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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Balzac, a Blogueira e o Mundo do Crime


Como andei contando aqui, enfrento há mais de quatro anos um esquema criminoso, num embate duríssimo, covarde, irracional e camuflado.

Uma parasita, que um belo dia resolveu subir na vida sem fazer força, pisoteando pessoas ingênuas e de bom coração que a acolheram, não satisfeita com o ótimo patrimônio que auferiu em mais de trinta anos de acolhida, decidiu coroar sua ascensão financeira armando uma fraude para esta cidadã blogueira, a "cereja do bolo"...

Lembram dos Irmãos Metralhas e seus desastrosos golpes para roubar o cofre do Tio Patinhas? Pois é.

O golpe que a mente criminosa engendrou não deu certo. A blogueira descobriu todo o enredo escabroso. E agora a parasita e seus comparsas "correm atrás do prejuízo", se mobilizando para se safar de responder por seus delitos.

Leitora e admiradora de Balzac, o extraordinário romancista francês, a blogueira encontra no mestre das letras personagens e situações que lembram muito a bandidagem que enfrenta.

O mundo mudou, estamos no século 21, quase duzentos anos depois da França de Balzac. Mas em Terrae Brasilis ainda pululam tipos criminosos muito parecidos com os tão afiadamente descritos pelo gênio da Comédia Humana:

O ladrão banal irá roubar sua carteira e sair correndo; o grande criminoso não se contenta com isso – seus métodos são sofisticados e elegantes, e consequentemente seu lucro é muito maior.

(...) há mil maneiras de roubar. O verdadeiro talento consiste em ocultar o roubo sob uma aparência de legalidade: que horror que é apoderar-se do bem alheio, só o que vem de nós nos pertence, eis a grande astúcia. Os ladrões espertos são recebidos pela sociedade, passam por pessoas de bem. (...)

Os ladrões são como uma perigosa peste das sociedades: mas não se pode negar sua utilidade para a ordem social. Se compararmos uma sociedade a um quadro, veremos que são necessárias zonas de sombra e zonas de luz, não?






A  sociedade e os grandes criminosos segundo Balzac


Camila Nogueira*



Ele

Balzac é Balzac. Sendo assim, é compreensível que tenha sido convocado, mais uma vez, pelo Diário para a série “Conversas com Escritores Mortos”. As frases abaixo foram extraídas do livro “Código dos homens honestos”.


Monsieur Balzac, o senhor é considerado um dos maiores romancistas de todos os tempos – e também é conhecido por ter criado personagens excelentes. Vautrin é, particularmente, meu favorito. O que tem a dizer sobre ele?


Vautrin é um canalha – ou antes, um ladrão.

Isso quer dizer que o senhor o desaprova?

É claro que não. Os ladrões constituem uma classe especial da sociedade: contribuem para o movimento da ordem social; são o lubrificante das engrenagens e, como o ar, penetram em qualquer lugar; os ladrões são uma nação à parte, no interior da nação.

Estou confusa. Então o senhor aprova os ladrões?

Acho que é necessário, antes de tentar desvendar as astúcias dos ladrões, tecer sobre eles algumas considerações imparciais; talvez ninguém mais possa analisá-los sob todos os ângulos e com total sangue-frio. Mas certamente não serei acusado de querer defendê-los, pois isso seria mais que injusto. Afinal, não posso defender aqueles que podem, a qualquer momento, me roubar.


E quais seriam suas considerações imparciais?

O ladrão é um ser raro; a natureza o concebeu como uma criança mimada e despejou sobre ele toda sorte de perfeições: um sangue frio imperturbável, uma audácia a toda prova, a arte de aproveitar o momento exato, tão fugaz e tão lento, a agilidade, a coragem, uma boa constituição física, olhos penetrantes, mãos ágeis, fisionomia aberta e expressiva, todas estas qualidades não são nada para um ladrão e, no entanto, são consideradas como a soma das capacidades de um Aníbal, de uma Catarina, de um Mário, de um César.


Mas nem todos os ladrões são audaciosos, corajosos ou têm esse sangue frio imperturbável. Podemos, então, dizer que não estamos falando de todos os criminosos, e sim dos mais notáveis entre eles?


Há uma grande diferença entre um ladrãozinho qualquer e os grandes criminosos. O pequeno roubo é, mais exatamente, o seminário onde se recruta para o crime, e os ladrões de galinha não passam de maus atiradores do grande exército dos profissionais sem patente.


Há alguma diferença crucial entre eles?

O ladrão banal irá roubar sua carteira e sair correndo; o grande criminoso não se contenta com isso – seus métodos são sofisticados e elegantes, e consequentemente seu lucro é muito maior.

Então basta ao grande criminoso ter uma boa fisionomia, audácia, sedução e sangue frio? Não precisa ter um conhecimento da natureza humana, por exemplo?


