução de São Paulo.

Mais que isso.

Por entender que a sorte de São Paulo sob a liderança da nova administração marcará o destino da agenda progressista brasileira no período em curso.

A maior metrópole latino-americana constitui um gigantesco laboratório de desafios e recursos.

Tem a escala necessária para gerar contracorrentes vigorosas, a ponto de sacudir e renovar a agenda da esquerda brasileira, após mais de uma década no comando do país.

A deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade é obra meticulosa e secular de elites predadoras.

Ao longo de décadas, a Prefeitura consolidou-se aos olhos da população como um anexo dessa lógica expropriatória, quando deveria funcionar como um escudo do interesse coletivo.

Incapaz de se contrapor à tragédia estrutural que marca a luta pela vida em São Paulo, tornou-se uma ferramenta irrelevante aos olhos da cidadania.

A tragédia se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação institucional da cidade.

Daí para acender uma espiral de enfrentamentos bastam 20 centavos de diferença na tarifa.

Sim, há outras nuances e interesses entrelaçados ao destaque esquizofrênico com que a mídia convoca e, depois, alardeia o caos a cada protesto.

Tais motivações são as mesmas que fizeram do tomate um astro olímpico na modalidade "descontrole dos preços", há menos de um mês.

As mesmas que hoje alardeiam "a explosão" do dólar – e, ontem, denunciavam o "populismo cambial" e os malefícios, verdadeiros, do Real sobrevalorizado.

Essas motivações exercitam sua sofreguidão cotidianamente na mesmice de uma mídia que se esboroa sob o peso de sua própria irrelevância jornalística.

A resposta da Prefeitura de São Paulo aos protestos não deve se pautar pelos uivos do jogral conservador.

Não se trata, tampouco, de conciliar com a violência gratuita.

Mas, sim, de encarar as manifestações como um mirante privilegiado para fixar uma nova referência na vida da cidade.

Qual seja, a de calafetar o abismo conservador que predominou secularmente na relação entre a Prefeitura e os moradores da metrópole, sobretudo a sua parcela mais pobre.

O trunfo do prefeito Fernando Haddad é ter sido eleito para isso.

Ele tem legitimidade para subtrair espaços à engrenagem opressora e devolvê-los a uma cidadania há muito alijada das decisões referentes ao seu destino e ao destino do seu lugar.

Um salto de qualidade e intensidade na participação democrática na gestão da cidade.

Essa é a resposta para a fornalha da insatisfação, da qual os incidentes de agora podem representar apenas um prenúncio pedagógico.

São Paulo é o produto mais representativo do capitalismo brasileiro.

Um labirinto de contradições, uma geringonça que emperra e se arrasta, desperdiça energia e cospe gente enquanto tritura e refaz o seu concreto de desigualdade.

Não há solução administrativa ou orçamentária imediata para o caos deliberadamente construído aqui.

A resposta à lógica que sequestrou a cidade dos seus cidadãos é devolvê-la a eles fortalecendo os canais existentes e abrindo outros novos, que dilatem o seu discernimento e a capacidade de erguer linhas de passagem entre o presente e o futuro.

A alternativa é a anomia, eventualmente sacudida de gás lacrimogênio e pedradas.

(*) NR: a menção ao uso de coquetel molotov nas manifestações foi suprimida do texto por se tratar de informação divulgada pelo aparato policial, sem comprovação até o momento (12/06/2013; 23h51)


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SP: Haddad condena violência de manifestantes


ATIVISMO SIM, VIOLÊNCIA NÃO



O ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, acionou a Polícia Federal para investigar as violentas manifestações de rua do Movimento Passe Livre.

"Eu disse e repito que não vou dialogar em uma situação de violência. A prefeitura dialoga com todos os segmentos sociais. Mas a renúncia à violência é o pressuposto de diálogo", declarou o prefeito Fernando Haddad, em Paris.


                                                                                                      SECOM/PMSP


Prefeito condena violência em manifestações contra reajuste de tarifa


O direito à livre manifestação é um dos pilares da democracia. Mas, atos de violência, depredação de ônibus e patrimônio público são totalmente condenáveis. A afirmação foi feita pelo prefeito Fernando Haddad, em Paris, nesta quarta-feira (12), pouco antes de embarcar de volta para São Paulo.

