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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O megashow da blogueira popstar no Brasil


YOANI SÁNCHEZ NO BRASIL



                                                                                                         Facebook/Yoani


"E, como toda atitude imbecil tem seu efeito bumerangue, a visita de Yoani Sánchez, que deveria mobilizar pouca gente, apenas os muito interessados em conhecer detalhes do cotidiano cubano, acabou se tornando um grande evento, um evento-espetáculo. Quem não sabia quem era a moça agora sabe; e sabe mais ainda, de que são capazes seus adversários quando se sentem contrariados."


O som, a fúria e o nada

Carlos Brickmann

Há certas coisas difíceis de entender.


Um jornalista (que trabalha numa grande empresa, das mais atacadas pelos fanáticos que se consideram de esquerda) proclama seu orgulho de ser intolerante e fundamentalista. Outro jornalista diz que, como petista, considera o senador Eduardo Suplicy, fundador do PT, “meio tucano”. Outro jornalista sugere que se vá a uma comunidade pobre e se verifique o que é que seus moradores preferem: saúde, alimentação ou liberdade de expressão. E conclui que ninguém ali estaria tão preocupado assim com a liberdade de expressão. Portanto, Cuba é ótima.

Houve época em que multidões de italianos aceitaram a ditadura fascista porque o ditador Benito Mussolini fez os trens andarem no horário. Mas não era contra esse tipo de pensamento que a esquerda se colocava?

Toda essa exacerbação ocorreu há poucos dias, com a visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil. Houve, entre as cenas horrorosas de tentativa de intimidação da blogueira, de promoção de tumultos e gritarias para impedi-la de falar, algumas coisas até engraçadas. Por exemplo, um senhor de meia idade, com quarenta e muitos ou cinquenta e poucos, que se jogasse futebol estaria entre os masters, vestindo a camiseta da UJS – União da Juventude Socialista.

Qual a essência do problema? Yoani faz restrições ao regime cubano; e os que tentaram impedi-la de falar não podem aceitar que alguém critique um regime tão maravilhosamente perfeito nem seus líderes geniais. Surgiram então as acusações (as de costume: “agente da CIA”, “enviada do imperialismo ianque”), as perguntas (“quem é que paga a viagem?”, “que é que ela acha da base de Guantánamo?”), os comentários sexistas (“esta mulher é o cão chupando manga”, “não existe cabeleireiro em Cuba?”, “em Cuba não há comida, nem liberdade, nem tesoura”). E daí? Imaginemos que Yoani seja simultaneamente agente da CIA, da Stasi, da KGB e do SNI. Em que é que isso tira a possibilidade de seus adversários de desmontar sua argumentação, com argumentos racionais, educadamente? Imaginemos que sua viagem seja paga pela Associação Internacional dos Pedófilos Anônimos. Em que é que isso modifica suas críticas, em que é que isso prejudica a possibilidade de contestá-la?

Nos tempos em que havia esquerda, formada por pessoas que estudavam em vez de gritar slogans, Rosa Luxemburgo, a grande revolucionária alemã, dizia que liberdade é quase sempre a liberdade de quem pensa diferente de nós. E o fato real é que tentaram impedir que Yoani tivesse a liberdade de dizer o que pensa. Acusá-la de ser agente de quem quer que seja, de receber passagens de grupos organizados, de receber recursos não-contabilizados, perfeito; desde que isso seja feito civilizadamente, sem tentar impedi-la de falar.

E, como toda atitude imbecil tem seu efeito bumerangue, a visita de Yoani Sánchez, que deveria mobilizar pouca gente, apenas os muito interessados em conhecer detalhes do cotidiano cubano, acabou se tornando um grande evento, um evento-espetáculo. Quem não sabia quem era a moça agora sabe; e sabe mais ainda, de que são capazes seus adversários quando se sentem contrariados.