Ele deve conhecer os homens, seu temperamento, suas paixões; tem que mentir com habilidade, prever os acontecimentos, avaliar o futuro, ser dono de um espírito ágil e agudo; tem que ter um raciocínio rápido, encontrar boas saídas, ser um bom comediante, bom mímico; tem que saber captar o tom e as maneiras das diversas classes sociais (imitar o funcionário, o banqueiro, o general, conhecer seus hábitos e suas características). E, acima de tudo, tem que ter imaginação, uma brilhante imaginação. Ele não é forçado a estar sempre inventando novos recursos? Para o ladrão, o fracasso equivale a uma condenação.

Mas, monsieur Balzac, levando em conta tudo o que o senhor disse, esse criminoso notável é um ser fora do comum, a quem pouco faltou para ser um grande homem. E o que impediu que isso acontecesse?


O resultado de tantos dons é, em geral, uma extrema propensão à indolência. Entre o objeto cobiçado e a posse, não vêem mais nada, entregam-se felizes ao mal, nele se instalam, a ele se habituam.


E como podemos reconhecer esses grandes criminosos?

Nunca desconfie de seu vizinho da esquerda, que usa uma camisa de tecido grosso, uma gravata branca e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta e próspera, maneira desenvolta de falar; é este camarada quem vai roubar seu lenço ou seu relógio. [ou sua casa...]

E o que fazer quando somos roubados por eles?

Oh, infelizmente não há nada a fazer. Se o seu brilhante desapareceu, não perca tempo em pedir contas a esse senhor. Inútil revistá-lo, nada vai encontrar; ele irá se fazer de ofendido e você acabará se humilhando à toa. [verdade; quando descobertos, eles se fazem de ofendidos... ofendidíssimos!...]


Mas e aqueles que entram no crime por gosto?

Estes são aqueles que Dr. Gall descreveu como infelizes cujo vício decorre de sua organização mental. Há, naturalmente, grandes criminosos que amam o vício e que o abraçam efusivamente; acho que estes entram na lista daqueles que entram no crime por gosto.


E os que não amam o vício, e nem se sentem confortáveis com ele? Não sentem remorso?

Em alguns deles há remorsos crescentes antes que a voz da consciência se apague. A multidão, ao ver um homem no banco dos réus, o vê como um criminoso, o abomina; no entanto, esquadrinhando sua alma, um padre pode ver nascer o arrependimento. Que grande tema para a reflexão! A religião católica é sublime quando, em vez de virar o rosto com horror, abre os braços e chora com o pecador.


Seria certo afirmar que os ladrões sempre existiram e sempre existirão?

São o produto necessário de uma sociedade constituída. Na verdade, em todos os tempos, os homens sempre estiveram enamorados da fortuna. Todos dizem: “Hoje em dia, o dinheiro é tudo, quem tem dinheiro tem tudo.” Ah! Evitem repetir essas frases banais, passarão por tolos. Desde que o mundo é mundo, o dinheiro foi adorado e buscado com o mesmo ardor.


Para terminarmos nossa conversa, eu gostaria de perguntar se o único ladrão é aquele que rouba explicitamente.

Ora, todos procuram uma maneira de fazer uma fortuna rápida e sólida, porque todos sabem que, depois de adquirida, ninguém se lamentará; ora, essa maneira é através do roubo, e o roubo é coisa comum.

Como assim?

O comerciante que ganha cem por cento, rouba; também rouba o fornecedor que paga a trinta mil homens dez centavos por dia, anota os ausentes, estraga o trigo misturando farelo para render mais; outro queima um testamento; outro adultera os impostos; outro inventa uma caixa de pensões: há mil maneiras de roubar. O verdadeiro talento consiste em ocultar o roubo sob uma aparência de legalidade: que horror que é apoderar-se do bem alheio, só o que vem de nós nos pertence, eis a grande astúcia. Os ladrões espertos são recebidos pela sociedade, passam por pessoas de bem.

Algo a acrescentar?

Os ladrões são como uma perigosa peste das sociedades: mas não se pode negar sua utilidade para a ordem social. Se compararmos uma sociedade a um quadro, veremos que são necessárias zonas de sombra e zonas de luz, não? Que seria de nós se o mundo fosse povoado exclusivamente de pessoas honradas, ricas, de bons sentimentos, tolas, piedosas, políticas, simples, dissimuladas? Seria um tédio mortal, não haveria mais nada picante. A humanidade entraria em luto no dia em que já não houvesse fechaduras.


* Camila Nogueira, nossa correspondente de literatura, tem a impressionante capacidade de ler romances de 600 páginas em dois dias - e depois citar frases inteiras da obra. Com apenas 16 anos, ela já leu as obras completas dos maiores mestres da literatura - como Balzac, Dumas, Fitzgerald e Dickens.