Haddad estava em Paris, onde defendeu a candidatura de São Paulo à Exposição Internacional (Expo 2020) e acompanhou as manifestações de ontem até a madrugada, conectado com seus secretários por internet e telefone. "Depois de um certo momento, quando a manifestação começou a dispersar, alguns grupos muito minoritários, inconformados com o ambiente de liberdade, passaram a provocar e a depredar. Isso não é compatível com a vida democrática. Não é liberdade de expressão. Trata-se de outra coisa, trata-se de violência gratuita", comentou o prefeito.

As tarifas de ônibus, trens e metrô foram reajustadas no início do mês em 6,7%, passando de R$ 3 para R$ 3,20. A inflação acumulada desde janeiro de 2011, data do último reajuste, foi de 14,4%. Se fosse aplicada, elevaria a passagem para mais de R$ 3,40. Nos moldes atuais, o sistema de ônibus receberá subsídios de cerca de R$ 1,25 bilhão em todo o ano de 2013.

"Nós fizemos um esforço orçamentário, também acompanhado pelo Governo do Estado, e conseguimos junto ao Governo Federal uma desoneração de tributos, o que permitiu um reajuste muito abaixo da inflação. Nos últimos anos, os aumentos têm sido reiteradamente acima da inflação. E o nosso compromisso era de reverter essa tendência, o que nós de fato fizemos", afirmou o prefeito.


"Só este ano, o reajuste de salário de motoristas e cobradores foi de 10%. Fora os anos anteriores, em que a tarifa permaneceu congelada", lembrou Haddad.

Sobre a redução de tarifas anunciada em algumas cidades, o prefeito explicou que a maioria havia feito reajuste para R$ 3,30 em janeiro e, por conta da desoneração da Medida Provisória que zerou a alíquota do PIS/Cofins, voltou para R$ 3,20. "Toda a região metropolitana aumentou para R$ 3,30 em janeiro e está reduzindo para R$ 3,20 depois de seis meses. Quem está reduzindo hoje aumentou no começo do ano. Ao contrário de todas as cidades, nós seguramos o aumento da tarifa desde janeiro. Então, não é justo com o cidadão o que está sendo dito".


O prefeito Fernando Haddad falou ainda que a violência do movimento impede um diálogo com o grupo. "Eu disse e repito que não vou dialogar em uma situação de violência. A prefeitura dialoga com todos os segmentos sociais. Mas a renúncia à violência é o pressuposto de diálogo".

Por fim, Haddad comentou o fato de líderes do movimento terem admitido que perderam o controle porque integrantes de outros movimentos teriam se juntado ao grupo. "Aí é fácil lavar as mãos. Depois do que aconteceu, você promove um movimento, não tem capacidade de liderança e aí lava as mãos. Isso é falta de democracia. Democracia é assumir responsabilidades".


Balanço

Em relação aos protestos realizados na terça-feira (11) na região central de São Paulo, a Prefeitura registrou danos e avarias em 85 ônibus e em uma viatura da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Foram contabilizadas, ainda, 300 lixeiras (papeleiras) danificadas.


Portal PMSP

Destaques do ABC!

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Confrontos e depredações: São Paulo vai parar?


ATIVISMO



Quem são eles e o que querem?


Nós não temos como controlar as pessoas que vêm aqui só para zoar e quebrar tudo. Nossa ação tenta ser pacífica.

Isso tudo é importante porque mostra como temos poder de mobilização. Tudo pela internet.

O movimento é apartidário, mas nós aceitamos todos os partidos que queiram se unir à luta. Em geral, é a polícia que começa a violência. 

Nós somos um movimento social. Queremos transformar a realidade.

Mas, enquanto estivermos irritando a esquerda e a direita, estamos no caminho certo.


"Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar" 
Movimento Passe Livre/Facebook


As faces do movimento que está parando São Paulo

KIKO NOGUEIRA* 

“Nós não temos como controlar as pessoas que vêm aqui para quebrar tudo”.


Thaís Lopes, estudante de jornalismo


O terceiro ato contra o aumento das tarifas de ônibus do Movimento Passe Livre terminou com um saldo de 32 detidos, barricadas, uma agência do Bradesco e uma estação de metrô depredadas e confrontos com a polícia na Estação da Sé, na Paulista e em alguns outros pontos da cidade.

