Tradutor

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Brasil e a cultura da ladroagem

Será que não tem jeito, mesmo? Estamos condenados a essa condição de povo desonesto, gatuno, salafrário? É irremediável? 

Socorro!!!

Antropólogos de plantão e outros estudiosos da alma humana e brasileira, ajudem-nos a entender o que se passa com esse povo... ou melhor, com todos nós!



Desonestidade é cultura

João Ubaldo Ribeiro


Sempre se tem cuidado com generalizações, para não atingir os que não se enquadram nelas. Às vezes o sujeito odeia indiscriminadamente toda uma categoria, mas, ao falar nela e, principalmente, ao escrever, abre lugar para as exceções, os "não-são-todos" e ressalvas hipócritas sortidas. Outros recorrem a gracinhas, como na frase do antigamente famoso escritor Pitigrilli, segundo a qual "as únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor". No caso presente, decidi que as generalizações feitas hoje excluem todos os leitores, a não ser, evidentemente, os que desejem incluir-se - longe de mim contribuir para aumentar nossa tão falada legião de excluídos.

Antigamente, era muito comum ler ensaios e artigos escritos por brasileiros em que nós éramos tratados na terceira pessoa: o brasileiro é assim ou assado, gosta disso e não gosta daquilo. Em relação a maus hábitos então, a terceira pessoa era a única empregada. O autor do artigo escrevia como se ele mesmo não fizesse parte do povo cuja conduta lamentava. Até mesmo nas conversas de botequim, durante as habituais análises da conjuntura nacional, o comum era (ainda é um pouco, acho que o boteco é mais conservador que a academia) o brasileiro ser descrito como uma espécie de ser à parte, um fenômeno do qual éramos apenas espectadores ou vítimas. Eu não. Talvez, há muito tempo, eu tenha escrito dessa forma, mas devo ter logo compreendido sua falsidade e passei a me ver como parte da realidade criticada. Individualmente, posso não fazer muitas coisas que outros fazem, mas não serei arrogante ou pretensioso, vendo os brasileiros como "eles". Não são "eles", somos nós.

Creio que, feita a exceção dos leitores e esclarecido que estou falando em nós e não em inexistentes "eles", posso expor a opinião de que fica cada vez mais difícil não reconhecer, vamos e venhamos, que somos um povo desonesto. Não conheço as estatísticas de países comparáveis ao nosso e, além disso, nossas estatísticas são muito pouco dignas de confiança. Mas não estou preparando uma tese de mestrado sobre o problema e não tenho obrigação metodológica nenhuma, a não ser a de não falsear intencionalmente os fatos a que aludo e que vem das informações e impressões a que praticamente todos nós estamos expostos.

Claro, choverão explicações para a desonestidade que vemos, principalmente nos tempos que atravessamos, em que a impressão que se tem é de que ninguém é mais culpado ou responsável por nada. Há sempre fatores exógenos que determinaram uma ação desonesta ou delituosa. E, de fato, se é assim, não se pode fazer nada quanto à má conduta, a não ser dedicar todo o tempo a combater suas "causas". Essas causas são todas discutíveis e mais ainda o determinismo de quem as invoca, que praticamente exclui a responsabilidade individual. E, causa ou não causa, não se pode deixar de observar como, além de desonestos, ficamos cínicos e apáticos. Contanto que algo não nos atinja diretamente, pior para quem foi atingido.

Ninguém se espanta ou discute, quando se fala que determinado político é ladrão. Já nos acostumamos, faz parte de nossa realidade, não tem jeito. Alguns desses ladrões são até simpáticos e tratados de uma forma que não vemos como cúmplice, mas como, talvez, brasileiramente afetuosa. Votamos nele e perdoamos alegremente seus pecados, pois, afinal, ele rouba, mas tem suas qualidades. E quem não rouba? Por que todo mundo já se acostumou a que, depois de uma carreira política de uns dez anos, todos estão mais gordinhos e com o patrimônio às vezes consideravelmente ampliado? Como é que isso acontece rotineiramente com prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, ministros e quem mais ocupe cargo público?

Os políticos, já dissemos eu e outros, não são marcianos, não vieram de outra galáxia. São como nós, têm a mesma história comum, vieram, enfim, do mesmo lugar que os outros brasileiros. Por conseguinte, somos nós. Assim como o policial safado que toma dinheiro para não multar - safado ele que toma, safados nós, que damos. Assim como o parlamentar que, ao empossar-se, cobre-se de privilégios nababescos, sem comparação a país algum.

Em todos os órgãos públicos, ao que parece aos olhos já entorpecidos dos que leem ou assistem às notícias, se desencavam, todo dia, escândalos de corrupção, prevaricação, desvio de verbas, estelionato, tráfico de influência, negligência criminosa e o que mais se possa imaginar de trambique ou falcatrua. E em seguida assistimos à ridícula, com perdão da má palavra, microprisão até de "suspeitos" confessos ou flagrados. A esse ritual da microprisão (ou nanoprisão, talvez, considerando a duração de algumas delas) segue-se o ritual de soltura, até mesmo de "suspeitos" confessos ou flagrados. E que fim levam esses inquéritos e processos ninguém sabe, até porque tanto abundam que sufocam a memória e desafiam a enumeração.