Questão de sexo

Alguns cavalheiros polêmicos visitaram o Brasil ultimamente, como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o italiano Césare Battisti (que ficou), o pessoal da FIFA. Ninguém criticou o corte de seus cabelos, nem suas roupas, nem seu sex-appeal. Mas, quando se trata de mulher, como no caso de Yoani, os atributos físicos e de moda entram imediatamente em debate. É feia, é reta, tinha de cortar o cabelo, tratar dos dentes, usar roupas diferentes – e isso num país onde existe (acreditem!, é verdade!) uma secretaria de Políticas para as Mulheres, com status de Ministério, comandada pela ministra Eleonora Menicucci. Que, aliás, mantém-se silenciosa sobre as agressões que uma mulher sofre quando tenta expor suas ideias.

Haverá alguém aqui adepto do ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi? Ele deve ter queixas de vários dirigentes homens de outros países, mas só se soltou ao falar de uma mulher, a primeira-ministra da Alemanha Ocidental, Angela Merkel: “Uma bunduda incomível”. O curioso é que quem critica os atributos físicos das mulheres nem sempre resistiria a uma análise feminina. Ou alguém acredita que as festas de Berlusconi sejam animadas por meninas fascinadas pela beleza física, vitalidade e glamour de Sua Excelência? E de graça?



Observatório da Imprensa

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Yoani Sánchez: "Dinheiro não é tabu"


LIBERDADE DE EXPRESSÃO



"Yoani diz querer usar o dinheiro dos prêmios para fundar um jornal independente.

' (...) para mim, o dinheiro não é tabu. É uma possibilidade de realizar os sonhos. Estou muito orgulhosa de todos os prêmios que ganhei.

Um dos objetivos da minha viagem é poder recuperar parte dos meus prêmios (em dinheiro ou não) com a intenção de levá-los a Cuba. Seria o capital inicial do jornal. Tenho recebido muito pouco, às vezes vem um amigo e traz uma parte. Também invisto na minha vida pessoal. Não promulgo um ascetismo como uma forma de vida. Não vou me sentir culpada por uma autonomia limpa.

Eu poderia me perguntar onde está a fortuna pessoal dos filhos de Raúl Castro, onde estão essas contas? Todos têm contas no exterior. Quando há um indivíduo autônomo, essa discussão se converte em problema. No mais, adoraria publicar gratuitamente no Granma (jornal oficial do governo). Me dá uma coluna no Granma, não me paga um centavo e eu seria a pessoa mais feliz do mundo.' "



“Para mim, o dinheiro não é tabu”

Flávio Tabak* 

Além de incontáveis palestras e debates, a blogueira cubana Yoani Sánchez terá uma tarefa bem prática durante os 80 dias da viagem iniciada pelo Brasil e que incluirá pelo menos outros 12 países: cuidar do próprio bolso. Alvo de críticas de opositores, que a acusam de ser financiada pelos Estados Unidos e por entidades contrárias ao regime dos irmãos Castro em Cuba, Yoani afirma não tratar dinheiro como “tabu”. Ela saiu do país com o equivalente a US$ 200 (divididos entre dólares e euros) e pretende engordar sua renda com os prêmios que ganhou nos últimos anos. O problema é fazer com que os recursos cheguem a Cuba sem que sejam confiscados no aeroporto de Havana.

Yoani diz querer usar o dinheiro dos prêmios para fundar um jornal independente. Uma outra parte seria reservada para fins pessoais. “Todo esse tema é porque o dinheiro em Cuba se transformou num tabu. Durante muitos anos, o dinheiro não funcionou como moeda de troca: o importante eram os méritos, a influência, os cargos políticos, a linhagem sanguínea. Mas, para mim, o dinheiro não é tabu. É uma possibilidade de realizar os sonhos. Estou muito orgulhosa de todos os prêmios que ganhei”, argumentou a blogueira, antes de partir para Brasília.

