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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dilma encara Obama e bate pesado nos EUA


O Abra a Boca, Cidadão! transmitiu direto de Nova York, hoje de manhã, o discurso da presidenta Dilma Rousseff, abrindo a 68a. Assembleia-Geral das Nações Unidas.

Blogueira e blog vibraram quando Dilma "bateu pesado" no "Grande Irmão do Norte", aquele que acha que pode tudo, inclusive bisbilhotar conversas e mensagens de correio eletrônico da mandatária brasileira.

É o Brasil, mais uma vez, levantando a cabeça, falando grosso e mostrando, a quem possa interessar, que não é satélite dos EUA, e nunca mais vai se postar de joelhos diante dos americanos, como muitos presidentes brasileiros fizeram.

É o Brasil saindo da condição de "República Bananeira" para ocupar um lugar de proa no cenário internacional.


Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Veja o vídeo


A justa cacetada que Dilma deu nos Estados Unidos

Paulo Nogueira, Londres


Foi um dos maiores momentos da história diplomática nacional –
se não o maior – o discurso de Dilma hoje na ONU.

A justa, exata, forte pancada na espionagem americana simboliza um país que cansou de se colocar de joelhos perante a predação americana.

Os Estados Unidos abusaram da paciência não apenas do Brasil – mas do mundo. Se fosse um filme, eles fariam o papel de policial – mas um policial que, nos bastidores, é um criminoso intensamente perigoso.

A fala de Dilma consagra, também, o bravo Snowden, o jovem americano que sacrificou uma vida mansa no Havaí para expor ao mundo um esquema de espionagem planetário de extrema delinquência.

Não é de hoje que a política externa americana é um horror. Leia – recomendo vivamente – “A História do Povo Americano”, de Howard Zinn.

Nas Filipinas, no México, em Cuba, na Coreia, na Guatemala, no Irã, no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, em tudo que é lugar em que se meteram, os Estados Unidos levaram praticamente desde sua independência destruição e exploração. Com sua política predatória sistemática no Oriente Médio, os americanos acabaram por se tornar uma fábrica de terroristas: jovens islâmicos em quantidade crescente se revoltam, se radicalizam e, desesperados, morrem e matam em seu ódio aos Estados Unidos.

É tal a raiva que os americanos despertam no mundo árabe que cresceram lá extraordinariamente, nos últimos meses, atentados de soldados locais treinados por tropas ocidentais. Teoricamente aliados, tais soldados simplesmente se viram e atiram contra forças americanas, britânicas etc.

No próprio Brasil, os americanos tiveram participação expressiva – com a famigerada CIA — no golpe militar que acabaria transformando o país no campeão mundial da iniquidade.

Os horrores americanos apenas se tornaram mais claros hoje graças à disseminação ampla de informações pela internet.

É neste quadro novo que entra o Wikileaks, que mostrou a guerra do Iraque como ela é, e não como os americanos fingiam que era.

E é aí também que brilha Snowden.

Snowden, caçado, ajudou as pessoas a entender melhor o mundo. De quantas pessoas se pode dizer o mesmo?


O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

Destaques do ABC!

*

ONU: Dilma bate duro na "bisbilhotice digital" americana


A presidenta Dilma Rousseff abriu hoje, em Nova York, a 68a. Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, denunciando a recente espionagem eletrônica do governo norte-americano sobre cidadãos e autoridades brasileiras, inclusive invadindo e bisbilhotando conversas e mensagens da própria Presidenta!

Sob o olhar e ouvidos atentos do presidente Barack Obama, Dilma declarou que a intrusão dos EUA em outros países por meio das novas tecnologias de comunicação constituem violação de direitos humanos.

Dilma propôs que as nações promovam um marco civil da internet e tratou também dos avanços sociais brasileiros, falando das manifestações das ruas em junho, dos pactos promovidos pelo seu governo em resposta aos protestos, e enfatizou também a importância do multilateralismo nas relações entre os países, com respeito pela soberania de cada nação.




Na ONU, Dilma propõe governança global para internet



Presidenta Dilma Rousseff durante abertura do debate da 68ª 
Assembleia-geral das Nações Unidas. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A presidenta Dilma Rousseff defendeu nesta terça-feira (24), durante discurso de abertura da 68ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, o estabelecimento de um marco civil multilateral para a governança e uso da internet e de medidas que garantam uma efetiva proteção dos dados.

