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domingo, 10 de novembro de 2013

A Revolução dos Beagles e o amor aos animais


TODA VIDA É SAGRADA



"Na covardia que toma conta da minha alma perante a visão do sofrimento animal, eu não teria ido a São Roque salvar os bichos das garras do Instituto Royal. Justamente por isso, aplaudo quem foi e fez o que tinha que ser feito. Tem horas que as leis dos homens precisam ser burladas."


Orgulho de ser ativista!


Por que me tornei um vegetariano

Carlos Amoedo*



O autor

Em meio à polêmica das pesquisas científicas em animais, a revista Época estampou na capa a foto de um cachorro da raça beagle. Fez a seguinte pergunta: “A vida dele vale tanto quanto a sua?”. Respondo por mim: vale! [idem!!!] Como dizia um saudoso amigo, que morreu cercado por gatos em seu velho casarão, no interior de Minas, “eu não pertenço a esse mundo” [idem!!!]. Isso começou a ficar mais claro quando, aos 40 anos (tenho 48 atualmente), tomei uma das mais radicais decisões da minha vida: parei de comer carne em respeito e amor que passei a nutrir pelos animais em geral, depois que ganhei dois cães. Eles fizeram com que eu enxergasse o mundo de uma forma diferente e logo se tornaram os filhos que nunca tive e meus melhores amigos.

Costumo dizer que o sentimento mais puro que passei a dedicar a outro ser vivo é a compaixão pelos bichos. Não consigo ter amor igual por qualquer humano. [idem!!!] Nos últimos 12 anos, abriguei inúmeros cachorros, a maioria de rua (tenho 11 atualmente), peixes, tartarugas e hamsters. Um dos cães não tem os olhos. Mas me ensina diariamente que é possível ser feliz em condições tão adversas. Sou fã dele.

Em casa, baratas e pernilongos são convidados a procurar outro abrigo [idem!!!], já que não tenho ainda a intenção de conviver com eles. Para não machucá-los, eu os enxoto com a mão ou com um jornal. E se alguém souber como faço para expulsar pulgas do corpo dos meus cães, sem ter que assassiná-las, eu agradeço. Recentemente, vivi uma cena patética por conta desse amor: salvei uma borboleta que caiu no vaso sanitário que eu acabara de usar. A operação foi, no mínimo, nojenta. Se faço essas, digamos, loucuras, como poderia comer um filé ou uma linguiça grelhada, cujo cheiro ainda me enche de vontade, sabendo que tais alimentos são resultado do abate de um animal?

Carne vermelha e de aves nunca foram o meu prato predileto, confesso. Difícil mesmo foi dispensar peixe e frutos do mar do cardápio. Mas até oito anos atrás, eu comia bicho sem remorso. Principalmente sabendo que a proteína vinda da carne animal era essencial para um malhador de carteirinha como eu. O nutrólogo que me atende diz que é errado, no meu caso, não comer carne. Eu peço para ele remediar o estrago que acha que a ausência desse alimento pode fazer, pois não pretendo voltar atrás na decisão tomada. Mesmo que eu tenha que pagar um preço alto no futuro, com minha saúde, quem sabe, estou disposto a bancar a escolha.

Felizmente, sei que a coisa não é tão dramática como pode parecer aos olhos dos carnívoros. É perfeitamente possível viver satisfatoriamente e com saúde, sem qualquer tipo de carne, desde que você saiba o que precisa comer. [idem!!!] Ao virar vegetariano, passei até a cuidar melhor da saúde, de forma a ter a certeza de que meu organismo responderá sempre bem à ausência de carne. Faço exames periódicos e consumo o que for preciso, inclusive suplementos, para aliviar a abstinência aos filés da vida. Até soja, que nunca caiu ou cairá no meu gosto.

Dá trabalho ser vegetariano? Sem dúvida. E olha que não sou dos mais radicais, a ponto de banir da mesa qualquer alimento produzido por um bicho, caso do ovo e do leite. O.K., só como ovo caipira. Afinal, sei que a galinha não foi forçada a abrir mão da vida dela para botar ovos, caso das espécies de granja que são confinadas em cubículos, iluminadas com luz artificial e sem direito ao sono. A caipira, para quem não sabe, cisca livremente e põe ovo quando quer.

