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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Hoje: mais um capítulo da "Rebelião das Massas"


Cidadania é processo. Construção. 

Não espetáculo de televisão.

E manifestações de rua não constituem qualquer novidade para quem viveu os anos de chumbo, sem se acovardar, ou conhece um pouco da história recente do Brasil, quando fomos para o embate público contra a feroz ditadura militar, na luta pela redemocratização do País.


Comício das Diretas Já, Praça da Sé, São Paulo, 16 de abril de 1984. 
Um milhão e meio de manifestantes. 

Hoje está programado mais um capítulo da "Rebelião das Massas" versão 2013, contra o aumento das tarifas dos transportes, ato que deve ser transmitido ao vivo pela Globo News, emissora da mesma organização que apoiou a ditadura militar nos anos 60 e 70 e ignorou as manifestações pelas Diretas Já nos anos 80, inclusive o maior comício da história política brasileira, em São Paulo.

Por uma Revolução da Cidadania, contra o oportunismo midiático!




Opinião



Um processo lento e doloroso

A cidadania é possível apenas como resultado de uma longa e complexa trajetória histórica


Aurélio Munhoz 
                                                                                
Manifestantes no Estádio Mané Garrincha, em Brasília
Manifestantes no Estádio Mané Garrincha, em Brasília
Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Ícone da Sociologia Política Brasileira, o jurista Raymundo Faoro (1925-2003) foi um dos melhores intérpretes da alma nacional nas últimas décadas.

Da sua mente lúcida e privilegiada emergiu uma obra primorosa sobre o patronato político brasileiro: “Os donos do poder” - dois encorpados livros nos quais o autor esmiúça, lastreado por uma sólida base histórico-cultural, a gênese do modus operandi arcaico, autoritário e fisiológico da fauna política verde e amarela.

É possível dizer que o fio condutor do pensamento de Faoro em “Os donos do Poder” foi basicamente o mesmo que o inspirou a cunhar uma frase lapidar sobre a democracia brasileira: “A conquista da cidadania é um processo lento e doloroso”.


Foi este o jeito de dizer aos incautos que não se constroem verdadeiras democracias sobre os escombros de rupturas drásticas, pontuais e indolores. Nem unicamente por meio do voto ou da verborragia desenfreada e contundente.

A cidadania é possível apenas como resultado de uma longa e complexa trajetória histórica, muitas vezes permeada de medo e violência, na qual uma densa rede de fatores interage para produzir as mudanças que a sociedade deseja.

Possivelmente não há frase que traduza melhor o Brasil do recente protesto contra a tarifa do transporte coletivo em São Paulo ou das vexatórias vaias à presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa das Confederações, sábado passado, no agora renomeado e portentoso Estádio Nacional de Brasília. Não faltou quem tenha enxergado conexões inexistentes entre as duas manifestações, contrapondo-se aos bordões que identificam a indolência política da Nação, como os manjados “O Brasil é um gigante adormecido” ou “O povo não sabe a força que tem”.

O que Faoro nos ensina sobre estas manifestações, transportando-se sua frase para o Brasil de junho de 2013, são duas coisas essenciais para se compreender o Brasil de hoje. Mas, por favor, entenda-se: elas servem não para desqualificar as citadas manifestações, mas para nos mostrar o quanto nosso entusiasmo com certas iniciativas espontâneas da massa pode levar a avaliações precipitadas e reducionistas sobre a realidade.

A primeira é que, na verdade, o “gigante” já acordou e o está fazendo há décadas, bem antes da ocorrência do protesto sonoro contra o governo Dilma ou da manifestação reprimida pela bestialidade imposta pela PM de São Paulo.

Ele já dava o ar da sua graça nos anos 60, quando o Brasil que pensava reagiu - porém, tardiamente e sem sucesso - à entronização dos homens da caserna no poder, em março de 1964. E prosseguiu assim na década seguinte, apoiado pelos sonhos e as atitudes da moçada que curtia liberdade, mas também rock, Tropicália e uma boa dose de rebeldia, embalados pela célebre máxima “é proibido proibir”.

O mesmo ocorreu nos anos 80, quando milhões de brasileiros pediram (e conseguiram) transformar as Diretas Já no início da abertura política brasileira. E ainda nos anos 90, quando, sob a pressão dos caras-pintadas, o Congresso Nacional mandou o ex-presidente Fernando Collor de Mello de volta para sua mansão, no belo estado de Alagoas.

O corajoso movimento que pede tarifas de ônibus mais baratas país afora merece respeito, aplausos, admiração, apoio e solidariedade, especialmente os inocentes que foram agredidos pela Polícia Militar paulista. Assim como merecem respeito os torcedores que emprestaram suas vozes ao coro de vaias à presidenta Dilma Rousseff.



Mas, com o devido pedido de perdão aos milhões de otimistas e revolucionários virtuais do Facebook, as manifestações de São Paulo e de Brasília estão longe de ser um divisor de águas na cidadania brasileira, uma conjugação única e inédita de fatores histórico-sociais que resultará em uma drástica e urgente ruptura da exploração existente no carcomido modelo político-econômico nacional brasileiro. É puro exagero dizer que o povo, agora unido, finalmente começa a se rebelar nas ruas para cobrar os seus direitos e a cabeça dos poderosos em bandejas de prata.