Manda a experiência achar que não levam fim nenhum, fica tudo por isso mesmo, porque faz parte do padrão com que nos domesticaram (taí, povo domesticado, gostei, somos também um povo muito bem domesticado) saber que poderoso nenhum vai em cana. E é claro que, por mais que negue isso com lindas manifestações de intenção e garantias de sigilo (como se aqui, de contas bancárias de caseiros a declarações de imposto de renda, algo do interesse de quem pode ficasse mesmo sigiloso), essa ideia de esconder os preços das obras da Copa tem toda a pinta de que é mais uma armação para meter a mão em mais dinheiro, com mais tranquilidade. Ou seja, é para roubar mesmo e não há o que fazer, tanto assim que não fazemos. Acho que é uma questão cultural, nós somos desse jeito mesmo, ladravazes por formação e tradição.

Portal O Estado de S. Paulo


*

domingo, 3 de julho de 2011

Infanticídio: o retorno à barbárie



TESTEMUNHO

O Massacre de Sorman

Desta vez, Thierry Meyssan não nos fornece uma análise fria das evoluções geopolíticas. Em vez disso, relata-nos fatos e acontecimentos que ele próprio testemunhou: a história do seu amigo, o engenheiro Khaled K. Al-Hamedi. Uma história de horror e sangue onde a OTAN encarna o retorno à barbárie.

JPEG - 25.6 kb
A International Organization for Peace, Care and Relief (IOPCR) está particularmente ativa na Argélia, no Irã, no Sudão e na Palestina. Tem por objetivo socorrer vítimas de catástrofes naturais e conflitos armados. A sua ação em Gaza e na Cisjordânia é exemplar e saudada por todos. Aqui Khaled el-Hamedi recebe a medalha da coragem das mãos do primeiro-ministro Ismail Haniyeh. Foi igualmente condecorado por Mahmoud Abbas.
    Era uma festa de família Líbia. Todos tinham vindo celebrar o terceiro aniversário do pequeno Al-Khweldy. Os avós, os irmãos e irmãs, primos e primas se apertavam para caber na propriedade familiar de Sorman, a 70 quilômetros a oeste da capital: um vasto parque no qual foram construídas pequenas casas de uns e de outros, casas sóbrias de estilo bangalôs.
Nenhum luxo extravagante, mas a simplicidade das pessoas do deserto. Um ambiente agradável e de união. O avô, o marechal Al-Khweldy Al-Hamedi, tinha em tempos uma criação de pássaros. Era um herói da Revolução e participara da queda da monarquia e da liberação do país da exploração colonial. Todos orgulham-se dele. O filho, Khaled Al-Hamedi, presidente da IOPCR, uma das mais importantes associações humanitárias árabes, tinha ele próprio uma criação de veados. Cerca de três dezenas de crianças corriam de um lado para o outro no meio dos animais.
Preparava-se igualmente o casamento do seu irmão Mohammed, que tinha partido para a frente de batalha combater os mercenários estrangeiros contratados pela OTAN. A cerimÔnia deveria ter-se passado aqui dentro de alguns dias. A sua noiva estava já radiante.
Ninguém tinha reparado que, no meio dos convidados, encontrava-se um espião infiltrado. Parecia estar a mandar twitters aos seus amigos. Na realidade, acabara de colocar marcadores pela propriedade e estava utilizando a rede social para conectá-los ao quartel-general da OTAN.
Na manhã seguinte, na noite de 19 para 20 de Junho de 2011, por volta das 2h30 da manhã, Khaled está de volta para casa depois de ter visitado e socorrido os seus compatriotas que fugiram dos bombardeios da Aliança. Está próximo de sua casa e consegue ouvir o sibilar dos mísseis bem como a sua posterior explosão.
A OTAN atira oito deles, de 900 quilos cada um. O espião tinha colocado marcadores nas diferentes casas. Nos quartos das crianças. Os mísseis caíram com alguns segundos de intervalos. Os avós tiveram tempo de sair de sua casa antes de ser destruída. Já era tarde demais para salvar as crianças. Quando o último míssil caiu na casa deles, o marechal teve o reflexo de proteger sua esposa com o seu próprio corpo. Tinha acabado de sair pela porta quando foram projetados pela explosão para cerca de 15 metros. Sobreviveram.

