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sábado, 31 de agosto de 2013

A obsessão pelos holofotes na imprensa brasileira


"A imprensa brasileira faz tão pouco caso do julgamento que lhe trará o futuro, que parece mesmo movida pela crença na hipótese do “fim da História”. Não se trata, apenas, do alinhamento automático com este ou aquele partido ou agrupamento político: a imprensa só é fiel a si mesma, a seus valores e sua ideologia. (...)

A imprensa é um campo de batalha dentro do processo civilizatório, e seus soldados são intelectuais cooptados para uma visão de mundo cada vez mais restritiva. Restam poucas cabeças independentes, e sua função não é a de assegurar diversidade ao conteúdo jornalístico, mas preservar a justificativa moral do jornalismo."




Não há inocentes na imprensa

Luciano Martins Costa


A leitura de jornais já foi no Brasil, em tempos não muito distantes, uma das mais gratificantes atividades para os espíritos curiosos. Abrir um diário era como escancarar uma janela para o mundo. Apesar de encontrar interpretações da realidade com as quais eventualmente não concordasse, o leitor ou leitora tinha a convicção de que, mesmo as parcialidades que lhe impunha a imprensa, buscavam sua legitimação num esforço de objetividade. Assim, o conservadorismo do Estado de S. Paulo e a ligeireza do Globo podiam ser comparados à afoiteza impertinente da Folha de S. Paulo e à austera obsessão do Jornal do Brasil pela acuidade, e podia-se perceber o valor simbólico de seus conteúdos.

Uma das razões para essa percepção era a presença, nas redações, de profissionais qualificados com o que existe de essencial no jornalismo: a humilde curiosidade pelo que há de vir.

Os profissionais não eram avaliados por seu perfil ideológico, mas pela capacidade de se surpreender e surpreender o leitor. Por isso, as redações eram verdadeiros laboratórios de receitas políticas, sociais e econômicas, onde um editor filiado ao Partido Comunista dava instruções a um repórter alinhado a uma irmandade católica. Ou vice-versa.

O que fazia, por exemplo, o Grupo Folhas, os Diários Associados ou o Shopping News, semanário de consumo dirigido à classe média alta de São Paulo, aceitarem como editor o militante trotskista Hermínio Sacchetta, fundador do Partido Socialista Revolucionário?

Qual era a vantagem de Victor Civita, o criador da Editora Abril, em manter em seus quadros intelectuais de esquerda visados pela ditadura militar, ou o que movia Júlio de Mesquita Neto a preservar os comunistas que atuavam no Estado de S. Paulo e no Jornal da Tarde, muitos dos quais em cargos de confiança?

A resposta é simples: esses dirigentes de empresas de comunicação sabiam que o jornalismo só se justifica se a busca da objetividade for um propósito, não apenas um mote para dissimular a manipulação da notícia. O subcampo intelectual ocupado pelos jornalistas tinha seus paradigmas, que deviam ser respeitados pelo patrão. Nesse acordo, a mais-valia dos jornalistas era compensada pela liberdade de opinião dentro das redações. Em contrapartida, os jornais ganhavam em diversidade e profundidade, elementos básicos para uma interpretação multifacetada dos acontecimentos.


Tudo pelos holofotes

Abra agora um jornal, qualquer jornal brasileiro, da quarta-feira, 28 de agosto de 2013. O leitor vai encontrar, da primeira à última página, uma só opinião sobre as questões nacionais, seja sobre a crise diplomática criada pela fuga de um senador boliviano que se abriga no Brasil, seja em torno do programa Mais Médicos, seja sobre as perspectivas da economia ou nas especulações em torno das possíveis candidaturas às eleições de 2014.

Todas as pautas conduzem, de alguma forma, a uma matriz de pensamento cuja principal característica é a substituição da “humilde curiosidade” pelo dogma que não admite contraste.

A imprensa brasileira faz tão pouco caso do julgamento que lhe trará o futuro, que parece mesmo movida pela crença na hipótese do “fim da História”. Não se trata, apenas, do alinhamento automático com este ou aquele partido ou agrupamento político: a imprensa só é fiel a si mesma, a seus valores e sua ideologia.