Diário do Centro do Mundo


Destaques do ABC!

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ensinamentos de um verdadeiro revolucionário


O JOIO E O TRIGO



"Desconfie do mais trivial, na aparência, singelo. E examine, sobretudo, o que parece habitual. Suplico expressamente: não aceite o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar. 

Há homens que lutam um dia, e são bons; há homens que lutam por um ano, e são melhores; há homens que lutam por vários anos, e são muito bons; há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis."





"Nada deve parecer impossível de mudar"

Camila Nogueira 


Bertolt Brecht é nosso convidado em mais uma etapa da série Conversas com Escritores Mortos.

“Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue 
obrigá-los a fazer justiça.”

Bertolt Brecht foi um poeta, dramaturgo e diretor de teatro alemão, conhecido principalmente pela Ópera dos Três Vinténs. A obra foi adaptada para o cinema três vezes. A música “Mack the Knife”, vinda do musical, é um clássico do jazz, e foi gravada por artistas como Frank Sinatra, Louis Armstrong, Bobby Darin, Ella Fitzgerald, Robbie Williams e Michael Buble. Brecht, um socialista fervoroso, é nosso convidado para mais uma “Conversa com Escritores Mortos”.

Herr Brecht, o senhor foi um entusiasta das ideias marxistas e sempre se manteve muito ligado com a política, não é mesmo?

Eu sempre fui politizado, pois acredito que apenas quando somos instruídos pela realidade podemos mudá-la. Devo acrescentar que, para mim, o pior analfabeto é o analfabeto político.

Mesmo? Por quê?

Ele não ouve, não fala, nem participa de eventos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe e da farinha, do aluguel, dos sapatos e da medicina, tudo depende de decisões políticas. O analfabeto político é tão estúpido que é com orgulho que afirma odiar política. O imbecil não imagina que é da ignorância política que nascem as prostitutas, as crianças abandonadas, os piores ladrões de todos, os péssimos políticos, corruptos e lacaios de empresas nacionais e multinacionais.

Quando o ouço falar de prostitutas e ladrões, não posso deixar de me lembrar de sua vasta obra teatral. Sua colaboração musical mais famosa foi Die Dreigroschenoper, a Ópera dos Três Vinténs, uma adaptação da Ópera dos Mendigos de John Gay. Na Ópera dos Três Vinténs, temos como protagonista Macheath, ou Mack the Knife, um anti herói com códigos morais bem questionáveis. Não quero ser indiscreta, mas gostaria de saber se o senhor simpatiza com seu personagem.


Mack, como você disse, é um anti herói. É um personagem complexo e levemente sádico, além de ser um assassino. Mas, se você quer saber a verdade, parafraseio meu próprio personagem, o célebre Macheath: “Não sei o que é pior: Roubar um banco ou fundá-lo.”

Essa é uma verdade incontestável.


Talvez sim, talvez não. Tenho para mim que a única verdade realmente incontestável e imutável é que a vida é uma vadia e então você morre.

Uma verdade levemente pessimista.

Mas, ainda assim, verdade! A maior parte das pessoas teme a morte, e eu lhes diria uma única coisa: temam menos a morte do que a vida insuficiente.

Na Ópera dos Três Vinténs o senhor passou, muito habilmente, uma mensagem de apelo social e de crítica contra o capitalismo, ambos mesclados com uma comédia muito divertida. Mas o que você realmente quis dizer com a história de Mack the Knife?


Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem.

Que margens são essas?


Posso destacar uma: a justiça. A justiça é simples e solenemente feita para a exploração daqueles que não a compreendem ou daqueles que, presos em uma situação miserável, são impedidos de obedecê-la.

Entendo.

E os tribunais são lamentáveis – verdadeiras piadas! Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue obrigá-los a fazer justiça.

E qual atitude o senhor considera que deve ser tomada para acabar com a desigualdade social?


Alimentar os pobres. Para quem está em uma boa posição social, falar de comida é coisa baixa. É compreensível: eles já comeram.


Hmmm…


Esses senhores pensam que têm a missão de purificar os pobres dos sete pecados. Mas antes deveriam alimentá-los, e então começar a pregação – caso contrário, que proclamem sua bela filosofia, mas esperem pelo pior. Todos aqueles que se limitam a rezar deveriam perceber, de uma vez por todas, que o mundo continua girando. Não importa o quanto tentem disfarçar ou quais são as mentiras que contam, primeiro vem a comida e depois a moral.

Herr Brecht: alguma declaração final?


Desconfie do mais trivial, na aparência, singelo. E examine, sobretudo, o que parece habitual. Suplico expressamente: não aceite o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar. Há homens que lutam um dia, e são bons; há homens que lutam por um ano, e são melhores; há homens que lutam por vários anos, e são muito bons; há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis.

Diário do Centro do Mundo

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