 JPEG - 28.6 kb
A casa da família dos Al-Hamedi bombardeada pela OTAN.
Quando Khaled chegou, era tudo desolação. A sua esposa, que amava tanto, e o bebê por nascer desapareceram. Os seus filhos, pelos quais teria dado tudo, foram despedaçados pelas explosões e queda dos tetos.
As casas são agora só ruínas. Doze corpos destroçados jazem debaixo dos escombros. Veados foram atingidos pelos destroços que agora agonizam dentro das cercas.
Os vizinhos, que vieram em auxílio, procuram silenciosamente provas de vida nos escombros. No entanto não existe nenhuma esperança. As crianças não tinham qualquer hipótese de escapar aos mísseis. Extrai-se o cadáver de um bebê decapitado. O avô recita alguns versos do Corão. A sua voz é firme. Não chora, a dor é demasiado forte.
Em Bruxelas, os porta-vozes da OTAN declararam ter sido bombardeada a sede de uma milícia pro-Kadhafi com o objetivo de proteger a população civil do tirano que a reprime.
Ninguém sabe como a coisa fora planejada pela Comissão de alvos, nem como o estado-maior seguiu o desenrolar da operação. A Aliança Atlântica, os seus generais elegantes e os seus diplomatas pensadores, decidiram assassinar crianças das famílias dos líderes líbios para desencorajar a sua resistência psicologicamente.
JPEG - 26 kb
Khaled Al-Hamedi no túmulo das suas crianças e de sua esposa.
Desde o século 13, os teólogos e juristas europeus proíbem o assassinato de famílias. É um dos fundamentos da civilização cristã. Só a máfia poderia ultrapassar tal tabu absoluto. A máfia agora é a OTAN.
No dia 1 de Julho, quando 1,7 milhões de pessoas se manifestavam em Tripoli para defender o seu país contra a agressão estrangeira, Khaled foi para a frente de batalha socorrer refugiados e feridos. Snipers o esperavam. Tentaram abatê-lo. Foi atingido com gravidade, mas segundo os médicos ele não está em perigo de vida.
A OTAN ainda não terminou o seu trabalho sujo.

Rede Voltaire

sábado, 2 de julho de 2011

Tudo como dantes, no quartel de Abrantes...

Depois da escrivã que teve a calcinha arrancada pela selvageria dos seus coleguinhas trogloditas da Corregedoria de Polícia Civil de São Paulo, agora outra notícia, felizmente não tão grotesca, mas igualmente "edificante" para as instituições do nosso combalido Estado Democrático de Direito.

Em tempos de comunicação instantânea, internet, parafernália eletrônica modernésima, é curioso que em certos bolsões de truculência e autoritarismo não tenha chegado a notícia de que a ditadura já desabou há mais de duas décadas e uma "Constituição Cidadã", por igual período, encontra-se em vigor...


A ditadura continua



Natal: Aqui continuam os efeitos do golpe. Foto: Henrique Trajano/FAB
As regras dos quartéis podem ser incompatíveis com as regras da Constituição?
A resposta deveria ser não. Mas, no Brasil, duas décadas e meia após o fim do regime militar, a resposta é sim. Por descaso ou omissão superior e, pior ainda, talvez por legado autoritário, as “leis” na caserna estão em constante rota de colisão com certas práticas essenciais à democracia.

Um exemplo recente ocorreu na quarta-feira 22, na Base Aérea de Natal (RN). Essa organização militar foi criada, em 1942, para dar sustentação à luta, travada em nome da democracia, do acordo dos aliados contra as tropas nazistas que ocupavam o Norte da África. A gravidade do episódio, à margem dessa ironia histórica, está no relato do confronto com o autoritarismo travado por Lorena Costa, defensora pública federal, titular do 2º Ofício Criminal, no Rio Grande do Norte. Eis um resumo do que ela descreveu e encaminhou aos integrantes da Defensoria Pública da União (DPU):
“Tive as minhas prerrogativas funcionais totalmente desrespeitadas por sargentos, tenentes e o coronel da Base Aérea, uma vez que fui impedida de visitar um assistido em razão de ter me negado a realizar revista, na qual teria de ficar nua perante uma sargento (…).
A esposa do assistido afirmou que vai visitá-lo e é submetida à revista na qual tem de ficar nua, se agachar e fazer força, por três vezes seguidas, a fim de verificar se carrega consigo algo suspeito (…) como estava muito desesperada, ficou temerosa de retornar ao local, e virar alvo de abusos outros, eu me comprometi a acompanhá-la.
Assim que cheguei ao local, me apresentei como defensora pública da União e fui acompanhada por um sargento – Júnior – até uma sala. Lá entrando, a sargento – Érika – me perguntou se conhecia os procedimentos de revista e me disse que eu teria de ficar nua. Acho que perdi a fala, de tanta indignação (…) ela chamou outro sargento – Félix. Relatei as prerrogativas da minha função. Ele distanciou-se e foi ligar para um tenente. Após uns vinte minutos, voltou e disse que era ‘norma da casa’ e que, se eu não realizasse a revista, não poderia ter a entrevista com o assistido.
Pedi então para que me fornecesse uma declaração de que tinha sido impedida de ter contato com o preso por ter me negado a realizar a revista, além de me apresentar a norma que me obrigaria a tal dever ‘legal’. Claro que ele se negou, tendo eu pedido para falar com o dito tenente.
Esperei mais uma meia hora. Fiz para o tenente – Gabriel – o mesmo discurso (…) ele insistiu na negativa, afirmando que havia recebido orientação do setor jurídico. Continuei argumentando sobre a inconstitucionalidade (…) ele se afastou para ligar para um coronel – Lima Filho – (…) voltou e disse que, definitivamente, eu não poderia conversar com o preso.
(…) Fiquei estarrecida com a situação. Não resisti à medida apenas pelo fato de ser defensora pública, mas, sobretudo, na qualidade de cidadã livre e que vive sob a égide de um Estado Democrático de Direito, no qual não há mais espaço para abusos como esse, contra ninguém e por nenhuma ‘autoridade’.
Nunca tinha visitado um estabelecimento pertencente às Forças Armadas, mas senti que a ditadura por lá ainda não acabou e não se teve notícia da Constituição Federal de 1988”.