Dilma afirmou que as recentes revelações sobre as atividades de uma rede global de espionagem eletrônica provocaram indignação e repúdio em amplos setores da opinião pública mundial. No Brasil, a situação foi ainda mais grave, pois dados pessoais de cidadãos e da própria presidenta da República foram indiscriminadamente objeto de interceptação.

“Lutei contra o arbítrio e a censura e não posso deixar de defender de modo intransigente o direito à privacidade dos indivíduos e a soberania de meu país. Sem ele – direito à privacidade – não há verdadeira liberdade de expressão e opinião e, portanto, não há efetiva democracia. Sem respeito à soberania, não há base para o relacionamento entre as nações”, disse.

Dilma propôs a implementação de mecanismos multilaterais capazes de garantir os seguintes princípios: Liberdade de expressão, privacidade do indivíduo e respeito aos direitos humanos; Governança democrática, multilateral e aberta; Universalidade que assegura o desenvolvimento social e humano e a construção de sociedades inclusivas e não discriminatórias; Diversidade cultural, sem imposição de crenças, costumes e valores; e neutralidade da rede, ao respeitar apenas critérios técnicos e éticos, tornando inadmissível restrição por motivos políticos, comerciais e religiosos.

Para a presidenta, este é o momento de se criar as condições para evitar que o espaço cibernético seja instrumentalizado como arma de guerra, por meio da espionagem, da sabotagem, dos ataques contra sistemas e infraestrutura de outros países. Segundo Dilma, a ONU deve desempenhar um papel de liderança no esforço de regular o comportamento dos Estados frente a essas tecnologias.

No discurso, a presidenta afirmou que não se sustentam os argumentos de que a interceptação ilegal de informações e dados destina-se a proteger as nações contra o terrorismo, pois o Brasil é um país democrático que repudia, combate e não dá abrigo a grupos terroristas. Ela disse ainda que o Brasil “redobrará os esforços para dotar-se de legislação, tecnologias e mecanismos que nos protejam da interceptação ilegal de comunicações e dados”.

“Fizemos saber ao governo norte-americano nosso protesto, exigindo explicações, desculpas e garantias de que tais procedimentos não se repetirão. Governos e sociedades amigos, que buscam consolidar uma parceria efetivamente estratégica, como é o nosso caso, não podem permitir que ações ilegais, recorrentes, tenham curso como se fossem normais. Elas são inadmissíveis”, disse.



Nova York Ao Vivo: Dilma fala na ONU


A presidenta Dilma Rousseff faz o discurso de abertura da 68a. Assembleia Geral das Nações Unidas, que reúne mais de 190 chefes de Estado, em Nova York.

Espera-se que Dilma faça duras críticas à "bisbilhotice" do governo americano em relação a conversas da presidenta com ministros e assessores, invasão de mensagens de correio eletrônico de milhares de cidadãos brasileiros e espionagem contra a Petrobras e o Pré-Sal. 

A presidenta deve propor a adoção de fortes sanções pela comunidade internacional em relação às atitudes americanas, que ferem frontalmente a soberania das nações.

Presidente Barack Obama estará presente e falará logo após a presidenta Dilma.

Acompanhem conosco!





Transmissão encerrada às 11:20 h.
*

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"Não mexa com Dilma Dinamite!"



Do blog da talentosa jornalista e escritora carioca Ana Helena Tavares, o Quem Tem Medo da Democracia?, reproduzo abaixo a tradução da matéria completa sobre a presidenta Dilma Rousseff publicada pela revista americana Newsweek.