O Diário acompanhou a manifestação que juntou aproximadamente 5 mil pessoas (as fotos são de autoria de Andrés Vera).

Por que terminou assim? Tem de terminar assim? É útil para a causa do Passe Livre que termine assim? “Nós não temos como controlar as pessoas que vêm aqui só para zoar e quebrar tudo”, me disse um membro do MPL que não quis se identificar. “Nossa ação tenta ser pacífica”.

A concentração na esquina da Paulista com a Consolação era relativamente tranquila na tarde feia paulistana. Em comum, todos estavam atendendo à convocação feita pelo Facebook. “Isso tudo é importante porque mostra como temos poder de mobilização. Tudo pela internet”, disse Thais Lopes, estudante de jornalismo. Os membros do MPL batucavam na Praça do Ciclista, no coração da aglomeração. Usavam camisetas pretas com o símbolo da organização e entoavam gritos de guerra como: “Ô motorista, ô cobrador, me diz aí se seu salário aumentou”; “Mãos ao alto, 3 e 20 é um assalto”.

Em torno deles, a multidão de jovens – muitos deles com lenços cobrindo o nariz e a boca. Faixas estendidas. Não eram visíveis bandeiras de partidos como PSTU e PSOL. Mas o MPL era, na verdade, a minoria.

“Nós todos queremos a mesma coisa”, disse Guilherme Kranz, morador de Higienópolis e membro da Juventude Às Ruas. Guilherme distribuía panfletos de sua agremiação. “Há notícias de que até mesmo a Abin (A CIA brasileira) tem se infiltrado e espionado nossos atos e isso num governo de uma ‘ex-combatente’ contra a ditadura”, lia-se.

O homem destacado pelo MPL para falar com a imprensa era Caio Martins. Magro, alto, óculos de aros redondos, Caio mora na Lapa com os pais. “Nós decidimos que eu falaria com vocês numa reunião à tarde. Eu me sinto mais à vontade”, disse. “O movimento é apartidário, mas nós aceitamos todos os partidos que queiram se unir à luta. Em geral, é a polícia que começa a violência”. Caio declarou enxergar uma inspiração no Ocupe e nos protestos em Istambul, na Praça Taksim. “Nós somos um movimento social. Queremos transformar a realidade”.

A passeata seguiu em direção ao centro. A chuva intensa fez com que muitos se refugiassem nas marquises de lojas da Consolação. “Há muitas coisas ruins acontecendo no Brasil. É preciso dar um basta. Gostaria de ver mais famílias aqui”, disse Isadora Lima, de 32 anos, hostess, que aproveitou o dia de folga do trabalho para protestar.

“A USP está engajada, especialmente a FFLECH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). O transporte tem de ser gratuito”, afirmou Renato Aguilar, morador de uma república e que vai à escola com o circular da USP — o qual, aliás, é gratuito. “Eu não me conformo com essa situação. Sou do coro de maracatu da faculdade e o pessoal do Passe Livre nos convidou a participar”.

A violência teve início na Praça da Sé, com a rotina de gás lacrimogêneo contra pedradas. “Esquecemos o vinagre”, disse Júlio Witer, estudante de geografia, de olhos vermelhos após uma bomba de efeito moral. Muitos levavam lenços embebidos em vinagre para amenizar os efeitos do gás. Sacos de lixo foram usados para acender fogueiras. Mais tarde, grupos se dispersaram e confrontos esparsos prosseguiram por algumas horas. Na Bela Cintra, bexigas com tinta foram atiradas nos policiais. Uma bomba explodiu na estação Brigadeiro do metrô. Os passageiros tiveram de sair por causa da fumaça.

“Não sei se vamos nos isolar. É possível que sim”, disse o estudante Reinaldo Carvalhosa. “Mas, enquanto estivermos irritando a esquerda e a direita, estamos no caminho certo”.