CartaCapital

Blogueiro marcado para morrer. Cadê os "Progressistas"?

Ontem o grande e solidário jornalista-blogueiro Celso Lungaretti fez um apelo em seu blog, Náufrago da Utopia, em defesa da vida de Antuérpio Pettersen Filho, do jornal eletrônico Grito Cidadão. Ver abaixo.

Pettersen vem sofrendo ameaças de morte por ter feito denúncia gravíssima contra delegado da Polícia Civil.

O ABC! e esta blogueira, que também vive situação de risco, manifestam aqui sua solidariedade ao cidadão blogueiro Antuérpio Pettersen Filho. E faz um apelo aos colegas: divulguem em seus blogs a situação do blogueiro Pettersen, manifestem seu apoio.

Blogueiros "Progressistas": vocês que falam em nome de nós todos, que adoram aparecer e sair na foto ao lado do Lula e de ministros do governo, que se consideram donos da blogosfera... vocês, mesmos, "medalhões" e "tubarões", nossos "comandantes", tá na hora de "descerem do salto" e cuidarem um pouco das "bases"... Abram espaço em seus blogs em defesa de um colega!


Em defesa da Vida e da Liberdade de Expressão!



ALERTA VERMELHO: BLOGUEIRO MARCADO PARA MORRER PEDE SOCORRO



"Chamo a sua atenção para a matéria Julio Cesar: delegado é acusado de formar milícia no ES. Veja se pode me apoiar divulgando o caso, pois estou ameaçado de morte."

Recebi este apelo do bravo guerreiro Antuérpio Pettersen Filho, que preside a Associação Brasileira de Defesa do Indivíduo e da Cidadania e edita o jornal eletrônico Grito Cidadão.

Veterano de muitas batalhas, o Pettersen é a última pessoa do mundo de quem possamos suspeitar de alarmismo. Afianço: a ameaça é séria e todos que puderem ajudar em algo devem fazê-lo o quanto antes.

O motivo são as denúncias que ele vem fazendo contra Julio César Oliveira Silva, delegado de Polícia Civil que Pettersen acusa de ser remanescente do Esquadrão da Morte e continuar até hoje envolvido com o crime organizado.

Isto, aliás, se verificou também com seu extinto congênere paulista, desbaratado pelo promotor Hélio Bicudo. Inicialmente protegido pela ditadura militar, o bando do delegado Sérgio Paranhos Fleury perdeu o apoio da caserna quando Bicudo provou que nada tinha de justiceiro, apenas exterminando traficantes menores a soldo de um traficante maior, que queria eliminar a concorrência.

Eis a ficha do delegado Júlio Cesar, segundo o blogueiro:

"Até outro dia ocupando o cargo de Chefia Geral de Polícia Civil, (...) o delegado de Polícia Civil Julio César Oliveira Silva [é] egresso de breve carreira na Polícia Federal, (...) membro atuante da proscrita Escuderia Le Cocq, banida por determinação do Ministério Público, ainda assim, ocupante do mais alto cargo na hierarquia da Polícia Civil capixaba, famoso por suas ligações com o submundo do crime... [Agora ocupa] o cargo de delegado titular da Divisão de Promoção Social da Polícia Civil, órgão que maneja licenças médicas e afere legalidade para o porte de arma dos policiais civis, (...) onde tem menos visibilidade, (...) no entanto, vem o Delegado usando das suas faculdades para promover seus interesses pessoais e escusos".

 

Por estar na mira de inimigos extremamente perigosos, Pettersen decidiu encaminhar "pedido de medidas protetivas de vida ao Ministério Público Federal, próprias do Programa de Proteção a Testemunhas, a fim de que sejam tolhidos os que compõem a gangue que parece ter assumido o controle da Polícia Civil capixaba".

O alerta está lançado: nossa solidariedade talvez venha a representar a diferença entre a vida e a morte para Pettersen!

Náufrago da Utopia
 
 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A barbárie e suas vítimas

Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.

                                                                       Mahatma Gandhi


Essencial. Indispensável. De extrema e urgente importância. Leiam o artigo abaixo, vejam os vídeos postados ou o documentário integral no link indicado. Quantas vezes for preciso ou de tempos em tempos. Compartilhem estas iluminações com outras pessoas.

A mudança que queremos ver no mundo passa por uma transformação radical de cada um de nós, dos nossos valores. Precedida de uma conscientização profunda, integral.

Não existe outro caminho.