“Dilma Dinamite” na capa da Newsweek – Tradução da reportagem completa


Presidente do Brasil. Dilma Dinamite. Onde as mulheres estão vencendo.
Por Mac Margolis | NEWSWEEK
Não mexa com Dilma
Uma mulher é presidente num Brasil em crescimento e machista. E é ela que está dando as cartas.
De todas as muitas histórias de lutas que Dilma Vana Rousseff conta da sua guinada de revolucionária à carreira burocrática para presidente do Brasil, uma em particular chama atenção. Foi no início de sua corrida para suceder Luís Inácio Lula da Silva, e a maioria dos brasileiros estava acordando para a idéia de uma vida sem seu líder super-popular, “o pai dos pobres”. Um dia, num aeroporto lotado, apareceram uma mulher e sua jovem filha, na tentativa de se aproximarem de Rousseff, para ver mais de perto a líder da corrida presidencial. “Uma mulher pode ser presidente?”, quis saber a menina, cujo nome, apropriadamente, era Vitória. “Ela pode”, Rousseff respondeu. Com isso, Vitória agradeceu a Rousseff, levantou seu queixo e saiu andando, se sentindo um pouco mais alta.
Rousseff sorriu enquanto recordava o episódio em entrevista a Newsweek, no palácio presidencial em Brasília. Eram quase 6 horas da noite e o sol forte sobre o Planalto Central já estava se pondo, mas o dia de Rousseff estava longe de terminar. As enchentes no sul haviam deixado centenas de desabrigados. O trabalho de construção para a Copa do Mundo, que o Brasil sediará em 2014, estava atrasado. A imprensa ainda comemorava sobre a carcaça dos escândalos de corrupção que lhe custaram a saída de 5 ministros em menos de 9 meses. E, ainda assim, Rousseff numa jaqueta de fúcsia, calças pretas e grandes brincos pendentes de pérola, parecia relaxada enquanto falava sobre o Brasil, economia mundial, pobreza e corrupção. Seu cabelo estava grosso e brilhoso, sua face corada, sem nenhum traço das penosas sessões de quimioterapia a que teve que se submeter para tratar um linfoma que descobriu em 2009. Por quase uma hora, ela despachou, marcando compromissos e passando facilmente de criação de empregos (“Nós geramos 1.593.527 nos primeiros 6 meses) a T. S. Eliot (“Ash Wednesday” - “Quarta-feira de Cinzas” - é um dos favoritos) a como mulheres podem reescrever as regras de uma agenda política: “Quando eu era pequena, eu queria ser bailarina ou bombeira, ponto final”, ela disse. “Eu não sei se é um mundo novo, mas o mundo está mudando. Pois uma menina perguntar sobre ser presidente é um sinal de progresso.”
Para aqueles em dúvida, a Assembleia Geral das Nações Unidas que se reúne em Nova York essa semana é um retrato de uma nova ordem mundial. Hillary Clinton estará lá, e também Angela Merkel, a chanceler alemã, cuja palavra pode, por fim, determinar o destino da atemorizada União Europeia. Mais marcante talvez seja o fato de que 4 das 20 mulheres que são chefes de Estado hoje no mundo (doze das quais são esperadas na Assembleia) são originárias das Américas. Além de Dilma, temos Cristina Kirchner da Argentina, Laura Chincilla da Costa Rica e Kanla Persad-Bissessar de Trinidad Tobago. E, em 21 de setembro, quando Rousseff subir ao palanque, ela será a 1ª mulher a fazer o discurso de abertura para um mar global de pessoas em trajes formais, desde que a ONU foi fundada.
Rousseff foi motivo de zombaria dos brasileiros. Outrora um crônico país subdesenvolvido, o Brasil está no páreo. Ano passado, a economia cresceu perto de 7,5 por cento, duas vezes a média mundial, e alcançará a posição de um respeitável nível de 3 a 3,5 por cento na bolsa de 2011. Enquanto as nações mais ricas estão lutando para evitar uma dupla queda na recessão, o Brasil está tentando esfriar sua economia aquecida. Sua moeda está estável, seu sistema judiciário – mesmo imperfeito e se arrastando – funciona, e sua mídia está dentre as mais combativas do hemisfério.
