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domingo, 20 de outubro de 2013

Resgate dos Beagles: é assim que o mundo avança


ATIVISTAS, GRAÇAS A DEUS!



Seres luminosos brilham mais, aonde é preciso de Luz, diz a canção.


"Os ativistas entraram para resgatar os cães por uma razão simples: tinham avisado a ANVISA, que cuida do assunto, que havia pessoas do Royal sumindo com os cães, exatamente para que a averiguação que viria não vissem os maus tratos, marcados nos beagles. Como a ANVISA nada fez e os cachorros estavam sendo retirados, talvez inclusive para serem mortos, os ativistas fizeram o que qualquer pessoa com responsabilidade para com a vida de inocentes faria. (...)

O ato das garotas, de invadir o Royal salvando os beagles, por mais emocional que possa ser e por mais ingênuo que possa parecer, não força nenhum passo contra o desenvolvimento, e ao mesmo tempo nada tem de conservador. Um pouco de dialética aí não faz mal a ninguém. (...)

Movimentos de protesto contra apetrechos modernos às vezes ajudam os industriais a melhorarem a técnica de suas empresas, não para perderem ou empatarem no lucro do curto prazo, mas para ganharem no longo prazo. Por isso que após a pressão nas empresas, forçando-as a tomar medidas contra a poluição, ou empurrando-as para atitudes favoráveis ao chamado “direitos dos animais”, passado um tempo, são consideradas pelas próprias empresas como algo que as fez dar uma salto tecnológico interessante. (...)

Quanto mais os ativistas reclamam de entidades como o Instituto Royal, inclusive com procedimentos radicais (a lição Black Bloc de “ação direta” para fomentar o simbolismo serviu!), mais os testes vão sendo reconhecidos como obsoletos. Sabemos hoje que muitas indústrias não executam mais testes com animais, pois eles se tornaram inócuos. A maior parte dos testes, atualmente, já são feitos por simulação, por meio de programas computacionais. Isso é até melhor, do ponto de vista técnico, que a prática no animal, pois é um procedimento mais ágil, observável e seguro. Ora, se a motivação inicial para se chegar a isso foi a emoção, por sua vez, o processo foi plenamente racional, sendo o final tanto racional quanto emocional. Racional no final porque melhora tudo que tinha de melhorar. Emocional no final porque satisfaz todos nós que queremos que a crueldade diminua em todos os níveis e setores. (...)

Não se produziu com emoção algo irracional, mas algo que melhora a vida de todos nós à medida que podemos enxergar um horizonte em que a vida de um habitante em nosso planeta não tem que se desgraçar para que a vida de outro seja suave."

E Orgulho de Ser Ativista !!!



Quem são as meninas que entraram no Instituto Royal para resgatar os beagles?

Paulo Ghiraldelli* 


Para o filósofo, invasão, por mais emocional e ingênuo que possa parecer, não força contra o desenvolvimento, e ao mesmo tempo nada tem de conservador

Não foram os jovens mascarados que entraram no Instituto Royal, na cidade paulista de São Roque. Nada de Black Blocs. Os atos que logo depois, na TV, foram classificados por algumas autoridades como sendo de “vandalismo” e até de “terrorismo” (as palavras da moda), ou seja, o resgate dos beagles, foram executados por senhoras e meninas loirinhas de classe média, todos sem máscara. Estavam do modo que Lula disse que ele fazia seus protestos, de cara limpa.

Os ativistas entraram para resgatar os cães por uma razão simples: tinham avisado a ANVISA, que cuida do assunto, que havia pessoas do Royal sumindo com os cães, exatamente para que a averiguação que viria não vissem os maus tratos, marcados nos beagles. Como a ANVISA nada fez e os cachorros estavam sendo retirados, talvez inclusive para serem mortos, os ativistas fizeram o que qualquer pessoa com responsabilidade para com a vida de inocentes faria.

Não demorou muito e as redes sociais, em conjunto com a TV convencional, foram preenchidas pelo debate sobre o assunto. Contra o resgate surgiram os argumentos de sempre, que eu já havia visto na boca de ensaístas conservadores, por ocasião de episódios semelhantes: não se pode “interferir no caminho da ciência”, pois sem testes com animais todos nós pagaremos o preço de ficarmos à mercê de epidemias e coisas do gênero. E mais: os ativistas que invadiram o Royal estão “movidos por pura emoção e ingenuidade”, querem “salvar cachorrinhos”, por falta do que fazer e por não terem responsabilidade com o progresso. Só faltou, ou melhor, não faltou não, apareceu sim aquele “argumento das baratas”: “vocês salvam cachorrinhos, e as baratas?”.