Oras, prefiro não comer carne a ter a consciência pesada. Simples assim. Quando criança, eu assistia, indiferente, ao abate de animais pelas mãos de meu avô materno, que vivia do comércio de carne de porcos e de carneiros. As cenas do passado, bastante crueis, passam hoje pela minha mente como navalhas cortantes, das quais não consigo me livrar. E eu me pergunto: “Como pude ser tão insensível?”. Chegava a brincar com os cadáveres de porquinhos e carneirinhos que haviam sido retirados do ventre de suas mães, assassinadas pelo meu avô, que não sabia que elas estavam prenhas.

Também carrego, com dor, o olhar triste de um cachorro de um amigo, que ele abandonou em uma estrada, por achar que o pet estava doente. Outro dia, chorei copiosamente, no silêncio do chuveiro, ao lembrar a cena. Ainda me culpo por ter vivido isso sem nada fazer. Não tinha sequer remorso. Nem o fato de ter salvado alguns animais por conta de minha recente conscientização, de gastar muito dinheiro com meus cães tirados da rua em condições precárias e de viver em função deles a ponto de me isolar no meio do mato, é capaz de tirar esse peso que carrego nas costas. Na covardia que toma conta da minha alma perante a visão do sofrimento animal, eu não teria ido a São Roque salvar os bichos das garras do Instituto Royal. Justamente por isso, aplaudo quem foi e fez o que tinha que ser feito. Tem horas que as leis dos homens precisam ser burladas. [idem!!!]

Meu futuro é quase certo: viverei os últimos dias cercado de animais, sem nenhum humano por perto. [idem!!!]  Mas, não se enganem: esta escolha também é consciente. Estou longe de ser um São Francisco, mas se tem uma figura que admiro, mesmo combatendo as leis da igreja católica, essa figura é ele. No filme sobre a vida do santo (Irmão Sol, Irmão Lua, dirigido por Franco Zeffirelli, em 1972), Francisco diz para um de seus seguidores cheio de fome e que babava por um frango assado que não lhe pertencia: “Pelo menos você não vai comer uma criatura de Deus”.

O que me alivia, de certa forma, é acreditar que a minha ligação com o plano superior está nos animais. No meu mundo ideal, leões também seriam vegetarianos. Não haveria qualquer tipo de pesquisa com bichos. Animais não sofreriam jamais. [idem!!!] Como esse lugar não existe ou ainda não está ao meu alcance, tento viver nesse mundo dos homens. Triste e sem piedade para com os bichos.

Carlos Amoedo, jornalista, 48 anos, milita em São Paulo, e teve expressivas passagens por publicações como as revistas VIP e Men’s Health.


Pedrinho


Destaques do ABC!

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Revolução dos Beagles: Celebremos a Vida!



Ele amava os animais, as flores... toda a natureza.

E os desvalidos, os mais frágeis.

Chamavam-no de "louco".

Hoje é chamado de Santo.



Toda Vida é Sagrada.

Celebremos a Vida!


Irmão Sol, Irmã Lua







sábado, 26 de outubro de 2013

Resgate dos Beagles: Animal !!!


ATIVISTAS, GRAÇAS A DEUS!



Abaixo, mais argumentos de especialistas que dão respaldo à invasão da Filial do Inferno (Instituto Royal) no histórico Resgate dos Beagles.

Toda Vida é Sagrada.





Animais!


Acompanhei, através da transmissão feita pelos próprios ativistas, o resgate dos animais do Instituto Royal. A qualidade das imagens, feitas num celular, estava entre o péssimo e o sofrível, mas a sua carga de emoção foi maior do que a de muita superprodução. A cada coelho ou cachorrinho que saía do inferno, o público que acompanhava a ação na internet comemorava, mandando congratulações e palavras de estímulo e agradecimento aos heróis da madrugada.

Também acompanhei, no dia seguinte, os depoimentos dos diretores do instituto, que negam a existência de maus tratos nas suas dependências. Uma nota divulgada pela instituição, aliás, chegou a afirmar que os bichos teriam, lá, “as melhores condições de vida, com saúde, conforto, segurança e recreação”.

Que me desculpem os senhores diretores, mas é impossível levar a sério quem acredita que se podem usar tais termos em relação a animais que passam a vida em gaiolas, sendo submetidos a toda sorte de experiências dolorosas. Melhores condições de vida? Saúde? Conforto? Se a nota foi redigida de boa fé, mostra um completo distanciamento da realidade; se não foi, revela uma perigosa falta de compromisso com a verdade.

