Cidadania, Comunicação e Direitos Humanos * Judiciário e Justiça * Liberdade de Expressão * Mídia Digital
Editoria/Sônia Amorim: ativista, blogueira, escritora, professora universitária, palestrante e "canalhóloga"
Desafinando o Coro dos Contentes...
Mulheres foram para as ruas e para a luta armada, pela derrubada do regime de força que se instalou no Brasil com o Golpe Militar de 1964: estudantes, professoras, operárias, donas de casa, artistas e outras tantas.
Muitas pereceram nos cárceres, não resistiram à ferocidade das violências desferidas covardemente pelos torturadores.
Houve mulheres que durante sessões de tortura eram sexualmente violentadas por bestas enfurecidas, psicopatas sanguinários, como a professora de português Sônia Maria de Moraes Angel Jones, que em 45 horas de tortura foi estuprada com um cassetete e teve seus seios arrancados.
Para NUNCA MAIS vivermos esta iniquidade, para NUNCA MAIS esquecermos esta barbárie!
DITADURA NUNCA MAIS !!!
Passeata dos Cem Mil, Rio de Janeiro, 1968, contra a censura, contra a ditadura. Mulheres, Atrizes, na linha de frente: Eva Tudor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara, Norma Bengel (da esquerda para a direita). E também Ruth Escobar, que não aparece na foto, dando a mão a Norma Bengel.
Em 9 de março de 2011, o Abra a Boca, Cidadão! publicou o post abaixo. Reproduzo-o novamente, com atualização apenas gráfica, visual, em homenagem a todas as mulheres que pereceram vítimas das atrocidades e para que nunca mais esqueçamos desta barbárie. Ditadura Nunca Mais !!!
Mulher, brasileira e guerrilheira
Vanessa Gonçalves
"Nossa geração teve pouco tempo começou pelo fim mas foi bela nossa procura Ah! moça, como foi bela a nossa procura mesmo com tanta ilusão perdida quebrada, mesmo com tanto caco de sonho onde até hoje a gente se corta"
(Idílica Estudantil - Alex Polari de Alverga)
A violência institucional, que derrubou o estado de direito, surgiu poderosa o suficiente para mostrar suas garras antes mesmo que as primeiras ações armadas viessem à luz. Após o imobilismo durante o golpe, a esquerda reagiu e decidiu que somente através da luta armada seria possível derrubar a ditadura. Com um grande otimismo, a esquerda acreditava que era possível se armar, lutar e vencer, pois o povo certamente iria aderir. À medida que a ditadura proibia pela força qualquer tipo de participação política democrática, velhos e novos militantes aderiam a organizações como: ALN (Ação Libertadora Nacional), PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), entre outras. Embora o espaço político fosse majoritariamente reservado aos homens, nas décadas de 60 e 70 ocorria um fenômeno que marcaria para sempre a história da participação feminina na política brasileira.
As Mulheres na Luta Armada
Contrariando inúmeras teses, a luta armada não foi um exercício de intransigência da esquerda, mas sim um duro e penoso enfrentamento ao Estado militarizado que em 21 anos foi responsável por cerca de 352 mortes (oficiais), 144 desaparecimentos, 2 mil torturados, 4.500 pessoas privadas de direitos civis, 10 mil exilados e 2.828 sentenciados à prisão pela Justiça Militar, tudo isso sem contar a violência contra os sindicatos, a imprensa, as entidades estudantis e a sociedade civil. Indignadas com esse cenário de autoritarismo e violência, inúmeras mulheres aderiram ao sonho de derrubar a ditadura e libertar o povo da opressão. Adentraram no espaço público, pegaram em armas e fizeram história. É certo que muitas dessas mulheres enfrentaram a oposição da família e da sociedade ao optar por esse caminho. Deixaram para trás - como todos os que atuaram nesse palco da história do Brasil - sonhos, amores, trabalhos, enfim, uma vida inteira para lutar por ideais. É muito difícil precisar a quantidade de mulheres que foram à luta armada. Os números mais próximos fazem parte do levantamento realizado pelo Projeto Brasil Nunca Mais em 707 processos judiciais militares relativos ao período. No entanto, somente 695 deles puderam ser submetidos ao cruzamento de informações e levantamento de dados. Nesses 695 processos constatou-se que 7.367 cidadãos foram denunciados por atuação contra a ditadura. Desse total, 12% são mulheres, nos levando à marca de 884 militantes do sexo feminino. Não há como identificar quantas mulheres realmente participaram da luta armada, mas podemos observar que elas marcaram significativamente sua presença nesse movimento. A participação feminina na luta armada implicou não apenas em sua insurgência contra a ordem política vigente, mas representou uma profunda transgressão ao que na época era designado espaço próprio das mulheres, ou seja, o espaço privado em que lhes restava apenas o papel de esposa, mãe e dona-de-casa, com exceção das operárias, que além de conquistar espaço no mercado de trabalho, tinham participação ativa no movimento sindical. Ao pegarem em armas, essas mulheres romperam tabu e, com certo êxito, conquistaram sua emancipação, conquistando, assim, seu lugar na história política do país.