Escancarando as entranhas da barbárie do capital



Intuições a partir do filme/documentário “De la servitude moderne”, de Jean-François Brient, com montagem de Victor Léon Fuentes

Desde 2009, vem circulando na internet (via “youtube”), correndo inteiramente por fora do circuito midiático comercial, um filme/documentário produzido por Jean-François Brient (França), com montagem de Victor Léon Fuentes (Colômbia), e cuja difusão só depende de nossa boa vontade e empenho de seres humanos e cidadãos e cidadãs. O filme é precedido de um livro (que contém DVD), escrito pelo mesmo Brient, em 2007.

O objetivo do filme/documentário é de avivar nossa memória e ajudar a nos despertar, inclusive por meio da autovigilância, quanto às manifestações atrozes da barbárie capitalista = que o documentário chama, a justo título, de “sistema totalitário mercantil” -, tal como hoje se vem apresentando.

Trata-se de um patético grito de alerta aos sobreviventes desse sistema. Uma vigorosa denúncia profética e, por isso mesmo, incômoda aos ouvidos e aos olhos de quem prefere manter-se seguro em sua jaula. Cuida o filme de decompor, em sua anatomia e em sua fisiologia, todo esse sistema totalitário mercantil, de modo a permitir a(o) espectador(a) percorrer criticamente os mais distintos cenários desse sistema, seja em sua esfera econômica, seja em seu terreno político, seja em suas múltiplas manifestações culturais.

Permite, com efeito, perceber com detalhes as podres entranhas do modo de produção vigente, à medida que lança luz sobre, por exemplo, a rotina dos Trabalhadores e das Trabalhadoras nos porões da barbárie, constantemente afetados por processos desumanos de organização do trabalho, em que seus agentes são tratados como máquinas de gerar lucro, nas piores condições.

O filme/documentário exibe igualmente cenários terrificantes de agressão à natureza, tratada exclusivamente como fonte de lucro, e lucro rápido e copioso… Mostra as formas de pilhagem dos recursos naturais. Desmascara a lógica capitalista dos cuidados médicos, pela via dos procedimentos convencionais da medicina mercantil. Põe o dedo na radical iniquidade das relações patrão-empregado. Denuncia as formas de exploração dos grandes conglomerados transnacionais, apoiados nas grandes potências e nos aparelhos de Estado, sob a roupagem das democracias formais. Põe a nu a grade de valores usada e abusada pelo sistema totalitário mercantil, para manter e ampliar as condições de alienação dos seus súditos. Faz, em breve, uma radiografia desse sistema, bem como de seus protagonistas e de suas vítimas.

Diferentemente da escravidão da Idade Antiga ou da servidão medieval, ou das revoltas características das primeiras revoluções industriais, “A servidão moderna é uma servidão voluntária e consentida”. Servidão expressa pelo conformismo e pela passividade das vítimas, assujeitadas que se acham à ditadura das mercadorias que adquirem cada vez mais e na exata proporção de sua alienação, implicando a abdicação de sua identidade, de sua autonomia, alienando-se de seu ser, em proveito do império do consumismo, da desigualdade social crescente e da incessante degradação do Planeta. Preferem resignar-se à dança macabra do sistema a lutar pela sua identidade, o que implicaria esboçar diante do sistema a única atitude digna do ser humano: a do combate à alienação, à exploração e à pilhagem do Planeta e dos humanos.

À medida que se submetem às regras do jogo, tornando-se seus consumidores incondicionais (ver, por exemplo, os estragos feitos por uma emissão como a do famigerado “Big Brother Brazil”, com sua enorme parcela de espectadores e colaboradores interativos…), e assim sacralizando suas regras, as vítimas só fazem consolidar o caráter sórdido de seu mundo, um “mundo insosso e inodoro”. Aos obedientes súditos do sistema totalitário mercantil, só lhes resta contentar-se com ser sua imagem e semelhança.

Sob a égide de tal lógica, o mundo vai se transformando numa enorme rede viária, a serviço da circulação e do consumo de mercadorias.

Que condições teriam concorrido à produção de um quadro desses? O documentário começa sublinhando que “primeiro foi preciso retirar dos membros dessa classe toda consciência de sua exploração e de sua alienação.” Esta é uma face dessas condições. Requer ser percebida em interação dinâmica com outras tantas, seja do ponto de vista econômico, seja em sua malha política, seja quanto ao seu espectro cultural. Vou buscar desdobrar um pouco nuanças desses aspectos, no tópico a seguir.

Algumas intuições inspiradas no filme/documentário

Ainda que não tenha sido propósito do autor do documentário, explicitar uma proposta detalhada, alternativa à barbárie capitalista vigente, não se deve ignorar que o mesmo documentário evoca, de modo implícito, já na formulação das denúncias, elementos de alternatividade. Pelo menos a quem se disponha a perceber…

Trato, por conseguinte, de enunciar o que, inspirado nessa profusão de denúncias ao sistema totalitário mercantil, o que percebo como elementos subjacentes de alternatividade a essa ordem tão bem dissecada pelo documentário. Tento formular, a seguir, em três rápidos tópicos, atinentes às esfera da produção, da política e da cultura. Antes, porém, convém ressaltar, com toda a força, que, para muito além de uma tentativa pontual, a partir de cada esfera tomada isoladamente, qualquer proposta de superação dessa ordem exige tomá-la como um todo, e não apenas por qualquer uma de suas partes integrantes.

