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sábado, 11 de outubro de 2014

Nobel da Paz para ativistas Malala e Satyarthi


ATIVISTAS, GRAÇAS A DEUS!



Malala Yousafzai e Kailash Satyarthi dividem o Nobel da Paz



A jovem paquistanesa defende direitos das meninas à educação. O ativista indiano Kailash Satyarthi atuana luta contra o trabalho infantil desde a década de 1980

Deutsche Welle


                                                                                                 Peter Muhly / AFP

Malala Yousafzai em imagem de 17 de setembro, durante evento 
em Dublin, na Irlanda. Ela se tornou mundialmente famosa 
ao manter sua luta por direitos mesmo após ser baleada 
na cabeça por integrantes do Talibã paquistanês 


O Comitê norueguês do Nobel anunciou nesta sexta-feira 10 que a paquistanesa Malala Yousafzai é a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2014. A jovem ativista luta pelo acesso à escola de meninas no Paquistão e sobreviveu a uma tentativa de homicídio por parte de talibãs. Malala, de 17 anos, é a mais jovem ganhadora do prêmio até o momento. Desde os 11 anos, ela luta pelos direitos das meninas à educação no Paquistão.

Junto com Malala, o indiano Kailash Satyarthi foi nomeado covencedor do Nobel da Paz. O ativista de direitos humanos, de 60 anos, libertou milhares de crianças do trabalho escravo na Índia. Ele abandonou a profissão de engenheiro elétrico e fundou o movimento Save the Childhood (Salve a Infância) em 1980.

O Comitê do Nobel decidiu homenagear Malala e Satyarthi por sua "luta contra a supressão de crianças e jovens e pelo direito de todas as crianças à educação". "Crianças devem ir à escola, e não serem exploradas", destacou.

"[O prêmio] é uma honra a todas as crianças que ainda sofrem com a escravidão, trabalho forçado e tráfico humano", disse Satyarthi (na foto abaixo) à emissora de TV CNN-IBN após o anúncio do prêmio.

O prêmio, no valor de cerca de 1,1 milhão de dólares, será entregue em Oslo no dia 10 de dezembro, o aniversário de morte do sueco Alfred Nobel, que fundou a premiação em 1895.

Antes de Malala, o ganhador mais jovem de um Nobel era o cientista de origem australiana Lawrence Bragg, que tinha 25 anos ao dividir o Nobel de Física com seu pai, em 1915.


Em 2013, Malala lançou sua autobiografia, intitulada Eu sou Malala: a menina que os talibãs queriam matar por lutar pelo direito à educação, pela qual foi laureada pelo Parlamento Europeu com o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento.

A autobiografia foi lançada exatamente um ano após ela ter sido atacada e ferida gravemente por talibãs. Em 9 de outubro de 2012, Malala voltava da escola para casa com amigas em sua terra natal, o Vale do Swat, quando radicais islâmicos invadiram o ônibus em que estavam e dispararam um tiro contra a cabeça da adolescente. Após uma operação de emergência, ela foi transportada de avião para a Inglaterra onde, durante os meses seguintes, lutou para sobreviver ao atentado.

Antes disso, em 2009, Malala escreveu um blog para a emissora britânica BBC, usando o pseudônimo Gul Makai, tornando-se, então, muito popular. Nele, Malala descreveu as ações das milícias islamistas no Vale do Swat, contestando o fechamento de escolas para meninas pelos talibãs.

Além da homenagem no Parlamento Europeu e do Nobel da Paz, Malala tem sido celebrada no Ocidente e laureada com numerosos prêmios por seu engajamento incansável. Em 2013, no dia de seu aniversário, 16 de julho, ela falou à Assembleia Jovem da ONU em Nova York, onde foi aplaudida de pé. Ela também recebeu o Prêmio Internacional da Paz da Infância e foi nomeada Embaixadora da Consciência pela ONG Anistia Internacional.