Com as nações mais ricas sem progresso e o mundo árabe em revolta, este crescimento de uma nação democrática está quebrando os limites do hemisfério. Semana passada, o Brasil até propôs a ideia de baldear uma zona do Euro. “Nós precisamos estudar um meio de as nações emergentes com maior potência de fogo  ajudarem a Europa”, disse o ministro da economia de Rousseff, Guido Mantega, que se encontrou com outros ministros de países membros dos BRICs (Brasil, Russia, Índia e China) no encontro anual do FMI em Washington essa semana. “Em 2008, nós ajudamos a aumentar a capacidade de fundos do FMI de 250 bilhões de dólares para 1 trilhão. Nós podemos fazer algo igual hoje”. Ninguém esperou o Brasil salvar a Grécia (a Reuters chamou a oferta de “falso fogo de poder” e um modo de baixo risco de “enaltecer o status internacional do Brasil”). Mas quem teria imaginado isso de uma terra que 15 anos atrás era um elo quebradiço na economia mundial? “Por muito tempo, vocês foram chamados de o país do futuro”, Barack Obama disse em um teatro lotado no Rio de Janeiro, em março, mencionando o antigo ditado de que o Brasil era o país do futuro e sempre seria. “O povo do Brasil deveria saber que o futuro chegou. Está aqui, agora”, completou.
Tem sido uma longa jornada. Quando Rousseff tomou posse, aos 63 anos, ninguém sabia o que esperar. Ela era uma neófita política, mais conhecida pelo seu passado confuso como uma guerrilheira marxista durante a ditadura brasileira e depois como uma burocrata carregando um laptop. Ela nunca havia concorrido para um posto eletivo até que Lula a cutucou para sucedê-lo como presidente. Como ela poderia seguir os passos do “político mais popular na Terra” – como Obama, num famoso elogio, uma vez saudou Lula – um homem cuja ascensão de torneiro mecânico a presidente é ainda uma lenda?
Barrado pela Constituição para concorrer ao 3º mandato consecutivo – ele teria ganho fácil – Lula não somente lançou a campanha de Rousseff, mas essencialmente criou-a como presidente – o que o tornou uma espécie de Pigmaleão dos trópicos. Mas enquanto ele era só carisma e populismo casca-grossa, ela era uma devoradora de números, mais em casa usando o seu Power Point do que envolvida em assuntos de Estado. Conseguiria a iniciante fazer mágica e completar o trabalho de pastorear o gigante da América Latina até chegar ao há muito tempo acalentado papel de uma potência mundial? Ou Rousseff seria para Lula o que Dimitry Medvedev está sendo para Vladimir Putin, aquecendo o lugar para que o seu criador retorne em 4 anos?
Nós temos um veredito. Em quase 9 meses no poder, Rousseff registrou seu estilo moderado num país que Lula tinha nas mãos. “Ela é uma administradora experiente que gosta de eficiência. Trabalho é seu hobby.”, diz Eike Batista, um bilionário de minas e energia. Um outro magnata brasileiro, Nizan Guanaes, concorda: “Ela não está brincando de política nem faz marketing dela mesma. Penso que o país tem o sentimento de que tem alguém no comando”, diz Guanaes, CEO do grupo ABC, maior empresa de marketing do país.  “O Brasil já foi dirigido por um prestigiado professor, por um líder sindical e agora por uma mulher, um extraordinário sinal de maturidade. Isso é como dizer que nosso ‘homem do ano’ é uma mulher”.
Nem todos são tão simpáticos. O especialista em energia Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura, critica Rousseff como centralizadora. Quando o seu poderoso chefe da Casa Civil foi cobrado por ter feito fortuna através dos clientes do governo durante a campanha para sua eleição, os inimigos de Rousseff criticaram-na por ter prejudicado sua credibilidade ao demorar muito tempo para afastá-lo do cargo. Desde então, ela tem sido mais rápida no gatilho, demitindo 3 outros ministros pegos em escândalos de corrupção.