Mesmo os políticos, economistas, empresários, magistrados e outros protagonistas que contam com o apoio explícito das redações, aqueles que têm suas opiniões exibidas a qualquer pretexto, não passam de massa de manobra. Se, no decorrer de determinada campanha eleitoral, este ou aquele aliado for considerado um obstáculo ao propósito da mídia tradicional, será descartado liminarmente.

A imprensa é um campo de batalha dentro do processo civilizatório, e seus soldados são intelectuais cooptados para uma visão de mundo cada vez mais restritiva. Restam poucas cabeças independentes, e sua função não é a de assegurar diversidade ao conteúdo jornalístico, mas preservar a justificativa moral do jornalismo.

Por esse motivo, ao analisar certos textos de articulistas que se esforçam para manter seu espaço nas colunas de opinião dos jornais ou em programas de televisão outrora respeitados, eventualmente o observador se vê tomado por um sentimento de piedade, ao constatar como a obsessão pelos holofotes pode apagar os últimos resquícios de dignidade profissional.

Mas a piedade é um sentimento perverso. Não há inocentes na imprensa.



Observatório da Imprensa

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Blogueira Cidadã e a patologia social


O câncer moral se alastra. 


Falo da enfermidade instalada no tecido social do bairro de Engenheiro Goulart, Penha, zona leste da cidade de São Paulo, tantas vezes mencionado aqui. O câncer da cobiça. O câncer da ganância. Um câncer devastador, que vai corroendo e apodrecendo tudo o que encontra pela frente.



Descalabros semelhantes acontecem em outras regiões do Brasil.


Não se trata câncer, a doença, com aspirina ou homeopatia. Ele precisa ser combatido com quimio/radioterapia ou extirpado por cirurgia.


Com o câncer social o tratamento deve ser o mesmo: drástico, radical. 


Polícia, Judiciário e Ministério Público: ajudem a blogueira a ter seus direitos reparados!


JUSTIÇA Já para a Blogueira Cidadã!!!




Viva o crime

Lúcio Flávio Pinto

O “milagre econômico” dos civis superou o dos militares. O Brasil se tornou rico como nunca antes, parafraseando Lula. Mas nunca o crime foi tão intenso e eficiente. Com mais dinheiro circulando, há mais quadrilhas empenhadas em desviá-lo.

O Brasil nunca foi tão rico em toda a sua história. Em compensação, a criminalidade nunca foi tão grave. É uma relação de causa e efeito? Pode ser. Não se tem ainda, no entanto, como demonstrar o nexo de causalidade. Mas pode-se chegar a uma conclusão surpreendente – e inédita: o crime se estratificou no Brasil.

O crime dito de colarinho branco se sofisticou na mesma medida em que passou a movimentar valores em dinheiro e símbolos de poder que colocam o Brasil no topo do ranking nesse segmento. Certamente numa posição mais avançada do que o 6º lugar em que o país está dentre os PIBs mundiais.

O recorde anterior era o 8º lugar, conquistado na década de 1970, com o “milagre econômico” do regime militar. Depois o Brasil regrediu quatro posições, até recomeçar a subir, superando seis países, depois do Plano Real, na busca da realização do sonho geopolítico do Brasil Grande, sócio do Primeiro Mundo.


Veículo da morte

Os criminosos de colarinho branco não têm mais por hábito matar. Ou não mais como primeira alternativa diante das dificuldades. Eles liquidam moralmente, ou financeiramente, graças às armas que a mais alta tecnologia lhes fornece. Podem ter que usar o recurso extremo, mas, quase sempre, só no desespero.

Litigam a partir de suas mesas, diante de um computador, com assessorias visíveis e invisíveis (estas, as mais eficientes, principalmente as não assumidas ou não declaradas). Usufruem de um dos maiores progressos feitos pela ditadura: o aperfeiçoamento dos mecanismos de investigação e de descoberta (ou produção) de provas de ilícitos. É a teia de espionagem, que multiplicou os arapongas, antigamente conhecidos por dedos-duros (sem dispensar o hífen)

O exemplo mais recente e acabado desse modo de proceder é o do suposto empresário Carlinhos Cachoeira. Ele não se enquadra no modelo de bicheiros como Anísio Abrahão ou Castor de Andrade. Conta com senadores, deputados federais, governadores, empresários, jornalistas, que comem em suas mãos, nem sempre de forma simbólica.