O Prazer e a Dor de Ser uma Mulher Guerrilheira
Conquistar espaço na política foi uma vitória para as mulheres. Embora algumas tenham sofrido com o machismo de seus companheiros de organização, no início as mulheres tinham o privilégio de circular sem despertar a atenção dos militares. Por causa disso, conseguiam manter uma "fachada legal", o que garantiu a sobrevivência por mais tempo das organizações clandestinas.
Durante algum tempo, foram até musas, como a militante Renata Guerra de Andrade (da VPR), conhecida como "a loura dos assaltos". Mas, quando caíram nas mãos da repressão eram única e exclusivamente inimigas do regime e aí sentiram a dor de ser guerrilheira. Para a repressão a mulher não tinha capacidade de decidir por si só sua entrada no mundo político, portanto, para os militares a "mulher subversiva" era uma mulher desviante dos padrões normais definidos pela sociedade, assim, desmoralizavam-as com duas idéias: a de que estavam na luta buscando homens, então eram "putas comunistas"; ou eram mulher-macho, ou seja, homossexuais. A repressão entendia que ao se insurgir contra o regime militar a mulher cometia dois pecados: o de lutar juntamente com os homens e o de ousar sair do espaço privado e adentrar no espaço público, político, que historicamente era exclusivamente masculino. A pena para isso foi a tortura sem limites.
Foram várias as formas de tortura aplicadas às mulheres, no entanto, a forma recorrente foi a ameaça de tortura física, de estupro e prisão/tortura de seus familiares. Além disso, eram constantemente humilhadas através da nudez e da vendagem dos olhos. A sanha dos torturadores foi tamanha contra as mulheres que a militante Sônia Angel Jones (do MR-8) teve os dois seios arrancados durante a tortura que a levou à morte. Dulce Maia (da VPR) revelou em seu relato para o jornalista Luiz Maklouf de Carvalho a violência da tortura: "O sargento metia a cabeça entre as minhas pernas e gritava: ´Você vai parir eletricidade´". Dulce sobreviveu à tortura, mas até hoje sofre com as sequelas da violência de seus seviciadores. Em outro relato contundente sobre a tortura prestado por Maria Auxiliadora Lara Barcelos para o livro Memórias das Mulheres no Exílio fica evidente as marcas profundas deixadas pela violência: "Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, me cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos". Apesar de tudo, todas viveram intensamente a vida. Em situações de clandestinidade "havia intensidade em cada instante" , como afirma a ex-guerrilheira Nancy Mangabeira Unger (do PCBR).
Todas evidentemente sofreram com as perdas e a destruição de um sonho partido em milhões de cacos. Entretanto, há um lado positivo em tudo isso, como relata a ex-guerrilheira Iara Xavier Pereira (ALN): "Nós fomos a geração que optou por enfrentar o regime militar em um momento em que isto era absolutamente necessário. Não éramos loucos nem terroristas sanguinários. Éramos jovens comprometidos com um ideal". Por fim, valem as palavras da ex-guerrilheira Sônia Lafoz (ALN): "Não massageio meu próprio ego, mas tiro o chapéu para os homens e mulheres que tiveram a coragem de enfrentar aquela situação. No que diz respeito a nós, mulheres, as que pegaram ou não pegaram em armas, foi um momento singular de participação histórica. Devo dizer que eu faria tudo de novo".
* Todos os relatos desse artigo foram retirados do livro Mulheres que foram à luta armada, do jornalista Luiz Maklouf de Carvalho.
Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP), onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985). Contato: vangoncalves@gmail.com
Ativista e blogueira paquistanesa, Malala Yousafzai,
alvejada por talibãs
Vídeo
Destaques do discurso de Malala na ONU
Adolescente paquistanesa Malala Yousafzai prometeu que não será silenciada por terroristas, em um poderoso discurso às Nações Unidas durante sua primeira aparição pública desde que foi baleada pelo grupo Talibã
Malala Yousafzai discursou na Organização das Nações Unidas, nesta sexta-feira Foto: Andrew Burto / GETTY IMAGES NORTH AMERICA
Acompanhe os principais pontos do discurso da jovem ativista paquistanesa Malala Yousafzai na Organização das Nações Unidas, nesta sexta-feira:
– Obrigado a cada pessoa que rezou pela minha rápida recuperação e nova vida. Não posso acreditar em quanto amor as pessoas têm demonstrado em relação a mim. Tenho recebido milhares de presentes e cartões que me desejam uma boa recuperação. Obrigado a todos, às crianças que, com palavras inocentes, me incentivaram, e aos idosos, cujas orações me fortaleceram.
— Queridos irmãos e irmãs, lembrem-se de uma coisa: O "Dia de Malala" não é o meu dia. Hoje é o dia de cada mulher, cada garoto e cada garota que levanta a voz pelos seus direitos. Eu falo, não por mim mesma, mas por todos os meninos e meninas.
— Queridos amigos, em 9 de outubro de 2012, os talibãs atiraram no lado esquerdo da minha testa. Atiraram nos meus amigos também. Eles acharam que aquelas balas nos silenciariam. Mas falharam e, então, do silêncio vieram milhares de vozes. Os terroristas pensaram que mudariam nossos objetivos e eliminariam nossos desejos, mas apenas uma coisa mudou na minha vida: a fraqueza, o medo e a falta de esperança morreram, enquanto a força, o poder e a coragem nasceram. Sou a mesma Malala, meus desejos são os mesmos, minhas esperanças e sonhos também.