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domingo, 13 de outubro de 2013

Malala, a futura Primeira-Ministra do Paquistão


ALMA ATIVISTA



Há centenas de ativistas de direitos humanos e sociais que não estão só falando por seus direitos, mas que estão lutando para atingir objetivos de paz, educação e igualdade. 

Nós não podemos esquecer que milhões de pessoas estão sofrendo com pobreza, injustiça e ignorância. 

Nós percebemos a importância de luz quando vemos a escuridão. Nós percebemos a importância de nossa voz quando somos silenciados. 

Na noite de 9 de outubro de 2012, o Talibã atirou do lado esquerdo da minha cabeça. Atiraram nos meus amigos também. Eles pensaram que a bala iria nos silenciar, mas eles falharam. E no lugar do silêncio vieram milhares de vozes. Os terroristas pensaram que iam mudar meus objetivos e parar minha ambição, mas nada mudou na minha vida com exceção disso: fraqueza, medo e falta de esperança morreram; força, poder e coragem nasceram.

Eu sou Malala - A garota que defendeu a educação 
e levou um tiro do Talibã

"Já tive medo de morrer. Agora não tenho mais"

Malala Yousafzai diz querer ganhar o Nobel "no futuro" e afirma que adora o futebol brasileiro

Tania Menai - especial para O Estado de S. Paulo


Como boa paquistanesa, ela ama o futebol brasileiro. E como toda menina de 16 anos, adora escutar Justin Bieber e Selena Gomez. Também não perde um capítulo de Ugly Betty e faz questão de contar que levanta a voz para os irmãos. Esse é o lado menina da ativista Malala Yousafzai.


Ambição. Malala quer ser premiê do Paquistão

Gary Cameron/Reuters

Na quinta-feira, ela concedeu, ao lado de seu pai, Ziauddin Yousafzai, uma entrevista à apresentadora da CNN Christiane Amanpour perante uma plateia de centenas de convidados, na instituição cultural judaica 92Y, em Manhattan. Simpática, Malala divertiu o público, mas também arrancou lágrimas ao declarar que pretende ser a primeira-ministra do Paquistão. O evento foi aberto com o discurso de Samantha Power, a embaixadora americana para as Nações Unidas, que ressaltou o status de celebridade que Malala tem hoje - mas não uma celebridade de reality show. "O reality show dela é bem diferente", disse Power, ao dar um breve panorama da vida de crianças paquistanesas.

A entrevista será televisionada hoje, às 20 horas, horário de Brasília, pela CNN International, como parte do documentário The Bravest Girl in the World [A Garota mais Corajosa do Mundo]. Ao mesmo tempo, o evento comemorou o lançamento de sua biografia, I am Malala, cuja página oficial no Facebook tem mais de 25 mil seguidores. Essa foi sua primeira visita a Nova York, cidade que ela definiu como uma "Karachi desenvolvida". "Tem muito tráfego e muita gente buzinando a toda hora. Na Grã-Bretanha não é assim - lá só há silêncio", disse ela, que vive há um ano em Birmingham e foi convidada a visitar, em breve, a rainha Elizabeth no Palácio de Buckingham.

Talvez isso seja um pouco demais para uma menina que nasceu no distrito pashtun de Swat, de 1.250 habitantes, perto da fronteira com o Afeganistão, e há pouco tempo fazia feira com a mãe - analfabeta. "Minha mãe pedia para eu cobrir o rosto, porque os meninos estavam me olhando. E eu falava: ‘Mas eu também estou olhando para eles, mamãe!’".

A semana passada marcou o aniversário de um ano do atentado, ocorrido em 9 de outubro de 2012, que quase lhe tirou a vida. Ao voltar para casa em um ônibus escolar, Malala levou um tiro na cabeça que a deixou em coma por sete dias. "Não lembro de nada daquele dia. Mas me recordo que estávamos preocupadas, comparando as nossas notas de um teste, quando dois meninos entraram no ônibus. Um foi falar com o motorista. O outro estava muito perto de mim e gritou: ‘Quem é Malala?’. Quando descobriu, disparou dois tiros e um deles pegou do lado esquerdo da minha cabeça. A bala desceu pelo ombro e afetou também a minha audição. É um milagre eu estar viva", disse Malala, que usa vocabulário adulto e fala de forma articulada.