Duas vezes divorciada e hoje avó, Rousseff mantém sua vida privada protegida. Mora com sua mãe, também chamada Dilma (“a Dilma original”, a mãe brinca), uma tia e seu labrador preto, no Palácio da Alvorada, sua residência oficial. Levanta cedo para dar uma caminhada pelos jardins, devora uma coletânea de clipping de notícias no seu Ipad, e está à sua mesa de trabalho por volta das 09h15min, onde ela permanecerá até as 21h. Mantém contato com seu ex-marido, Carlos Araújo, que voou para Brasília quando soube que Rousseff havia recebido diagnóstico de câncer. Embora proteja sua família do olhar público, embalou seu netinho no colo enquanto acompanhava o desfile cívico em comemoração do dia da independência do Brasil, em 7 de Setembro. No trabalho, ela não é sentimental, é até taciturna, e com conhecido pavio curto. “Ela não sofre por tolos ou incompetentes”, diz um ex-assistente, e há várias histórias de burocratas reduzidos ao silêncio e às lágrimas, depois de uma repreensão presidencial. Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, que conhece Rousseff desde que eram guerrilheiros em fuga, explica o modo de pensar da “dama de ferro”. “Dilma sempre diz que é uma mulher dura cercada por homens doces e cordiais”, ele diz. “Algumas vezes, você tem que ser incisivo para prevalecer”. João Santana, o marqueteiro que comandou sua campanha, vai além. “Dilma é a nova cara do Brasil, certa de si mesma, menos ansiosa para agradar, generosa, mas não aduladora. Ela sabe o seu valor”.
Sua capacidade de recuperação tem ajudado em Brasília. A instável coligação de dez partidos, liderada pelo potente Partido dos Trabalhadores, que a colocou no poder (e que poderia ter derrubado um político menor) está amplamente sob controle, com suas demandas por benesses tratadas com firme resistência. A presidente transformou os escândalos de corrupção em vitória política, usando-os como uma oportunidade para expurgar os políticos corruptos que têm se achegado a ela. No lugar deles, nomeou antigos confidentes e colegas na maioria mulheres, incluindo a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti.
As mulheres somam um trio no gabinete de Rousseff, um matriarcado no centro de uma Brasília machista, cujo fio condutor é a lealdade a Rousseff, não aos políticos importantes do partido. Até Lula, alguém que nunca sai de cena, parece estar mais reservado. “Quatro anos não são suficientes para quem vai governar por oito”, disse ele recentemente. Dilma, a presidente que seria tapa-buraco, tornou-se a política alfa do Brasil. “É Pigmaleão ao contrário”, disse o analista político Amaury de Souza. “A criatura está devorando o criador”.
Pode ser apenas um mero exagero. Embora Rousseff perca raramente a chance de elogiar seu padrinho político, ela nunca foi politicamente inocente, como rivais tentaram lhe passar a imagem. Pergunte a José Serra.
Um ano atrás, o antigo governador de São Paulo e assistente-top do presidente Fernando Henrique Cardoso – o social-democrata, que levou a fama de tirar o Brasil da hiperinflação na década de 90 – era uma aposta certa para suceder Lula. Serra acenava de longe para uma Rousseff tonta como se ela fosse um “envelope vazio”. Ela deu uma surra eleitoral nele, com 12% de pontos de vantagem, tendo ficado com 56% sobre os 44% de Serra.