— Queridos irmãos e irmãs, não sou contra ninguém e nem estou aqui para falar sobre uma vingança pessoal contra o Talibã ou qualquer outro grupo terrorista. Estou aqui para falar pelo direito de cada criança à educação e quero educação para os filhos e filhas de todos os extremistas, especialmente para os filhos e filhas dos talibãs.
– Também não odeio o talibã que atirou em mim. Mesmo que eu tivesse uma arma e ele estivesse na minha frente, não atiraria nele. Esta é a compaixão que aprendi com Maomé, Jesus Cristo e Buda, a herança de mudança que recebi de Martin Luther King, Nelson Mandela e Muhammad Ali Jinnah.
— O sábio ditado "A caneta é mais poderosa que a espada" é verdadeiro. Os extremistas têm medo dos livros e das canetas. O poder da educação os assusta e eles têm medo das mulheres. O poder da voz das mulheres os apavora.
– É por isso que eles atacam escolas todos os dias: porque têm medo da mudança, da igualdade que vamos trazer para a nossa sociedade.
— Eles acham que Deus é um pequeno ser conservador que mandaria garotas para o inferno apenas porque vão à escola. Os terroristas estão deturpando o nome do Islã e da sociedade paquistanesa para satisfazer seus próprios interesses.
— Mulheres e crianças sofrem em muitos lugares do mundo, de várias formas diferentes. Na Índia, crianças pobres e inocentes são vítimas do trabalho infantil. Muitas escolas têm sido destruídas na Nigéria, enquanto os afegãos são oprimidos pelas barreiras impostas pelo extremismo por décadas.
— Pedimos aos líderes mundiais que todos os acordos de paz protejam os direitos das mulheres e crianças. Um acordo que se oponha à dignidade das mulheres e aos seus direitos é inaceitável.
— Convocamos todos os governos a assegurar a educação obrigatória livre para todas as crianças do mundo. – Apelamos, também, a todos os governos que lutem contra o terrorismo e a violência, protegendo as crianças da brutalidade e do perigo.
– Nos deixem, portanto, travar uma luta global contra o analfabetismo, a pobreza e o terrorismo. Nos deixem pegar nossos livros e canetas porque estas são as nossas armas mais poderosas.
— Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação antes de tudo. Zero Hora Destaques do ABC! *
YOANI SÁNCHEZ: CIDADÃ CUBANA A ativista, escritora, blogueira e tuiteira Yoani Sánchez já está em Cuba, onde foi recebida calorosamente por amigos e familiares ontem à noite, no aeroporto de Havana. Depois de uma intensa, emocionante e produtiva viagem por 13 países, onde denunciou a ditadura castrista, proferiu palestras, concedeu entrevistas, recebeu mais de uma dezena de prêmios, fez contatos, cursos, passeou e aprendeu muito, a combativa blogueira está de volta à "Ilha dos Desconectados", como ela jocosamente se refere à "Cuba de Fidel", onde navegar na internet é direito para endinheirados. Pelo seu Twitter (@yoanisanchez) percebemos que a destemida blogueira já está com problemas para se comunicar com o mundo, enviando mensagens fragmentadas, por SMS. Lastimável! Yoani Sánchez é uma mulher aguerrida, ousada, corajosa, vitoriosa. Vamos acompanhar seu dia a dia na Ilha, saber e denunciar eventuais represálias que venha a sofrer por parte do regime ditatorial e informar nossos leitores sobre a criação de um jornal digital que ela pretende fundar. Força, Yoani ! Imagens do desembarque em Cuba
Chegada ao Aeroporto Internacional José Martí, em Havana
Sob o olhar do filho Theo, Yoani abraça a mãe
Com o marido, jornalista e blogueiro Reynaldo Escobar
Recebendo o carinho de familiares, amigos e populares
Yoani Sánchez volta a Cuba cheia de projetos após longa viagem ao exterior
Havana, 30 mai (EFE) - A blogueira e dissidente cubana Yoani Sánchez retornou à ilha nesta quinta-feira com "muitos projetos" após ter passado por mais de 12 países da Europa e América, uma viagem que, segundo ela, mudou sua vida "em vários sentidos".
"O futuro se abre em minha frente e necessito descansar um pouco para poder projetá-lo, mas tudo anda muito bem e estou muito feliz", declarou a reconhecida blogueira aos jornalistas em sua chegada a Havana e após reencontrar seu marido, Reinaldo Escobar, e seu filho Teo, assim como outros familiares e amigos que a esperavam no aeroporto.
Yoani, uma das vozes críticas da ilha mais conhecidas internacionalmente como autora do blog "Geração Y", declarou que realizou uma "maravilhosa viagem".
"É uma viagem que vai mudar minha vida em muitos sentidos, já que ela se mostrou humana, jornalística, cívica, tecnológica. Agora estou aqui com muitos projetos e também muito exausta pelo itinerário que foi bem extenso", completou a blogueira em uma de suas breves declarações.