"Durante o coma, eu sonhava com aquele ônibus. Queria falar, mas não conseguia", recordou. "Quando acordei, estava com um tubo na minha garganta. Notei que eu não estava no Paquistão, porque lá só se falava inglês. Aí, pedi um papel e escrevi: ‘Onde está o meu pai e a minha mãe?’. Disseram-me que meu pai chegaria em breve. Então logo pensei: ‘Ele deve estar se endividando, pedindo dinheiro emprestado para pagar tudo isso. Será que ele deve estar vendendo aquele terreno que ele tem? Mas é apenas um terreninho, o dinheiro jamais vai pagar a conta deste hospital’."

A declaração arrancou risadas da plateia, mas um ano depois do atentado, Malala não tem mais que se preocupar com contas a pagar. Hoje ela é um fenômeno de mídia, coleciona condecorações, como o Prêmio Humanitário de Harvard e da Anistia Internacional, além de ter uma fundação em prol da educação com seu nome, a Malala Fund. Sua passagem pelos EUA foi documentada pelos mais importantes entrevistadores da televisão e a fila para o evento da CNN dava voltas no quarteirão, seguindo regras rígidas de segurança, como não levar bolsa.

Malala tem sido constantemente ameaçada de morte pelo Taleban, mas, pelo menos em discurso, ela diz que isso não a afeta. "Eles não me ameaçam - eles apenas me dão uma lembradinha. Eu já tive medo de morrer, agora não tenho mais. Um tiro pode até afetar o meu corpo. Mas não os meus sonhos", afirmou. "Ninguém imaginava que eu seria um alvo do Taleban. Pensávamos que eles iriam atrás do meu pai. Eu achava que eles teriam um pouco de ‘bons modos’ e não atacariam crianças diretamente, algo que eles normalmente não fazem", disse Malala, que tem um irmão mais velho e um mais novo.

Seu pai, um poeta, professor e ativista na área de educação, revelou que, mesmo depois do atentado, não se arrependeu de ter incentivado a filha, desde pequena, a ser porta-voz das meninas de seu país, onde apenas uma em cada cinco vai para a escola. Ele mesmo criou um colégio, em 1994, com quatro alunos e, hoje, soma 1,1 mil estudantes.

"Normalmente é uma vergonha em nossa cultura ter filhas. Mas eu nunca pensei assim", disse Ziauddin Yousafzai. "Quando me perguntam o que eu fiz pela minha filha, eu falo o que eu deixei de fazer: deixei de cortar suas asas", declarou ao Estado. "Não só o governo tem de dar escola, mas a sociedade tem de querer."

Ao receber alguns convidados em coquetel após a entrevista, Malala foi saudada por meninas da sua idade, executivos da editora que publicou seu livro e recebeu presentes. Ali, disse efusivamente ao Estado: "Adoro o futebol brasileiro".

Malala cumprimenta, escuta mais do que fala e olha nos olhos, sempre sob a supervisão dos responsáveis por sua biografia. A jovem ativista só perde o bom humor quando fala de mão de obra infantil e, principalmente, casamento infantil - situações que provocam evasão escolar. "Uma das minhas melhores amigas, Sara, sumiu da escola. Dois anos mais tarde, ela me ligou dizendo que foi obrigada a se casar com um homem muito mais velho. Hoje, ela tem a minha idade e dois filhos. Vocês podem imaginar?"

Malala acredita ainda ser muito jovem para ganhar o Prêmio Nobel. Ela diz que pretende colocar muita gente na escola e, aí sim, merecer o prêmio. "Quando eu era pequena, eu queria ser médica, porque era o que todas as meninas da minha classe diziam. Mas se eu for política, posso cuidar de muito mais gente."

Estadão Online

Destaques do ABC!

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Ativista Malala ganha prêmio internacional


E é forte candidata ao Nobel da Paz.