É preciso muito mais que um conjunto de manifestações contra o transporte coletivo ou os excessos nas obras da Copa para que isto ocorra. É preciso que decorra um longo (e, como sempre, sofrido) processo histórico de construção da nossa consciência política e da cidadania, como nos ensina Faoro em sua segunda lição, para que a exploração seja banida da vida nacional. Não é o que ocorre nos protestos em análise, por mais respeitáveis que sejam.

As manifestações que ocorrem nas ruas do Brasil são muito mais a indicação de um desejo que todos nós acalentamos no nosso imaginário de libertários (o da revolução nas ruas, pelas mãos do povo) do que a tangibilização de um incipiente e irreversível movimento social de caráter nacional destinado a questionar a fundo as mazelas da sociedade brasileira.

Por enquanto, o que as pessoas fazem é protestar com veemência. Mas ainda sem a aspiração de derrubar governos ou prender empresários. E não todo o povo. Nem em todos os cantos. Nem por todas as causas, aliás. A unanimidade em torno da tarifa do transporte coletivo ou dos gastos da Copa do Mundo de 2014 ainda permanece distante no horizonte.

A manifestação de São Paulo foi tão sublime, em seu escopo, quanto o gesto dos milhões de manifestantes que pediram o impeachment do presidente do Senado, Renan Calheiros, em fevereiro deste ano. Mas não pode ser classificada de estopim de uma generalizada e vigorosa rebelião das massas, até porque não ocorreram protestos similares em situações recentes da vida nacional que justificariam uma revoada de indignações país afora.

Por exemplo, os assaltos chancelados pela economia de mercado praticados por muitos supermercados nos recentes aumentos de preços dos alimentos, que são provavelmente os principais responsáveis pela volta da inflação. Não custa dizer o óbvio: que, tanto quanto as tarifas do transporte coletivo, alimentos são produtos essenciais às vidas de todos nós. A despeito disso, porém, não se viu grupos organizados ocupando as ruas em protesto contra os supermercados ou os grandes atacadistas de alimentos. O mesmo ocorreu em relação a outros problemas mais óbvios, graves e contundentes da vida nacional.

Já o coro anti-Dilma foi prova de repúdio aos gastos exorbitantes do contribuinte na construção do Estádio Nacional de Brasília. Tem razão esta gente barulhenta de reclamar do desperdício. A construção de um novo estádio Mané Garrincha jamais poderia mesmo custar 1 bilhão de reais, embora o palco do futebol mais caro da Copa do Mundo de 2014 seja a Fonte Nova, em Salvador, que beira bizarros 2,2 bilhões.

O problema é que, ainda que corretos no mote do seu protesto, os autores das vaias perderam a oportunidade única de também satanizar gente que tem tanta responsabilidade pelas excrescências pré-Copa do Mundo quanto Dilma. Poderiam ter direcionado seu brado de revolta também a Joseph Blatter, presidente da Fifa, que fez vistas grossas aos abusos cometidos não apenas no Estádio Nacional de Brasília, mas em todos os palcos da Copa. Ou a José Maria Marin, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), igualmente cúmplice dos exacerbados derrames de dinheiro da viúva no antigo estádio Mané Garrincha e comandante de uma das instituições esportivas mais corruptas do planeta.

É de se perguntar ainda por que os autores das vaias, quando frequentam os estádios dos seus times do coração, não dedicam o mesmo tratamento aos quadrilheiros que conduzem muitos dos clubes nacionais - uma gente que tem muito a esconder do Judiciário e que não hesita em perpetrar maracutaias fora dos gramados para manter seus clubes. Nem se constrange de sonegar impostos. Ou de usar sua voracidade para sugar o dinheiro dos governos e das grandes empresas estatais no patrocínio das suas camisas. Ou seja: se Dilma errou na condução dos preparativos para a Copa, está longe de ser a única.

É desejo de todos nós que as manifestações contra os abusos nas tarifas do transporte coletivo e nas obras da Copa do Mundo não só continuem, mas se expandam, e o façam sem a repressão de trogloditas fardados. É preciso, porém, que o foco da revolta popular seja ampliado e direcionado não só a governos (do PT, do PSDB ou de qualquer outro partido), mas também a todos os empresários facínoras - e seus prepostos - que se apropriam do aparato estatal para encher as burras de dinheiro, em todos os campos da atividade econômica, inclusive no esporte. Não apenas no quesito transporte coletivo, portanto.

Acima de tudo, contudo, é preciso compreender que a rebelião popular que alavancará as mudanças que o Brasil deseja não é exatamente um fato novo. Já ocorreu e continua ocorrendo em vários momentos da nossa história. Ainda é muito cedo para se dizer se as manifestações contra a tarifa do ônibus serão suficientes para alavancar mudanças mais significativas, mas o que parece é que - se prosseguir - este movimento só atingirá seus objetivos a longo prazo e, assim mesmo, apenas se adquirir um nível de maturidade política elevado, além de uma amplitude bem maior, envolvendo um conjunto significativo de cidadãos e de instituições representativas da sociedade civil organizada.

Ainda não é o que ocorre na sociedade brasileira de junho de 2013. Não há sinais de engajamento popular realmente massivo e rebelde, em escala nacional, nestas duas causas nobres. Em boa parte, os cidadãos permanecem inertes diante destes problemas e se contentam apenas em acompanhar as notícias pela grande mídia, junto com o lixo cultural despejado por boa parte das rádios, TVs e veículos impressos nacionais.