A dissidente cubana, de 37 anos, deixou a ilha em meados de fevereiro com destino ao Brasil, primeira escala de uma viagem que realizou após cinco anos de negativas por parte do governo de Cuba. A viagem de Yoani só pôde ser feita após a reforma migratória aprovada na ilha no início deste ano.
Embora tenha planejado uma viagem de 80 dias, a blogueira ficou mais de três meses fora do país, passando, além do Brasil, pelo Peru, México, Itália, República Tcheca, Polônia, Suécia, Suíça, Alemanha, Noruega, Holanda e Estados Unidos.
Durante a viagem, a blogueira recolheu os prêmios "Ortega y Gasset" de jornalismo digital, que foi concedido pelo jornal espanhol "El País" em 2008, e o "Bobs" de melhor blog, concedido pela emissora alemã de televisão Deutsche Welle (DW) também em 2008, e recebeu a menção "María Moors Cabot", da universidade americana de Colúmbia.
Além dos prêmios recebidos, Yoani também manteve encontros com personalidades políticas, acadêmicas e intelectuais, como o Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, além de representantes de exilados políticos.
As autoridades cubanas consideram Yoani Sánchez como parte dos contra-revolucionários cibernéticos "fabricados pelos Estados Unidos", uma crítica que também é compartilhada por blogueiros governistas, que a consideram como uma "fraude" e uma "mercenária" a serviço dos EUA. EFE
Vida de jornalistas, blogueiros, escritores... que fazem um trabalho independente, crítico, cidadão, que promovem denúncias e incomodam os esquemas criminosos, não é fácil não. Aqui e alhures, os que devem, temem. Não querem ser expostos, não pretendem abrir mão dos altos lucros de seus negócios ilícitos e procuram continuar na impunidade. Quem acompanha este brioso blog sabe que querem calar esta cidadã blogueira, que vive "perigosamente", sob risco de assassinato, sequestro, atentados, golpes e violências afins. Leiam abaixo matéria e entrevista com Ana Lilia Pérez, jornalista mexicana, que, perseguida e ameaçada por funcionários públicos, por causa do jornalismo investigativo que produz, precisou buscar o exílio na Europa.
Jornalista mexicana deixa o país após receber ameaças de funcionários públicos: Entrevista com Ana Lilia Pérez
Tania Lara/AP
Desde junho de 2012, a jornalista Ana Lilia Pérez está na lista de profissionais de imprensa mexicanos exilados no exterior, junto com pelo menos 15 colegas que solicitaram asilo após ameaças, informou a Repórteres Sem Fronteiras. Ela hoje vive na Alemanha.
“Meu exílio reflete o enorme grau de corrupção que existe no México”, disse ela em entrevista por telefone, da Alemanha, ao Centro Knight para o Jornalismo nas Américas.
A jornalista abandonou o México após receber ameaças de morte e por conta da incapacidade das autoridades de garantir sua segurança. “É hora de parar com esse discurso mentiroso de que as agressões contra os jornalistas são atos do crime organizado. No meu caso, elas são cometidas pelo próprio Estado”, acrescentou.
Recentemente, Pérez recebeu uma notificação de que as autoridades mexicanas dariam continuidade a umprocesso contra ela, mesmo com o seu exílio. O processo foi iniciado por um parlamentar mexicano citado no livro Camisas azuis, mãos negras.
Pérez estudava psicologia, mas escolheu seguir o jornalismo, como ouvinte nas aulas que uma amiga frequentava na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Aos 19 anos, começou a publicar matérias investigativas em jornais de circulação nacional como o La Jornada, o El Universal e o Excélsior. A seguir, uma entrevista com esta jornalista mexicana.
Que tipo de ameaças recebeu e como as enfrentou?
Recebi ameaças pelo fax do trabalho, pelo celular, por fotografias. Sofri também um atentado em um carro e, durante todo o tempo, meus telefones estavam grampeados. Denunciei tudo isso à Promotoria Especial de Crimes contra Jornalistas, mas me disseram que dificilmente levariam minha denúncia adiante por conta do calibre dos funcionários públicos envolvidos. Diante das primeiras ameaças de morte, além da perseguição física e judicial, me vi obrigada a tomar medidas de segurança estabelecidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Tive que aceitar uma escolta e outras medidas.
Como as ameaças que recebeu se diferenciam das ameaças do crime organizado?
Denunciei e deixei claro que tudo tinha a ver com funcionários públicos, sobre as relações entre funcionários públicos e o setor privado, mas o discurso oficial é de que os cartéis é que atacam, assassinam e agridem jornalistas. Continua praticando o jornalismo no exílio?
Participo ativamente de conferências sobre jornalismo investigativo, publico textos em veículos alemães e também participo como comentarista de programas de rádio e de análise. Não posso me desvincular do que ocorre em meu país e em um setor que investiguei durante tanto tempo.
Leia a entrevista completa, em espanhol, clicando aqui.
A repressão cubana contra a ativista e blogueira Yoani Sánchez atravessou terra-mar-e-ar e chegou ao Brasil, em forma de "badernaço" que impediu exibição de documentário, debates e sessão de autógrafos.
Yoani considera que houve um "escândalo político".