Agora, o mundo todo sabe da luta pessoal de Malala pela educação de meninas no Paquistão, do atentado que sofreu dos Talibãs, que a alvejaram com um tiro na cabeça, do seu histórico e emocionante discurso na Assembleia das Nações Unidas.

Malala ensina ao mundo que não se pode silenciar diante de ignorância, violência e injustiça.




Garota paquistanesa Malala ganha Prêmio Sakharov do Europarlamento


Menina levou um tiro na cabeça em um atentado do Talibã. Ela milita pelo direito às meninas a receber educação formal.








A jovem paquistanesa Malala Yousafzai, militante pelo direito à educação, ganhou nesta quinta-feira (10) o respeitado Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, do Parlamento Europeu.

"Ao conceder este prêmio a Malala Yousafzai, o Parlamento Europeu reconhece a incrível força desta jovem mulher. Malala defende com bravura o direito de todas as crianças a ter uma educação. Este direito que muitas vezes é negado às mulheres", destacou o presidente do Parlamento, Martin Schulz, em um comunicado.

Schulz faz o anúncio oficial no plenário de Estrasburgo (leste da França, sede do Parlamento) nesta quinta-feira.

Os líderes dos grupos políticos do Parlamento escolheram por unanimidade a adolescente, vítima de um atentado a tiros do movimento fundamentalista islâmico talibã há um ano, por seu trabalho a favor da educação das meninas.

Malala, considerada uma das favoritas para vencer o Prêmio Nobel da Paz, será convidada a receber o prêmio em 20 de novembro em Estrasburgo.

Os líderes do Parlamento Europeu escolheram a jovem paquistanesa em uma lista que também tinha o nome do americano Edward Snowden, que revelou a vigilância sistemática dos Estados Unidos a nível mundial, e dos ativistas detidos de Belarus Ales Bialiatski, Eduard Lobau e Mykola Statkevich.

O prêmio Sakharov para a liberdade de consciência, que tem o nome como homenagem ao cientista e dissidente soviético Andrei Sakharov, foi criado em 1988 pelo Parlamento Europeu para reconhecer pessoas ou organizações que dedicam suas vidas ou ações à defesa dos direitos humanos e das liberdades.



Adolescente paquistanesa Malala Yousafzai (Foto: AFP)

G1

Destaques do ABC!

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Malala: a pequena-grande cidadã ativista


ALMA ATIVISTA


Há centenas de ativistas de direitos humanos e sociais que não estão só falando por seus direitos, mas que estão lutando para atingir objetivos de paz, educação e igualdade. (...)

Nós não podemos esquecer que milhões de pessoas estão sofrendo com pobreza, injustiça e ignorância. (...)

Nós percebemos a importância de luz quando vemos a escuridão. Nós percebemos a importância de nossa voz quando somos silenciados. (...)

Na noite de 9 de outubro de 2012, o Talibã atirou do lado esquerdo da minha cabeça. Atiraram nos meus amigos também. Eles pensaram que a bala iria nos silenciar, mas eles falharam. E no lugar do silêncio vieram milhares de vozes. Os terroristas pensaram que iam mudar meus objetivos e parar minha ambição, mas nada mudou na minha vida com exceção disso: fraqueza, medo e falta de esperança morreram; força, poder e coragem nasceram.



Malala Yousafzai, ativista, escritora e blogueira


Um ano depois de tomar um tiro do Talibã, menina Malala reconstrói sua vida e vira símbolo internacional

Kiko Nogueira*


Publicado originalmente na BBC Brasil.



Há um ano, a estudante paquistanesa Malala Yousafzai foi atingida por um tiro na cabeça, disparado por um membro do Talibã. O “crime” dela foi ter defendido o direito das meninas à educação.

O mundo reagiu com indignação, e Malala sobreviveu, após semanas em tratamento intensivo. A história completa de Malala pode agora ser contada.

Malala Yousafzai teve a vida transformada pelo tiro que levou no dia 9 de outubro de 2012, aos 15 anos.

