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Editoria/Sônia Amorim: ativista, blogueira, escritora, professora universitária, palestrante e "canalhóloga"
Desafinando o Coro dos Contentes...
A Organização das Nações Unidas, entidades, pacifistas e cidadãos ativistas dos direitos humanos no mundo todo celebram hoje o Dia Internacional da Não Violência.
2 de Outubro: nesta data nasceu a "Grande Alma" da Índia e de toda a humanidade: Mahatma Gandhi, o profeta de ahimsa (Não Violência).
Segundo declarações do Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, "é preciso promover a Paz", e é com a educação que se poderá estabelecer as bases para novas formas de cidadania global e solidariedade. É pela educação que se pode melhorar a dignidade humana, promover a cultura da Não Violência e construir a paz duradoura.
Ban pediu que todos combatam "as forças da intolerância e avancem com a cidadania global e a solidariedade humana com base na filosofia de Não Violência de Mahatma Gandhi".
Palavras de Gandhi
OLHO POR OLHO E ACABAREMOS TODOS CEGOS.
Só podemos vencer o adversário com o amor, nunca com o ódio. A Não Violência não depende do número; depende do grau de firmeza. Se um único homem chegar à plenitude do amor, neutraliza o ódio de milhões. O caminho da paz é o caminho da verdade. Na verdade, a mentira é a mãe da violência. Um homem sincero não pode permanecer violento por muito tempo. Ele vai perceber, no curso de sua busca, que não tem necessidade de ser violento. Vai também descobrir que enquanto houver nele o menor vestígio de violência não conseguirá encontrar a verdade que está procurando. A força gerada pela Não Violência é infinitamente maior do que a força de todas as armas inventadas pela engenhosidade do homem. A Não Violência é a força mais potente do mundo. A Não Violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. A não violência nunca deve ser usada como um escudo para a covardia. É uma arma para os bravos. O que precisamos matar no inimigo é o desejo de matar. A Não Violência é o primeiro artigo da minha fé; e é também o último artigo do meu credo. Se queremos alcançar a verdadeira paz neste mundo e se queremos desfechar uma guerra verdadeira contra a guerra, teremos de começar pelas crianças; se crescerem com a sua inocência natural, não teremos de lutar; não teremos de tomar resoluções ociosas e infrutíferas, mas seguiremos do amor para o amor, da paz para a paz, até que finalmente todos os cantos do mundo estarão dominados pela paz e pelo amor, pelo que o mundo inteiro está ansiando, consciente ou inconscientemente.
DIA MUNDIAL DA PAZ Violentos do mundo, ouvi! É o Papa Francisco, no primeiro dia do novo ano, Dia Mundial da Paz, que pede: Parem com a violência! E Francisco não se refere "apenas" à violência das guerras, mas à "violência nossa de cada dia"... (aspas minhas).
Papa Francisco pede mais solidariedade e menos violência
Pontífice celebrou o primeiro Angelus de 2014. Igreja Católica também celebra o Dia Mundial da Paz.
O Papa Francisco celebra o Angelus nesta quarta-feira (1º) no Vaticano
(Foto: Filippo Monteforte/AFP)
O Papa Francisco pediu nesta quarta-feira (1º) mais solidariedade e menos violência no mundo em seu primeiro Angelus do ano, diante de uma multidão de fiéis reunidos na Praça de São Pedro.
"Todos nós temos a responsabilidade de trabalhar para tornar o mundo uma comunidade de irmãos que se respeitam, aceitam suas diferenças e cuidam uns dos outros", disse por ocasião do Dia Mundial da Paz celebrado pela Igreja Católica no dia 1º de janeiro. O primeiro Papa da América Latina também pediu o fim da violência e da injustiça que "não pode nos deixar indiferentes ou imóveis".
"É hora de parar na estrada da violência", declarou com veemência, desviando-se do texto preparado com antecedência.
"O que acontece no coração da humanidade?", questionou, antes de destacar "a força da bondade, a força não-violenta da verdade e do amor".
Durante a missa de Ano Novo celebrada na parte da manhã na Basílica de São Pedro, na presença de muitos membros do corpo diplomático junto a Santa Sé, ele também falou de "fome e da sede de justiça e de paz".
Para ele, 2014 deve trazer "um verdadeiro compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva".
O Papa também exortou os fiéis a mostrar "força, coragem e esperança" durante o novo ano que se inicia.