Sem dúvida, foi algo grave, orquestrado, planejado, com participação inclusive de servidor da Secretaria Geral da Presidência da República e setores da blogosfera brasileira.
Em Praga, Yoani Sánchez critica boicote sofrido
no Brasil
Yoani Sánchez, durante conversa com pessoas presentes ao
bate-papo com a blogueira na Livraria Cultura, em São Paulo
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra
A dissidente cubana Yoani Sánchez, uma das vozes mais midiáticas de seu país através do blog "Geração Y" e do Twitter, denunciou nesta sexta-feira em Praga, na República Tcheca, o boicote que sofreu em sua recente visita ao Brasil e que considerou de responsabilidade do governo de Havana.
Em entrevista concedida à Agência Efe na capital tcheca, a ativista política explicou que, poucos dias antes de sua chegada ao Brasil, o embaixador cubano em Brasília distribuiu um dossiê contra ela, inclusive entre funcionários do PT.
Segundo a blogueira, de 37 anos, "isso aqueceu os ânimos, porque muitos brasileiros sentiram que era uma intromissão nos assuntos internos" de seu país.
O que Yoani classifica como "escândalo político" ficou manifestado, na sua opinião, pelo fato de que semanas antes de sair de Cuba, vários blogs governistas tinham dito que lhe dariam uma "resposta contundente" no exterior.
No momento em que chegou a Recife, Yoani foi recebida por um grupo de críticos com cartazes contra ela, que voltaram a aparecer posteriormente nas apresentações do documentário "Conexão Cuba-Honduras", dirigido pelo brasileiro Claudio Galvão e que era o motivo principal de sua viagem ao Brasil.
O mesmo grupo boicotou depois em São Paulo uma leitura e sessão de autógrafos de seu livro "De Cuba, com carinho", apresentado no Brasil já em 2009, embora sem sua presença, já que na época o regime não a deixava sair de Cuba.
Mas Yoani ponderou que "a grande maioria" das pessoas com as quais se encontrou no Brasil foi solidária a ela.
Em todo caso, a dissidente não mordeu a língua ao qualificar esses atos de protesto contra ela como "violação" de seu direito de expressão, "porque restringir a apresentação de um documentário e assinatura de um livro, é um ato, quando menos, de um fanatismo repressivo".
A mensagem de sua viagem de 80 dias por vários países é "de esperança", segundo a ativista, mas não pelas reformas que o governo cubano possa implementar, "mas pelo crescimento e desenvolvimento" que ela nota na sociedade civil cubana.
A República Tcheca é a segunda escala desta viagem, que incluirá além disso México, Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Suécia, Itália, Espanha, Peru e talvez a Argentina.
Quanto à República Tcheca, Yoani reservou palavras de agradecimento pela "postura consequente" do governo de Praga por sua posição a favor dos direitos humanos em Cuba.
A blogueira anunciou que "muito provavelmente" terá reuniões com membros do governo tcheco, de centro-direita, cujo ministro das Relações Exteriores, Karel Schwarzenberg, continuou a política de aproximação com a oposição cubana, o que foi iniciado pelo falecido ex-presidente e dramaturgo Vaclav Havel.
Durante seus meses fora de Cuba, Yoani disse querer ficar em dia com o jornalismo no mundo livre, já que os cubanos estão "praticamente no zero quanto a ter uma imprensa minimamente próxima da realidade". A ativista reconheceu que "a imprensa totalmente livre não existe em nenhum lugar", mas destacou que ela vem de um país no qual a imprensa é "propriedade privada de um só partido".
"Aqui noto que, sendo propriedade privada de outros, pelo menos há uma pluralidade desses outros", acrescentou.
Para os linchadores, difamadores, inquisidores e assassinos de caráter e reputação, que se uniram em bando para destruir a cidadã cubana Yoani Sánchez, reproduzo artigo do grande Alberto Dines.
Yoani Sánchez/Facebook Yoani Sánchez, a jornalista
Alberto Dines
Yoani não é blogueira. Blog não é ofício, nem status profissional, é formato de veículo. Ninguém diz “fulano é revisteiro”, diz “fulano é jornalista” porque hoje pode estar num semanário e, amanhã, à frente de um vistoso blog.
A visitante cubana é correspondente de El País em Havana e colunista do Estado de S. Paulo. O diário espanhol segue desde a sua fundação em 1976 a linha socialdemocrata, o jornalão brasileiro é conservador. Prova de que o seu profissionalismo é bem avaliado.
O erro de qualificação parece insignificante, mas não é – desvenda os preconceitos e as discriminações que campeiam numa sociedade infantilizada politicamente como a nossa. A constatação vale tanto para os detratores como para seus admiradores. Ela está sendo usada como pretexto para um confronto arcaico, jurássico, que já deveria estar desativado.
Paixões confundidas
Yoani é uma ativista política, o governo cubano a reconhece como tal, por isso deixou de criar-lhe embaraços, permitiu a sua saída e – esperamos – o retorno. As recentes mudanças em Cuba chanceladas na presença dos irmãos Castro indicam que a democratização cubana precisará de gente como ela.
É uma idealista, os cubanos são idealistas, esta é uma das heranças benditas deixadas pelo regime de Fidel Castro. Na ilha ou aqui, os cubanos transmitem aos interlocutores uma sensação de consistência, dedicação, convicção. Yoani não destoa. Por isso ficou no país em que nasceu e não foi para Miami “fazer América”.