Hoje ela é a adolescente que marcou seu 16º aniversário com um discurso para o mundo na sede da ONU e é conhecida internacionalmente por seu primeiro nome.

É também uma estudante em Birmingham, na Grã-Bretanha, tentando se adaptar a uma nova escola, preocupando-se com deveres de casa e listas de leituras, enquanto sente falta de seus antigos amigos no Paquistão.



"Suíça do Paquistão"

A região do Vale do Swat, onde ela nasceu em 1997, já se orgulhou de ser conhecida como “a Suíça do Paquistão”. É uma região montanhosa, fresca no verão e com neve no inverno, com acesso fácil à capital, Islamabad. E em 1997 ainda estava em paz.

Historicamente, o noroeste do país é uma das regiões menos desenvolvidas do Paquistão. Mas o Swat, curiosamente, há muito tempo é mais avançado em termos de educação.

Até 1969, a região era um principado semiautônomo, com um governo chamado Wali. O primeiro de seus governantes foi Miangul Gulshahzada Sir Abdul Wadud, apontado por um conselho local em 1915.

Apesar de não ter tido educação formal, ele estabeleceu as bases para uma rede de escolas no vale – a primeira escola primária para meninos apareceu em 1922, seguida alguns anos depois pela primeira escola para meninas.

O padrão continuou com seu filho, Wali Miangul Abdul Haq Jahanzeb, que chegou ao poder em 1949 e criou escolas secundárias e faculdades, incluindo o Jahanzeb College, fundado em 1952, onde o pai de Malala, Ziauddin Yousafzai, estudaria muitos anos depois.

Diante desse histórico, o destino que recaiu sobre as escolas do Swat nos primeiros anos do século 21 é particularmente trágico.

Quando Malala nasceu, seu pai havia realizado o sonho de fundar sua própria escola, que começou com apenas alguns alunos e se transformou em um estabelecimento com mais de mil meninas e meninos.


Grandes aspirações

Na escola é possível ver que a ausência de Malala é profundamente sentida. Do lado de fora de sua antiga classe, há um recorte de jornal a respeito dela. Dentro, sua melhor amiga, Moniba, escreveu o nome Malala em uma cadeira da primeira fila.

Esse era o mundo de Malala – não de riqueza ou privilégios, mas uma atmosfera dominada pela educação. E ela cresceu uma jovem precoce, autoconfiante e assertiva.

Nisso, ela não estava sozinha. Em sua antiga classe, o foco e a atenção são absolutos, com grandes aspirações. Muitas das meninas querem ser médicas, e uma delas diz querer um dia comandar o Exército do país.

Parte da razão para essa motivação é que apenas empregos qualificados permitirão a essas meninas uma vida fora de seus lares. Enquanto meninos com pouca educação podem esperar encontrar trabalhos pouco qualificados, suas colegas do sexo feminino terão seu poder de ganhar dinheiro restrito ao que podem fazer dentro das quatro paredes de suas casas – talvez costura.

“Para meus irmãos, era fácil pensar sobre o futuro”, diz Malala. “Eles podem ser o que quiserem. Mas para mim era mais difícil, e por isso queria me tornar educada e ganhar força com meu conhecimento.”

Esse futuro ficou ameaçado quando os primeiros sinais da influência do Talibã apareceram, em meio a uma onda de sentimentos antiocidentais no Paquistão, nos anos imediatamente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 e a consequente invasão do vizinho Afeganistão, liderada pelos americanos.

Como em outras partes do noroeste do Paquistão, o Swat sempre foi uma região devota e conservadora, mas o que estava acontecendo em 2007 era muito diferente – anúncios de rádio ameaçando punições no estilo da Sharia (a lei islâmica) para quem não seguisse as tradições muçulmanas locais. E que, de forma ameaçadora, lançavam normas contra a educação.


Educação interrompida

O pior período foi ao final de 2008, quando o líder Talibã local, Mullah Fazlullah, emitiu uma advertência aterrorizante: toda a educação feminina deveria ser interrompida em um prazo de um mês, ou as escolas sofreriam consequências.