As faces da manifestação:



Adriana Martins, artista plástica


Guilherme Kranz, estudante e membro da Juventude Às Ruas

Stefany Marques, estudante


Enzo Santos, estudante de cinema


Isadora Lima, hostess


Melannie Schisler, estudante de geografia

Júlio Witer, estudante de geografia

Rogério Che, diretor de fotografia

João Paulo Freire, enfermeiro

* Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

Diário do Centro do Mundo

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terça-feira, 11 de junho de 2013

O delírio fascista de um Promotor de "Justiça"


Estou  há 2 horas tentando voltar para casa mas tem um bando de bugios revoltados parando a avenida Faria Lima e a Marginal Pinheiros.

Por favor, alguém poderia avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial.

Petista de merda. Filhos da puta. Vão fazer protesto na puta que os pariu... 

Que saudade da época em que esse tipo de coisa era resolvida com borrachada nas costas dos merdas...

                          Rogério Zagallo, Promotor de Justiça do Ministério Público de SP


Corregedoria nele !!!


Banco de Imagens/MP-SP


O promotor Zagallo deve ser punido por seu delírio fascista

JOSÉ NABUCO FILHO* 

Ao desejar a morte de manifestantes e declarar que “essa região faz parte do meu Tribunal”, ele rompe com o estado de direito.

Ele

Quando vi a reprodução da postagem do promotor Rogério Zagallo, a primeira coisa que perguntei foi se era verdadeiro aquilo. Não que o tivesse em boa conta, muito pelo contrário, mas não imaginei que seus delírios chegassem a tanto. Zagallo disse o seguinte: “Por favor, alguém poderia avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial. Petistas de merda. Filhos da puta.”

Preocupado com a repercussão, ele emendou depois que era só um desabafo e que não estava agindo como promotor de justiça.

Zagallo ficou famoso pelo fundamento usado em um requerimento de arquivamento de um inquérito em que um policial matou um homem que o tentara roubar. Depois de ser sarcástico — “para desgosto dos defensores dos Direitos Humanos de plantão” —, justificou o arquivamento: “Bandido que dá tiro para matar tem que tomar tiro para morrer. Lamento, todavia, que tenha sido apenas um dos rapinantes enviados para o inferno. Fica aqui o conselho para Marcos Antônio: melhore sua mira…”.

Não sei se, nesse caso, houve legítima defesa que justificasse o arquivamento. Mas sei que o fundamento é uma afronta à lei. O que justifica o ato de matar alguém, em tais circunstâncias, é a defesa da própria vida ou de outra pessoa. No instante em que não há mais agressão — tiros — cessa a possibilidade de defender-se legitimamente. Se alguém atira contra um policial e foge, não pode ser morto como vingança. Quando ele escreve que quem dá tiro contra policial tem que morrer, ele está fazendo uma clara apologia da violência como vendetta.

Além dos termos chulos, chama a atenção uma incapacidade de lidar com uma manifestação popular, a ponto de louvar a ditadura militar, a Rota ou seja lá o que for, ao falar que sente saudade do tempo em que se resolvia isso com “borrachada nas costas”.

Mas o pior ainda não é isso.

Ao declarar que “essa região” faz parte do “meu Tribunal do Júri”, ele revela uma falta de noção de valores republicanos, pois fala de seu poder – não um poder público, com limitações estabelecidas em lei, mas como se fosse pessoal, despótico, exercido conforme seu arbítrio. Um Estado Democrático de Direito pressupõe, sobretudo, a limitação do poder, de modo que quem exerce qualquer cargo público está subordinado à legalidade.



O post

Quando avisa que se um policial matar um dos manifestantes, ele arquivaria o inquérito, o delírio fascista chega ao extremo. Primeiro porque promotor não arquiva, mas requer o arquivamento. Isso significa que sua manifestação está sujeita ao controle de legalidade feito pelo juiz. Se este não concordar, remete para o Procurador Geral de Justiça. Segundo, porque se um PM assassinar alguém pelo simples motivo de que essa pessoa está em uma manifestação, terá ocorrido um homicídio. Em uma hipótese absurda como essa, o dever do promotor seria oferecer denúncia contra o PM por crime.

Esse tipo de pessoa é o que mais temo e lastimo como professor de direito penal. É aquele que frequenta uma faculdade e se apodera dos conhecimentos jurídicos apenas para a aprovação em um concurso público. Depois disso, ele não faz outra coisa senão negar o direito. Ele se vale do conhecimento jurídico para a ascensão econômica, mas no exercício da atividade ele avilta o direito.

