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sexta-feira, 18 de abril de 2014

García Márquez, muito além dos Cem Anos


Gabriel García Márquez (1927-2014)

"Tudo é questão de despertar sua alma." 
Gabriel García Márquez, ativista, editor, escritor, jornalista

Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e toca o seu coração.

Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma.

Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo.

Não passes o tempo com alguém que não esteja disposto a passá-lo contigo.

O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.

O problema do casamento é que acaba todas as noites depois de fazer amor, e tem que ser reconstruído todas as manhãs antes do café.

A sabedoria é algo que quando nos bate à porta já não nos serve para nada.

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa além de um pacto honrado com a solidão.

Eu escrevo para que as pessoas queiram mais. Esta é 
uma das aspirações fundamentais do escritor.

Depois que faço em meus romances a última leitura, eles já não me interessam. O livro é como um leão morto.

Quando não escrevo, morro. Quando escrevo, também.

Como escritor me interessa o poder, porque ele resume toda a grandeza e a miséria do ser humano.

Não posso calcular a quantidade de dissidentes que ajudei, em silêncio, a emigrar de Cuba. Basta-me a tranquilidade de minha consciência. 

Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

A realidade é muito difícil de interpretar e é sempre melhor do que a ficção.

Não chores porque terminou.

García Márquez foi um dos últimos escritores carismáticos

Roberto Amado*


Ele talvez tenha sido o último escritor com o carisma dos grandes literatos. Morreu aos 87 anos, vítima de um câncer, depois de escrever mais de 30 livros. Vendeu mais de 40 milhões de exemplares em 30 idiomas.

Gabriel García Márquez viveu plenamente a literatura, dentro e fora dos livros. Quando tinha 17 anos e ainda lutava com as palavras, leu “A Metamorfose”, de Kafka, a história de um homem que um dia acorda transformado em um inseto. “Pode-se escrever desse jeito? Então eu quero ser escritor”.

Mas só muito mais tarde, com 39 anos, é que seguiu a lição de Kafka, a partir de algo que ouviu de seu avô sobre a guerra dos Mil Dias na Colômbia. “Muitos anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia haveria de se recordar daquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.

Essa é a primeira frase do livro “Cem Anos de Solidão”, que leva a Macondo, reprodução literária de Aracataca, uma aldeia perdida no caribe colombiano, onde nasceu e viveu a infância. Representa o auge do realismo fantástico, uma das responsáveis pelo boom internacional da literatura latino-americana.

“A maioria dos críticos não percebe que ‘Cem Anos de Solidão’ é uma espécie de piada, cheia de referências para amigos próximos”, disse ele. Em 1982, premiado com o Nobel, aos 55 anos, era um dos mais jovens escritores a ganhar o prêmio — no qual apareceu vestido com um “liquiliqui”, típica roupa dos homens colombianos, quebrando o protocolo da sisuda academia. Na cerimônia de entrega do prêmio, perguntaram se esse era o dia mais importante da sua vida. “Não”, respondeu ele secamente. “Esse dia foi quando eu nasci”.

Gabo, como foi chamado a vida toda, era um escritor de rituais, capaz de passar 12 horas debruçado sobre uma velha máquina de escrever — desde que tivesse uma rosa amarela sobre a mesa “para espantar os demônios da literatura”. Falava que “a realidade é muito difícil de interpretar e é sempre melhor do que a ficção”, mas qualquer um que conheça sua obra sabe que ele rompeu essa fronteira sem deixar vestígios. Chegava a fumar até seis maços de cigarro por dia enquanto escrevia, tresloucado, suas histórias.

Saiu de Aracataca para estudar direito em Bogotá, mas, durante o curso, começou a praticar jornalismo — profissão que exerceu até o estrondoso sucesso de “Cem Anos de Solidão”. Ao mesmo tempo, iniciou uma das atividades que conduziu por quase toda a vida: a política. Seu ativismo de esquerda e a amizade que tinha com Fidel Castro fizeram com que se exilasse no México e colecionasse inimigos por todas as partes.

Talvez isso explique a célebre briga que teve com o até então dileto amigo e colega de letras Mario Vargas Llosa. Em 1976, diante de um cinema no México, os dois se encontraram e, ao contrário do abraço que García Márquez esperava, recebeu um direto de direita e caiu no chão. Até hoje não há uma versão oficial para a célebre briga — há quem diga que foi por mulher, outros por política.