Pretende arrecadar o dinheiro dos prêmios de jornalismo que ganhou no exterior nos últimos anos e com ele fazer um pequeno jornal. Não vai montar um “paladar” (nome tirado de uma novela brasileira que designa um bistrô legal montado em casa, numa varanda ou quintal). Ela sabe que não vai ganhar dinheiro, provavelmente perderá tudo, mas está criando a matriz de uma imprensa independente. Em Cuba, não no exílio.
Podem chamá-la de empreendedora, inovadora – este observador insiste em classificá-la como idealista. Tal como o senador petista Eduardo Suplicy, uma das figuras mais decentes da nossa cena parlamentar.
Yoani incomoda os truculentos e irrita os incendiários. Tranquila e atenta trouxe para as nossas militantes um modelito de despojamento e perseverança que valeria a pena imitar. Observatório da Imprensa Destaques do ABC!
Não são "só" os dinossáuricos esquerdinhas, com sua descabida, ridícula e colossal truculência, que se encontram incomodados com a visita da blogueira cubana ao Brasil. Famosos jornalistas estão visivelmente perturbados com o espaço que a ativista cubana conseguiu, até falando no Congresso Nacional! A blogosfera autodenominada "progressista", então, parece em "estado de choque". Os tais "blogueiros sujos" estão quase todos mudos, talvez torcendo para que a visita da cidadã cubana termine logo. Alguns deles também fomentam, discretamente, o ódio à blogueira cubana, difundindo inverdades e suspeitas de modo leviano e covarde. Inveja pelo estrondoso sucesso da cidadã cubana no mundo todo? Ressentimento pelos milhões de acessos ao seu blog e prêmios internacionais que recebeu? A todos os que a criticam, ridicularizam e menosprezam, aos que reproduzem acusações irresponsáveis, aos que não permitem que ela expresse suas ideias: CONHEÇAM o Generación Y, o blog da ativista cubana Yoani Sánchez; LEIAM o que ela escreve. Yoani é uma escritora talentosíssima, com um domínio magistral da escrita. É fascinante ler o texto simples e ao mesmo tempo artesanalmente trabalhado que ela produz. Gostem ou não, ela é uma grande escritora, blogueira, jornalista e ativista, que apesar das limitações materiais e cerceamento à liberdade de expressão que sofre em seu país, criou um baita blog, mundialmente acessado e lido.
Yoani com o "sombrero nordestino" (chapéu-de-couro)
que ganhou de presente. Twitter
YOANI SÁNCHEZ NO BRASIL A visita que virou um circo
Ligia Martins de Almeida
Nos últimos dias os jornais têm falado muito de uma cubana em visita ao Brasil. Conhecida blogueira, Yoani Sánchez despertou a ira de extremistas no Nordeste, onde elogiou a liberdade de manifestação e comentou que estava acostumada com agressões. Acabou – suprema ironia – andando com escolta no país que se orgulha de uma recém-conquistada democracia. Por sorte, alguns políticos de Brasília saíram em defesa dela, dizendo que não é da nossa tradição maltratar os visitantes. Delicada, educada e simpática, a cubana de 37 anos merecia um tratamento melhor dos extremistas de esquerda e, da imprensa, um qualificativo mais adequado do que “blogueira”. Merecia, no mínimo, ser chamada de jornalista ou escritora, já que seu texto – o blog Generación Y merece ser lido – é da melhor qualidade. Ela própria recomendou aos seus opositores que lessem o que escreve para descobrirem que ela não é financiada pelos Estados Unidos e muito menos uma traidora de Cuba. [!!!]
Yoani se negou a falar do Brasil porque não quer repetir o erro das pessoas que ficam uma semana em Cuba e tentam explicar o país a ela, conforme afirmou ao Estado de S. Paulo (19/2/). Em suas crônicas diárias, escreve sobre os problemas da educação, da saúde, da pobreza, mas também fala de cachorros, de teatro e de mulheres, dando, aos leitores de fora de Cuba, um retrato realista de sua terra.
Entre especulações sobre conspirações governamentais cercando a visitante, proteção policial e manifestações, a autora do Generación Y continua conhecendo o Brasil que a fascinou na chegada pela rapidez da internet. E a imprensa segue acompanhando seus passos.
Melhores momentos
O primeiro dia, segundo a Folha de S. Paulo (19/2):
“Recebida sob protestos em Recife, Salvador e Feira de Santana nesta segunda-feira (18), Sánchez afirmou que em Cuba as manifestações contrárias ao governo são repelidas com truculência pelas autoridades. ‘Contra o governo, os protestos não duram um minuto. Quem é contra é agredido e torturado’, contou a blogueira. Sánchez também negou que recebe financiamento de grupos ligados a grandes meios de comunicação e falou sobre o que chama de ‘Reforma Raulista’. ‘Eu creio que a direção esteja correta, com melhoras econômicas. O problema é a velocidade e a profundidade que não são suficientes para o que necessita a nação e a velocidade é desesperadora’, afirmou. Perguntada se era de esquerda ou direita, ela respondeu: ‘Eu sou por Cuba, não creio mais em definições de direita ou esquerda, pois sou pelo século 21, um governo não pode dizer que é de esquerda com ações retrógradas. Sou pró-Cuba’, completou.”