Os heróicos manifestantes de São Paulo e os barulhentos autores das vaias em Brasília ganharam visibilidade, o que é ótimo, mas ainda não são milhões - e, como se viu, são frágeis. A revolução da cidadania que queremos tarda a aparecer no horizonte.

*Aurélio Munhoz é graduado em Jornalismo e em Sociologia. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação Corporativa, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná. É assessor governamental e de comunicação e presidente da ONG de educação ambiental Pense Bicho.

CartaCapital

Destaques do ABC!

Vaias a Dilma: elite tosca e sem educação


OPINIÃO 



Tem coisa que o dinheiro não compra.

Educação formal, diploma, o tal do "canudo de papel", tudo isso pode ser adquirido em módicas prestações mensais nas espeluncas universitárias que pululam em cada esquina, depois da vertiginosa expansão do ensino superior privado no governo FHC.

Mas elegância interna, respeito, educação, civilidade, boas maneiras... o tal de "berço", não está à venda em lugar algum. Ou você tem ou você não tem. Isso vem em geral da família, dos ascendentes, daqueles que nos criam e nos transmitem valores imperecíveis. E deve ser também cultivado na escola, com bons professores, professores dignos, que detenham estes valores.

Exatamente por isto esta escritora e blogueira que vos fala não concorda com o peso exagerado que os governos (todos) costumam dar à economia na gestão de um país. 

Claro que é desejável e até imprescindível a estabilidade econômica, o acesso das classes despossuídas a emprego, salários, escolas, bens de consumo, mas um governo (qualquer um) deveria se ocupar mais com o "índice de felicidade" de um povo, do que com o índice inflacionário, por exemplo. E deveria ir além, se preocupando prioritariamente com políticas que promovessem o SER, mais do que o TER.

Tem coisa que o dinheiro não compra.

Os que vaiaram a presidenta Dilma no estádio de Brasília não eram despossuídos. Era gente privilegiada, diplomada, com dinheiro no banco, casa equipada com os mais modernos eletrodomésticos, carros na garagem (até de luxo!), gente que compra em shopping, se veste com grifes famosas etc. etc. Mas não sabe se portar num evento internacional, não aprendeu a respeitar autoridades e, pior, não se deu conta de que a presidenta Dilma Rousseff, ali, representava todos nós, representava o Brasil.

Elite tosca e mesquinha.

Endinheirada, diplomada. 

Mas sem educação.






Vaia revela apenas a deselegância da elite
O Brasil, para ficar como Dilma Rousseff deseja, precisa trocar de torcida. Essa que compareceu ao Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é inteiramente inadequada. Uma legião de Velhos do Restelo. Vindo da Suíça, terra onde o leite já sai das vacas pasteurizado, o companheiro Joseph Blatter, da Fifa, ralhou: “Onde está o respeito, onde está o fair play?”. As vaias aumentaram.

Até o desafeto José Maria Marin, da CBF, tentou salvar a cena puxando uma salva de
palmas. Os apupos prevaleceram. Bons tempos aqueles em que o futebol era o ópio do povo. Hoje, gasta-se R$ 1,2 bilhão num estádio para que ele seja usado como amplificador do pio do povo. Quanta ingratidão! O Planalto deveria considerar a hipótese de trocar a torcida brasileira por torcedores terceirizados vindos da Suíça de Blatter. São pessoas muito mais respeitosas. E que fair play!

domingo, 16 de junho de 2013

Manifestantes: Por gentileza, não atrapalhem o trânsito!


Passe Livre São Paulo/Facebook


OPINIÃO



Ode à baderna

Nada mais assustador para um conservador do que a baderna

Leandro Fortes


A moçada parou São Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte público? 

O promotor mentecapto, parado no trânsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Foto: Ninja

Um dos discursos mais comuns à direita brasileira é esse: peçam o que quiserem, digam o que quiserem, mas não façam baderna. E, sobretudo, não atrapalhem o trânsito. Não por outra razão, qualquer cobertura da mídia nacional sobre passeatas, manifestações e grandes movimentações de massa acabam, sempre, em manchetes de trânsito. Os camponeses foram a Brasília pedir reforma agrária? Atrapalharam o trânsito. As mulheres da Marcha das Margaridas invadiram a Esplanada dos Ministérios para pedir saúde e educação no campo? Provocaram engarrafamentos. A moçada parou São Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte público? O promotor mentecapto, parado no trânsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Afinal, o filhinho dele está na escola. Mas como chegar para pegá-lo a tempo, se os bárbaros impedem o trânsito?

Quando, além de parar o trânsito, os manifestantes fazem baderna, aí não! Aí já é demais! Não pode ter baderna. Tem que ser como aquelas passeatas pela paz na Zona Sul do Rio de Janeiro, todos de branco na Avenida Atlântica, copos-de-leite às mãos, o trânsito compreensivelmente parado para a procissão de cidadãos contritos. A polícia, claro, à distância, com as sirenes reverencialmente desligadas. Tudo assim, sem baderna, dentro da lei e da ordem. A manifestação do mundo ideal.

Pena que para quem pega quatro conduções por dia e gasta em média quatro horas dentro delas (ou esperando por elas) a realidade seja outra. No mundo do transporte público não tem hakuna matata. O pau come no ponto, no ônibus lotado, nas estações de trem e metrô diariamente conflagradas. Para o usuário de transporte coletivo, todo dia tem confusão e baderna, mas é difícil explicar isso para o mundo da Avenida Paulista. Para a classe média bem motorizada, as demandas do transporte coletivo são subterrâneas, confinadas a um universo específico sobre o qual só se tem notícia quando motoristas e cobradores entram em greve. É o dia em que a patroa de Higienópolis se inquieta porque a empregada vai chegar mais tarde ou, horror dos horrores, nem vem trabalhar. Quem vai fazer almoço? E os petizes, sob a guarda de quem ficarão no playground?