Em 1999, ele foi diagnosticado com um câncer linfático, mas já sofria de demência senil, anunciada pelo seu irmão em 2012. Foram anos de luta. Gabo queria escrever, mas sofria com as palavras e, principalmente, com a falta de memória. Nos últimos anos, não conseguia dar continuidade às suas histórias porque esquecia-se delas.

Passou a última década recolhido em sua casa na Cidade do México, pouco aparecendo para dar entrevistas ou falar de literatura. Estava fraco, seu olhar não tinha a mesma vivacidade. No ano passado, no dia em que completou 86 anos, 6 de março, fez sua última aparição pública, por alguns minutos. Mas não falou nada, a não ser para rechaçar os jornalistas: “vão caçar notícia em outro lugar”, resmungou.

Apesar de tudo, ele não esteve completamente inativo na última década. Seu último livro, “Memórias de minhas Putas Tristes”, fala de um homem que vive uma velhice safada — como a que ele talvez estivesse vivendo. Mas ainda há uma obra a ser publicada, segundo conta seu editor Cristóbal Pera. “Ele ficou corrigindo obsessivamente o livro e escreveu seis finais”, disse. Tudo indica, no entanto, que terminou o livro, chamado “Em agosto Nos Vemos”, mas com a recomendação de que só fosse publicado depois da sua morte.

“A vida não é o que vivemos, mas o que o lembramos e como contamos o que lembramos”, disse ele em uma de suas últimas entrevistas.


* Jornalista, escritor, cineasta e advogado.



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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Dilma sobre Bachelet: "amiga e parceira do Brasil"


MULHERES NO PODER



Presidenta e tuiteira, Dilma usou a rede social para cumprimentar a socialista Michelle Bachelet, eleita ontem Presidenta do Chile.



Dilma e Michelle na ONU Mulheres  Imagem: Google


Dilma saúda Bachelet pela vitória na eleição presidencial chilena

A presidenta Dilma Rousseff saudou, nesta segunda-feira (16), Michelle Bachelet pela sua eleição para a presidência do Chile. Dilma destacou a importância de mais uma disputa eleitoral democrática no país e que Bachelet é amiga e parceira do Brasil.

“Saúdo a senhora Michelle Bachelet pela sua eleição para presidenta do Chile. Michelle é uma amiga e parceira do Brasil. Em nome do povo brasileiro, congratulo-me com os chilenos por mais uma eleição democrática. Estou certa que o meu governo e o de Michelle Bachelet irão aprofundar ainda mais as relações entre nossos países. Brasil e Chile têm muito a cooperar e a construir juntos. Temos uma compreensão clara do papel da integração da América do Sul”, afirmou.


Blog do Planalto

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domingo, 15 de dezembro de 2013

Socialista Michelle Bachelet vence no Chile


MULHERES NO PODER








Bachelet: mais uma mulher, mais uma socialista


REVOLUÇÃO MUNDIAL



O mundo está mudando.

A polaridade está sendo trocada.

Saem a força, a agressividade, a frieza, o racionalismo exacerbado da energia masculina, com toda sua carga histórica de atrocidades. Começa a adentrar o cenário internacional, sutilmente, a inteligência, a leveza, a amorosidade da energia feminina, com todo o seu potencial de acolhimento aos mais frágeis.

Dilma aqui, Cristina na Argentina, Michelle no Chile...

América Latina mostrando ao mundo os novos rumos.

Vamos acompanhar as eleições de hoje no Chile e ver se os prognósticos de vitória para Michelle Bachelet se confirmam.

Momento histórico para a cidadania planetária.



                                                   Michelle Bachelet                 Google



Chile vai às urnas com Bachelet como favorita absoluta



Ex-presidente socialista tem 66% das intenções de voto na disputa contra a conservadora Matthei, de acordo com as últimas pesquisas

GUILHERME RUSSO, ENVIADO ESPECIAL / SANTIAGO - O Estado de S. Paulo

Desencanto e apatia são as palavras mais repetidas por eleitores e analistas políticos do Chile em relação ao segundo turno das eleições para a presidência do país, que ocorrem hoje. Pela primeira vez, os chilenos não são obrigados a votar na disputa presidencial - a votação anterior, em novembro, teve a participação de pouco mais da metade do eleitorado.