No sábado (19) de manhã os ativistas voltaram a São Roque, para protestar diante do Instituto Royal. Os Black Blocs, um dia antes, já haviam dito, por meio de site na internet, que estariam presentes para proteger os ativistas. Dito e feito. E a proteção foi mesmo providencial. Pois a polícia não fez por menos, chutou senhoras e garotas e começou o empurra-empurra. Aí os Black Blocs reagiram. Era de se esperar que tendo começado, iriam terminar, e então invadiram o Royal e deram fim do aparato dito de pesquisa, mas que era, afinal, só de tortura mesmo.

A crítica às garotas que invadiram o Royal para resgatar os beagles está correta quando diz que o ato foi emocional. Foi mesmo. Também estaria certa se dissesse que essa emoção tem a ver com algo provocado pelos filmes Disney - não há como não lembrar aqui do episódio célebre e clássico nesse caso, o da morte da mãe do Bambi. A crítica continuaria acertando se dissesse que Disney apenas amoldou para o campo popular - e popularesco - o sentimentalismo romântico do século XIX, aquele que faz a natureza ganhar vida e, com sua bondade e providência, se põe em confronto com a cultura, esta sim maldosa e corrupta. Esse sentimento, sabemos bem, tem suas raízes no romantismo avant la lettre de Rousseau, ainda no século XVIII. Nada disso podemos negar. No entanto, não é necessário acompanhar os críticos - a meu ver conservadores - quando eles colocam sinal negativo nisso tudo.

Que Rousseau falou do “bom selvagem”, enaltecendo a natureza e criticando o progressismo da ciência, da cultura e, enfim, da civilização, e isso em pleno século Iluminista, e não romântico, não há dúvida. Que o romantismo serviu, depois, como uma força conservadora, de crítica ao iluminismo, isso também é verdade. Todavia, o que não é verdade é que hoje o romantismo continue servindo ao conservadorismo e, menos verdade ainda, que ele, ao alimentar as emoções, o emocionalismo até, seja antirracional e antirracionalista.

Aliás, a dicotomia Razão versus Emoção, nem tem mais por que fazer sucesso. O ato das garotas, de invadir o Royal salvando os beagles, por mais emocional que possa ser e por mais ingênuo que possa parecer, não força nenhum passo contra o desenvolvimento, e ao mesmo tempo nada tem de conservador. Um pouco de dialética aí não faz mal a ninguém.

Entre outros, Marx nos ensinou a pensar sobre esse tipo de coisa. Movimentos de protesto contra apetrechos modernos às vezes ajudam os industriais a melhorarem a técnica de suas empresas, não para perderem ou empatarem no lucro do curto prazo, mas para ganharem no longo prazo. Por isso que após a pressão nas empresas, forçando-as a tomar medidas contra a poluição, ou empurrando-as para atitudes favoráveis ao chamado “direitos dos animais”, passado um tempo, são consideradas pelas próprias empresas como algo que as fez dar uma salto tecnológico interessante.

Quanto mais os ativistas reclamam de entidades como o Instituto Royal, inclusive com procedimentos radicais (a lição Black Bloc de “ação direta” para fomentar o simbolismo serviu!), mais os testes vão sendo reconhecidos como obsoletos. Sabemos hoje que muitas indústrias não executam mais testes com animais, pois eles se tornaram inócuos. A maior parte dos testes, atualmente, já são feitos por simulação, por meio de programas computacionais. Isso é até melhor, do ponto de vista técnico, que a prática no animal, pois é um procedimento mais ágil, observável e seguro. Ora, se a motivação inicial para se chegar a isso foi a emoção, por sua vez, o processo foi plenamente racional, sendo o final tanto racional quanto emocional. Racional no final porque melhora tudo que tinha de melhorar. Emocional no final porque satisfaz todos nós que queremos que a crueldade diminua em todos os níveis e setores.

Desse modo, se temos Rousseau e Disney na base do impulso das garotas que invadiram o Royal, não temos que repreender o filósofo genebrino e o desenhista empreendedor americano. A tradição que eles criaram e alimentaram não trouxe uma ação retrógrada, mas uma ação de progresso moral e intelectual. Não se produziu com emoção algo irracional, mas algo que melhora a vida de todos nós à medida que podemos enxergar um horizonte em que a vida de um habitante em nosso planeta não tem que se desgraçar para que a vida de outro seja suave.