A carreira política da presidente começou no auge de protestos radicais. Rousseff era uma estudante de 2º grau na emergente Belo Horizonte, quando os militares implantaram a ditadura em 1964, que duraria 21 anos. Como muitos jovens brilhantes e privilegiados de seu tempo, ela se rebelou. Juntou-se ao movimento estudantil e, quando este foi posto na ilegalidade, alistou-se na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var-Palmares), um grupo radical engajado na derrubada do regime.
Rousseff diz que nunca usou armas (embora tenha habilidade para limpá-las), já que ela era míope para atirar. Mas ela ajudou a montar a estratégia para o grupo que realizou uma série de despudorados roubos a banco. A polícia do Exército a prendeu durante o momento mais duro do período militar em 1970. Em São Paulo, os carcereiros de Rousseff lhe bateram, aplicaram eletro-choque e usaram a prática brasileira favorita – penduraram-na de cabeça para baixo numa barra alta chamada pau-de-arara. Ela foi espancada, mas nunca se rendeu a entregar seus companheiros, sempre dando falsos nomes e lideranças. Dos cárceres da tortura, ela foi transferida para a prisão Tiradentes, em São Paulo, que, ironicamente, recebeu este nome em homenagem a um herói da Independência. Quando ela foi liberta, três anos mais tarde, ela havia perdido 22 quilos e sua glândula tireóide havia sido destruída. Ela tinha então 25 anos.
Militantes como a jovem Rousseff se tornariam uma nova geração política para as nascentes democracias da América Latina. Eles também queriam poder. E, enquanto muitos se prenderam à sua ideologia de esquerda, o realismo prevaleceu. Lula concorreu três vezes para a presidência como um político agitador e sempre perdia. Finalmente, ele aparou sua barba, colocou um terno e comungou com investidores e com a classe média. Então, ele venceu.
Com graduação universitária em economia, Rousseff aperfeiçoou suas habilidades de liderança na prisão, debatendo com outros presos e devorando alguns livros que a censura permitia. “Você acredita que eles liberaram ‘A Questão Agrária’, de Karl Kautsky?”, ela disse sobre um clássico marxista. Sua disciplina lhe foi útil quando ela se mudou para Porto Alegre como articuladora política. Lá, sua competência para números e o seu jeito para persuadir “companheiros” chamou atenção do prefeito. Ela prosperou na administração pública, passando de secretária de finanças da cidade para secretária estadual de energia e comunicação, ganhando reputação de chefe exigente, usando seu laptop para buscar estatísticas e, com isso, silenciar os boateiros.
Lula ficou tão impressionado que a escolheu a dedo – uma recém-chegada ao partido – para se tornar ministra das Minas e Energia, ao mesmo tempo em que o Brasil anunciava uma gigantesca descoberta de petróleo costeiro. Apesar de sua fama de economista nacionalista, investidores estrangeiros fizeram fila à sua porta. “Ela é pragmática, muito direta, embora nem sempre fácil”, diz a vice-presidente da PepsiCo, Donna Hrinak, ex-embaixadora dos EUA no Brasil. “Companhias dos EUA gostaram de trabalhar com ela, porque ela fez um esforço real para entender suas questões. Você sempre sentia que ela estava tomando decisões com critérios técnicos e econômicos. Quando o escândalo político do mensalão atingiu o governo em 2005, derrubando o assistente braço-direito de Lula, o presidente nomeou Rousseff como chefe da Casa Civil – numa posição da qual ela praticamente dirigiu Brasília enquanto Lula assumia sua diplomacia hiperativa com a missão de qualificar o Brasil como uma força no cenário mundial. Rousseff já era sua herdeira aparente.