Em razão disso, o comparecimento às urnas no segundo turno é considerado a grande incógnita dessa votação.

Com até 66% das intenções de voto, segundo pesquisas mais recentes, a ex-presidente Michelle Bachelet, da coalizão de centro-esquerda Nova Maioria, deverá vencer com ampla vantagem a sua rival, a conservadora Evelyn Matthei, da Aliança, de centro-direita, que varia em torno dos 34% das preferências nas sondagens.

Em razão disso, potenciais eleitores tanto da socialista como da conservadora devem optar por não votar. "Quem não tem tanta simpatia pela Bachelet dificilmente irá às urnas, pois a vitória dela é tida como certa. O mesmo ocorre com a direita, mas ao revés: esses eleitores estão convencidos de que vão perder e por isso, possivelmente, não votarão", afirmou ao Estado o cientista político Cristobal Aninat, diretor da consultoria chilena Congress Watch.

"A grande dúvida é quantas pessoas vão votar. Se algum analista disser que tem alguma informação sobre isso, não acredite, porque é a primeira vez que praticamos o voto voluntário para presidente", disse.

Desde o início da campanha, ambas as candidatas enfatizaram em seus discursos o chamado para que o eleitorado vote. Analistas que arriscam previsões falam em uma menor participação dos eleitores no segundo turno.

"Há um desinteresse muito grande entre a juventude. A abstenção será alta. Os jovens do Chile têm contradições vitais. Protestam por melhorias, mas não votam. A classe política está muito desprestigiada", disse o comunicador social Ernesto Medina, presidente do Movimento Cidadão "Aqui, as Pessoas", que na quinta-feira fazia campanha para Bachelet na esquina entre o Paseo Ahumada e o Paseo Huérfanos, no centro de Santiago.

A poucos metros dali, correligionários de Matthei gritavam o principal bordão da candidata: "Sim, é possível (Sí, se puede)". Na opinião do cientista político Juan Pablo Fuentealva, que coordenava a concentração, "a abstenção não é um problema apenas chileno, é um fenômeno internacional".


"O Chile está vivendo sua pior crise de representatividade", opinou a professora de história Macarena Arce, que disse ter participado dos protestos por educação gratuita e de qualidade ocorridos durante a presidência do conservador Sebastián Piñera, afirmando que não votará hoje.

"Meu voto não tem maior nem menor influência", disse o professor de música Matías Reimer, de 31 anos, que também afirmou que não vai votar, apesar de ter reivindicado mudanças nas ruas santiaguinas. O Estado conversou com outras dez pessoas no centro de Santiago, com faixas etárias semelhantes e nenhuma delas afirmou que votaria hoje.

À parte os dois grupos em campanha, as ruas do centro da capital mostravam pouquíssimos sinais de uma disputa eleitoral em andamento. Apenas no entorno do Palácio de La Moneda, sede do Executivo chileno, os cartazes com fotos e slogans das candidatas se acumulavam, principalmente na Avenida Libertador General Bernardo O'Higgins - popularmente conhecida como Alameda.

De acordo com especialistas em política chilena, a baixa participação do eleitorado hoje, no cenário de Bachelet presidente, trará problemas para a líder socialista implementar as reformas que promete fazer - no sistema educacional, tributário e na Constituição do Chile. Com menos cacife político, Bachelet, cuja coalizão controla 55% dos assentos de ambas as Casas do Congresso, precisaria obter apoio de moderados e independentes para ter maioria qualificada necessária para a aprovação de grande parte das mudanças que pretende aplicar.


Estadão Online

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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Carlos Marighella: O Inimigo n. 1 da Ditadura


No dia 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella foi assassinado com quatro tiros, em emboscada armada por agentes da ditadura militar.











Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.

                                                     Carlos Marighella


O OPERÁRIO DA REVOLUÇÃO BRASILEIRA


IGOR FELIPPE SANTOS


A vida do inimigo nº 1 da ditadura não se resume aos três anos em que optou pela luta armada. Membro do Partido Comunista por mais de 30 anos, ele foi um militante disciplinado que deu a vida pelo povo do seu país



A transformação de personagens históricos em mitos costuma simplificar figuras complexas e superestimar a importância de momentos particulares, deixando em segundo plano as realizações de longo prazo. Foi o que aconteceu com Carlos Marighella. O período da luta armada contra a ditadura militar, que construiu no imaginário popular a figura de um homem com um fuzil na mão participando de atos violentos, não passou de três anos. Marighella, que faria 100 anos em 5 de dezembro de 2011, teve uma militância política de mais de 30 anos nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e só atuou na clandestinidade em períodos de intensificação da repressão e perseguição aos comunistas, tanto sob ditaduras como durante regimes mais democráticos.