O segundo dia, pelo jornal Estado de S. Paulo (20/2):
“A chegada de Yoani ao Congresso foi marcada por tumulto. Na Câmara dos Deputados, alguns parlamentares a aplaudiram e outros protestaram contra a interrupção da votação de uma medida provisória que estava ocorrendo no momento. Houve bate-boca entre os parlamentares. Ela chegou a subir no palanque, mas não falou aos presentes. Logo em seguida, a comitiva da blogueira deixou o plenário e seguiu para a sala dos trabalhos da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional.”
A pergunta que Yoani deve estar se fazendo, a essa altura, é se os manifestantes não têm nada melhor a fazer do que defender um regime político que não conhecem. Quando gritaram com ela na Bahia, respondeu com um sorriso. Sorriso que repetiu em Brasília. onde, certamente, ninguém teve tempo de contar que do lado de fora do Congresso Nacional havia gente protestando contra o presidente do Senado – e que em algumas fotos tiradas lá dentro estão parlamentares condenados por corrupção e outros sob investigação. De sua visita ao Brasil, Yoani declarou que vai levar a lembrança do pluralismo político. E disse que os cubanos e brasileiros são iguais – a não ser pela liberdade, que os cubanos não têm.
Tem razão a jornalista cubana ao dizer que no Brasil temos liberdade. Pena que aqueles jovens que protestavam contra ela conheçam pouco da história recente do país, quando a censura e o medo eram parte da nossa realidade. E por isso não dão valor ao direito de dizer o que pensam. Nem mostram respeito por uma pessoa que luta pelo direito de poder dizer o que sente. A mídia, felizmente, está fazendo a sua parte, mostrando o circo em que se transformou a viagem de Yoani Sánchez ao Brasil.
Tomara que a imprensa ainda possa registrar bons momentos de Yoani no país, com direito a conversas tranquilas, passeios descontraídos e a civilidade que a jornalista certamente sonhava encontrar por aqui. Ligia Martins de Almeida é jornalista.
LIBERDADE DE EXPRESSÃO Desta vez foi em São Paulo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, ontem à noite, quando estava acontecendo uma conversa da blogueira cubana Yoani Sánchez com blogueiros, e em seguida haveria uma sessão de autógrafos do seu livro De Cuba, com carinho. Há flagrante violação do direito fundamental à livre expressão do pensamento e uma certa incompetência por parte dos organizadores destes eventos, que já deveriam ter requerido reforço policial para a proteção da blogueira e interessados em ouvi-la. Essa esquerda totalitária e brontossáurica é adepta do pensamento único. São fascistas, violando as leis do País e confrontando as autoridades e o Estado de Direito.
Esta blogueira que vos escreve e este brioso blog, amigos de Cuba e do Povo Cubano, defendem a liberdade de expressão e o direito de Yoani Sánchez transitar livremente pelo País, compartilhando suas ideias publicamente, sem riscos de sofrer violência moral, psicológica ou física. Yoani não é criminosa. É uma blogueira ativista que viaja ao Brasil legalmente e tem todo o direito de discordar do regime cubano. Este "festival de intolerância e truculência" precisa acabar.
Yoani Sánchez em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo transmitida pela internet, ontem de manhã. Print-screen. "São Paulo das Alturas"
Yoani Sánchez (Twitter)
O Twitter de Yoani
Manifestação cancela noite de autógrafos de Yoani em São Paulo
Blogueira cubana tentou responder perguntas por 30 minutos, mas sua fala foi interrompida diversas vezes Marcelle Ribeiro (Facebook/Twitter)
Manifestantes interrompem noite de autógrafos de blogueira cubana em São Paulo Paulo Whitaker/Reuters
SÃO PAULO - A noite de autógrafos que a blogueira cubana Yoani Sánchez faria no auditório da Livraria Cultura no Conjunto Nacional, na região central de São Paulo, foi cancelada devido ao tumulto causado por manifestantes contrários a ela. A blogueira cubana tentou responder perguntas de um público de cerca de 300 pessoas no local por 30 minutos, mas sua fala foi interrompida diversas vezes por dezenas de pessoas que gritavam frases como “Sai fora blogueira imperialista, a América Latina vai ser toda comunista”, “Mercenária” e “Funcionária da CIA”.
A confusão começou antes mesmo do início do evento, nos corredores do prédio. Dezenas de manifestantes contrários à blogueira discutiram com pessoas que foram defendê-la com cartazes. Com cartazes com os dizeres “Viva Raul Castro” e “Cuba, 0% analfabetos’, os que foram protestar contra a blogueira pareciam estar em maior número e faziam mais barulho. Entre eles havia muitos jovens e alguns carregavam uma bandeira do PCB. Na internet, o Facebook do Movimento Paulista de Solidariedade a Cuba convocou para o protesto.
Em menor número, o grupo favorável a Yoani gritava “Fora Fidel” e chamava o líder cubano de carniceiro em cartazes. O policiamento foi reforçado no local.