Sei bem que quando se consegue um ganho desse tipo, há ainda os que se irritam. Afinal, nunca podemos satisfazer aqueles que juraram que irão rezar de joelhos só no altar da crueldade. Essa gente tem um ódio danado daqueles que podem estar falando a outros que há algo de utópico no mundo, e que é válido.

* Paulo Ghiraldelli Jr., 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ.


Destaques do ABC!

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domingo, 12 de agosto de 2012

Brasileiros em Paris: um olhar maravilhado sobre o mundo


Deixando um pouco de lado, nesta tarde ensolarada de domingo em São Paulo, as mazelas brasileiras (corrupção generalizada, mensalão, crime organizado infiltrado nas instituições e outros escândalos igualmente escabrosos), vamos falar um pouco de um outro Brasil, que poucos conhecem, e que brilha na França: os artistas primitivos, gente do povo, que produz Arte Maior e revolucionária.

Exposição: "Histórias de Ver, Mostrar e Contar", Fundação Cartier.


Histórias de Ver - Brasileiros brilham em exposição 

em Paris


NUMA DAS MAIS IMPORTANTES MOSTRAS DE ARTE NAIF DE TODOS OS TEMPOS, A FUNDAÇÃO CARTIER DE ARTE CONTEMPORÂNEA, EM PARIS, REÚNE CERCA DE 50 ARTISTAS DE QUALIDADE EXCEPCIONAL ESCOLHIDOS EM TODO O MUNDO. MAIS DA METADE SÃO BRASILEIROS


Luis Pellegrini, de Paris

Imagens: Fototeca Fundação Cartier

Às vezes, para se perceber o que existe de bom em nossa própria casa, é preciso visitar a casa do vizinho. Assim é que, às vezes, para se saber de certas coisas boas que acontecem no Brasil, é preciso ir ao estrangeiro. A Paris, por exemplo, e visitar a exposição “Histoires de voir, show and tell” (Histórias de ver, mostrar e contar), atualmente em cartaz na Fundação Cartier, no bairro de Montparnasse. A mostra, de proporções decididamente mega, toma todo o espaço expositivo dessa Fundação – considerada hoje um dos principais endereços da arte contemporânea em todo o mundo.