A imagem que caracteriza melhor a trajetória de Marighella é a de um disciplinado operário do partido, apaixonado por samba, poesia e futebol, que participou de todas as etapas da linha de montagem da luta política, desempenhando diversas funções específicas e repetitivas para a implementação da revolução socialista.


O mulato baiano, como era chamado por amigos fora do estado de origem, nasceu em Salvador. Os ideais socialistas e a vontade de transformar a sociedade herdou do pai, Augusto, um mecânico italiano, e da mãe, Maria Rita, uma negra filha de uma africana que chegou ao país em um navio negreiro. Precoce, aprendeu a ler com 4 anos e tomou gosto pelos livros já na adolescência. Mas não ficava preso em casa. Gostava de jogar bola e sonhava em ter uma chuteira. Também participava de serenatas em Itapuã com os amigos. No carnaval, saía fantasiado de mulher e cigana na Baixa dos Sapateiros. Escrevia poemas e fazia provas em versos no ginásio.

A militância começou cedo, com pouco mais de 20 anos. Marighella entrou no PCB no começo da década de 1930, depois de ingressar no curso de engenharia civil da Escola Politécnica da Bahia, onde se envolveu com as agitações estudantis. Foi preso pela primeira vez em 1932 por participar de um protesto em Salvador contra o presidente Getúlio Vargas. O ato terminou com a prisão de mais de 500 estudantes por ordem do governador Juracy Magalhães, interventor de Vargas no estado.

Solto alguns meses depois, ele ganhou prestígio no partido e recebeu a tarefa de organizar o PCB na Bahia. No começo de 1936, três dirigentes da secretaria nacional do PCB visitaram Salvador para conhecer as atividades do partido no estado. Meses depois, Marighella tinha um novo desafio: contribuir para a organização dos comunistas no Rio de Janeiro, então capital do país.


Prisão e torturas

Com 25 anos, Marighella foi para o Rio de Janeiro ajudar na rearticulação do PCB depois do fracasso da chamada Intentona Comunista, levante militar organizado em 1935 pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) de Luís Carlos Prestes para tomar o poder de Getúlio Vargas. O movimento foi derrotado, e vários dirigentes comunistas foram presos, entre eles o próprio Prestes, o grande líder do partido, e o secretário-geral, Antônio Maciel Bonfim, conhecido como Miranda. Foi em meio a esse clima adverso que Marighella chegou ao Rio de Janeiro e logo foi preso pela segunda vez, no dia 1o de maio de 1936. Ele ficou encarcerado por um ano e dois meses e foi submetido a 23 dias de tortura.

Os suplícios começavam com murros e chutes. Depois vinham as surras de cassetete e chicote da cabeça à sola dos pés. Em seguida, seus algozes queimavam várias partes de seu corpo com brasa de cigarro. Sob as unhas das mãos, enfiavam alfinetes. Chegaram até a amarrar os testículos com uma corda e puxar. Marighella saiu da prisão em 1937 e retomou as atividades no PCB, que foi posto na clandestinidade por Getúlio Vargas após a proclamação do Estado Novo, em novembro daquele ano. Sob a ditadura de Vargas, Marighella recebeu a tarefa de se mudar para São Paulo e aparar as arestas dos dirigentes do estado com o Comitê Central do partido.

Em pouco tempo ele se tornou a principal referência entre os comunistas paulistas, mas sua militância política foi novamente interrompida por uma prisão – a terceira –, em 1939. Durante os seis anos seguintes Marighella passou pelos presídios de Fernando de Noronha (PE) e da Ilha Grande (RJ), que durante o Estado Novo se transformaram em "depósitos" de presos políticos. Ao ser libertado escreveu um dos seus poemas que ficaram mais famosos, um soneto chamado "Liberdade".