Durante a palestra, a blogueira foi questionada pela organização sobre o que achava do protesto.
- Adoraria que quando Raúl Castro estivesse dando um discurso os cubanos pudessem se manifestar assim - disse. - As pessoas gritam quando não têm argumentos - complementou.
A dissidente disse que mesmo que acabe o bloqueio americano a Cuba isso não mudaria muita coisa no país. Para ela, os cubanos não vão às ruas protestar porque têm medo da violência da polícia e do sistema.
- Mudaria muito pouco. É difícil falar do futuro. Cuba é um país que tem poucos recursos para comprar fora. Não se muda o governo porque há o medo paralisante, de que um vizinho te delate. As pessoas pensam “não quero que aconteça comigo o mesmo que aconteceu com a Yoani”.
Ela criticou ainda a reforma migratória do governo cubano, dizendo que ela é insuficiente.
- Se você ler o decreto lei da reforma migratória verá que a entrada e a saída do país não é um direito e sim uma autorização que se dá.
A organização do evento pediu para que os interessados no autógrafo da cubana deixassem seus exemplares no local, para que ela assinasse posteriormente. O Globo Online Destaques do ABC! * *
Ao promover agressões verbais e barulhaço, impedindo que a blogueira dissidente cubana, Yoani Sánchez, expusesse seus pontos de vista sobre o regime cubano e respondesse as acusações que lhe fazem, os "geniais" representantes da esquerda burra e mal-educada simplesmente acabaram por proporcionar um prato cheio e enorme de munição aos rola-bostas da direita raivosa, na mídia e no parlamento.
Yoani não se deixou intimidar, administrou bem os insultos e quase linchamento que vivenciou em Pernambuco e na Bahia, e acabou recebendo um convite para ir a Brasília, para falar em comissão na Câmara.
Antes de deixar Salvador, a polêmica blogueira declarou ao portal G1: “Saio da Bahia bastante satisfeita. Não me importei com os protestos. Respeito a liberdade de expressão. Os abraços da Bahia foram mais quentes que os insultos e eu não dou adeus à Bahia, dou um até logo...”
Muitos que criticam a blogueira, que, aliás, escreve muitíssimo bem, jamais tiveram o cuidado de pelo menos conhecer o seu blog - o Generación Y - e se limitam a repetir mecanicamente, ad infinitum, as críticas dos defensores do regime que vigora na ilha.
Abaixo, o post de ontem do blog de Yoani, onde ela comenta as agressões que sofreu por parte de um "piquete de extremistas". Podiam ter passado sem essa!...
Talvez vocês não saibam – porque não se conta tudo num blog – porém o primeiro ato de repúdio que vi na minha vida foi quando só tinha cinco anos. A agitação no casarão chamou a atenção das duas meninas que éramos minha irmã e eu. Assomamos a grade do corredor estreito para olhar para o piso de baixo. As pessoas gritavam e levantavam o punho em volta da porta de uma vizinha. Com tão pouca idade não tinha a menor ideia do que se passava. Mais ainda, quando agora relembro o acontecimento apenas tenho a recordação do frio do corrimão nos meus dedos e um curto instante dos que vociferavam. Anos depois pude ordenar aquele caleidoscópio de evocações infantis e soube que havia sido testemunha da violência desatada contra quem queria emigrar pelo porto de Mariel.
Pois bem, desde aquilo tenho vivido então vários atos de repúdio de perto. Seja como vítima, observadora, ou jornalista… Nunca – vale a pena esclarecer – como participante. Recordo um especialmente violento que experimentei junto às Damas de Branco, onde as hordas da intolerância nos cuspiram, empurraram e até puxaram os cabelos. Porém o de ontem à noite foi inédito para mim. O piquete de extremistas que impediu a projeção do filme de Dado Galvão em Feira de Santana era algo mais do que uma soma de adeptos incondicionais do governo cubano. Todos tinham, por exemplo, o mesmo documento – impresso a cores – com uma fieira de mentiras sobre minha pessoa, tão maniqueístas como fáceis de rebater numa simples conversação. Repetiam um roteiro idêntico e guiado, sem ter a menor intenção de escutar a réplica que eu poderia lhes dar. Gritavam, interrompiam, num momento tornaram-se violentos e de vez em quando exibiam um coro de palavras de ordem dessas que já não são ditas em Cuba.
Contudo, com a ajuda do Senador Eduardo Suplicy e a calma ante as adversidades que me caracteriza, conseguimos começar a falar. Resumo: só sabiam berrar e repetir as mesmas frases, como autômatos programados. Assim a reunião foi muito interessante. Eles tinham as veias do pescoço inchadas, eu esboçava um sorriso. Eles me faziam ataques pessoais, eu conduzia a discussão ao nível de Cuba que sempre será mais importante que esta humilde servidora. Eles queriam me linchar, eu conversar. Eles obedeciam a ordens, eu sou uma alma livre. No fim da noite sentia-me como depois de uma batalha contra os demônios do mesmo extremismo que atiçou os atos de repúdio daquele ano oitenta em Cuba. A diferença é que desta vez eu conhecia o mecanismo que fomenta estas atitudes, eu podia ver o longo braço que os move desde a Praça da Revolução em Havana.
Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto