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terça-feira, 16 de agosto de 2011

A morte da Justiça

Catástrofe Humanitária  A Somália é um país da costa oriental da África e seu povo, sobretudo as crianças, está padecendo por fome, seca, doenças e outras violências. Assista o vídeo e saiba como ajudar clicando nos links  Ajude Help Ayuda Aide . Participe! Divulgue!


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De la justice à la démocratie en passant par les cloches

Da justiça à democracia, passando pelos sinos


Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um fato notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século xvi) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. «O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino», foi a resposta do camponês. «Mas então não morreu ninguém?», tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: «Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.»

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à proteção da justiça. Tudo sem resultado, a espoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exato tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem exceção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objetivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e ação social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protetora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aqueles trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a retidão de princípios e clareza de objetivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, ancilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo atual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização econômica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização econômica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingênuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efetivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que atualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e atuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros «comissários políticos» do poder econômico, com a objetiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas nos açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.
                                                                                             José Saramago
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domingo, 14 de agosto de 2011

A "pátria global" de Edgar Morín


O que fazer diante da crise mundial? Como atuar num planeta em estado terminal? O mundo caminha a passos largos em direção ao abismo. É possível reverter isso?

"Estamos cegos", afirma Morín. Mas "é preciso acreditar no improvável".



Devemos criar uma democracia global, afirma o filósofo Edgar Morín


Paulo Pastor Monteiro


"É preciso acreditar no improvável. Apostei minha vida inteira nesse caminho". É desta forma, até otimista, que o filósofo e sociólogo francês Edgar Morín justifica a sua esperança de que ainda é possível construir um mundo mais solidário e harmônico.

Ele esteve nesta terça-feira (09/08) na Sala São Paulo, região central da capital paulista, para participar de uma palestra organizada pelo Fronteiras do Pensamento, evento promovido pela Braskem e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Morín trouxe uma ampla análise a respeito da crise econômica, da globalização e apontou a construção de uma democracia global como saída para os atuais conflitos entre as nações.


Greg Salibian



O filósofo criticou as ciências econômicas que, apesar de terem evoluído, se revelaram incompetentes para evitar crises, além de quererem quantificar "tudo o que há na sociedade". "Os cientistas econômicos são precisos quanto aos números e as grandezas matemáticas. Mas a economia não leva em conta o que há de mais importante: os sentimentos das pessoas, o medo e a insegurança que as crises geram nas famílias".

A separação dos conhecimentos tem levado a sociedade e os governos a não enxergarem os problemas como um todo. A realidade não acontece de forma fragmentada, mas insistimos em tentar entendê-la dessa forma, como se um problema fosse só de ordem econômica ou política. "Estamos cegos", alerta Morín.


Pátria global


"É graças à globalização que as pessoas passaram a ter a sensação de comunidade, de pertencerem ao mesmo grupo. Neste sentido, a globalização é o melhor dos mundos!", avalia o professor. O aumento e a intensificação da relação entre as diferentes sociedades é apontada como o embrião de uma pátria, de uma democracia global.

"Pátria global" é o termo que Morín usa para definir o que seria a formação de uma sociedade global, a qual possibilite a existência de uma unidade entre os povos, mas que respeite as diferenças e particularidades de cada cultura.

Na visão do sociólogo, o crescimento da globalização é essencial para a construção de uma nova sociedade. "Os fenômenos globalizantes são importantes porque levam, por exemplo, conceitos de liberdade e de direitos humanos para sociedades mais tradicionais e fechadas".

Por outro lado, ele expõe que a globalização também permite a proliferação das armas de destruição em massa, o aumento da degradação da biosfera e a falta e regulamentação financeira dos mercados. "Os fenômenos globais têm levado à proliferação e a intensificação da miséria, da exploração e degradação do homem e da natureza. Neste sentido, a humanidade tem caminhado em direção ao abismo", diz.


Greg Salibian



De acordo com o professor, na medida em que aumenta a unificação entre os países, a cultura de cada um deles é transformada. Assim, ao sentirem ameaçadas culturalmente, as sociedades se fecham para tudo o que vier de fora. "Esse ideal de preservação cultural é o que leva ao retorno das raízes primitivas destes povos e, em alguns casos, isso dá espaço para que ressurjam sentimentos como o preconceito ou o racismo", explica o filósofo.


O humanismo latino


Morín lamenta que a Europa não tem conseguido mais oferecer respostas para os problemas mundiais, mas avalia que o pensamento na América Latina tem apresentado novas alternativas. "É triste ver que o presidente do meu país (Nicolas Sarkozy) colocou a culpa dos problemas da França nos ciganos, um povo historicamente perseguido. Na Inglaterra, a recente onda de violência é uma resposta dos imigrantes ao comportamento truculento da polícia", analisa.

Entre os exemplos positivos na América do Sul, ele cita o conceito do "bem viver", no qual a diferença para a ideia do "bem estar social" é considerar a qualidade de vida e não o conforto como prioridade dentro das sociedades.


O paradoxo da liberdade


Para Morín, é necessária a construção de um pensamento complexo que consiga entender a ambivalência da humanidade. Esta complexidade seria a percepção de que um ideal como a liberdade pode tanto ter implicações positivas como negativas. "Ao mesmo tempo em que hoje as pessoas podem ser mais livres como indivíduos, este individualismo tem criado uma sociedade cada vez mais egocêntrica", avalia o pensador. Precisamos encontrar maneiras de responder a isto.

Na concepção de Morín, as escolas devem ensinar as pessoas a pensarem a sociedade de forma complexa. "Temos aprendido que os fenômenos sociais acontecem de maneira isolada, que um problema econômico tem raízes na economia e os seus danos serão sentidos só nesse âmbito. Quando, na verdade, problemas dessa ordem são sentidos em todos os setores da sociedade. Precisamos mudar o rumo".

Morín afirma que a crise atual nos oferece duas alternativas: ou apresentamos novas soluções ou o sistema vai regredir e se tornar ainda mais bárbaro. "Eu confio na criatividade da humanidade. O tempo tem comprovado que o ser humano é muito criativo. Nossas criações artísticas e culturais e a construção das sociedades comprovam isso. Não sei como será a pátria global, mas vocês vão saber criá-la", analisa o filósofo.

"Se as soluções não estão visíveis, isso não quer dizer que elas não existam", explica. Segundo ele, o cristianismo estava a milhares de quilômetros do centro do Império Romano e acabou se tornando a maior religião ocidental. O capitalismo, lembra ele, era em seu início um "parasita do feudalismo" com as pequenas vendas de tecidos, perfumes e tempero, posteriormente, desencadeou o fim deste sistema.

"O cristianismo e o capitalismo são exemplos de que a humanidade consegue mudar de rumo a partir de coisas pequenas. Precisamos dar início a um processo de metamorfose da humanidade mesmo que não saibamos qual será o resultado", afirma Morín.


operamundi

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