Fiel ao estilo familiar que lhe rendeu grande popularidade, o Papa Francisco terminou sua oração saudando a multidão sob um sol brilhante com um alegre "bom almoço e bom ano!" Eleito em março de 2013, após a renúncia histórica de seu antecessor Bento XVI, Francisco fez crescer as esperanças de mudanças na Igreja Católica, abalada por uma série de escândalos, incluindo de pedofilia, e a secularização das sociedades ocidentais.
O Papa de 77 anos defende uma Igreja pobre para os pobres, menos "auto-referencial" (centrada no Vaticano) e mais colegial, dando mais peso para os bispos de todo o mundo. G1 Destaques do ABC! *
Não se pode aceitar a Injustiça. É um dever não cooperar com o Mal. Gandhi, o Mahatma (a Grande Alma)
Andava na direção contrária. Pensava o que ninguém pensava. Fazia o que ninguém estava fazendo. É compreensível que tenha sido assassinado.
Gandhi
T. S. Eliot, poeta, escreveu o seguinte aforismo: "Numa terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo." É fácil entender os que andam na direção em que todos andam. Seus pensamentos e atos têm suas origens no tempo e são expressões da teia das relações sociais em que estão enraizados. Eles pensam e falam aquilo que a linguagem "gregária" os obriga a pensar e falar. A linguagem gregária é como um jogo de xadrez, com uma lógica rigorosa e desenvolvimento previsível. As instituições e os jornais se fazem com ela. Assim, basta que as primeiras palavras sejam ditas para que se possa adivinhar quais serão as últimas.
Os que andam na direção contrária, entretanto, são aqueles que dizem o que não se pode adivinhar e que não era previsto. Seus pensamentos e palavras são sempre um susto, uma surpresa, um lapsus freudiano. Estes são os hereges, os poetas, os místicos, os visionários, os palhaços, os profetas, os loucos, as crianças (antes de terem sido normatizadas pelas escolas...) Não são seres desse mundo. O que dizem sugere que suas raízes estão fora do tempo. Estarão na eternidade? Seria esta a razão por que a notícia envelhece logo e é logo esquecida (quem seria tolo de ficar lendo jornais do mês passado?), enquanto a fala dos que andam na direção contrária atravessa os séculos? Isso explicaria também os sentimentos de solidão e exílio que são a sua marca. De Cecília, Drummond disse que "distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente". E ela mesma disse que o seu principal defeito era "uma certa ausência do mundo". Também Nietzsche lamentava a sua solidão e exílio. Desesperado de não ser entendido, disse que nunca mais falaria ao povo; só falaria aos amigos... e às crianças...
Dos que andaram na direção contrária lembro-me agora de um de forma especial, porque no dia 30 de janeiro se completarão 53 anos da sua morte. No dia 30 de janeiro de 1948 Gandhi foi assassinado. Os que andam na direção contrária são sempre sacrificados, de um jeito ou de outro. Releio um livrinho que escrevi sobre ele. Foi uma experiência estranha. Ao escrevê-lo tive a nítida impressão de estar num transe. Sem que eu fosse vegetariano fiquei incapacitado de comer carne enquanto escrevia. A carne que antes eu comia com prazer passou a causar-me repugnância. Vou transcrever, em memória a Gandhi, uns curtos trechos do que escrevi. Não creio que o que eu pudesse escrever agora, sem estar em transe, pudesse ser melhor...