Aliás, há várias perguntas sem resposta em relação ao instituto. A primeira, e mais importante, é saber quem são os seus clientes. Como o Royal recebe verbas públicas, tem a obrigação de revelar para quem trabalha. Com isso se esclareceria boa parte das dúvidas que cercam a natureza dos testes lá realizados. Testar cosméticos e material de limpeza em animais, por exemplo, é prática condenada num número crescente de países. Na União Européia a legislação é tão severa que, no começo deste ano, foi proibida até a comercialização de produtos testados em animais, ainda que importados.

o O o

Sou contra a realização de testes em animais — mas não tenho formação científica, e minha opinião sobre o assunto é, consequentemente, só isso, uma opinião. Por esse motivo, passo a palavra para o especialista Sérgio Greif, biólogo formado pela Unicamp, com mestrado na mesma universidade, co-autor do livro “A verdadeira face da experimentação animal: a sua saúde em perigo” e autor de “Alternativas ao uso de animais vivos na educação: pela ciência responsável”:

“Se um pesquisador propusesse testar um medicamento para idosos utilizando como modelo moças de vinte anos; ou testar os benefícios de determinada droga para minimizar os efeitos da menopausa utilizando como modelo homens, certamente haveria um questionamento quanto à cientificidade de sua metodologia.

Isso porque assume-se que moças não sejam modelos representativos da população de idosos e que rapazes não sejam o melhor modelo para o estudo de problemas pertinentes às mulheres. Se isso é lógico, e estamos tratando de uma mesma espécie, por que motivo aceitamos como científico que se testem drogas para idosos ou para mulheres em animais que sequer pertencem à mesma espécie?

Por que aceitar que a cura para a AIDS esteja no teste de medicamentos em animais que sequer desenvolvem essa doença? E mesmo que o fizessem, como dizer que a doença se comporta nesses animais da mesma forma que em humanos? Mesmo livros de bioterismo reconhecem que o modelo animal não é adequado.

Dados experimentais obtidos de uma espécie não podem ser extrapolados para outras espécies. Se queremos saber de que forma determinada espécie reage a determinado estímulo, a única forma de fazê-lo é observando populações dessa espécie naturalmente recebendo esse estímulo ou induzi-lo em certa população.

Induzir o estímulo esbarra no problema da ética e da cientificidade. Primeira pergunta: será que é certo, será que é meu direito pegar indivíduos e induzir neles estímulos que naturalmente não estavam incidindo sobre eles? Segunda pergunta: será que é científico, se o organismo receber um estímulo induzido, de maneira diferente à forma como ele naturalmente se daria, será ele modelo representativo da condição real?”

A íntegra deste artigo pode ser lida na internet, em bit.ly/17HLVZn. Já a dra. Preci Grohman, médica, é professora aposentada da UFRJ, e fez cursos de pós-graduação nas universidades de Toronto e Londres. Ela escreveu o seguinte:

“Quando estudante, fiz experimentos com animais, recebendo bolsa do CNPq. Na época acreditava nessa prática. Já em Toronto e Londres utilizei cultura de células humanas.

Os cientistas, com seus experimentos, conseguem títulos de mestre ou doutor, o que resulta em promoções e aumento de salários. Isso os torna mais competitivos no mercado de trabalho. Seus supervisores também são agraciados com títulos e prestígio.

A criação de plantéis de animais para pesquisa também é muito lucrativa. Certas drogas, inócuas em animais, já causaram grandes desgraças quando usadas em humanos. A mais conhecida foi a Talidomida. Macacos não desenvolvem câncer de pulmão mesmo sendo obrigados a tragar cigarros continuamente. Se a diversidade genética entre indivíduos da mesma espécie já é significativamente grande para levar a respostas diversas após um mesmo estímulo, o que se pode esperar entre diferentes espécies?

Pesquisas já são feitas com voluntários, podem ser feitas em criminosos que desejem reduzir suas penas ou ainda em culturas de células humanas. Se forem necessárias outras técnicas, os seres humanos devem ser competentes o suficiente para desenvolvê-las. Um exemplo de desperdício na ciência é o descarte diário de milhares de cordões umbilicais, ricas fontes de células.

A manutenção até os dias de hoje de experimentos em animais visa puramente interesses financeiros, e já deveria ter sido abolida há decadas”.