A blogueira é colaboradora do jornal espanhol El País e relata ter dificuldade para receber o pagamento pelos artigos que escreve. Ela tem uma conta bancária na Suíça, da época em viveu dois anos lá (de 2002 a 2004), mas afirma não usá-la. E reclama da acusação de mercenária, feita por manifestantes em Feira de Santana. “Um dos objetivos da minha viagem é poder recuperar parte dos meus prêmios (em dinheiro ou não) com a intenção de levá-los a Cuba. Seria o capital inicial do jornal. Tenho recebido muito pouco, às vezes vem um amigo e traz uma parte. Também invisto na minha vida pessoal. Não promulgo um ascetismo como uma forma de vida. Não vou me sentir culpada por uma autonomia limpa.”


“Adoraria publicar gratuitamente no Granma

A cubana nega que receba salário da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e diz ter uma carta da direção da entidade, explicando que “isso é totalmente falso, uma grande mentira”.

Yoani ainda não sabe quanto dinheiro precisará para fundar seu sonhado jornal, mas acredita que não necessitará “uma fortuna”. Em tom irônico, diz que não precisaria de um meio independente se pudesse contribuir para a imprensa de Cuba. “Eu poderia me perguntar onde está a fortuna pessoal dos filhos de Raúl Castro, onde estão essas contas? Todos têm contas no exterior. Quando há um indivíduo autônomo, essa discussão se converte em problema. No mais, adoraria publicar gratuitamente no Granma (jornal oficial do governo). Me dá uma coluna no Granma, não me paga um centavo e eu seria a pessoa mais feliz do mundo.”

* Flávio Tabak, de O Globo


Observatório da Imprensa

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Fidel: "Esse modelo não serve mais nem para nós"


YOANI SÁNCHEZ NO BRASIL


Para a esquerda burra, tosca e obsoleta. E mal-educada.

"A grosseria, a incivilidade e a estupidez são algumas das características mais desagradáveis do ser humano e foram usadas em larga escala não só na Bahia, mas também no plenário da Câmara Federal por algumas pessoas que ainda vegetam no estado primário do processo civilizatório."

"Ninguém é obrigado a gostar de Yoani Sánchez como ninguém pode ser proibido de admirar e cultuar ditaduras." 

"O fascínio pela servidão voluntária é uma das características mais degradantes do ser humano."




Democracia, agite antes de usar

Sandro Vaia 

Alguma outra vez neste país a democracia foi usada para defender uma ditadura?

Não me lembro. Mas foi exatamente o que aconteceu com a manifestação contra Yoani Sánchez, a blogueira cubana que se opõe à ditadura de seu país, que a impediu de falar e inviabilizou a exibição do documentário Conexão Cuba-Honduras, de Dado Galvão, em Feira de Santana, no interior da Bahia.

A grosseria, a incivilidade e a estupidez são algumas das características mais desagradáveis do ser humano e foram usadas em larga escala não só na Bahia, mas também no plenário da Câmara Federal por algumas pessoas que ainda vegetam no estado primário do processo civilizatório.

Até aí, nada a fazer. Não podemos exigir uma nação de fidalgos nem exigir algum tipo de racionalidade de quem confunde a militância política com a barbárie.

Ninguém é obrigado a gostar de Yoani Sánchez como ninguém pode ser proibido de admirar e cultuar ditaduras. Infelizmente, a história da humanidade é recheada de massas ululantes que seguem ditadores e homens providenciais de camisas verdes, negras, pardas, boinas vermelhas ou uniformes verde-oliva.


Debate saudável


O fascínio pela servidão voluntária é uma das características mais degradantes do ser humano. O fato de que isso, ao longo da História, tenha produzido pilhas e pilhas de cadáveres pelo mundo todo não inibe a prática da falta de fé democrática.

Ditadores pendurados de cabeça para baixo nas vigas de um posto de gasolina e outros miseravelmente fuzilados ao lado da mulher depois de tentar fugir das massas que os idolatravam até algumas horas atrás, não ensinam lição alguma a quem está disposto e decidido a não aprender.