Olhar para os animais e as plantas me enchia de alegria. Eu queria cuidar deles como quem cuida de algo frágil e precioso. Aí o mandamento cristão do amor me parecia pouco exigente. Pedia apenas amor ao próximo. Os cristãos entenderam que esse ‘próximo’ se referia apenas às pessoas. Eu, ao contrário, penso que todas as coisas que vivem são minhas irmãs. Elas possuem uma alma. (...) Amarás à mais insignificante das criaturas como a ti mesmo. Quem não fizer isso jamais verá a Deus face a face. (...) Agora digam: acham que eu poderia me alimentar da carne de um animal que foi morto e sentiu a dor lancinante da faca, para que eu vivesse? Que alegria poderia eu ter em tamanha crueldade? A natureza foi generosa o bastante, dando-nos frutas, verduras, legumes, cereais. Por mais que tentem me convencer de que as maneiras ocidentais são as melhores para a saúde, sempre as encarei com horror. Antes morrer que matar. Em nenhuma hipótese causar medo ou dor a coisa alguma. (...) Nosso destino espiritual passa por nossos hábitos alimentares. Estou convencido de que a saúde depende de uma condição interior de harmonia com tudo o que nos cerca. Comer demais é uma transgressão dessa harmonia. (...) Quando nos abstemos estamos silenciosamente dizendo às coisas vivas: ‘Podem ficar tranquilas. Não as farei sofrer desnecessariamente. Só tomarei para mim o mínimo necessário para que meu corpo viva bem. Foi o que fiz. Vivi frugalmente. Fiz jejuns enormes. E minha saúde foi sempre boa. (...) Toda vida é sagrada, porque tudo o que vive participa de Deus. E se até mesmo o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é um pulsar da divindade, não teríamos nós, com muito mais razão, de ter respeito igual pelos nossos inimigos? (...) Sempre acreditei que no fundo dos homens existe algo de bom. Como poderia eu odiar qualquer pessoa, mesmo os que me tinham por inimigo? Dirão que não é assim. Há crueldade, o ódio, a morte... Será que algumas gotas de água suja serão capazes de poluir o oceano inteiro? Que força do mal poderá apagar o divino que mora em nós? (...) Parece que os ocidentais não acreditam que os homens sejam naturalmente bons e belos. É por isso que se tornaram especialistas em meios de coerção e sabem usar o dinheiro e os fuzis como ninguém mais... É por isso que estão sempre tentando melhorar os homens por meio de adições: a comida em excesso, a roupa desnecessária, a velocidade da máquina, a complicação da vida...
Eu nunca quis entender de política. Só quis entender da bondade e dos seus caminhos. A política foi uma consequência e não a inspiração... Eu teria feito as mesmas coisas, ainda que não houvesse consequência alguma. (...) Os políticos, acostumados a usar o poder da força, desconhecem o poder das sementes... (...) Não haverá parto se a semente não for plantada, muito tempo antes... Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses... (A magia dos gestos poéticos, Ed. Olho D’Água.)
A multidão de políticos que andavam na mesma direção só viam, pensavam e falavam sobre uma única coisa, sobre como libertar a Índia do poder inglês – politicamente? Gandhi percebia que esse seria um ato inútil – como abrir o casulo antes que a borboleta estivesse com asas para voar.
Político, nunca pertenceu a partido, nunca se elegeu para nada, nunca inaugurou obras. Sabia que a grande tarefa do líder político, anterior a todas as outras, não era a de administrar o poder mas a de formar um povo. E um povo se forma quando as pessoas tomam consciência da beleza e da bondade que nelas existe.
Andava na direção contrária. Pensava o que ninguém pensava. Fazia o que ninguém estava fazendo. É compreensível que tenha sido assassinado. (Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 31/01/2001.)
Andava na direção contrária. Pensava o que ninguém pensava. Fazia o que ninguém estava fazendo. É compreensível que tenha sido assassinado.
Gandhi
T. S. Eliot, poeta, escreveu o seguinte aforismo: "Numa terra de fugitivos aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo." É fácil entender os que andam na direção em que todos andam. Seus pensamentos e atos têm suas origens no tempo e são expressões da teia das relações sociais em que estão enraizados. Eles pensam e falam aquilo que a linguagem "gregária" os obriga a pensar e falar. A linguagem gregária é como um jogo de xadrez, com uma lógica rigorosa e desenvolvimento previsível. As instituições e os jornais se fazem com ela. Assim, basta que as primeiras palavras sejam ditas para que se possa adivinhar quais serão as últimas.
Os que andam na direção contrária, entretanto, são aqueles que dizem o que não se pode adivinhar e que não era previsto. Seus pensamentos e palavras são sempre um susto, uma surpresa, um lapsus freudiano. Estes são os hereges, os poetas, os místicos, os visionários, os palhaços, os profetas, os loucos, as crianças (antes de terem sido normatizadas pelas escolas...)
Não são seres desse mundo. O que dizem sugere que suas raízes estão fora do tempo. Estarão na eternidade? Seria esta a razão por que a notícia envelhece logo e é logo esquecida (quem seria tolo de ficar lendo jornais do mês passado?), enquanto a fala dos que andam na direção contrária atravessa os séculos? Isso explicaria também os sentimentos de solidão e exílio que são a sua marca. Da Cecília, Drummond disse que "distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente". E ela mesma disse que o seu principal defeito era "uma certa ausência do mundo". Também Nietzsche lamentava a sua solidão e exílio. Desesperado de não ser entendido disse que nunca mais falaria ao povo; só falaria aos amigos... e às crianças...