Parlamentar

Marighella saiu da prisão em abril de 1945 e voltou para a Bahia. Com o fim do Estado Novo, em outubro, foram convocadas eleições gerais e os presos políticos, anistiados. Novamente legalizado, o PCB lançou candidatos por todo o país, Marighella se elegeu deputado federal pela Bahia com uma grande votação. Aos 34 anos, ele voltou para o Rio de Janeiro para assumir sua cadeira no Parlamento ao lado de outros 14 deputados comunistas. No plenário da Constituinte, defendeu as lutas dos trabalhadores, o direito de greve, o direito do divórcio, a liberdade de expressão, a imprensa popular, a separação entre Estado e Igreja e a reforma agrária. Só ficava com 20% dos vencimentos de parlamentar, o que considerava o necessário para a sobrevivência. O resto passava para o partido.


Depois de anos preso, teve um romance com Elza Sento Sé, uma baiana que mudara para o Rio de Janeiro e trabalhava na empresa de energia Light. Desse namoro, nasceu Carlos Augusto Marighella, em 1948. Mas a paixão da vida inteira dele foi Clara Charf, com quem dividiu até a morte as alegrias e agonias da construção de uma família e da instabilidade da atividade política comunista. Apesar da legalização formal do PCB, a repressão aos comunistas continuou sob o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), e o registro do partido foi novamente cassado em 1947. Em seguida foram anulados os mandatos dos parlamentares eleitos pela legenda.

Mais uma vez na ilegalidade, o mulato baiano teria de atuar com discrição para dirigir o partido em São Paulo, a nova tarefa que recebeu da organização. Desde 1943, quando ainda estava preso, passara a fazer parte do Comitê Central do PCB. Para formar novos militantes, estimular greves e fazer lutas, ele passou a investir no movimento sindical paulista. A mobilização parece ter dado resultados, pois em 1953 eclodiu em São Paulo uma série de greves, como a dos operários da indústria têxtil, dos gráficos, dos marceneiros e dos metalúrgicos, todas vitoriosas.

Pouco tempo depois, no entanto, o PCB entraria em uma nova crise. Em 1956, comunistas de todo o mundo se chocaram com a divulgação do relatório em que o novo dirigente da União Soviética, Nikita Kruschev, denunciou os crimes de Josef Stalin.

A primeira reunião do Comitê Central do PCB após a divulgação do documento foi marcada por duros ataques entre os dirigentes do partido. Abalado com as revelações, Marighella foi à tribuna e chorou. Por dias e dias, as lágrimas correram. Apesar da decepção, ele continuou com suas atividades no partido e passou a fazer parte da principal instância de decisão da organização, o Secretariado do Comitê Central. Embora não tenham conquistado a legalização do partido, sob o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) os comunistas viveram um momento de maior tranquilidade, porque não eram reprimidos. Nesse período, Marighella pôde ficar mais tempo com a família.


A virada

O período de maior estabilidade terminou com a renúncia do presidente Jânio Quadros em 1961, sete meses depois de assumir o poder. Diante do impasse, os militares começaram a agir para impedir a posse do vice, o trabalhista João Goulart, e a perseguir os comunistas. A polícia foi até o apartamento de Marighella no Rio, mas ele e a mulher conseguiram escapar.

Foram anos de intensa agitação política até 1964. O governo progressista de João Goulart ensaiou reformas estruturais no país. Ao mesmo tempo, o PCB crescia com a organização dos sindicatos e a realização de greves. O partido caminhava no fio da navalha, dividido entre apoiar o governo, sobre o qual exercia influência, ou intensificar a pressão para cobrar mudanças.

Marighella defendia a segunda opção. Essa intensa luta política, no entanto, terminou com o golpe militar de 1964. Mais uma vez os comunistas foram para a clandestinidade. No próprio dia em que o golpe foi consumado, 1.o de abril de 1964, Marighella e a mulher escaparam por pouco da polícia. Em maio, o mulato baiano foi preso, mas resistiu o quanto pôde, baleado no peito, e enfrentou os policiais armados dentro de um cinema. Conseguiu um habeas corpus, mas logo depois foi decretado um novo pedido de prisão. Na clandestinidade, escreveu o texto "Por que resisti à prisão", que analisa a conjuntura política e a realidade brasileira e propõe a luta armada como tática para o PCB.