Está conectado a empresas muito maiores, dentro e fora do país. Mesmo alvejado por disparos verbais e ameaças materiais que derrubariam outro delinquente, se mantém calmo. Sua munição é tão vasta quanto imprevisível. Seu arquivo eletrônico é seu seguro de vida. Embora sem garantia certa ou cobertura definida.

Mas há o crime de rua, violento e sangrento, como “nunca antes”, para usar o bordão do ex-presidente Lula. O líder-guia do PT, aliás, contribuiu para esse “aperfeiçoamento” maligno com seu populismo de resultados, mais eficiente e mais inescrupuloso do que o populismo amador e romântico dos políticos da República de 1946. O do líder sindical é, et pour cause, profissional. Sublimemente (ou subliminarmente) mafioso. O Brasil dos nossos dias é uma recriação monumental da Chicago do entre as duas guerras mundiais do século 20.

Vem do Maranhão o mais recente exemplo dessa criminalidade. Na noite do dia 23/4 um homem desceu de uma moto, na qual era o carona, com a cobertura de uma segunda moto. Caminhou calmamente até um dos restaurantes da frequentada e admirada orla litorânea de São Luiz do Maranhão, ponto turístico nacional.

Foi até uma das mesas, tirou uma pistola calibre 40, a preferência policial por sua potência e eficiência. Mirou no ocupante de uma das mesas, que estraçalhava caranguejos, como costumam noticiar as colunas sociais.

Fez seis disparos com direção certa e objetivo definido: matar sem piedade, tripudiar sobre a morte. Duas balas atingiram a cabeça da vítima. Outras duas, o pescoço. E mais duas a região do coração. Sangue espirrou, carregado de massa encefálica, pele e osso. Os tiros não foram apenas para matar: a morte devia servir de mensagem a quem interessar pudesse. E advertência.

O assassino olhou em torno, disse palavras ameaçadoras para o garçom, que testemunhara estupefato o crime, guardou a arma e saiu com a mesma calma da chegada. Não escondeu o rosto nem teve pressa em fugir.

Subiu na moto e sumiu, sempre com a cobertura do segundo veículo (inspeções constantes a motocicletas devia ser uma estratégia sagrada no Brasil; elas se transformaram no veículo da morte). O criminoso não tinha receio em ser identificado nem, talvez, preso. Se for preso, acredita, será por pouco tempo. Tem cobertura – e da grossa.


Caranguejos cozidos

A vítima, Décio Sá, tinha 42 anos. Era jornalista havia muito tempo. Desde 2006 escrevia um dos muitos blogs criados por maranhenses que não têm onde se manifestar. Aqueles que querem se informar e informar os outros. É a alternativa à grande imprensa, dominada pelos grupos políticos e empresariais que mandam no Maranhão, o Estado mais pobre do Brasil (alguma relação com o fato de ser, geograficamente, Meio Norte, junto com o Piauí, metade Amazônia e metade Nordeste?).

Décio criou a imagem de jornalista investigativo, eficiente, audacioso e corajoso, graças ao blog, arma que exibe e esconde, revela e oculta, esclarece e confunde. Mas trabalhava havia tempo suficiente no maior grupo de comunicação do Estado para não ser definido apenas por blogueiro.

Sob essa outra veste, suscitava dúvidas quanto à sua independência e autonomia. Às vezes o tomavam por mensageiro da família Sarney, erro – ou confusão – quase inevitável. Ele era um repórter político especial do Sistema Mirante de Comunicação, afiliado à Rede Globo de Televisão e, em particular, do jornal O Estado do Maranhão, líder dos impressos maranhenses.

Esses veículos são dirigidos de perto pelo maior político do Maranhão, o ex-presidente da república e presidente do Senado, José Sarney. Nada de importante sai nos órgãos de comunicação do também ex-governador sem sua aprovação. O noticiário político, então, é criação sua. Nem sempre para reproduzir a verdade. Às vezes, também, para mandar recados. Ou pespegar estigmas conforme a utilidade ou conveniência.