1. Na esfera da produção

Por mais evidente que se apresente a necessidade de superar-se o atual modo de produção dominante, é indispensável, igualmente, articular-se ao combate incessante ao modo de produção, o combate ao modo de consumo.

Em vão se afirmaria um combate à estrutura de produção vigente, protagonizada pelos grandes conglomerados transnacionais, dissociado do combate ao modo de consumo, em grande parte, já introjetado e reproduzido por nós, seja no campo dos bens produzidos, seja na área dos serviços oferecidos. Vejamos alguns exemplos bem concretos.

- Com que autoridade vamos travar um combate convincente contra a lógica perversa da construção de projetos faraônicos de energia ou de canalização de água (Belo Monte, Transposição, usinas nucleares…), se nos mostramos, em nosso cotidiano, ávidos e abusivos consumidores de água e energia elétrica? Basta ver nossa insensibilidade e nossa atitude vorazmente consumista, em casa, nas salas “aclimatadas”, mesmo quando bem podemos estudar e trabalhar em espaços que dispensem o consumo de energia. Hoje, mesmo em espaços públicos (universidades, inclusive), sindicatos, até em certos movimentos sociais…), alguns dos quais oferecendo agradável ambiente natural, observa-se crescente tendência a recorrer-se a salas e ambientes “climatizados”… Algo semelhante também se passa, quanto à nossa atitude em relação ao uso da água e aos cuidados (ou descuidos?) em relação a tantos e abusivos vazamentos de água… Não se trata de pretender reduzir nosso combate estrutural contra a fonte maior desse mal, mas, de entender, que uma forma de combate se acha umbilicalmente ligada à outra.

E quanto à nossa atitude rotineira em relação ao recurso abusivo a automóveis? Como vamos ter postura convincente de combate contra a lógica de Mercado, se não exercemos qualquer vigilância interna quanto à nossa parcela de responsabilidade como usuários contumazes de automóveis – para uso tantas vezes individual?

Também no tocante à nossa postura em relação aos serviços públicos essenciais: como iremos ser convincentes em nossos propósitos de defesa do PÚBLICO, por exemplo, nos serviços de educação e de saúde, se pouco ou nada sentimos na pele os efeitos de sermos usuários de escolas públicas e do SUS?

2. No terreno político


Nos frequentes espaços de análises de conjuntura de que participamos, estamos cansados de lembrar quem são nossos parceiros, quem são nossos aliados e quem são nossos adversários. Quanto a estes, por exemplo, não cessamos de enfatizar a lista encabeçada pelas multinacionais, pelas grandes potências e seus organismos multilaterais. Uma das contradições mais impactantes de nossos tempos tem sido constatar, por um lado, nossa consciência do caráter auxiliar do Estado aos interesses dos grandes grupos, e, por outro, seguirmos apostando o melhor de nós na sustentação político-partidária convencional do Parlamento e dos agentes do Estado, em vez de ousarmos priorizar formas alternativas a esse modo de gestão da sociedade. Até nos declaramos comprometidos com isso, mas nossa agenda diária não traduz isto, em matéria de nossas prioridades concretas…

3. No âmbito cultural


Percebendo claramente ou não, tomando consciência crítica maior ou menor das tramas ideológicas disseminadas pelo sistema dominante, não é difícil constatarmos a reiterada incidência de contradições em que nos flagramos, no dia-a-dia de nossas atividades. Não raro, fazendo uso de um discurso afiado contra as astúcias do sistema, eis que, não raro, nos flagramos a reproduzir práticas que dizemos combater. E isto se dá, sobretudo, nos espaços minúsculos, pouco ou nada visíveis, tais como:

- ceder à crescente tendência de absorvermos, como necessidades efetivas, “necessidades” suscitadas pela lógica do sistema: abuso de nossa cota individual de consumo de energia; abuso do automóvel; ceder à onda do endividamento a qualquer preço; ceder à tendência de dispensar os serviços públicos, preferindo apelar para os serviços privados;

- adaptação/acomodação à medicina mercantil e seus sedutores planos de saúde;

- contribuição passiva (pelo fortalecimento objetivo) dos índices de audiência de emissões lastimáveis (não apenas o BBB…);

- contribuição objetiva, em escala maior ou menor, com distintas situações de privatização dos espaços públicos de trabalho (desrespeito a horários, relaxamento da assiduidade, utilização indevida dos recursos das repartições de trabalho; utilização indevida do tempo, dos espaços, de pessoal e de recursos públicos, etc.).