A aprovação oficial de Lula pode ter ajudado Rousseff a vencer a eleição, mas governar a democracia mais indisciplinada da América Latina requer mais do que um patrocinador poderoso. Lula havia tido sucesso combinando economia conservadora com gasto social agressivo. Ele também conseguiu incentivo através do crescimento de commodities mundiais e uma boa maré de liquidez no mercado internacional, procurando bons negócios e um porto seguro. Esse amortecedor ajudou quando, em 2008, a crise econômica mundial chegou. Rousseff tem se mantido fiel a essas políticas, mas como a economia global está mais lenta, ela sabe que terá que esperar, que sua margem de manobra ficará de molho.
“Nós sabemos que não estamos numa ilha”, ela diz. “Eu abro o jornal e leio sobre isso todo o dia. A Grécia não tem como pagar sua dívida. A Espanha está com problema. Assim como a Itália. Os Estados Unidos não estão crescendo. Isto tem um impacto negativo no resto do mundo”. Rousseff dá uma pausa para ser mais enfática. “Vocês sabem qual a diferença que existe entre o Brasil e o resto do mundo?”, ela pergunta. “Nós temos todos os instrumentos de controle de política intactos para lutar contra a desaceleração do crescimento e até a estagnação da economia.” Graças a empréstimos cautelosos e rígida supervisão do Banco Central, “nós ainda podemos cortar as taxas de juros enquanto outros países não podem porque suas taxas estão quase próximas do zero”.
Ela está no páreo agora, tentando eliminar os pontos críticos que fizeram o Brasil parecer um homem anestesiado e doentio indo para o corredor da morte. “Nós somos uma grande economia, rica em recursos e com um enorme mercado interno. Graças às nossas políticas sociais, tiramos 40 milhões de pessoas da pobreza para a classe média, desde 2003. É o equivalente à população da Argentina. A demanda doméstica tem sido reprimida por muito tempo, nós temos um imenso potencial de crescimento. Temos uma explosão imobiliária, sem bolha. Este mercado interno nos permitirá acelerar o crescimento.
Ninguém espera uma revolução política de Rousseff. São necessários três quintos dos votos das duas casas do Congresso brasileiro para reformar o deficitário sistema previdenciário ou instituir uma nova configuração tributária. “Mas ela pode trabalhar muito comendo pelas beiradas”, disse o cientista político da Universidade de São Paulo, Matthew Taylor. Trazer a hipertrofiada máquina pública para o século 21 poderia ser um começo. Há anos, ela vem dizendo que “o Estado está muito inchado em algumas e muito abandonado em outras”. “Nós devemos atender às demandas de um país em crescimento pela profissionalização do serviço público, defendendo a meritocracia. Nenhum país que tenha alcançado um elevado nível de desenvolvimento tem conseguido isso sem a reforma da administração pública”.
Rousseff oferece pouca satisfação para o lobby de políticos interessados em imposto e gasto. “A Constituição de 1988 prometeu qualidade universal de saúde gratuita”, ela diz, “em nenhum lugar do mundo você consegue fazer isto sem dinheiro.” E aos políticos acostumados a abocanhar recursos públicos e passar a conta para os contribuintes, ela recentemente deixou um breve recado: “Eu não quero presentes de grego”. Delfim Neto, ex-czar da economia no governo militar, está impressionado. “Dilma tem uma visão para o Brasil, mas também sabe como não violar os princípios da contabilidade internacional”.
Equilibrar as finanças pode não dar credibilidade ao Brasil, mas Rousseff diz que isso ainda levará tempo. Essa é uma lição que ela aprendeu no passado, quando seu endereço não era os palácios de mármore do Planalto, mas a cela em São Paulo. “Na prisão você aprende a sobreviver, mas também você não pode resolver seus problemas do dia para a noite. Na prisão você tem que esperar muito. Esperar necessariamente significa ter esperança, e se você perde a esperança, o medo vence. Eu aprendi a esperar.”
Tradução exclusiva para o QTMD?: Maria do Céu Ribeiro – professora de inglês há 35 anos (mãe da editora do blog). 