Dos que andaram na direção contrária lembro-me agora de um de forma especial, porque no dia 30 de janeiro se completarão 53 anos da sua morte. No dia 30 de janeiro de 1948 Gandhi foi assassinado. Os que andam na direção contrária são sempre sacrificados, de um jeito ou de outro.
Releio um livrinho que escrevi sobre ele. Foi uma experiência estranha. Ao escrevê-lo tive a nítida impressão de estar num transe. Sem que eu fosse vegetariano fiquei incapacitado de comer carne enquanto escrevia. A carne que antes eu comia com prazer passou a causar-me repugnância. Vou transcrever, em memória a Gandhi, uns curtos trechos do que escrevi. Não creio que o que eu pudesse escrever agora, sem estar em transe, pudesse ser melhor...
"Olhar para os animais e as plantas me enchia de alegria. Eu queria cuidar deles como quem cuida de algo frágil e precioso. Aí o mandamento cristão do amor me parecia pouco exigente. Pedia apenas amor ao próximo. Os cristãos entenderam que esse ‘próximo’ se referia apenas às pessoas. Eu, ao contrário, penso que todas as coisas que vivem são minhas irmãs. Elas possuem uma alma. (...) Amarás à mais insignificante das criaturas como a ti mesmo. Quem não fizer isso jamais verá a Deus face a face. (...) Agora digam: acham que eu poderia me alimentar da carne de um animal que foi morto e sentiu a dor lancinante da faca, para que eu vivesse? Que alegria poderia eu ter em tamanha crueldade? A natureza foi generosa o bastante, dando-nos frutas, verduras, legumes, cereais. Por mais que tentem me convencer de que as maneiras ocidentais são as melhores para a saúde, sempre as encarei com horror. Antes morrer que matar. Em nenhuma hipótese causar medo ou dor a coisa alguma.(...) Nosso destino espiritual passa por nossos hábitos alimentares. Estou convencido de que a saúde depende de uma condição interior de harmonia com tudo o que nos cerca. Comer demais é uma transgressão dessa harmonia. (...) Quando nos abstemos estamos silenciosamente dizendo às coisas vivas: ‘Podem ficar tranqüilas. Não as farei sofrer desnecessariamente. Só tomarei para mim o mínimo necessário para que meu corpo viva bem. Foi o que fiz. Vivi frugalmente. Fiz jejuns enormes. E minha saúde foi sempre boa. (...) Toda vida é sagrada, porque tudo o que vive participa de Deus. E se até mesmo o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é um pulsar da divindade, não teríamos nós, com muito mais razão, de ter respeito igual pelos nossos inimigos? (...) Sempre acreditei que no fundo dos homens existe algo de bom. Como poderia eu odiar qualquer pessoa, mesmo os que me tinham por inimigo? Dirão que não é assim. Há crueldade, o ódio, a morte... Será que algumas gotas de água suja serão capazes de poluir o oceano inteiro? Que força do mal poderá apagar o divino que mora em nós? (...) Parece que os ocidentais não acreditam que os homens sejam naturalmente bons e belos. É por isso que se tornaram especialistas em meios de coerção e sabem usar o dinheiro e os fuzis como ninguém mais... É por isso que estão sempre tentando melhorar os homens por meio de adições: a comida em excesso, a roupa desnecessária, a velocidade da máquina, a complicação da vida...
"Eu nunca quis entender de política. Só quis entender da bondade e dos seus caminhos. A política foi uma conseqüência e não a inspiração... Eu teria feito as mesmas coisas, ainda que não houvesse conseqüência alguma. (...) Os políticos, acostumados a usar o poder da força, desconhecem o poder das sementes... (...) Não haverá parto se a semente não for plantada, muito tempo antes... Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses..." (A magia dos gestos poéticos, Ed. Olho D’Água)
A multidão de políticos que andavam na mesma direção só viam, pensavam e falavam sobre uma única coisa, sobre como libertar a Índia do poder inglês – politicamente? Gandhi percebia que esse seria um ato inútil – como abrir o casulo antes que a borboleta estivesse com asas para voar.
Político, nunca pertenceu a partido, nunca se elegeu para nada, nunca inaugurou obras. Sabia que a grande tarefa do líder político, anterior a todas as outras, não era a de administrar o poder mas a de formar um povo. E um povo se forma quando as pessoas tomam consciência da beleza e da bondade que nelas existe.
Andava na direção contrária. Pensava o que ninguém pensava. Fazia o que ninguém estava fazendo. É compreensível que tenha sido assassinado.
(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 31/01/2001.)