(O Globo, Segundo Caderno, 24.10.2013)


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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Revolução dos Beagles


TODA VIDA É SAGRADA



"O Instituto Royal judiou dos cães e subestimou os humanos. Deu no que deu: de ativistas de direitos dos animais até os black blocs passando por atrizes e donos de canis, o apoio foi imenso à “ação direta” dos que resgataram os beagles, lá em São Roque, pertinho aqui de São Paulo. De quebra, coelhos e outros bichos lá do Instituto também foram levados. A polícia brasileira, educada para se interessar primeiro na proteção da propriedade material e só depois na vida, também estava lá. Empurrou, machucou e criou confusão. Aí teve de se ver com os mascarados, que completaram o serviço de repúdio à crueldade. (...)

Estão completamente errados os que vieram com aquele papo de sempre. “Hipócritas, por que não salvam os ratos?” Não havia ratos lá. Ou então: “Aposto que nem vegetarianos são, esses militantes”. Ora, ninguém foi tirar os beagles de lá por causa de alguma ameaça de um chinês comedor de cachorro! Cada luta tem o seu tempo porque cada emoção, que é o combustível, tem sua cota. (...)

A revolução dos beagles, no final de semana que passou, teve muitos heróis. Integrou gente que pensava diferente. Deu oportunidade, inclusive, de conversarmos não só a respeito de direitos dos animais, mas também de como não podemos abrir mão de direitos humanos se queremos defender direitos dos animais. Proporcionou à classe média o experimento com a técnica da “ação direta”. Além disso, mobilizou jovens por uma causa nobre, que é a diminuição do sofrimento. E, principalmente, trouxe os beagles para uma vida melhor."



A revolução dos cachorros beagles - de São Roque para o Brasil


O que se faz nos laboratórios é alimento para a tecnologia, mas ciência, na verdade, se faz pouco, afirma o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.*


O Instituto Royal judiou dos cães e subestimou os humanos. Deu no que deu: de ativistas de direitos dos animais até os black blocs passando por atrizes e donos de canis, o apoio foi imenso à “ação direta” dos que resgataram os beagles, lá em São Roque, pertinho aqui de São Paulo. De quebra, coelhos e outros bichos lá do Instituto também foram levados. A polícia brasileira, educada para se interessar primeiro na proteção da propriedade material e só depois na vida, também estava lá. Empurrou, machucou e criou confusão. Aí teve de se ver com os mascarados, que completaram o serviço de repúdio à crueldade.


Black Bloc passa por viatura policial incendiada durante protesto em São Roque 

Alex Falcão/Futura Press

Uma classe média simpática aos bichos, mas também simpática à TV quando esta diz que os black blocs são vândalos, fez o mesmo que os professores cariocas: mudou de opinião em relação aos mascarados. Começou a tomá-los por parceiros, e não como “infiltrados”.


No entanto, na casa dos conservadores militantes, os de sempre, onde em geral até há algum cachorro, e bem tratado, a temperatura aumentou. Quem viu de perto conta que foi engraçado. Os donos dos cães vociferavam, enquanto que os cães, sorrateiramente, empurravam as crianças da casa para as redes sociais, para também participar da revolução. O que ocorreu lembrou um pouco a velha animação dos Estúdios Disney, sobre os dálmatas. Aliás, não podia ser diferente: mascarados lutando junto com loirinhas para salvar beagles! Quer imaginário melhor que este? Na “sociedade do espetáculo”, às vezes o espetáculo não é só o do dinheiro.

Estão completamente errados os que vieram com aquele papo de sempre. “Hipócritas, por que não salvam os ratos?” Não havia ratos lá. Ou então: “Aposto que nem vegetarianos são, esses militantes”. Ora, ninguém foi tirar os beagles de lá por causa de alguma ameaça de um chinês comedor de cachorro! Cada luta tem o seu tempo porque cada emoção, que é o combustível, tem sua cota.

Mas, alguns dos tais conservadores (sim, os de sempre, eu já disse) voltaram com os argumentos caducos: “Obscurantistas, querem parar a ciência”. Eis aí a confusão: tomam tecnologia por ciência. O que se faz nesses laboratórios é apenas alimento para reiteração de tecnologia. Agora, ciência, na verdade, se faz pouco.