E, de repente, vem a baderna.

Multidões de cidadãos, jovens, velhos, brancos, negros, empregadas, office-boys, desempregados, professores, trabalhadores, trabalhadoras, desocupados. Baderneiros. Quebram ônibus, depredam vidraças, picham paredes, revolvem a cidade e deixam marcas no asfalto.

O horror, o horror!

Então, todos se unem contra a baderna. Podem pedir o que quiserem, podem se manifestar, cruzar as ruas com bandeiras, mas, por favor, não atrapalhem o trânsito. Políticos de todos os matizes se unem para bradar: baderna, não! Antigos militantes de esquerda que ainda acham um lindo momento histórico as barricadas de Paris, em 1968, estão, ora vejam, revoltados com a baderna. Pedras, paus, coquetéis molotov, é preciso conter os bárbaros e acabar com a baderna. Não interessa se eles vivem em panelas de pressão, amontoados em latas automotivas superlotadas, se ganham uma miséria e, agora, terão que pagar mais 20 centavos pelo mesmo sofrimento diário. O que importa é que eles, baderneiros, estão atrapalhando o trânsito.

Então, a solução é descer a porrada. Passar a borracha no lombo desses baderneiros, enfiar-lhes o cassetete na cuca, tocar o gado revoltado para o corredor polonês.

Que a violência policial contra os manifestantes venha do governo de São Paulo, não causa espécie a ninguém. O PSDB é um partido de direita, o governador Geraldo Alckmin é um numerário da Opus Dei, organização católica de extrema-direita, e a PM de São Paulo é um substrato intocável do aparato policial-militar herdado da ditadura. Os policiais que tomaram o centro da cidade para espancar e prender manifestantes e jornalistas são os cães de guarda desse sistema. Não há disfunção alguma no que estão fazendo: eles existem, basicamente, para isso. Para tocar a negrada a pau, para dar paz a Higienópolis e garantir a brisa fresca de domingo nos Jardins. Dessa gente e de sua guarda pretoriana devem cuidar, nas próximas eleições, o povo de São Paulo.

Mas, onde está o PT? Onde está o prefeito Fernando Haddad, este que já avisou, de Paris, pelo Twitter, que não irá “tolerar vandalismo”? Onde estão os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ninguém de braços dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre tão subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. Até lá, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda têm barba, claro.

Nessa vergonhosa escalada de violência tocada pelo governo tucano de São Paulo, não podia faltar, claro, o apoio da mídia. Não há manifestantes para a ela, mas só baderneiros. Manifestantes são franceses, suecos, turcos, chineses. No Brasil, são vândalos e desocupados interessados em depredar o patrimônio público, como se a imprensa brasileira, hoje povoada de engomadinhos formados em cursinhos de trainee, alguma vez tenha se preocupado, de fato, com a segurança física dos ônibus usados pelos pobres.

Perdão, gente indignada com os vândalos. Mas entre a hipocrisia e a baderna, eu fico, alegremente, com a segunda.


CartaCapital

Destaques do ABC!
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sábado, 15 de junho de 2013

SP: Fernando Haddad quer ouvir ativistas do MPL


OPINIÃO 


Esta escritora e blogueira, que atuou como cidadã e estudante da USP nas movimentações para a derrubada da ditadura militar e a redemocratização do Brasil, e este blog, cujas linhas editoriais inequivocamente contemplam com ênfase a cidadania e a liberdade de expressão, acolhem com entusiasmo todas as manifestações de rua em defesa de direitos, como as que o Movimento Passe Livre vem promovendo em várias capitais do País.

O que a cidadã editora do blog se permite fazer a esta altura da vida, já distante da "idade da inocência", é no mínimo estar atenta a eventuais manipulações de jovens debutantes nos movimentos sociais, por grupos alheios à causa e com objetivos espúrios.

Esta cidadã blogueira acompanha o noticiário sobre as manifestações pela mídia nacional e internacional, mas também procura manter uma visão ampla do que acontece no País como um todo.

Já há alguns meses, a grande imprensa brasileira conduz seu noticiário de forma partidária, sem isenção, valendo-se de "terrorismo informativo", procurando semear pessimismo e criar um clima de revolta na sociedade, com o evidente objetivo de desestabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e comprometer sua reeleição. Isto depois de sucessivas pesquisas de opinião em que a presidenta Dilma bate, de forma inédita, todos os recordes de aprovação.

A sofrível oposição brasileira, municiada e respaldada pela mídia de mercado, há muitos meses se encontra em escancarada campanha para as eleições presidenciais, daqui a mais de um ano, em outubro de 2014. 

Por outro lado, esta mesma mídia pouco e mal noticia as boas realizações da gestão Fernando Haddad na cidade de São Paulo, como o combate à corrupção na administração municipal e a criação de canais que estimulam a participação cidadã, importantes compromissos de campanha.

E não nos esqueçamos também dos "arrastões" que aconteceram recentemente na Virada Cultural promovida pela Prefeitura, que esta mesma mídia tentou usar para arranhar a gestão do petista.