- dependência dos produtos sofisticados, em detrimento da valorização de produtos populares, inclusive nas feiras e mercados públicos;

- dependência de produtos sabidamente prejudiciais à saúde (não apenas do tipo “coca-cola”, além de se contribuir efetivamente com os lucros de grandes grupos transnacionais;

- não uso ou mau uso dos bens e serviços públicos (educação, saúde, transporte público);

- descumprimento de regras elementares da saudável convivência (impedir ou dificultar a outros usuários acesso à poltrona de um coletivo, dificultar a circulação dos passageiros ao interno do coletivo, especialmente, nas horas de pico; ocupar com o automóvel lugares de transeuntes);

- insensibilidade em relação à coleta apropriada do lixo…

Cada um, cada uma pode multiplicar “ad infinitum” os casos de descumprimento, no dia-a-dia de nossa convivência…

Nesses e noutros exemplos mencionados, a partir das questões suscitadas pelo referido documentário, é possível aperceber-nos das implicações concretas que incidem tanto no plano coletivo, quanto no âmbito individual, com relação ao desafio enorme de extrojetar, dia a dia, valores desse sistema totalitário mercantil, em suas mais distintas manifestações. Anima-nos, ao mesmo tempo, saber que, nas “correntezas subterrâneas”, já contamos com um bom número de pessoas e de grupos que tratam de testemunhar – inclusive em escala molecular – que é possível, sim, emitir sinais convincentes de práticas e concepções alternativas à ordem imperante…

João Pessoa, abril de 2011



Link do documentário integral (52 minutos): http://www.youtube.com/watch?v=GXRcePr_oHE

Vídeo 1

*

quinta-feira, 30 de junho de 2011

São Paulo: Opus Dei ataca!


O projeto do deputado estadual do PSDB Orlando Morando de obrigar estabelecimentos de ensino a terem crucifixos, representará um enorme ataque aos direitos democráticos dos cidadãos


Está em tramitação na Assembléia Legislativa de São Paulo uma lei que pode representar um retrocesso ainda maior para as escolas e a população de São Paulo no que diz respeito a garantias dos direitos democráticos dos cidadãos. O Projeto de Lei (PL 256-2011) do deputado do PSDB, Orlando Morando, propõe que todos os estabelecimentos de ensino do estado, seja ele público ou privado, de nível superior ou que tenha apenas a educação infantil, sejam obrigados a ter crucifixos colocados em suas instalações.
O crucifixo deverá “ser mantido em local e em tamanho de fácil visualização, em área de circulação”, segundo o texto do projeto. O projeto também estabelece que o símbolo religioso deve ser custeado pelo Estado, ou seja, com dinheiro público, de um Estado que, pelo menos pela Lei, é laico
Atualmente o ensino religioso é obrigatório na rede pública de ensino do estado de São Paulo. Neste sentido, o projeto do PSDB é mais um passo atrás para a luta pela separação de fato entre o Estado e a igreja. A obrigatoriedade do uso de crucifixos representa a adoço por parte da escola de uma determinada religião, no caso a religião católica. Mais do que isso, a medida representa a adoção de uma religião pelo Estado que, de acordo com a Constituição Federal, deveria ser laico.
A adoção de uma religião oficial pelos estabelecimentos de ensino, principalmente pelo seu papel de educar os jovens e transmitirem a esses diversos conhecimentos científicos, é um ataque a liberdade de consciência. Trata-se da tentativa de obrigar todos os cidadãos a seguirem uma determinada religião. Neste sentido, o projeto do PSDB não é apenas um ataque aos direitos democráticos e uma política retrógrada, ela também vai contra a própria liberdade religiosa, uma vez que iria impor a seguidores de outras crenças a fé católica. 
Um dos princípios da separação da Igreja do Estado é que nenhum dos conceitos admitidos em confissões espirituais pode fazer parte das regras que estruturarão os poderes estatais.  O que nos leva a conclusão que um dos principais objetivos do projeto é justamente atacar ainda mais a laicidade do Estado brasileiro. Na Constituição Federal, no seu artigo 19, fica proibido que o Estado, seja ele representado pelo governo federal, estadual ou municipal estabelecer alianças ou até mesmo promover cultos desta natureza. O texto diz o seguinte:
“Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;”
No texto do projeto o deputado busca justificar seu projeto exaltando o fato de que o crucifixo representaria valores morais que deveriam adotados pela sociedade paulista. A adoção de critérios morais para a criação de leis e normas para a sociedade significa um retrocesso de séculos e a liquidação de um Estado de Direito e do regime jurídico, ou seja, uma volta a Idade Média e aos tempos da Santa Inquisição.
Do estabelecimento de crucifixos até a punição de alunos por não seguirem a moral católica é um passo. O que não poderá acontecer com um aluno que defenda o ateísmo em uma escola dominada pela igreja católica? Quais seriam os próximos passos da igreja nas instituições escolares, proibir as terias de Darwin? Tudo isto está colocado em debate diante desta ofensiva do qual o porta-voz é o deputado tucano.
Este projeto de Lei não pode ser entendido como algo isolado, uma mera ação de um deputado ligado a Igreja. É preciso lembrar que o Estado de São Paulo é governado por Geraldo Alckmin, um dos principais homens da Opus Dei no país e que o governador e o deputado Orlando Morando pertencem ao mesmo partido. Também estamos assistindo uma série de ataques contra as mulheres e seus direitos democráticos e que estes sempre apresentam como justificativa causas “morais” e religiosas. O maior exemplo é a luta da Igreja contra a legalização do aborto.
Neste sentido, a medida é parte da ofensiva da direita que tem como objetivo cassar os direitos democráticos da população, pois o domínio da Igreja católica sob as escolas públicas representa um ataque às liberdades cultural, de consciência, política etc.           

