Manifestações na Europa, Oriente Médio e até na África. Ditaduras centenárias sendo sacudidas e até derrubadas pelo alarido das ruas. Guerrilhas eletrônicas, revolução digital, agitações também no mundo virtual.
É. O mundo anda meio conturbado. E tem que andar mesmo. Não podemos mais conviver com a pobreza de bilhões, a opressão, as injustiças de toda a ordem.
Basta! Chega!
Um outro mundo é possível, nós, os Indignados, o queremos e vamos construí-lo.
Isto é apenas o começo.
Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir!
Começa uma revolução anticapitalista?
"Os protestos e mobilizações na Europa, talvez possam ser a ante-sala de uma revolução anticapitalista", afirma o sociólogo Atilio A. Boron em artigo no Página/12, 21-06-2011. A tradução é do Cepat.
Esta blogueira leu o artigo na Rede Castor Photo.
Em uma memorável passagem do Manifesto Comunista, Marx e Engels afirmam que com o seu ascenso a burguesia rasgou impiedosamente o véu ideológico que impedia que os homens e mulheres percebessem a verdadeira natureza de suas relações sociais afogando “o sagrado êxtase do fervor religioso, o entusiasmo cavalheiresco e o sentimentalismo pequeno-burguês nas gélidas águas do cálculo egoísta”.
A atual crise do capitalismo e os crescentes protestos e mobilizações populares contra as políticas de ajuste promovido pelo FMI, o Banco Mundial e o Banco Central Europeu corroboram as palavras proféticas do Manifesto.
A nova crise geral do capitalismo mergulhou as ilusões fomentadas pelos mentores e beneficiários da democracia liberal “nas águas geladas do cálculo egoísta”.
Como dizia um dos cartazes pendurados em Puerta del Sol de Madrid: “Isto não é uma crise, é uma farsa”. E ao lado dessa dolorosa descoberta, segue outra: a farsa não apenas se executava no terreno econômico.
A fraude também foi montada no âmbito político ao ter induzido a maior parte da população a que acreditasse que a sórdida e inescrupulosa plutocracia a que estavam submetidos era uma democracia.
Por isso, a reivindicação exigindo uma “democracia real já” e uma “democracia verdadeira” para substituir a pseudo democracia cujo interesse excludente é a preservação da riqueza dos ricos e o poderio dos poderosos.
A crise teve o efeito de tornar as pessoas conscientes do mundo desenvolvido, de que tanto eles, como nós no Sul global, somos vítimas de um sistema que tendo sido despojado das roupas que escondiam a sua verdadeira natureza de ontem, submetendo a todos a uma “exploração aberta, descarada, direta e brutal”. E o que chamam de democracia é, na verdade, a ditadura da oligarquia financeira, que, como lembrava Che na Conferência de Punta del Este, é incompatível com a democracia.
Dias atrás, o Financial Times de Londres publicou um relatório sobre os salários recebidos pelos altos executivos das maiores empresas. A nota diz que “em relação aos banqueiros, a era da contenção (salarial) terminou”.
Em 2010, enquanto o mundo continuava em sua queda livre na direção do desemprego em massa, as execuções hipotecárias e o empobrecimento generalizado da população, “a remuneração média dos chefes de 15 grandes bancos europeus e dos EUA aumentaram 36% até (atingirem uma média de) 9,7 milhões de dólares”.
Na Espanha, abalada até em seus fundamentos por uma onda de manifestações de “indignação”, o presidente do BBVA, Francisco González, ganha cerca de 8 milhões de dólares por ano, enquanto seu colega do Banco Santander, o mais importante da Espanha, foi mais ambicioso e os seus esforços em prol dos seus investidores, recompensados com 13 milhões de dólares.
Nesta situação cabe perguntar pelo destino dessas orgulhosas e arrogantes pseudo democracias, desmistificadas ao calor de uma crise que demonstrou que são regimes políticos fraudulentos a serviço de oligarquias e da opressão dos povos. Serão estes protestos e mobilizações o precipitar de revolução anticapitalista? Difícil saber, mas parece certo que “os de baixo não podem e não querem continuar vivendo como antes”, para usar a formulação clássica de Lênin.