Malala lembra bem daquele momento: “ ‘Como eles podem nos impedir de ir à escola?’, eu pensava. ‘É impossível, como eles podem fazer isso?’ ”.

Mas Ziauddin Yousafzai e seu amigo Ahmad Shah, que administrava outra escola próxima, tinham que reconhecer isso como uma possibilidade real. O Talibã sempre cumpria suas ameaças.

Os dois discutiram a situação com os comandantes militares locais. “Perguntei quanta segurança eles nos garantiriam”, lembra Shah. “Eles disseram: ‘Nós garantiremos a segurança, não fechem suas escolas’.”

Mas era mais fácil falar do que fazer.

Nessa época, Malala tinha apenas 11 anos, mas estava bem atenta a como as coisas estavam mudando.

“As pessoas não precisam saber dessas coisas com 9, 10 ou 11 anos, mas nós estávamos testemunhando terrorismo e extremismo, então precisávamos estar atentas”, diz.

Ela sabia que seu modo de vida estava ameaçado. Quando um jornalista do serviço em urdu da BBC perguntou ao seu pai sobre jovens que estariam dispostos a dar sua perspectiva sobre a vida sob a ameaça do Talibã, ele sugeriu Malala.

O resultado foi o “Diário de uma Estudante Paquistanesa”, um blog publicado pela BBC Urdu, no qual Malala relatava sua esperança de continuar frequentando a escola e os temores pelo futuro do Swat.


"Defender os meus direitos"


Ela viu o blog como uma oportunidade. “Eu queria defender meus direitos”, diz ela. “E também não queria que meu futuro fosse estar sentada entre quatro paredes, apenas cozinhando e dando à luz a filhos. Não queria ver minha vida daquele jeito.”

O blog era anônimo, mas Malala também não tinha medo de falar em público sobre o direito à educação, como fez em fevereiro de 2009 para o apresentador de TV paquistanês Hamid Mir.

“Fiquei surpreso de saber que havia uma menina no Swat que podia falar com grande confiança, que era muito corajosa e articulada”, diz Mir. “Mas ao mesmo tempo estava preocupado com sua segurança e com a segurança de sua família.”

Naquela época, o pai de Malala parecia estar sob maior risco. Ativista social e educacional conhecido, ele sentia que o Talibã se moveria das áreas tribais do Paquistão para o Vale do Swat.

A própria Malala estava preocupada com ele. “Eu pensava: ‘O que eu faria se um Talibã vier à minha casa? Vamos esconder meu pai em um armário e chamar a polícia’ ”, lembra.

Ninguém pensava que o Talibã alvejaria uma criança. Houve, porém, incidentes notórios nos quais eles haviam atacado mulheres como exemplo. No começo de 2009, uma dançarina foi acusada de imoralidade e assassinada. Seu corpo foi colocado em praça pública no centro de Mingora. Pouco depois, houve um escândalo em todo o Paquistão após o aparecimento de um vídeo de Swat que mostrava o Talebã chicoteando uma menina de 17 anos acusada de “relações ilícitas” com um homem.

Com o secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon


"Voz mais poderosa"

Ziauddin Yousafzai sabia que a notoriedade de Malala no vale a colocava em risco, mesmo não podendo prever o que aconteceria.

“A voz de Malala era a mais poderosa no Swat porque a maior vítima do Talibã eram as meninas estudantes e a educação das garotas, e poucas pessoas falavam sobre isso”, ele diz. “Quando ela falava sobre educação, todo mundo prestava atenção.”

Quando Malala foi alvejada, em 2012, os piores dias do poder do Talibã sobre o Swat já tinham ficado para trás. Uma grande operação militar havia expulsado da região a maioria dos militantes, mas alguns permaneceram, discretamente.

“A vida era normal para as pessoas normais, mas para aqueles que levantaram suas vozes, era um período arriscado”, diz Malala. Ela era uma dessas pessoas.