A presença de Yoani Sánchez no Brasil poderia ter sido aproveitada para estimular um debate sobre os caminhos que Cuba pode seguir num eventual processo de transição para a democracia.

É evidente que o regime está desgastado, caquético e moribundo, e aí não vai nenhuma figura de linguagem com relação a quem o dirige. Foi Fidel Castro e não qualquer gusano contrarrevolucionário de Miami que disse, com todas as letras, que “esse modelo não serve mais nem para nós”.

O que será de Cuba? Uma nova China? Mas quem seria o Deng Xiaoping cubano que teria coragem de ir à Plaza de la Revolución para dizer que “enriquecer é glorioso”? O que será feito dos 500 mil servidores públicos que perderão seus empregos?

Um debate interessante para quem está interessado em democracia e em evolução de modelos políticos. Um debate chato e desnecessário para quem prefere substituir o uso da inteligência pelo escorrer da baba elástica e bovina.

Sandro Vaia é jornalista

Observatório da Imprensa

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Em Praga, com Yoani Sánchez


Caminhando pelas ruas de Praga, vêm à mente da escritora-ativista imagens da Primavera de 68 e lembranças dos romances de Milan Kundera...

Una ciudad muy hermosa.

Viva a Liberdade !!!


Praga, la bella

































Em visita a agência de notícias










                                          Na televisão tcheca




Na Rádio Praga


Imagens: Twitter  

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Eliana Calmon quer Judiciário aberto à imprensa, Twitter, Facebook...


JUDICIÁRIO CIDADÃO


Tinha que ser ela.

A combativa, destemida, ousada e midiática ministra Eliana Calmon, ex-Corregedora Nacional de Justiça e "Terror dos Bandidos de Toga", agora dirigindo a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados, e Vice-Presidente em exercício do Superior Tribunal de Justiça, defendeu ontem a abertura do Poder Judiciário à imprensa de massa, inclusive Twitter e Facebook.

Claro. Vivemos na sociedade midiática, digital, global. Não há mais como esconder, ocultar nada. De uma forma ou de outra, estamos todos no ciberespaço. 

Sociedade da informação.

Cidadania planetária.

Na nossa opinião, o Judiciário deve ser "escancarado" à sociedade, aos cidadãos, como acontece com o Legislativo e o Executivo.

Transparência.

"Nada se deve esconder, e quem vai divulgar não só as boas coisas que fazemos, mas também as mazelas, são os veículos de massa". 

"O juiz não é notícia, mas os fatos trabalhados pelo juiz", declarou a eminente jurista.



Eliana Calmon defende abertura ainda maior do Judiciário à imprensa

Luiz Orlando Carneiro

A ministra Eliana Calmon, vice-presidente em exercício do Superior Tribunal de Justiça, defendeu, nesta terça-feira (26), a ampliação dos mecanismos de transparência no Poder Judiciário e a construção de uma relação ainda mais "aberta e madura" entre a magistratura e a imprensa. A ex-corregedora nacional de Justiça tratou do assunto em palestra proferida no Encontro Nacional de Comunicação do Poder Judiciário, que se realiza em Brasília. [terminou ontem]

Segundo a ministra – que também é diretora-geral da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam) – ainda há dificuldade no relacionamento entre a mídia e a Justiça, por que "o Poder Judiciário foi o último a se abrir para a modernidade, para a era digital, em que prevalecem os meios de comunicação”.



Para Eliana Calmon, "o juiz não é notícia", mas sim "os fatos trabalhados pelo juiz


Intramuros

Eliana Calmon disse que, até a promulgação da Constituição Federal de 1988, a magistratura era mais reservada, "até porque a Justiça ainda não tinha o papel de fiscalizadora das políticas públicas do país, de garantidora dos direitos humanos e de protetora do cidadão frente aos poderes econômico e político".