A partir daí, começou a fazer a luta política dentro do partido para convencer dirigentes e militantes a optar pelas armas como uma forma de despertar a insurreição popular, enquanto a linha de Prestes era de resistência pacífica. Com o tempo, as tensões foram aumentando dentro da organização. Marighella pediu desligamento da Comissão Executiva, mas continuou como secretário-geral em São Paulo, esforçando-se para levar o partido para a luta armada. Em São Paulo, por exemplo, 90% dos militantes do partido ficaram com Marighella na conferência estadual de abril de 1967, mesmo com a presença de uma delegação liderada por Prestes.


Em Armas

O Comitê Central reagiu e passou a intervir nos estados não alinhados à sua posição. Depois de participar de uma conferência em Cuba sem consentimento do comando do partido, em setembro de 1966 o mulato baiano foi expulso da organização na qual militou por mais de 30 anos. Não havia mais amarras para pôr em prática a linha política que defendera para o partido, e ele então fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN). A organização política tinha um braço armado formado por células de militantes que fizeram assaltos a bancos, carros-fortes e até a um trem-pagador, para levantar recursos para a luta, além de sequestros de autoridades diplomáticas para trocá-las por presos políticos.


As primeiras ações foram lideradas por Marighella, que em dezembro de 1968 escreveu e divulgou o manifesto "Chamamento ao povo brasileiro", documento no qual apresentava as propostas dos guerrilheiros para o Brasil. Enquanto isso, a repressão aumentava. O primeiro sinal da intensificação da violência dos militares foi o Ato Institucional n.o 5, que fechou o Congresso Nacional em dezembro de 1968.

Depois, houve um recrudescimento ainda maior, quando o embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, foi sequestrado no Rio de Janeiro e trocado por presos políticos em setembro de 1969. A ditadura já tinha identificado as "digitais" de Marighella nas ações da luta armada, e os militares lançaram uma caçada obsessiva àquele que consideravam o inimigo n.o 1 do regime.


A perseguição acabou em 4 de novembro de 1969, quando o guerrilheiro marcou encontro com dois frades dominicanos que colaboravam com a ALN. Ele não sabia, porém, que ambos haviam sido presos e torturados e agiam sob as ordens da polícia. Ao chegar ao local marcado, na alameda Casa Branca, em São Paulo, o militante comunista foi assassinado com quatro tiros, em uma operação que envolveu 29 policiais em seis carros.


Marighella
deixou órfãos uma mulher, um filho e uma série de herdeiros na luta contra a ditadura, com seu exemplo de convicção ideológica, persistência na luta e coragem para agir. Foi militante de base, dirigente partidário, preso político, deputado federal, agitador das massas, guerrilheiro, assaltante de bancos... Em mais de 30 anos de luta política, o líder que encarnava as aspirações de liberdade e justiça, de acordo com as palavras do crítico literário Antonio Candido, passou por todas essas funções e cumpriu todo tipo de tarefa, o que fez dele um verdadeiro operário da luta pelo socialismo que deu a vida pelo povo brasileiro.


O que Marighella queria com a luta armada

Em dezembro de 1968 o guerrilheiro divulgou o manifesto "Chamamento ao povo brasileiro", no qual expunha as principais bandeiras defendidas por sua organização, a Ação Libertadora Nacional:


Fim dos privilégios e da censura


Eliminação da corrupção

● Liberdade de criação e liberdade religiosa

● Libertação dos presos políticos da ditadura

● Eliminação dos órgãos da repressão policial

● Expulsão dos americanos do país e confisco de suas propriedades

● Monopólio estatal das finanças, comércio exterior, riquezas minerais, comunicações e serviços fundamentais

Fim do latifúndio e garantia de títulos de propriedade aos agricultores

Confisco das fortunas ilícitas dos grandes capitalistas

Garantia de emprego a todos os trabalhadores e às mulheres

Redução dos aluguéis, proteção aos inquilinos e garantia da casa própria

Reforma do sistema de educação e expansão da pesquisa científica

● Tirar o Brasil da condição de satélite da política externa americana


Marighella (documentário)





Artigo publicado no Brasil 247.

Destaques do ABC!