As oligarquias no Maranhão não costumam aparecer na literatura que Sarney, também imortal da Academia Brasileira de Letras, costuma cometer. Nem é preciso: a ficção do senador beletrista é acanhada demais para dar conta de realidade de tal magnitude. Tão impressionante que dispensa pitadas de invenção. Basta olhar com olhos de ver e sentir com mãos de reproduzir a cena para que ela surja com fidelidade temerária à realidade que constitui tarefa de um herói. Talvez logo depois herói morto.

Décio Sá falava ao celular, em frente aos caranguejos cozidos, seu prato de resistência. Quando recebeu os tiros, o jornalista falava com Aristides Milhomem, mais conhecido por Tatá, vice-prefeito do município de Barra do Corda e irmão de Carlos Alberto Milhomem, deputado estadual.

Sem conseguir restabelecer a ligação, Tatá acionou Fábio Câmara, suplente de senador e amigo de Décio, que estivera em contato com outro amigo, um personal trainer, executado pouco antes, no mesmo dia, num ponto mais distante da faixa valorizada da capital maranhense. E que também iria para o bar Estrela do Mar para a caranguejada.


Regra de ouro

A última postagem de Décio no seu blog foi sobre o assassinato de Miguel Pereira de Araújo, o Miguelzinho. Ele foi morto em 1997 e o julgamento seria realizado em Barra do Corda, que forma com Presidente Dutra e Grajaú o principal reduto de pistoleiros no Maranhão.

O problema é que das 25 pessoas sorteadas para integrar o corpo de jurados, formado por sete membros, 25 eram ligadas a Manoel Mariano de Souza. Além de ser prefeito municipal, ele é pai do empresário Pedro Teles, acusado de ser o mandante do crime. Seria represália contra o alegado invasor de suas terras. Pedro é irmão do deputado estadual Rego Teles, do PV, o Partido Verde dos ambientalistas de ontem e de amanhã.

O advogado Leandro Sampaio Peixoto, defensor de Miguelzinho, pediu o desaforamento do júri para São Luiz no mesmo dia da morte de Décio, a quem forneceu cópia da petição. Nela, previu que o julgamento, se realizado em Barra do Corda, terá desfecho viciado. Os acusados serão absolvidos.

Ele sabe o que diz: é filho do ex-prefeito de Barra do Corda, Avelar Sampaio, do PTB. Foi Avelar, quando prefeito, quem cedeu do seu estoque os pistoleiros Moraes Alexandre e Raimundo Pereira para proteger Manoel Mariano. Na época os dois eram amigos. Rompidos, se tornaram inimigos. Manoel interrompeu a sucessão no poder da família do seu (ex) amigo. Delito sujeito à pena de morte.

Para as oligarquias que comandam o interior do Brasil, isso é crime imperdoável. Tem que ser quitado com outro crime, sem os refinamentos do pessoal do andar de cima, que circula de colarinho branco por esses ambientes. O encadeamento é óbvio. O problema é segui-lo.

Um leitor, que usou um nome falso (Madureira), fez o único comentário, postado momentos antes da consumação do assassinato do blogueiro. Concluiu: “tá na cara que é jogo de cartas marcadas. Precisa mais detalhes que esses?? creio que não !!”

Apesar do acesso constante ao blog, ainda mais depois do crime, ninguém voltou a se manifestar. O silêncio é a regra de ouro desses acontecimentos, cada vez mais frequentes no Brasil oculto. Quem fala muito morre com a boca cheia de formiga, ameaça uma tirada de humor negro. Muito negro.


*Lúcio Flávio Pinto é jornalista e editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)




terça-feira, 13 de março de 2012

A Justiça avacalhada



Acompanhe aqui, no Abra a Boca, Cidadão!, reportagem-denúncia sobre a situação crítica em que esta Blogueira vive, dentro de sua casa, na cidade de São Paulo, ameaçada por familiares em conluio com agentes públicos, inclusive do Judiciário, e outros cúmplices. Leiam o post de ontem e não deixem de ler os próximos!


Os exemplos pululam em todo o território nacional: mazelas do Judiciário, que envergonham a todos nós, cidadãs e cidadãos de Bem. Judiciário que se alinha com bandidagem, que se acumplicia com criminosos. Venda de sentenças, arquivamento e extinção arbitrária e espúria de processos, outras tantas iniquidades... arrogância, prepotência, abuso de poder. 