A grande e tradicional mídia brasileira tem lado. Sempre teve. E não é, nunca foi, o lado do Povo Brasileiro.

Que brasileiras e brasileiros injustiçados e indignados sempre "Abram a Boca Cidadã", nas ruas, praças, redes sociais... onde houver espaços para tanto, mas sem violência, sem danos ao patrimônio, de forma republicana.

E que o Movimento Passe Livre aceite o chamamento do prefeito Fernando Haddad, que mais uma vez abre espaço e chama os ativistas para o diálogo.




HADDAD DIFERE DE ALCKMIN E CHAMA MPL AO DIÁLOGO


Prefeito de São Paulo convoca reunião com Movimento Passe Livre para a próxima terça-feira; integrantes farão apresentação diante do Conselho da Cidade; além de ouvir alternativas, Prefeitura pretende mostrar como se dá composição da tarifa; Fernando Haddad procura recuperar para o terreno político-administrativo questão que foi criminalizada por ação repressiva da Polícia Militar

SP247 – O prefeito Fernando Haddad, do PT, adotou uma postura diametralmente oposta da do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, na questão do aumento das tarifas de ônibus em São Paulo.

Numa iniciativa para descriminalizar o assunto, Haddad resolveu não apenas reconhecer, como abrirá as portas da Prefeitura de São Paulo para o Movimento Passe Livre. Na próxima terça-feira 18, os integrantes do Conselho da Cidade irão ouvir exposições dos mesmos jovens que participaram de quatro passeatas em protesto contra o aumento das passagens e a baixa qualidade do sistema de transporte.

Ao mesmo tempo, a administração municipal irá explicar como se dá a composição da tarifa de ônibus.

Haddad criticou a ação policial, na quinta-feira 14, que resultou em mais de 200 prisões e na agressão física a jornalistas. O governador Geraldo Alckmin, ao contrário, defendeu a ação da PM, sendo acompanhado nesta avaliação por seu secretário de Segurança.

Abaixo, nota da Prefeitura de São Paulo sobre o assunto:



Prefeitura convida MPL para apresentar propostas para o Conselho da Cidade

A Prefeitura de São Paulo irá convocar uma reunião extraordinária do Conselho da Cidade na próxima terça (18) para discutir o transporte público em São Paulo. Por determinação do prefeito Fernando Haddad, o MPL (Movimento Passe Livre) será convidado para fazer uma apresentação diante dos conselheiros para explicar suas propostas e visões para o setor.

A administração municipal também irá apresentar detalhes sobre a composição de preço da tarifa de ônibus, a evolução da despesa orçamentária com o subsídio e os planos para a melhoria na qualidade do sistema. Depois das duas apresentações, o debate será aberto para a participação dos conselheiros e sugestões de encaminhamento.

O Conselho da Cidade foi instalado no dia 26 de março para servir como um novo canal de diálogo com a sociedade. É um órgão consultivo, formado por representantes dos movimentos sociais, entidades de classe, empresários, cientistas e pesquisadores, artistas e lideranças religiosas. Os conselheiros têm quatro reuniões ordinárias por ano, para discutir assuntos da cidade, como, por exemplo, a revisão do Plano Diretor e o Projeto Arco Tietê.


SP 247

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sexta-feira, 14 de junho de 2013

São Paulo, ontem: de Londres a Istambul...


OPINIÃO



    Manifestantes no início do protesto, Teatro Municipal


(imagens da página do Movimento Passe Livre/Facebook)


Polícia de Alckmin mata saudades da ditadura



CELSO LUNGARETTI


Está em curso uma escalada de fascistização em São Paulo, orquestrada pelo governador Opus Dei Geraldo Alckmin, com a cumplicidade de figurinhas carimbadas e tendo como principais provocadores os brucutus da tropa de choque da PM

Nunca me senti tão velho como nesta quinta-feira (13), quando, acamado com forte gripe, só fiquei sabendo pela mídia e pelas redes sociais que a Polícia Militar barbarizara o centro de São Paulo, reprimindo bestialmente os manifestantes que (até então) protestavam pacificamente contra o aumento das tarifas de transporte coletivo.

Foi a confirmação do que venho alertando há anos (vide aqui, p. ex.): está em curso uma escalada de fascistização em São Paulo, orquestrada pelo governador Opus Dei Geraldo Alckmin, com a cumplicidade de figurinhas carimbadas como o reitor TFP João Grandino Rodas (da USP) e tendo como principais provocadores os brucutus da tropa de choque da PM, vulgo Rota (aquela que se orgulha de ter coadjuvado o terrorismo de estado nos anos de chumbo, que é sempre denunciada pelas entidades internacionais de defesa dos direitos humanos por suas execuções maquiladas em resistência à prisão e que os vereadores paulistanos da bancada da bala querem homenagear com uma salva de prata).

A aposta dessa gente é numa nova ditadura. E, se o governo federal a continuar subestimando, o ovo da serpente vai ser chocado até que uma crise de maiores proporções crie um cenário favorável à sua eclosão. Os petistas parecem gostar de viver perigosamente; eu detesto saber que há uma lâmina de guilhotina pendente sobre minha cabeça.

Como estive ausente do palco dos acontecimentos, prefiro não produzir um relato jornalístico da nova blitzkrieg.

Sirvo-me, então, dos principais trechos do depoimento do jornalista e historiador Elio Gaspari, colunista da Folha de S. Paulo e de O Globo, que me pareceu o mais satisfatório da grande imprensa.