Ciberativismo e rebeldes digitais

Hackers, crackers, ciberativismo, guerrilha eletrônica, revolução virtual... Pululam na mídia expressões para descrever a atuação de ativistas na sociedade tecnológica e planetária em que vivemos.

Ontem publiquei artigo sobre o Anonymous, levantando questionamentos sobre o fenômeno. O texto que reproduzo hoje vai na mesma direção, estimulando reflexões sobre as rebeliões virtuais.


 

REBELIÃO CIBERNÉTICA

A ponta de um iceberg

Carlos Castilho

O que se percebe é uma generalização do sentimento de frustração, desencanto e exclusão em relação ao governo, à política, políticos, empresários, enfim, tudo aquilo que diz respeito à chamada ordem vigente. O que se nota mergulhando no mundo dos comentários online é que os seus frequentadores (que não são poucos) não dão a mínima para a forma como informações foram obtidas, mas o que elas revelam sobre possíveis privilégios e corrupção. Os recentes ataques contra páginas web do governo e de empresas brasileiras podem ser vistos como o fruto da insegurança na rede, mas também levam a uma reflexão sobre o que está por trás de tudo isto. O que podemos detectar por meio da leitura dos comentários postados no Twitter, blogs, redes sociais e fóruns é ainda mais preocupante.

O universo dos jovens que se comunicam pela internet descobriu agora a estratégia do ataque cibernético como forma de ganhar visibilidade e reconhecimento. Trata-se de um recurso muito eficiente e que surpreende o establishment numa área onde ele ainda se move com alguma dificuldade, fruto da pesada herança da cultura industrial/analógica.

Área de confrontação

Os ciberativistas dos grupos Anonymous e LulzSec já conquistaram seguidores no Brasil e a sucessão de ataques registrados no feriadão de Corpus Christi mostra que eles são extremamente ágeis. Seu objetivo não foi tanto roubar informações, mas, principalmente, mostrar presença e revelar debilidades nas redes digitais do governo e de empresas.

A leitura dos comentários como os postados numa notícia sobre os ataques mostra que o apoio aos rebeldes digitais é muito maior do que as críticas ao que a mídia está chamando de terrorismo virtual. É este apoio que deve nos levar a pensar sobre suas causas e não a um debate inócuo sobre segurança na internet – uma rede que é estruturalmente vulnerável por conta de sua arquitetura eletrônica aberta.

Em vez de procurar encontrar ferrolhos e cadeados para os bancos de dados que guardam negociatas e falcatruas, por que não discutir o teor das informações? Verificar quais as que merecem mais crédito e as que devem ser descartadas, em lugar de culpar o mensageiro.

Outra coisa importante: esta rebelião cibernética veio para ficar porque ela se alimenta de uma inconformidade represada, igual à que levou os jovens árabes aos protestos iniciados em abril. O governo chileno sentiu o peso da internet como ferramenta de articulação política durante os recentes protestos estudantis em Santiago e resolveu adotar uma medida de eficácia altamente polêmica: criar um sistema estatal de vigilância das redes sociais.

Tudo isto mostra que a internet e a web deixaram de ser um nirvana tecnológico e que agora entram, para valer, na nossa ecologia política como mais uma área de confrontação entre o status quo e o desejo de mudança. As grandes potências já oficializaram uma guerra cibernética por meio da mobilização de recursos militares para combater um inimigo cujo perfil ainda é pouco claro.

Repressão inútil

Pelas últimas notícias filtradas de dentro do Pentágono por jornais como o The New York Times, a estratégia norte-americana está mais orientada para combater empresas e grupos terroristas conhecidos.

Já a rebelião virtual na base social é bem diferente. Os responsáveis pelos ataques, erroneamente chamados de hackers [na verdade são crackers, os invasores de computadores; hacker é a denominação original recebida pelos pioneiros da internet nos anos 1960 e 70 quando eles criaram as bases dos softwares existentes hoje em dia], são quase todos desorganizados, autônomos, sem base territorial fixa, que se mobilizam mais por idéias do que por metas.Geralmente se identificam pelo grupo a que pertencem até mesmo pelo nome, como é o caso do controvertido Julian Assange, do site Wikileaks.

Grupos como o Anonymous e o LulzSec acabam virando mais marcas de um sentimento vago do que siglas identificadas com propostas políticas concretas. Por isso não adianta reprimi-los porque será inútil, já que usam a tecnologia com muito mais habilidade do que imaginamos. Só nos resta identificar suas idéias e refletir sobre elas.



Do Observatório da Imprensa


*