Na tarde do dia 9 de outubro, ela deixou a escola, como sempre fazia, e subiu em um pequeno ônibus escolar.

Era um trajeto curto até sua casa, mas sua mãe insistia para que ela fosse de ônibus ou de carro por segurança.

No caminho de volta, Malala notou algo diferente. “Perguntei a Moniba: ‘Por que não há ninguém na rua?’ ”

Instantes mais tarde, ainda a poucos metros do colégio, dois jovens entraram no ônibus. Segundo Moniba, eles pareciam estudantes.

Um deles perguntou, em voz alta, ‘Quem é Malala?’. Inicialmente, pensou-se que eram jornalistas, atrás da conhecida estudante. Mas Malala sentiu o perigo. “Ela ficou muito assustada”, Moniba lembra.

As outras meninas no ônibus olharam para Malala, inocentemente identificando-a. Começaram os disparos. As meninas sentadas no lado oposto ao de Malala, Shazia Ramzan e Kainat Riaz, também seriam feridas. Ao ver Malala ensanguentada na cabeça, Moniba desmaiou.

Passaram-se 10 minutos até que o socorro chegasse. As quatro foram levadas, três delas feridas.


"Orgulho de você"

Ao saber do atentado, o pai de Malala correu para o hospital, onde encontrou a filha em uma maca.

“Quando olhei para a face dela, desabei, beijei a testa dela, o nariz, as bochechas”, ele conta. “E aí eu disse, ‘Você é minha orgulhosa filha, e eu tenho orgulho de você.”

Baleada na cabeça, Malala corria alto risco. Um helicóptero a levou para o hospital militar de Peshawar, o melhor da região. Sem esperança, Ziauddin Yousafzai preparava-se para o pior e ligava para parentes, para que começassem a organizar o funeral. “Foi o momento mais difícil da minha vida.”

“Ela estava inicialmente consciente, mas muito agitada”, lembra o neurocirurgião coronel Junaid Khan, que a atendeu, já na unidade militar.

A bala havia entrado sobre a sobrancelha esquerda e se alojado no fundo do crânio.

Depois de algumas horas, as condições da menina se deterioraram muito. Uma tomografia mostrou inchaço no cérebro e necessidade de uma cirurgia urgente. A parte do cérebro envolvida é a que responde pela fala e por movimentos de pernas e braços.

O crânio foi aberto e a cirurgia entrou em curso. Até aquele momento, Khan conta, ele não tinha ouvido falar de Malala. Mas a chegada de hordas de jornalistas e equipes de TV deu a dimensão da revolta com o caso no Paquistão e no resto do mundo. Havia a sensação de que, se o Talebã fez isso com uma menina, poderia fazer com qualquer um.


"Um livro e uma caneta podem mudar o mundo"

No dia 12 de julho, nove meses depois do disparo, viria a maior conquista. Malala chegaria à Assembleia da ONU para discursar. Era o dia do 16º aniversário dela.

“Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”, ela disse a 400 jovens na assembleia.

Ziauddin Yousafzai crê que o discurso da filha foi um ataque contra as percepções negativas em relação a pashtuns, paquistaneses e muçulmanos.

“Ela estava dizendo ao mundo: nós não somos terroristas, nós somos pacíficos, nós amamos educação.”

Agora até especula-se se Malala deveria receber o Prêmio Nobel da Paz.

A menina de Swat se tornou conhecida globalmente, mas ela ainda acredita que deve voltar ao Paquistão. Poucos recomendariam que ela o fizesse tão cedo. Ainda há temores de segurança, já que ela atrai muita atenção.

Mas Malala não parece disposta a se esconder. “Eles (os críticos) têm o direito de expressar o que sentem, e é meu direito dizer o que quero. Quero fazer algo pela educação, este é meu único desejo”.

E quando questionada sobre o que os militantes do Talibã conseguiram no dia em que dispararam contra ela, Malala sorri.

“Acho que eles devem ter se arrependido. Agora, sou ouvida no mundo inteiro.” 



* Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.


Destaque do ABC!

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