A PM começou a batalha da Maria Antônia

Quem acompanhou a manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus ao longo dos dois quilômetros que vão do Theatro Municipal à esquina da rua da Consolação com a Maria Antônia pode assegurar: os distúrbios de ontem começaram às 19h10, pela ação da polícia, mais precisamente por um grupo de uns 20 homens da Tropa de Choque, com suas fardas cinzentas, que, a olho nu, chegaram com esse propósito. Pelo seguinte:

Desde as 17h, quando começou a manifestação na escadaria do teatro, podia-se pensar que a cena ocorria em Londres. Só uma hora depois, quando a multidão engordou, os manifestantes fecharam o cruzamento da rua Xavier de Toledo.

Nesse cenário havia uns dez policiais. Nem eles hostilizaram a manifestação, nem foram por ela hostilizados.

Por volta das 18h30 a passeata foi em direção à praça da República. Havia uns poucos grupos de PMs guarnecendo agências bancárias, mais nada. Em nenhum momento foram bloqueados.

Numa das transversais, uns 20 PMs postaram-se na Consolação, tentando fechá-la, mas deixando uma passagem lateral. Ficaram ali menos de dois minutos e se retiraram. Esse grupo de policiais subiu a avenida até a Maria Antônia, caminhando no mesmo sentido da passeata. Parecia Londres.

Voltaram a fechá-la e, de novo, deixaram uma passagem. Tudo o que alguns manifestantes faziam era gritar: "Você é soldado, você também é explorado" ou "Sem violência". Alguns deles colavam cartazes brancos com o rosto do prefeito de São Paulo, "Malddad".

Num átimo, às 19h10, surgiu do nada um grupo de uns 20 PMs da Tropa de Choque, cinzentos, com viseiras e escudos. Formaram um bloco no meio da pista. Ninguém parlamentou. Nenhum megafone mandando a passeata parar. Nenhuma advertência. Nenhum bloqueio, sem disparos, coisa possível em diversos trechos do percurso.

Em menos de um minuto esse núcleo começou a atirar rojões e bombas de gás lacrimogêneo.
Chegara-se a Istambul.

Atiravam não só na direção da avenida, como também na transversal. Eram granadas Condor. Uma delas ficou na rua que em 1968 presenciou a pancadaria conhecida como "Batalha da Maria Antônia"... 

Elio Gaspari

Destaques do ABC!

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Fernando Haddad: "São Paulo repudia a violência"


ATIVISMO SIM, VIOLÊNCIA NÃO



20 centavos de aumento: duas moedinhas de 10. Reajuste muito abaixo da inflação. Que poderia ter vindo em janeiro, mas foi adiado até agora.

Mais de 200 pessoas detidas. Disparos, gritaria, confrontos, quebra-quebra. Gente sangrando. Violência de todos os lados. Ontem à noite, a maior cidade do País virou uma "praça de guerra". E na próxima terça tem mais...

Quem são os promotores das manifestações contra o aumento das passagens e por que não aceitaram o diálogo?

Por que a Polícia Militar extrapolou ontem?

A quem interessa tudo isso?

(Globo News transmitindo ao vivo, tentando levar os conflitos à esfera federal, à presidenta Dilma... Jornalismo de esgoto alvoroçado... 2014 vem aí!...)

Anistia Internacional, apreensiva, divulga nota de alerta.

Em meio ao clima de beligerância instalado nas ruas e avenidas de São Paulo, e acompanhando de seu gabinete as movimentações dos manifestantes e da polícia, o Prefeito Fernando Haddad declarou que não recua do aumento na tarifa e continua aberto ao diálogo, como sempre esteve. Desde que parem com a violência.


Prefeito repudia violência e reitera que tarifa de R$ 3,20 será mantida

Haddad afirmou que nova tarifa será mantida e que todos os esforços foram feitos para que o reajuste ficasse bem abaixo da inflação

O prefeito Fernando Haddad reiterou nesta quinta-feira (13), em coletiva de imprensa na sede da Prefeitura, que o reajuste da tarifa de ônibus de São Paulo não será revisto, e repudiou a violência durante os protestos na cidade. “Vou repetir para deixar bastante claro. Não pretendo, porque o esforço que foi feito ao longo do ano para que o reajuste da tarifa fosse muito abaixo da inflação foi enorme. E ele (aumento) vai significar investir mais de R$ 600 milhões em subsídios”, disse o prefeito.

O prefeito afirmou que considera legítima toda e qualquer manifestação e expressão democrática. “O que a cidade repudia é a violência. São Paulo está acostumada às manifestações. O que a cidade não aceita é a forma violenta de se manifestar e se expressar. Com isso não compactuamos”, disse Haddad. “A renúncia à violência é o pressuposto de diálogo”.

Haddad disse que os compromissos firmados durante a campanha para o transporte público da capital estão sendo cumpridos nos primeiros meses de gestão. “O reajuste abaixo da inflação, o Bilhete Único Mensal (em fase de cadastramento) e corredores e faixas exclusivas de ônibus (46 km já foram implantados). É isso que está previsto no meu programa de governo e é isso que vai ser feito”.

O prefeito lembrou que, no início das manifestações, “deixou as portas abertas para o diálogo e foi recusado por parte dos manifestantes. Antes de qualquer violência ter acontecido na cidade. E depois, todos conhecem a história”.