Ela acrescentou que "prevalecia a ideia de que os assuntos do Judiciário deveriam ficar intramuros para preservar a imagem, a unidade e a respeitabilidade da magistratura, postura que passou a ser incompatível com as prerrogativas de agente político adquiridas pelo Judiciário com a Constituição de 1988, e aprofundadas com a Emenda Constitucional 45, de 2004".

Ainda segundo a ministra, "essa cultura hermética não resiste à necessidade de transparência que nos é imposta pela sociedade atual, por essa vida veloz que é fruto da atuação dos meios de comunicação”.

"A transparência é a palavra de ordem do século XXI. A privacidade, que foi a tônica até o século passado, agora pode até atrapalhar. Nada se deve esconder, e quem vai divulgar não só as boas coisas que fazemos, mas também as mazelas, são os veículos de massa", disse mais a ministra Eliana Calmon, para quem "o juiz não é notícia", mas sim "os fatos trabalhados pelo juiz.”


Jornal do Brasil

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Yoani Sánchez ajuda a desmascarar a "burritzia" brasileira


OPINIÃO


Dá para acreditar que os "patetas fantasiados de Che Guevara" leem? E, se alguma vez o fizeram, se deram ao trabalho de ler o blog da blogueira cubana?

E os representantes da blogosfera suja, fomentando o ódio à blogueira? Alguns têm um texto sofrível. Outros acham que ser prolixo e enfadonho é escrever bem. E há os que nem escrevem. "Terceirizam", copiam e colam e por aí vai... Se apropriam de trabalho alheio, muitas vezes nem dando devidamente o crédito.

E essa gente, desculpem a má palavra, se acha no direito de "cagar" regras, promover "inquérito policialesco", condenar sumariamente, amordaçar uma cidadã cuja única arma são as palavras...

Botem um deles para falar, dar entrevistas, responder perguntas incômodas de improviso... e vocês verão a nulidade escancarada.


Twitter de Yoani    @yoanisanchez


YOANI SÁNCHEZ NO BRASIL
Uma voz crítica – e construtiva

Mauro Malin 

Um segmento minúsculo da burritzia brasileira, turbinado pela Embaixada de Cuba em Brasília, deu à Veja (datada de 27/2) material de primeira para editorializar (“Veja editorializar”: passe o pleonasmo) uma defesa de Yoani Sánchez. Foi parar na capa: “A blogueira que assusta a tirania. Por que a ditadura cubana e seus seguidores no Brasil têm tanto pavor de Yoani Sánchez, a ponto de tentar calar sua voz à força”.

É um segmento desorientado, e parece ter deixado a revista igualmente perdida no tiroteio. A ditadura cubana não tem pavor de Yoani, uma ativista individual, que não pertence a nenhum dos movimentos surgidos em Miami e no país após a revolução. Movimentos que recrudesceram no contexto do “período especial”, quando o país comeu menos do que o pão que o diabo amassou.

Yoani é a primeira a dizer que quem mais promoveu sua imagem em Cuba foi Fidel Castro, ao fazê-la alvo de diatribes. Sua programada viagem ao Brasil não era segredo para ninguém, muito menos para o serviço secreto cubano. Se ela fosse a inimiga do regime que alguns imaginam, estaria presa, ou, simplesmente, ter-lhe-iam negado o passaporte.

Mais sugestivo do que imaginar Raúl Castro mandando infernizar as aparições públicas de Yoani é pensar na luta interna no governo cubano. Toda vez que tem mudança à vista, a burocracia, travestida ou não de pureza ideológica, faz o que pode para tirar o processo dos trilhos. Ou, no mínimo, para garantir espaço no período vindouro.

A proposta de Yoani é conciliação, diálogo, entendimento. Sempre foi. Antes de aproveitar uma mudança tecnológica que a repressão cubana não entendia direito – e possivelmente não entende até hoje –, fundou uma revista chamada Consenso.