 "Paisagem Urbana", Mamadou Cissé
O curador Hervé Chandés explica que “Histoires de voir” nasceu da curiosidade de ver e compreender em que consiste a assim chamada arte “naif”, “autodidata” ou “primitiva”. “Ir ao encontro de artistas que tomam outros caminhos distintos daqueles impostos pelos códigos visuais dominantes, de revisitar as relações entre arte contemporânea e arte popular, entre arte e artesanato”, diz Chandés.
Baseada, a princípio, em tais propósitos, a Fundação Cartier organizou uma verdadeira festa audiovisual. Nela se descobrem as obras e conta-se as histórias de mais de 50 artistas do mundo inteiro, escultores, pintores, desenhistas, cineastas e adeptos de técnicas mistas. São brasileiros, indianos, congoleses, paraguaios, e também mexicanos, haitianos, europeus, japoneses, norte-americanos. Vivem em Paris, em Port-au-Prince, em várias localidades do Nordeste brasileiro, em bairros da Cidade do México, nos cantos mais remotos da Amazônia, na periferia de Mumbai. Praticamente todos se descobriram artistas e aprenderam a “ver” em circunstâncias e contextos singulares; considerados como “naifs” e de consequência vítimas do preconceito que entende essa visão como “arte menor”, eles raramente são convidados a apresentar suas obras nas instituições dedicadas à arte contemporânea. Esta iniciativa da Fundação Cartier é, nesse sentido, bem revolucionária, e seu poder de fogo logo se fez sentir: o público responde com entusiasmo e lota o espaço da mostra todos os dias.
Nesse grande e brilhante conjunto de formas e cores produzido por artistas “fora dos códigos visuais dominantes”, o Brasil canta de galo. Dos cerca de 50 artistas convidados, quase a metade é de brasileiros. São eles: o paulista José Antônio da Silva, falecido em 1996; Antônio de Dedé, alagoano de Lagoa da Canoa; o baiano Nilson Pimenta, de Caravelas, que agora mora em Cuiabá; o pernambucano Cícero José da Silva, morador de Caruaru; o baiano Aurelino dos Santos, morador da favela de Ondina, em Salvador, paupérrimo, esquizofrênico, de história comovente, que trocava seus quadros por maços de cigarro – e agora é considerado tão valioso a ponto de a Fundação Cartier usar, para defini-lo como um mito vivo, uma frase do poeta Fernando Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”. A lista dos brasileiros continua: o índio guarani Valdir Benites, que vive na reserva indígena Itaóca, em São Paulo; Ronaldo Costa, também índio, morador em Tiarajú, Santa Catarina; o incrível escultor sergipano Véio, morador em Nossa Senhora da Glória, Sergipe; o pernambucano José Bezerra, da cidade de Catimbau; o baiano Alcides Pereira dos Santos, que morreu em São Paulo em 2007; mestre Francisco da Silva, cujos sapos, borboletas, mariposas e pássaros fantásticos no passado decoravam até as paredes de botequins brasileiros, e agora ocupam um mural inteiro da Fundação Cartier; a fotógrafa Claudia Andujar; o mineiro Neves Torres, que hoje vive em Serra, no Espírito Santo; Ciça, escultora de Juazeiro do Norte; o índio ianomami Joseca, da Comunidade Watoriki, no Amazonas; mestre Nino, cearense de Juazeiro do Norte, morto em 2002. Destaque para Isabel Mendes da Cunha, a maior ceramista do Vale do Jequitinhonha, moradora em Santa, Minas Gerais – suas noivas com flores e grinaldas de barro fazem suspirar as francesas. E a maior de todas as surpresas dessa mostra: o trabalho e as obras do pajé Ibã, da tribo Huni Kui, que vive na aldeia de Xiku Curumin, às margens do rio Jordão, no Acre. Os “desenhos musicais” produzidos pelo pajé Ibã e o grupo de jovens índios que trabalham com ele já correm mundo, despertando estupor de críticos de arte e estudiosos de vários ramos da ciência.
Ibã mereceu destaque tanto no âmbito da exposição quanto no catálogo da mesma. Esse pajé amazônico herdou do pai parte substancial da herança cultural, linguística e espiritual do seu povo. No filme-documentário a seu respeito, também apresentado na mostra, ele afirma que “já é tempo, para nós, de reorganizar nosso saber e nossa cultura. Não se trata apenas de reunir o saber que recebemos, mas também de fazê-lo viver e se desenvolver”.
"Desenho de Música", Grupo do Pajé Ibã, Tribo Huni Kui
Na verdade, o pensamento e a postura de guerreiro cultural do pajé Ibã é o verdadeiro denominador comum entre todos os artistas escolhidos para compor “Histórias de ver, mostrar e contar”. A luta que ele representa começa a ser reconhecida em nível internacional. A presença importante de seu trabalho e de seu grupo nessa mostra em Paris é prova disso. Com seu filho Cleiber, e mais uma dezena de jovens índios Huni Kui, Ibã partiu para uma empreitada que é, essencialmente, o sonho de muitos artistas plásticos: traduzir em desenhos no papel os ensinamentos, a poesia, a magia e o encantamento da música tradicional de sua tribo. O resultado desse esforço são desenhos muito ricos de elementos simbólicos e padrões estéticos inovadores que, curiosamente, lembram as mais inventivas criações dos cartoons e dos mangás contemporâneos.

“A exposição responde ao desejo de liberar o olhar de se ver as coisas de um outro modo, de dar a palavra a artistas e a comunidades de artistas que lançam sobre o mundo um olhar maravilhado. Ela faz conhecer mulheres e homens para os quais a arte está em ligação estreita com a hipersensibilidade do coração”, diz o designer e arquiteto italiano Alessandro Mendini, cenógrafo da exposição.
"Bichos", Francisco da Silva
Ele está certo. Mas há também um outro aspecto dessa mostra que é preciso destacar. Só quem a visita e vê o brilho no olhar dos visitantes europeus, parados diante dessas obras “primitivas”, pode entender. Essas obras os nutrem, de alguma forma preenchem o buraco provocado pela sua fome de renovação de valores culturais e de padrões estéticos. Do saco sem fundo da imaginação e da alma “ingênua”desses artistas estão saindo coisas que não existem nem sequer nas sacolas de Papai Noel. A Fundação Cartier, que tem bom faro, já descobriu isso. Resta aos nossos museólogos, críticos, galeristas e colecionadores não dormirem no ponto do bonde.
"Desenho de Música", Grupo do Pajé Ibã, Tribo Huni Jui
"Desenho de Música", Grupo do Pajé Ibã, Tribo Huni Kui

Serviço: Exposição “Histoires de voir, show and tell”
Até 21 de outubro 2012
Fundação Cartier de Arte Contemporânea
261, boulevard Raspail, 75014 Paris
www.fondation.cartier.com
Vídeo 1

Vídeo 2
Video 3: O Espírito da Floresta