A Lei Orgânica do Ministério Público do Estado de São Paulo exige dos membros do MP um comportamento digno. Um dos deveres funcionais do membro do MP é “zelar pelo prestígio da Justiça, por suas prerrogativas e pela dignidade de suas funções”. No art. 173, inciso VI, constitui infração disciplinar o descumprimento dos deveres funcionais previstos no art. 169, dentre os quais o de zelar pela dignidade de suas funções.

No art. 232, poderá ocorrer “correição extraordinária” para a apuração de “atos que comprometam o prestígio ou a dignidade da Instituição”.

É difícil saber qual seria a pena aplicável (advertência, censura ou suspensão). Mas a manifestação de Zagallo causou perplexidade nas pessoas sensatas – e na comunidade jurídica, de modo que se espera a rigorosa apuração da Corregedoria do Ministério Público.


* Mestre em Direito Penal pela Unimep, professor de Direito Penal da Universidade São Judas Tadeu e quarto-zagueiro clássico. Seu email: j.nabucofilho@gmail.com


Destaques do ABC!

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São Paulo: Mundo da Cultura X Mundo do Crime


VIOLÊNCIA CONTRA A BLOGUEIRA




No meio do caminho, tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho.                                               Carlos Drummond de Andrade
       


A história de vida da cidadã blogueira Sônia Amorim, que edita os blogs "Abra a Boca, Cidadão!" e "Psicopatas", começa num pequeno e humilde bairro da periferia leste da cidade de São Paulo, filha caçula de uma família modesta.

Geralda e José, os pais da hoje escritora e blogueira, não tinham sequer completado o curso primário. Mas a menina, aos oito anos, ao ser indagada por um coleguinha de travessuras sobre o que queria ser quando crescesse, não hesitou: "Escritora!"

De onde a menina tirou esta ideia, nem ela sabe...

A família humilde, com pouca instrução e dinheiro curto, não podia comprar livros. O seu José, nordestino, operário de indústria química e torcedor fanático do tricolor paulista e da seleção brasileira, vez por outra, trazia para casa um exemplar da Gazeta Esportiva e do Diário da Noite. E a menina que queria ser escritora se deslumbrava com as letras impressas no papel-jornal, dias e dias devorando aquelas deliciosas e mágicas guloseimas.

Mas a "fome" das letras só fazia aumentar. E foi sendo atendida nos anos seguintes e pela vida afora. E jamais foi  saciada.

A menina cresceu, foi cursar o ginásio num bairro operário, e lá teve um fascinante e inesquecível contato com a poesia. Enquanto suas amiguinhas batiam bola na quadra, brincavam no pátio ou fumavam no banheiro, a menina que queria ser escritora, na biblioteca, descobriu os românticos e parnasianos, as estrofes e as métricas e as rimas... e declarou para si mesma, extasiada, falando baixinho: "Eu também quero!"

A partir daí a adolescente passou a "cometer" seus primeiros poemas. E o que era "degustação de guloseima" virou transe.

E a "fome" de letras, palavras, poesia, literatura, escritos, textos... não dava trégua.

A menina virou moça e foi parar na universidade. E desembocou, claro, num curso de Letras, onde pôde ao longo de anos tentar suprir a tal "carência alimentar".

Só a poesia e a ficção não saciavam a fome da menina. E ela foi abrindo outros "cardápios", no jornalismo, na história dos meios impressos, nas artes gráficas, na editoração...

A menina virou Mulher das Letras, dos Livros e da Comunicação. E acabou desempenhando papeis em várias "cozinhas editoriais", revisando, redigindo, editando. No mágico ofício de transformar letras e palavras em iguarias literárias e objetos de degustação.

Livros e mais livros. Autores e mais autores. Textos e mais textos.

Mais de trinta anos percorridos no Mundo Editorial, no Mundo da Cultura.

No entanto, graças a um desses sobressaltos que a vida muitas vezes costuma apresentar, sem que tivesse qualquer interesse ou inclinação, sem que tivesse pedido ou sido consultada, a menina escritora, agora Mulher das Letras e da Comunicação, se vê colocada dentro de um confronto, num embate irracional, injusto e desproporcional.

Com o Mundo do Crime.


                                Berthe Morisot, pintora impressionista francesa (1888)


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