Sobre a violência, Fernando Haddad disse que a prefeitura mantém diálogo permanente com a Secretaria de Segurança Pública do Estado e com o governador Geraldo Alckmin. “A Guarda Civil Metropolitana, a Polícia Militar e Polícia Civil estão desde o primeiro momento em contato permanente. Inclusive eu mesmo e o governador”.

O prefeito comentou ainda o fato de o próprio movimento afirmar que estaria sem liderança. “É o que eles próprios dizem. Que não se coordenam, que não há lideranças, não há responsáveis, ninguém se apresenta como responsável pelo que está acontecendo”.

Segundo Haddad, a Prefeitura de São Paulo está buscando novas formas de financiamento do transporte público. “A Prefeitura está aberta a qualquer tipo de debate, qualquer assunto desses, educação, saúde, transporte público... Sempre vai interessar aos administradores públicos e sobretudo aos prefeitos. O que todo prefeito quer é beneficiar, favorecer o transporte público. Mas nem sempre há meios disponíveis para isso. Então é buscar novas formas de financiamento, de investimentos. Isso é um debate que interessa a qualquer dirigente municipal”.

Reajuste

A tarifa de ônibus em São Paulo foi reajustada no último dia 2 de junho, passando de R$ 3 para R$ 3,20. O aumento de 6,67% ficou abaixo da inflação acumulada desde janeiro de 2011, quando passou a vigorar a tarifa anterior de R$ 3. De acordo com a inflação calculada pelo IPC/Fipe para o período (14,4%), o reajuste poderia chegar a mais de R$ 3,40. A Prefeitura subsidiará o sistema de ônibus em R$ 1,25 bilhão durante o ano de 2013.

Para reajustar a tarifa apenas no mês de junho e abaixo da inflação, a Prefeitura, ao lado do Governo do Estado, fez um esforço orçamentário e conseguiu junto ao Governo Federal uma desoneração de tributos (Medida Provisória que zerou a alíquota do PIS/COFINS).

A mudança da tarifa não altera o sistema de integração gratuita por três horas para o bilhete comum e de duas horas para os demais bilhetes. A integração dos ônibus com o metrô e os trens da CPTM passou a custar R$ 5. Para os estudantes, a cota de junho foi calculada com base no valor de R$ 1,60, metade da nova passagem.

Portal PMSP


Anistia Internacional defende solução pacífica para impasse entre manifestantes e autoridades


                                                                                                                Luiz Baltar

A Anistia Internacional vê com preocupação o aumento da violência na repressão aos protestos contra o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também é preocupante o discurso das autoridades sinalizando uma radicalização da repressão e a prisão de jornalistas e manifestantes, em alguns casos enquadrados no crime de formação de quadrilha.

O transporte público acessível é de fundamental importância para que a população possa exercer seu direito de ir e vir, tão importante quanto os demais direitos como educação, saúde, moradia, de expressão, entre outros.

É fundamental que o direito à manifestação e à realização de protestos pacíficos seja assegurado. A Anistia Internacional é contra a depredação do patrimônio público e atos violentos de ambos os lados e considera urgente o estabelecimento de um canal de diálogo entre governo e manifestantes para que se encontre uma solução pacífica para o impasse.

Anistia Internacional Brasil


Destaques do ABC!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

SP: 20 centavos de aumento e o caos na cidade


OPINIÃO



A maior metrópole latino-americana constitui um gigantesco laboratório de desafios e recursos.

Tem a escala necessária para gerar contracorrentes vigorosas, a ponto de sacudir e renovar a agenda da esquerda brasileira, após mais de uma década no comando do país. 

A deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade é obra meticulosa e secular de elites predadoras.

Ao longo de décadas, a Prefeitura consolidou-se aos olhos da população como um anexo dessa lógica expropriatória, quando deveria funcionar como um escudo do interesse coletivo.

Incapaz de se contrapor à tragédia estrutural que marca a luta pela vida em São Paulo, tornou-se uma ferramenta irrelevante aos olhos da cidadania.

A tragédia se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação institucional da cidade.

Daí para acender uma espiral de enfrentamentos bastam 20 centavos de diferença na tarifa.

Movimento Passe Livre/Facebook


A resposta é mais democracia

Saul Leblon



Não enxergar o elo entre as ruas e o ciclo histórico costuma ser fatal às lideranças de uma época.

Acreditar que o elo, no caso dos recentes protestos em São Paulo, está no aumento de 20 centavos sobre uma tarifa de transporte congelada desde janeiro de 2011, é ingenuidade.

Supor que a ordenação entre uma coisa e outra poderá ser restabelecida à base de cassetetes e pedradas é o passaporte para o desastre.

Desastre progressista, bem entendido.

A lógica conservadora nunca alimentou dúvidas existenciais ou políticas quanto a melhor forma de manter o caos nos eixos.

Esse é um apanágio do seu repertório histórico.

O colapso do trânsito, inclua-se nesse desmanche o custo e o tempo despendidos nos deslocamentos, é apenas o termômetro mais evidente de um metabolismo urbano comatoso.

Cerca de 1/3 dos paulistanos, aqueles mais pobres, residentes nas periferias distantes, levam mais de uma, e até mais de duas horas no trajeto da casa ao trabalho.

Os tempos indicados são referentes à ida; não consideram o gasto no retorno.

Os dados são de pesquisa recente do Ibope.

Não se produz uma irracionalidade desse calibre sem um acúmulo deliberado.