Mas chegou a hora do brasileiro, "reclamão", "dar a volta por cima", fazer um "upgrade" em si mesmo, deixar de ser comodista e tomar atitudes. Agora nem precisa mais sair de casa. Antes precisávamos ir ao correio, gastar horas preparando denúncias para protocolização em órgãos públicos... Agora, muitas vezes, pela web temos acesso a Polícia Federal, Ministérios Públicos, departamentos da Polícia especializada, Conselho e Corregedoria Nacional de Justiça, Ordem dos Advogados do Brasil, ministérios que acolhem denúncias, ouvidorias, comissões no Senado e na Câmara, parlamentares dos três níveis, organizações não-governamentais, veículos da mídia tradicional e da nova mídia, imprensa e organismos internacionais, blogs como o ABC!... O cardápio é amplo, farto.


Cidadã e cidadão espoliado, esbulhado, constrangido, ameaçado: divulgue os nomes de seus algozes, relate as violências que sofre, conte nas redes sociais as torpezas de que é vítima, denuncie! Não deixe barato! Exponha publicamente os facínoras que procuram se aproveitar do medo das vítimas e continuar seus crimes no anonimato e na impunidade. "Corruptos temem a mídia", como ensinou a ministra-corregedora Eliana Calmon. E temem a exposição pública em geral, acrescento. 


Não se cale! Vá pra cima, cidadã e cidadão! Bateu, levou!


Mil vezes um "dano moral" que um "sequestro/cárcere privado" ou assassinato, por exemplo. (Os que me perseguem sabem bem do que estou falando...)


JUSTIÇA para todas as cidadãs e cidadãos!



Caso Jornal Pessoal
A Justiça avacalhada

Luciano Martins Costa

Comentários de autoridades e outras figuras públicas na rede social da internet são sempre uma atitude temerária. São muitos os casos de celebridades que caem em desgraça ou se deslocam para baixo na lista das pessoas mais admiradas por conta de manifestações infelizes, atos falhos e declarações impensadas que revelam convicções que não convém andar espalhando por aí.

Na edição de terça-feira (6/3), a Folha de S. Paulo publica comentário postado na rede de relacionamentos Facebook pelo juiz paraense Amílcar Bezerra Guimarães, que merece uma observação mais atenta.

Guimarães vem a ser conhecido da imprensa nacional pelo fato de haver condenado o jornalista Lúcio Flávio Pinto a pagar indenização de R$ 8 mil por danos morais a familiares do falecido empreiteiro Cecílio do Rego Almeida.

Lúcio Flávio havia chamado Almeida de “pirata fundiário”, em comentário sobre a apropriação, pelo empresário, de 4,7 milhões de hectares de terras públicas na Amazônia.

A Justiça já havia concluído que os documentos do empreiteiro eram ilegais, determinando a devolução das terras, ou seja, a denúncia de Lúcio Flávio se revelava correta e fundamentada, quando o juiz Amílcar Guimarães, em apenas um dia como juiz substituto e com atraso, entregou ao cartório judicial sua decisão num processo de 400 páginas, condenando o jornalista.

O jornalista recorreu da decisão, mas foi derrotado em segunda instância.

O caso extrapolou para além das redes de comentários entre jornalistas e integrantes da magistratura do Pará quando Lúcio Flávio, afirmando não ter condições de arcar com novo recurso, desistiu de apelar contra a decisão da Justiça paraense. Seu caso ganhou repercussão nacional a partir de um movimento nas redes sociais intitulado “Somos todos Lúcio Flávio”, que chegou a ser reproduzido no exterior.

Na segunda-feira (5/3), o juiz Amilcar Guimarães, que mantinha silêncio sobre o assunto, resolveu postar na rede de relacionamentos online o que pensa sobre a questão (ver aqui). E o que o magistrado convenciona chamar de Justiça mostra a quantas anda o Judiciário.

Entre outras coisas, o magistrado se solidariza com o empresário do grupo de comunicações Maiorana, dominante no Pará, que há alguns anos agrediu o jornalista num restaurante, por conta de denúncias publicadas no Jornal Pessoal, e termina pedindo a Lúcio Flávio que o acuse diante do Conselho Nacional de Justiça, para “ganhar” a aposentadoria compulsória.