Sem guerra civil

O jornalista e historiador Richard Gott termina seu livro Cuba, uma nova história (2006) com a hipótese de que Fidel, depois de ter desistido do socialismo, começou a olhar para um futuro sem ditadura, uma possibilidade alimentada pelo fato de que a revolução não descambou em lutas fratricidas.

Durante o regime castrista, Cuba foi poupada da violência aberta em casa. Exportou soldados, revolucionários, instrutores, armas, para dezenas de lugares na América Latina e na África, mas em seu solo, por um período inigualado em sua história, não houve conflito armado, embora tenha havido muita repressão, espionagem, medo, terror. Mas a guerra civil é pior do que tudo isso. O epílogo do livro de Gott ficou datado: os “jovens” mencionados como possíveis substitutos dos irmãos Castro no poder foram todos varridos, quiçá por inconfiáveis. Mas a tese faz sentido. Há um novo “jovem” designado.

O traço marcante de Cuba é ter se livrado, no espaço de 100 anos, de três potências colonizadoras: Espanha, Estados Unidos e União Soviética. Existe um orgulho nacional. É uma das bases de sustentação do regime, ao lado de subsídios à população para sobreviver. Foi a retirada dos subsídios que moveu jovens egípcios a desafiar a ditadura de Mubarak. Os irmãos Castro sabem que em seu país não é preciso forçar muito a barra para a tampa da panela saltar longe.


Suplicy brilhou intensamente

No material da Veja, eriçado de adjetivos e advérbios, a “turba ignara” está adequadamente caracterizada como “patetas fantasiados de Che Guevara”. Nesse plano de baixarias retóricas, os antagonistas, Veja e manifestantes anti-Yoani, se entendem. Seria o que Proust chamou “consanguinidade de espíritos”, mais forte do que a “comunidade de opiniões”.

A reportagem faz uma correta homenagem à participação do senador Eduardo Suplicy no episódio da visita de Yoani ao Brasil. Nenhum gesto político e humano foi mais grandioso neste verão brasileiro.

A visita teria sido apenas uma sucessão preocupante de atos de força contra a palavra caso a mídia jornalística não tivesse dado à ativista a possibilidade de se expressar – mesmo em contexto algo hostil, como no Roda Vida da TV Cultura (25/2), onde alguns (algumas) jornalistas procuraram explorar mais seus (deles/delas) instintos de detetives de araque do que o potencial cultural, político, literário e comunicativo da entrevistada.


Fala como escreve

Quem tiver prestado atenção à maneira como Yoani fala entenderá uma das razões de sua proeminência. Fala como quem lê um texto, fala como escreve (infelizmente, muita gente escreve como fala). E é capaz de escrever com simplicidade, organização conceitual e riqueza de vocabulário. É uma leitora. Como dizia o velho cartaz da editora Civilização Brasileira na Rua Sete de Setembro: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.” Yoani lê o tempo todo.

No Brasil, pouca gente consegue falar assim, sem falsas vírgulas, sem cacos para atravessar a hesitação do pensamento. Antônio Carlos Villaça (1928-2005) foi uma dessas pessoas. Leonel Brizola (1922-2004), grande comunicador na televisão, usava “não é verdade?” o tempo todo para pontuar suas frases. Quem tiver curiosidade pode checar a oratória de Yoani assistindo a uma entrevista dela a Demétrio Magnoli na Globo News e comparando a fluidez dos discursos dos interlocutores.

A Época (25/2) fez algo melhor do que a Veja: deu a palavra a Yoani numa entrevista, mas as perguntas incluíram barretadas inquisitoriais aos donos de Cuba.

Yoani é boa frasista. Na TV Cultura disse preferir que suas palavras sejam manipuladas se a alternativa for o silêncio. Que não é suficientemente cínica para entrar na política convencional.


Filha do castrismo

Entre as explicações para o fenômeno Yoani é preciso apontar que ela é uma filha da Revolução (Reforma?) Cubana, no que ela teve de melhor (e de mais frustrante): a importância dada à educação, como a própria jornalista destacou no Roda Viva.