Os protestos, que agora comovem a Europa, talvez possam ser a ante-sala de uma revolução anticapitalista, mas isso é um processo e não um ato. A luta de classes e a resistência ao imperialismo e seus “cães-de-guarda” no sistema financeiro global (o FMI, o Banco Mundial, o BCE) podem fazer com que o princípio iniciado como um protesto contra o desemprego, a redução salarial e os cortes nas verbas sociais terminem sendo o motor que impulsiona até agora a improvável e imprevisível revolução no coração do capitalismo desenvolvido.
É muito cedo para dizer, mas nós sabemos que a partir de agora as coisas serão diferentes: a de que os condenados da terra não querem continuar vivendo como antes e os ricos estão começando a perceber que eles não podem continuar dominando como antes.
São condições necessárias - embora insuficientes – para uma revolução, o que não é pouca coisa.
Enviado ao blog original por Vanderley Caixe.
*
Cidadania, Comunicação e Direitos Humanos * Judiciário e Justiça * Liberdade de Expressão * Mídia Digital Editoria/Sônia Amorim: ativista, blogueira, escritora, professora universitária, palestrante e "canalhóloga" Desafinando o Coro dos Contentes...
Tradutor
terça-feira, 28 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
A ditadura blogosférica
Entra ano sai ano, começa encontro termina encontro, e eles continuam os mesmos. Nada muda. A cara dura de sempre, o mesmíssimo deslumbramento. E truculência com as vozes dissonantes. Os Mubaracks blogosféricos.
O resto? Massa de manobra.
Até quando?
O resto? Massa de manobra.
Até quando?
Abaixo, um ponto de vista de quem esteve lá.
Blogueiros Progressistas: democráticos e horizontais, pero no mucho!

Lula fala aos jornalistas durante o 2º BlogProg
#Eblog- [Niara de Oliveira (@NiDeOliveira71)]
Quando decidimos no Eblog participar do 2º BlogProg em BSB, fomos com a disposição de, além da contribuição óbvia na realização da mesa Mulheres na Blogosfera – que estava sem nomes até quinze dias antes do encontro e fatalmente seria cancelada –, participar de forma assertiva e colaborativa.
Embora tenha “brincado” muito nas minhas redes nos dias que antecederam o encontro de que incendiaria/implodiria o BlogProg, fui com o espírito desarmado, disposta a conhecer e, quem sabe até, ser convencida de que o BlogProg não era tão ruim quanto nós da "extrema-esquerda-incendiária" pensávamos ser.
Avalio a presença do #Eblog no #BlogProg como extremamente positiva. Agora, quando criticarmos esse grupo de blogueiros governistas e "chapas brancas", não poderão mais nos acusar de falar sem conhecimento de causa ou de não termos tentado participar e/ou contribuir.
Minha atuação no 2º BlogProg foi crítica como é minha atuação no mundo, mas contribuí na discussão, mediei uma mesa, apresentei propostas e mesmo sendo um tanto quanto ogra, não fui ríspida e nem grosseira com ninguém.
Já não posso dizer o mesmo do ministro Paulo Bernardo, que é muito elogiado pelos blogprog por sua paciência, mas, ao se referir aos meus questionamentos foi grosseiro, porque responder mesmo não respondeu. Mas deve fazer parte, né? Num evento promovido por blogueiros que apóiam o governo, com palestrantes do governo e financiado por estatais, certamente ele esperava um clima crítico calculado.
Abro um parênteses para a matéria da Folha de São Paulo sobre o 2º BlogProg:
Uma carta redigida ao final do "II Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas" pede novo marco regulatório dos meios de comunicação (conjunto de leis e diretrizes que regulam o funcionamento do setor) e faz ataques à mídia.
O evento, que acaba neste domingo (19), em Brasília, contou com a presença de cerca de 400 pessoas que apoiaram o governo Lula e a eleição de Dilma Rousseff.