Isso é o que se chama avacalhação.

Aposentadoria é o prêmio

As declarações do juiz são tão espantosas que os editores da Folha de S. Paulo chegaram a imaginar a possibilidade de se tratar de um perfil falso criado no Facebook. Mas o juiz, entrevistado pelo jornal paulista, confirmou a autoria das mensagens e se queixou de estar sendo “satanizado” pelo jornalista [tremenda cara de pau!].

Questionado sobre a decisão de condenar Lúcio Flávio e da impossibilidade de haver estudado todo o processo em menos de um dia, ele confessou que tomou a decisão sem ler todos os autos [!!!]. “O que é que o juiz precisa além de ler a reportagem?”, perguntou, referindo-se ao texto que havia suscitado o processo por danos morais contra o jornalista.

Ao declarar que gostaria de ser denunciado ao CNJ, o magistrado afirma que a aposentadoria compulsória “não seria uma punição, seria um prêmio”. A Folha consultou a direção do Tribunal de Justiça do Pará e ouviu que as declarações do juiz são consideradas “de caráter pessoal”, e por isso não haveria comentários oficiais a respeito.

A não ser que o próprio Conselho Nacional de Justiça se interesse pela questão, vai ser assim mesmo: o corporativismo continua imperando, dominado pelos setores mais reacionários da Justiça, que segue na direção contrária à da evolução da sociedade.

Lúcio Flávio é um desses protagonistas solitários da imprensa regional, que se tornou conhecido nas duas últimas décadas por suas reportagens denunciando o desmatamento da Amazônia e as alianças entre os poderosos locais, entre os quais costuma alinhar os controladores do grupo O Liberal, que, entre jornais e emissoras, domina as comunicações no Pará.

Por conta de suas atividades jornalísticas, sofreu mais de trinta processos, e o caso julgado pelo juiz Amílcar Guimarães, além de puni-lo com uma multa que ele afirma não poder pagar, retira sua condição de réu primário, tornando-o absolutamente vulnerável à ação de seus desafetos.

Mais do que a absurda decisão judicial que condena por danos morais um jornalista por haver publicado informação que a própria Justiça veio a confirmar, chama atenção o deboche do magistrado sobre a própria Magistratura.


Observatório da Imprensa


Destaques do ABC!


*

sexta-feira, 9 de março de 2012

Alberto Dines: o mestre sempre inconformado



Eu também fui leitora "fascinada" de Alberto Dines e do "Jornal dos Jornais", coluna que ele mantinha na Folha de S. Paulo nos anos 70. Ali ele fazia uma crítica afiada, precisa, primorosamente redigida, de matérias publicadas por outros veículos. O espaço de um sempre mestre.


Dines escreveu também um clássico, O papel do jornal, um pequeno livro mas uma grande introdução a esse mundo fascinante que é o jornal impresso.


Muito do que eu aprendi de jornalismo e de texto em geral me veio pelo autodidatismo, lendo os bons profissionais e principalmente os mestres, como Alberto Dines. Portanto, abro aqui um espaço para homenageá-lo pelos 80 anos de vida e pelo jornalista apaixonado pela informação, pela clareza e sobriedade do texto, sempre inquieto e inconformado.


Felizmente pra todos nós ele continua em atividade, no imperdível Observatório da Imprensa.



Alberto Dines: "O jornal vai continuar 

como referência"


Foto: André Mourão / Agência O Dia

POR Bruno Trezena - Fernando Molica

Rio - Jornalista adora dizer que jornal velho só serve para embalar peixe. Aos 80 anos, completados no último dia 19, Alberto Dines garante que não faltará papel para os embrulhos: afirma que o jornal não deixará de existir. “O jornal é que amarra os fatos”, diz. Ex-ocupante de cargos de chefia na ‘Manchete’, ‘Última Hora’, ‘Jornal do Brasil’ e ‘Folha de S. Paulo’, Dines é fundador do ‘Observatório da Imprensa’, que, na Internet e na TV Brasil, avalia o trabalho dos jornalistas. Nesta entrevista, ele faz críticas à imprensa, analisa a Internet e defende um controle sobre a mídia eletrônica.

O DIA: Quando você foi para o ‘Jornal do Brasil’?