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quarta-feira, 6 de março de 2013

Chávez: triunfo sobre a amoralidade capitalista


OPINIÃO




HUGO CHÁVEZ

Laerte Braga


Chávez transcende a Venezuela. Transformou seu país em principal
protagonista, ao lado de Cuba, da luta pela independência política e
econômica dos países da América Latina. Governando desde o primeiro momento com o respaldo do voto popular, conseguiu sobrepor-se a um golpe de estado em abril de 2002 a partir da reação do povo venezuelano. Em agosto do mesmo ano, a despeito dos esforços dos Estados Unidos, sob governo Bush, foi confirmado como presidente por maioria absoluta dos eleitores venezuelanos. A legitimidade do referendo foi reconhecida pelo próprio governo norte-americano, principal ator do golpe frustrado.

Rubens Ricúpero substituiu Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda, governo Itamar Franco, logo após a saída do tucano para se candidatar a presidente da República. 1994. Pouco antes de conceder uma entrevista à REDE GLOBO, principal porta-voz da direita brasileira, na manhã de 1º. de abril, a conversa com o apresentador do jornal vaza por antenas parabólicas e Ricúpero acaba renunciando ao Ministério.

“Eu não tenho escrúpulos. Eu acho que é isso mesmo. O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. O trêfego ministro referia-se ao Plano Real e à necessidade de usá-lo como instrumento de campanha de FHC. O prenúncio do caráter amoral do que viria a ser o governo de Fernando Henrique.

Rubens Ricúpero é um dos “especialistas” ouvidos pela REDE BANDEIRANTES (extrema-direita) sobre Chávez e a Venezuela pós Chávez. Na edição do BANDNEWS (canal fechado, com acesso de assinantes) o apresentador ouviu também Marcus Vinícius de Freitas e em meio a “especialidades” desses especialistas, disse que o vice-presidente da Venezuela “está tentando levar as pessoas para o lado deles”.

É incrível o despudor da mídia brasileira. A falta de caráter de jornalistas que se prestam ao papel de William Bonner, ou William Waack.

“A supressão da personalidade acompanha fatalmente as condições da existência submetida às normas espetaculares – cada vez mais afastada da possibilidade de conhecer experiências autênticas e, por isso, de descobrir preferências individuais. Paradoxalmente , o indivíduo deve se desdizer sempre se desejar receber dessa sociedade um mínimo de consideração. Essa existência postula uma fidelidade sempre cambiante, uma série de adesões constantemente decepcionantes, a produtos ilusórios. Trata-se de correr atrás da inflação dos sinais depreciados da vida” – Debord, A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO, Contraponto, RJ).

O jornalismo robotizado e depreciado, o ser aviltado e transformado em objeto decorado a cores e luzes da mentira.

Segundo o mesmo Debord, só o “tolo e o ignorante” necessitam do especialista. Aquele que conforma a alienação a uma realidade que é diversa, que descaracteriza o ser humano. Ignoram o processo histórico.

Chávez é maior que tudo isso. Deixa um legado, um rastro de coragem e determinação que líderes como Lula jamais tiveram. Aceitaram o jogo dos senhores do mundo enquanto Chávez os enfrentou. Tem a estatura de um Fidel Castro.

“Nesta tribuna onde falo hoje, ontem falou o presidente Bush dos EUA, que eu chamo de El Diablo. Ainda está com cheiro de enxofre”. Num pronunciamento na Assembléia Geral das Nações Unidas.

“Ufa! Que alívio, finalmente o fim de uma praga”. John McCain, senador republicano e candidato presidencial derrotado na primeira eleição de Obama, ao tomar conhecimento da morte de Chávez.

As forças da reação, os “especialistas” que iludem tolos e ignorantes, vão tentar de todas as formas derrotar o chavismo nas eleições presidenciais dentro de 30 dias. Um e outro são maiores.

A Venezuela erradicou o analfabetismo, levou a todos os cidadãos os serviços de saúde pública, começou o processo de construção socialista e tudo isso sob a liderança de Chávez e o apoio popular. Organização popular é o principal instrumento da revolução bolivariana.

Não passarão. O triunfo de Chávez é o triunfo da História. Sua morte o coloca no patamar de Marti, de Bolivar, de tantos outros lutadores do povo na América Latina. O coloca ao lado de Chê.

É por essa e outras razões que Chávez transcende a Venezuela e transcende a si próprio. O triunfo sobre a amoralidade escravagista do capitalismo. É a maior dentre todas as heranças que Chávez deixa.

Y


sábado, 13 de agosto de 2011