Texto original: clique aqui.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

NY: Dilma fala da viagem e da crise internacional



A presidenta Dilma Rousseff concedeu ontem em Nova York entrevista a jornalistas brasileiros, quando fez um balanço desta importante viagem aos EUA e falou com segurança, competência e transparência sobre a posição do Brasil diante da crise financeira internacional. Leia um resumo dos pontos principais e veja o vídeo.


Crise financeira internacional é tema central da entrevista da presidenta Dilma em NY


Presidenta Dilma Rousseff durante coletiva de imprensa no Hotel Waldorf Astoria. 
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
ONUUma viagem com muitos compromissos e com resultados positivos para o Brasil. Foi assim que a presidenta Dilma Rousseff resumiu os quatro dias de trabalho em Nova York, onde participou, entre outros compromissos, da Assembleia Geral da ONU, momento em que entrou para a história como a primeira mulher a abrir o Debate Geral desde a fundação das Nações Unidas.
Durante entrevista coletiva concedida no início da tarde desta quinta-feira (22/9), no Waldorf Astoria Hotel, a presidenta Dilma fez um relato dos compromissos em que participou na cidade americana, incluindo oito encontros bilaterais com chefes de Estado e de Governo e três reuniões na ONU – uma relativa a doenças crônicas não transmissíveis, uma outra relativa à questão do empoderamento das mulheres, e a terceira sobre segurança nuclear.
Ela falou, ainda, sobre temas de interesse nacional e global, como a crise financeira internacional, assunto mais recorrente na conversa com os jornalistas. Dilma Rousseff reiterou que o Brasil está pronto para resistir à crise, ainda que não imune a efeitos indiretos, e lembrou da solidez em que o país se encontra. “Nós temos bancos saudáveis, nós temos uma situação diferenciada”, disse. Veja alguns trechos da entrevista coletiva:
Crise financeira
“Esperamos que a crise seja resolvida. Nós não somos responsáveis pela crise e não somos aqueles que sofrem a crise diretamente. Não somos. Não há a menor dúvida. Mas também não se pode alegar que não soframos as consequências indiretas da crise. Sofremos. Primeiro, porque o mercado internacional reduz, não é? Ele se reduz, na medida em que as economias desenvolvidas diminuem o tamanho de seus mercados, na medida em que há desemprego, na medida em que há contração da demanda. Sofremos as consequências e, como sofremos as consequências, julgamos que temos todos os direitos de participar e de discutir as saídas.”
Encontro do G-20
“Julgamos que o G-20, na França, tem de tratar das questões relativas à nova configuração tanto dos organismos multilaterais, também, quanto a configuração das soluções para a saída dessa crise, que eu não acredito que seja passível de ser dada pela ação de uma economia ou de um grupo pequeno de países. Acho que é uma questão que nós temos de procurar a solução conjuntamente nos moldes, até muito bem feitos, daquele momento em 2008/2009, quando o mundo reagiu de forma organizada e coordenou políticas macroeconômicas.”
Repercussão da abertura da Assembleia Geral da ONU
“No geral, eu recebi muita manifestação de concordância, muita manifestação de concordância. Especificamente houve, eu queria destacar uma, que vai dar origem a uma consequência, que foi a do presidente Juan Manuel Santos. Porque com ele eu acertei que nós precisamos estreitar as relações dentro dos países da Unasul e, portanto, que iríamos fazer uma reunião de presidentes de Banco Central e de ministros da Economia da região, mais uma vez, no sentido de concertar, de acertar e de articular todas as reações macroeconômicas que vamos fazer.”
Reforma dos organismos multilaterais
“Obviamente que o que eu acho que vai estar colocado em Cannes e que eles também se manifestaram nesse sentido é a questão da discussão de como conduzir, como continuar as medidas de reforma dos organismos multilaterais, como o Fundo Monetário, o Banco Mundial, como melhorar a gestão e a concertação das medidas macroeconômicas comuns; quais serão as medidas prudenciais que devem ser tomadas nas esferas financeiras. Enfim, é aquela pauta que já vem de longe e que não foi completada.”
Crise na Grécia
“Há que decidir o que se fazer em relação à Grécia. Ninguém aqui acredita que um pacote de 8 bilhões resolva o problema da Grécia. Então, você tem de buscar a solução que seja politicamente consistente com o problema (…). Eu não acredito numa saída para a Grécia que simplesmente obrigue a Grécia sistematicamente a fazer cortes de 20%, cortar todos os seu funcionalismo público, vender o Partenon… Além de vender o Partenon, o que mais ela pode vender? As Ilhas Gregas… Eu não acho que essa solução seja correta.”
Reforma do Conselho de Segurança da ONU
“Eu acho importante para o mundo que a gente atualize o Conselho de Segurança. O Conselho de Segurança, no seu formato atual, foi produzido num outro contexto, tanto econômico como geopolítico, baseado numa visão de mundo que dava vantagens inequívocas para aqueles países que tinham controle da tecnologia nuclear (…). O mundo caminha para uma outra concepção, e há uma nova realidade econômica; os emergentes são uma realdade. Acredito que os pleitos tanto para ampliar e modificar os membros permanentes quanto para integrar os não permanentes com novas nações são pleitos justos e legítimos.”
Blog do Planalto 


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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Dilma na ONU: a Voz da Democracia


A Presidenta Dilma Rousseff foi aplaudida de pé nesta manhã, após discursar na abertura da 66a. Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.


Dilma é a primeira mulher a abrir uma Assembleia Geral da ONU, o que constitui honra e orgulho para ela, para todas as mulheres e para todos nós, brasileiras e brasileiros. 


A seguir o trecho final do discurso da presidenta Dilma, dirigido a todas as mulheres do mundo, e abaixo o vídeo com o discurso completo.


"Além do meu querido Brasil, sinto-me aqui hoje representando também todas as mulheres do mundo.


As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer a seus filhos.


Aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar.


Aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar.


Aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras.


Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite hoje estar aqui.


Como mulher, que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da Democracia, da Justiça, dos Direitos Humanos e da Liberdade.


E é com esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta Casa de Nações, que tenho a honra de iniciar o Debate Geral da 66a. Assembleia Geral da ONU. Muito obrigada."


Abertura do Debate Geral da LXVI Assembleia-Geral das Nações Unidas - 1

                                                                                             Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

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                                                                                                           Foto: Reuters


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