DINES: Cheguei no JB em 1962, depois da reforma que mudou o jornal. E o Brito (Manoel Francisco do Nascimento Brito, diretor do jornal) queria que eu desfizesse a reforma, eu me recusei. Disse que, aos poucos, faria alguns avanços, sem chocar o leitor.

O DIA: Por que ele não gostava da reforma?

DINES: Ele implicava com tudo que era bom, queria acabar com tudo de grandioso que a reforma trouxe. Os jornais brasileiros ficaram com essa mania de mudar. Hoje, se faz de propósito, para chocar o leitor, que acaba ficando baratinado com tantas mudanças. Criou-se uma velocidade que é devoradora.

O DIA: O que mudou com o Golpe Militar de 1964?

DINES: Não mudou nada, até porque os jornais apoiaram o golpe, com exceção da ‘Última Hora’. O que mudou foi em 1968, com o AI-5 (Ato Institucional Número 5, que suspendia as garantias constitucionais). Passamos a ter uma ditadura: censura, Congresso Nacional fechado. Eu então pedi ao Brito para avisar o leitor que o jornal estava sob censura. Chegaram os censores militares, eles mandaram trocar algumas páginas, mas, na oficina, mudamos tudo. (Na primeira página do dia seguinte, ao lado do logotipo do jornal, havia o lembrete: “Ontem foi o Dia dos Cegos”. Também na capa, a nota sobre o tempo informava: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos.”).

O DIA: E você foi preso...


DINES: Fui levado para a Polícia Federal e, depois, para a Vila Militar. Fui solto na véspera de Natal e tive que me reapresentar no dia seguinte. Voltei e fiquei mais dois dias. Em janeiro, tive que depor por cinco horas.

O DIA: Como surgiu a histórica capa do jornal que noticiou, em 1973, a derrubada do presidente chileno Salvador Allende?

DINES: Os militares não queriam dar impacto à morte do Allende, proibiram manchete. Então decidi fazer a primeira página sem manchete, sem foto. O impacto acabou sendo muito maior.  



O DIA: Sua atitude teve consequências...

DINES: Sim, fui demitido.

O DIA: Para citar o título de um de seus livros: qual é hoje, na era da Internet, o papel do jornal?

DINES: Esse papel não mudou, o jornal é a referência dos acontecimentos. O período em que o jornal vive é o de 24 horas, quando o dia nasce e morre. É um período noticioso completo. O jornal tem essa característica, fecha o ciclo com lógica, costura tudo, arruma, edita, seleciona, hierarquiza. Isso, a Internet não pode fazer porque é um fluxo contínuo. Esta característica da Internet tem consequências diretas na profundidade da matéria, vai no fígado da profundidade da matéria. O fluxo contínuo, como na Internet, é muito bom para se saber o que está acontecendo. Mas isso não permite ao leitor entender o que ocorre; o jornal do dia seguinte, sim.



                                                                                                Foto: André Mourão / Agência O Dia


O DIA: A preocupação de diretores de jornais de todo o mundo é com o futuro do jornal impresso diante das novas tecnologias...

DINES: Eles estão discutindo algo que não é discutível. Ficam falando de modelo de negócio, não tem nada disso. O Gutemberg, que inventou os tipos móveis, e o impressor Aldo Manucio, que criou o livro, não estavam pensando em criar modelo de negócios, uma coisa pré-fabricada. O negócio vai sendo construído aos poucos.


O DIA: Mas você acha que os jornais impressos vão acabar?


DINES: Eu acho que não, o jornal vai continuar como referência. É o jornal que amarra os fatos, não surgiu outra mídia periódica capaz de dar esta amarrada. Se não houver a sistematização da notícia, você perde a referência, perde a análise. Você pode pegar um papel de 400 anos e ver que tem algo ali. Não sei se o que é escrito nas novas mídias vai sobrar. Os originais do meu livro sobre a Inquisição estão em um disquete grande. Resultado: não há como ler o que está escrito lá.


O DIA: O que o jornal tem que fazer para sobreviver?


DINES: Ele vai absorver outras ferramentas. O jornal absorveu o telégrafo, a fotografia. E vai absorver a Internet, muitos jornais e revistas estão fazendo isso. A versão digital do ‘The Economist’ está muito interessante. Desenvolve alguns assuntos, o leitor do papel sabe o que está sendo informado e pode acessar o conteúdo na Internet.