Não é mascarada. Apresenta-se de cara lavada, cabelos fora da moda, roupa singela. Fascinada pela informática, montou com peças disparatadas compradas no onipresente mercado negro seu primeiro computador. Estava pronta para a chegada das redes sociais.

Mais importante, talvez, do que tudo isso: Yoani não tem como perder tempo navegando na internet: em Cuba, para os comuns dos mortais, isso é muito caro. Então, circula pela cidade, ouve muito, pensa muito, escreve o necessário, usa uma hora de conexão por semana para programar vários tópicos sucessivos de seu blogue.

A observadora crítica, como muita gente em Cuba, tem vasto repertório e aprendeu a se virar. Chamá-la de agente da CIA é uma homenagem imerecida à agência americana, atribuindo-lhe um grau de sofisticação – e de inteligência – que ela jamais sonhou ter.

Yoani quer fazer política com P maiúsculo por meio de um jornal sério, capaz de botar o dedo nas feridas do cotidiano da Ilha, portador de alentada seção cultural, o que faria jus às melhores tradições do país. Nem sabe direito como isso será possível. Mas é otimista.


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"Yoani Sánchez é jornalista", diz Alberto Dines


Para os linchadores, difamadores, inquisidores e assassinos de caráter e reputação, que se uniram em bando para destruir a cidadã cubana Yoani Sánchez, reproduzo artigo do grande Alberto Dines.


                                                                  Yoani Sánchez/Facebook


Yoani Sánchez, a jornalista

Alberto Dines

Yoani não é blogueira. Blog não é ofício, nem status profissional, é formato de veículo. Ninguém diz “fulano é revisteiro”, diz “fulano é jornalista” porque hoje pode estar num semanário e, amanhã, à frente de um vistoso blog.

A visitante cubana é correspondente de El País em Havana e colunista do Estado de S. Paulo. O diário espanhol segue desde a sua fundação em 1976 a linha socialdemocrata, o jornalão brasileiro é conservador. Prova de que o seu profissionalismo é bem avaliado.

O erro de qualificação parece insignificante, mas não é – desvenda os preconceitos e as discriminações que campeiam numa sociedade infantilizada politicamente como a nossa. A constatação vale tanto para os detratores como para seus admiradores. Ela está sendo usada como pretexto para um confronto arcaico, jurássico, que já deveria estar desativado.

Paixões confundidas

Yoani é uma ativista política, o governo cubano a reconhece como tal, por isso deixou de criar-lhe embaraços, permitiu a sua saída e – esperamos – o retorno. As recentes mudanças em Cuba chanceladas na presença dos irmãos Castro indicam que a democratização cubana precisará de gente como ela.

É uma idealista, os cubanos são idealistas, esta é uma das heranças benditas deixadas pelo regime de Fidel Castro. Na ilha ou aqui, os cubanos transmitem aos interlocutores uma sensação de consistência, dedicação, convicção. Yoani não destoa. Por isso ficou no país em que nasceu e não foi para Miami “fazer América”.

Pretende arrecadar o dinheiro dos prêmios de jornalismo que ganhou no exterior nos últimos anos e com ele fazer um pequeno jornal. Não vai montar um “paladar” (nome tirado de uma novela brasileira que designa um bistrô legal montado em casa, numa varanda ou quintal). Ela sabe que não vai ganhar dinheiro, provavelmente perderá tudo, mas está criando a matriz de uma imprensa independente. Em Cuba, não no exílio.

Podem chamá-la de empreendedora, inovadora – este observador insiste em classificá-la como idealista. Tal como o senador petista Eduardo Suplicy, uma das figuras mais decentes da nossa cena parlamentar.

Yoani incomoda os truculentos e irrita os incendiários. Tranquila e atenta trouxe para as nossas militantes um modelito de despojamento e perseverança que valeria a pena imitar.


Observatório da Imprensa

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