A ciência avança pouco quando comandada pelo desejo de dinheiro que se quer ganhar no curto prazo, ela avança mais por meio de pressão popular, necessidades éticas e aleatoriedade. A ânsia por lucro no curto prazo tem a ver antes com a tecnologia que com a ciência. Os laboratórios testam ingredientes para produtos do mercado, que pouco têm a ver com benefício humano, mas, na maioria das vezes, com indução de consumo banal. Quando são pressionados positiva ou negativamente pela ética, materializada na vontade popular, aí sim entram na jogada os cientistas. Estes, diferentemente dos tecnólogos de laboratório, atuam na universidade e começam a fazer pesquisa de como desenvolver pesquisa. Pesquisam no campo da ciência para que a pesquisa no campo tecnológico responda à pressão popular e à ética (foi assim no caso das células-tronco, recentemente). Descobrem e inventam modos de fazer pesquisa menos agressiva, ao menos aos olhos da população. E também, no processo aleatório, criam subprodutos que, enfim, às vezes até se tornam grande fonte de lucro (o Viagra não nos deixa mentir). Por isso, os cientistas autênticos não reclamam da pressão ética e popular, eles a aproveitam para mudar, para fazer a ciência avançar.

Alguns industriais ficam bravos com esses cientistas, digamos assim, menos voltados para o campo produtivo imediato. Mas, depois percebem que o que deixaram de ganhar no curto prazo é mil vezes recompensado no prazo médio. Desse modo, eles vão às universidades buscar os resultados. Então, logo que conseguem reformular a tecnologia, adotam o novo e correm para cima dos políticos, de modo que estes transformem o novo em lei. Com isso, eliminam a concorrência dos que não acompanharam o novo. Nasce então uma lei do tipo: é proibido testes laboratoriais com beagles, que derruba os que não buscaram o novo. Claro! A essa altura, proibir seria desnecessário, pois já se tem uma prática melhor e mais lucrativa até, mas a proibição vem para derrubar de vez os que não puderam ou não quiseram investir no novo. Algumas empresas podem então posar de “Empresa amiga dos beagles”. Quer coisa melhor? Ser amiga do cachorrinho do Charlie Brown? Elas também podem, nesse mesmo momento, continuar matando labradores, mas os beagles ganharam proteção em forma da lei.

É assim que nosso mundo tem girado: leis trabalhistas funcionam no Ocidente, mas o Ocidente compra produtos da China, que são mais baratos porque lá não há lei trabalhista nenhuma, o que há é o trabalho praticamente escravo de crianças. Ora, se existe trabalho que degrada a criança na China, eu posso tentar, aqui, boicotar o produto chinês. Mas não vou nunca, se não sou um idiota, dizer: “vamos tirar os direitos trabalhistas daqui para que nossa indústria se torne mais competitiva e derrube a da China”. Há tonto que pensa assim. Mas há sindicato e consciência política para barrar esse tonto.

Do mesmo modo, não temos que lamentar só conseguir uma lei de proteção para beagles. Não temos que dizer: “ah, vamos revogar essa lei que protege beagles porque as empresas continuam colocando os laboratórios para judiar de labradores”. Nada disso. Fazemos diferente. Dizemos: “agora vamos começar a luta pelos labradores”. Do mesmo modo que dizemos: “agora vamos convencer os chineses a viverem em democracia, e aí eles terão de colocar direitos trabalhistas também lá, e então a competitividade internacional pode se restabelecer”. Esse pensamento é o correto. E ele se faz na articulação com as chances - como a chance dada pelo Royal.

A revolução dos beagles, no final de semana que passou, teve muitos heróis. Integrou gente que pensava diferente. Deu oportunidade, inclusive, de conversarmos não só a respeito de direitos dos animais, mas também de como não podemos abrir mão de direitos humanos se queremos defender direitos dos animais. Proporcionou à classe média o experimento com a técnica da “ação direta”. Além disso, mobilizou jovens por uma causa nobre, que é a diminuição do sofrimento. E, principalmente, trouxe os beagles para uma vida melhor.

Todos que participaram positivamente saíram do episódio melhor do que entraram. Agora, é enfrentar a raiva, e até a inveja, de quem não participou. Pois há o conservador empedernido, que é contra tudo que implique na expressão “ser feliz”. Mas há também aquele que até seria a favor, caso ele fosse o líder. Como não houve líder, ele fica mais bravo do que o próprio conservador.

* Paulo Ghiraldelli Jr., 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ.


Destaques do ABC!

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