O DIA: Os jornais terão de ser mais profundos?


DINES: Têm que ser. Se o jornal baixar o nível para ser efêmero, ele perderá sua função. Não precisa falar de filosofia todas as semanas, mas precisa dar essa amarração, esse sentido às mudanças. Estamos falando de mudanças, a notícia é uma mudança. O jornal tem que ser diferente da Internet, se começar a ser igual a Internet, estaremos ferrados. Por enquanto, a Internet vende audiência, não vende consistência.


O DIA: Você acha que a liberdade de imprensa no Brasil está ameaçada?


DINES: Tem uns malucos, aloprados que se acham de esquerda, mas não são, que defendem a necessidade de forças “progressistas” editarem jornais. Isto, dizem eles, para evitar a maré neoliberal. Mas eles nunca conseguiram fazer isso, até porque não têm competência, não têm um veículo com credibilidade. Mas, em outros países da América Latina, há uma corrente caudilhesca que busca mesmo a supressão da liberdade.


O DIA: O que você acha da criação de um conselho de comunicação?


DINES: O conselho não vai fazer nada, até porque se tentar fazer será censório. Existe sim a necessidade de regulação da mídia, eu sou a favor do que o presidente Franklin Roosevelt, em 1934, criou nos Estados Unidos, o Federal Communications Commission, um órgão controlador da mídia. Eu acredito nisso, a mídia eletrônica é uma concessão e não pode fazer o que quer. Vamos tentar fazer aquele mínimo que fizeram nos Estados Unidos. Na Inglaterra, na Câmara dos Comuns, tramita a possibilidade de criação de um sistema de autorregulação, com poder de convocar jornalistas para depor. Seria um comitê formado não por jornalistas, mas pela sociedade.


O DIA: Esse controle seria em que sentido?


DINES: Pra evitar o que foi feito pelo Murdoch (Rupert Murdoch, dono de jornais que utilizaram meios ilegais para obter informações). O ‘The Economist’, que é super conservador, reconheceu que é preciso haver um órgão regulamentador. O Brasil começou a pisar na bola em matéria de imprensa ao criar um organismo supraempresarial que estabeleceu uma disparidade sócio-político-cultural, a ANJ (Associação Nacional de Jornais). A ideia é legítima, que as empresas tivessem uma entidade onde se encontrassem e discutissem seus problemas. Mas a entidade não poderia fazer lobby, atuando fora de seus veículos, teria que permitir o direito de discordância. A imprensa brasileira não se discute. Não precisa xingar a mãe como se fazia antes, mas tem que haver discordância entre os jornais. É isso que faz com que os aloprados digam que é preciso criar um polo contrário, acaba funcionando como pretexto. Se existe esse polo (a ANJ), eles decidem criar outro polo. A ANJ atua de forma deletéria, tem posições que anulam as posições dos jornais.


O DIA: Como você avalia a imprensa brasileira hoje?


DINES: O problema é a concentração muito grande, não temos imprensa comunitária. Sempre tivemos e hoje ela está desaparecendo. Essa concentração vai lá pra cima, com o agravante que hoje ela se confunde, nos estados, com o coronelismo político.


O DIA: Pegando o mote do ‘Observatório da Imprensa’. Como você lê jornal?


DINES: Eu leio como crítico, é essencial. A beleza desse mote é que ele contém a semente do ceticismo. É importante espalhar a ideia de que o jornal precisa ser discutido.


O DIA: De onde vem este espírito crítico e inquieto?


DINES: Pode ter algo genético. Eu sou profundamente judeu, sem ser praticante. O judeu é um inconformado. Jesus Cristo, na cruz, reclama: “Deus, por que me abandonaste?”. Isso é muito judaico, arguir, contestar. O jornalista precisa ser inconformado.


O DIA: O que você mudaria nos jornais brasileiros? O que faria se, agora, o telefone tocasse e você fosse chamado para chefiar um jornal?


DINES: A primeira resposta seria dizer: “Aceito”. Em seguida, teria que ver o que fazer, analisar o veículo, o público. Eu tenho ideias, mas, para mostrá-las, tenho que ser chamado.


http://odia.ig.com.br