Estudos do Ipea reiteram a piora nas condições de transporte urbano das principais áreas metropolitanas do país desde 1992.

O Brasil tem a taxa de urbanização mais alta em uma América Latina que lidera o ranking mundial nesse indicador, diz a ONU.

O país concluiu a transição rural/urbana em três décadas, açoitado pela política de modernização conservadora do campo.

Isso se fez sob a chibata de uma ditadura militar.

E não poderia ter sido feito exceto assim.

A virulência do Estado ditatorial fez em um terço do tempo aquilo que as nações ricas levaram um século para realizar.

A coagulação da insensatez na atual "imobilidade urbana" reflete o saldo de perdas e danos dessa marcha batida da história.

O crescimento populacional desordenado das grandes cidades, agudizado pelas referidas migrações, é um dos alicerces da ruína.

Ancorada na omissão pública de décadas, a expansão irracional e especulativa da mancha urbana ganhou vida própria.

Com os desdobramentos logísticos sabidos: aumento das taxas de deslocamento e motorização; explosão dos congestionamentos e do custo do transporte na vida da cidade e no bolso de cada cidadão.

Não é figura de retórica dizer que esses ingredientes acionam o pino de cada bomba de gás lacrimogênio e faíscam o pavio de cada enfrentamento irrefletido nas batalhas campais registradas na cidade de São Paulo em menos de uma semana.

Repita-se: o conservadorismo tem certezas esféricas quanto a melhor forma de lidar com a nitroglicerina social contida nas cápsulas de concreto que ergueu no país nas últimas décadas.

Suas escolhas não podem ser as mesmas das forças progressistas.

O nivelamento regressivo acontecerá caso a inércia política ceda o comando dos acontecimentos à lógica da violência.

No caso dos protestos em São Paulo, a responsabilidade da autoridade municipal é superlativa.

Cabe-lhe reafirmar o divisor entre a gestão progressista de uma sociedade e a visão conservadora sobre os seus conflitos.

Carta Maior saudou a vitória de Fernando Haddad em 2012 por entender, como entende, que ele representa o resgate do cimento da democracia na reconstrução de São Paulo.

Mais que isso.

Por entender que a sorte de São Paulo sob a liderança da nova administração marcará o destino da agenda progressista brasileira no período em curso.

A maior metrópole latino-americana constitui um gigantesco laboratório de desafios e recursos.

Tem a escala necessária para gerar contracorrentes vigorosas, a ponto de sacudir e renovar a agenda da esquerda brasileira, após mais de uma década no comando do país.

A deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade é obra meticulosa e secular de elites predadoras.

Ao longo de décadas, a Prefeitura consolidou-se aos olhos da população como um anexo dessa lógica expropriatória, quando deveria funcionar como um escudo do interesse coletivo.

Incapaz de se contrapor à tragédia estrutural que marca a luta pela vida em São Paulo, tornou-se uma ferramenta irrelevante aos olhos da cidadania.

A tragédia se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação institucional da cidade.

Daí para acender uma espiral de enfrentamentos bastam 20 centavos de diferença na tarifa.

Sim, há outras nuances e interesses entrelaçados ao destaque esquizofrênico com que a mídia convoca e, depois, alardeia o caos a cada protesto.

Tais motivações são as mesmas que fizeram do tomate um astro olímpico na modalidade "descontrole dos preços", há menos de um mês.

As mesmas que hoje alardeiam "a explosão" do dólar – e, ontem, denunciavam o "populismo cambial" e os malefícios, verdadeiros, do Real sobrevalorizado.

Essas motivações exercitam sua sofreguidão cotidianamente na mesmice de uma mídia que se esboroa sob o peso de sua própria irrelevância jornalística.

A resposta da Prefeitura de São Paulo aos protestos não deve se pautar pelos uivos do jogral conservador.

Não se trata, tampouco, de conciliar com a violência gratuita.

Mas, sim, de encarar as manifestações como um mirante privilegiado para fixar uma nova referência na vida da cidade.

Qual seja, a de calafetar o abismo conservador que predominou secularmente na relação entre a Prefeitura e os moradores da metrópole, sobretudo a sua parcela mais pobre.

O trunfo do prefeito Fernando Haddad é ter sido eleito para isso.

Ele tem legitimidade para subtrair espaços à engrenagem opressora e devolvê-los a uma cidadania há muito alijada das decisões referentes ao seu destino e ao destino do seu lugar.

Um salto de qualidade e intensidade na participação democrática na gestão da cidade.

Essa é a resposta para a fornalha da insatisfação, da qual os incidentes de agora podem representar apenas um prenúncio pedagógico.

São Paulo é o produto mais representativo do capitalismo brasileiro.

Um labirinto de contradições, uma geringonça que emperra e se arrasta, desperdiça energia e cospe gente enquanto tritura e refaz o seu concreto de desigualdade.

Não há solução administrativa ou orçamentária imediata para o caos deliberadamente construído aqui.

A resposta à lógica que sequestrou a cidade dos seus cidadãos é devolvê-la a eles fortalecendo os canais existentes e abrindo outros novos, que dilatem o seu discernimento e a capacidade de erguer linhas de passagem entre o presente e o futuro.

A alternativa é a anomia, eventualmente sacudida de gás lacrimogênio e pedradas.

(*) NR: a menção ao uso de coquetel molotov nas manifestações foi suprimida do texto por se tratar de informação divulgada pelo aparato policial, sem comprovação até o momento (12/06/2013; 23h51)


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