"A blogosfera consolidou-se como um espaço fundamental no cenário político brasileiro. É a blogosfera que tem garantido de fato maior pluralidade e diversidade informativas. Tem sido o contraponto às manipulações dos grupos tradicionais de comunicação, cujos interesses são contrários a liberdade de expressão no país", diz trecho da carta aprovada hoje.
Os blogueiros pedem ainda a divulgação imediata do projeto redigido pelo então ministro Franklin Martins (Secretaria de Comunicação Social na gestão Lula). "Para que ele possa ser apreciado e debatido pela sociedade. Defendemos, por exemplo, que esse marco regulatório contemple o fim da propriedade cruzada dos meios de comunicação no Brasil."
A abertura do evento, na última sexta-feira (17), contou com a participação de Lula e do ministro Paulo Bernardo (Comunicações), que adotaram o mesmo tom. (19/06/2011, Maria Clara Cabral, Folha de S. Paulo)
__________________________________
Foi isso. A Folha de São Paulo, embora grande imprensa e distorcedora de fatos como todos nós sabemos e criticamos, dessa vez – e justamente sobre os blogueiros progressistas, sempre tão atingidos e injustiçados – fez um retrato fiel do tal encontro. Fato, e não palavras, é que basta olhar os blogs organizadores, estruturadores, proponentes do encontro, os palestrantes e os patrocinadores para sabermos, politicamente, em que terreno estamos pisando.
Sobre a presença do ex-presidente Lula no encontro, resumo da seguinte forma: O primeiro (?) presidente a conceder uma coletiva a blogueiros amigos foi ao encontro dos amigos blogueiros massagear o ego dos presentes para que estes amenizassem as críticas à coordenação nacional (isto é, seus amigos). Não há outra explicação.
O presidente Lula não disse nada de novo, não fez nenhuma revelação secreta e apenas cutucou o seu ex-ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, agora ministro das Comunicações, que falaria logo depois.
Paulo Henrique Amorim, no sábado pela manhã, se referindo à presença de Lula entre os blogueiros, disse que "foi uma festa muito bonita, mas foi uma festa incompleta", criticando o presidente Lula que tinha muito mais autoridade que o atual governo, e poderia ter deixado toda essa pauta de reivindicações da blogosfera sobre democratização da comunicação e lei dos meios de comunicação se não resolvida, pelo menos encaminhada.
Detalhe: Quando Lula se aproximava do encerramento de sua fala, discretamente, Renato Rovai encaminhava pela mão jornalistas “amigos” para a sala atrás da mesa, para onde o ex-presidente iria após terminar sua intervenção. Enquanto Lula falava para “poucos e bons”, os demais jornalistas da grande imprensa corriam para a saída para tentar registrar sua saída ou entrevista.
De todas as discussões do 2º BlogProg, a mais importante – sem dúvidas – foi “a luta por um novo marco regulatório da comunicação”, no sábado pela manhã com o professor Venício Lima, o jurista Fábio Konder Comparato e a deputada federal Luiza Erundina.
Discussão nevrálgica para democratizar a comunicação e que precede todas as demais questões da pauta da blogosfera.
Nessa mesa propus que o BlogProg chamasse uma blogagem coletiva ampla, de fôlego, sobre democratização da comunicação. A proposta não foi aprovada na plenária final.
Assim como também não se aprovou a moção (queríamos mesmo é que fosse incluído na carta final) de luta pelo fortalecimento do Estado laico e a mesa LGBT enfrentou resistência.
Blogosfera progressista? Não.
É uma blogosfera governista que ainda não percebeu que é apenas uma gota no oceano da blogosfera. Não consegue e nem tem interesse em incluir blogueiros nerds, culturais, de arte, de cinema, animação, juventude e nem mesmo LGBTs ou feministas.
Quanto mais a blogosfera anticapitalista.
E aqui vale salientar o exemplo do Blog Feministas que reúne em sua lista de discussão quase 400 mulheres e tem atualmente em torno de 60 colaboradoras que escrevem periodicamente e vão promovendo uma nova forma de blogar, mais solidária, cumulativa, que amplia e incentiva a formação de novos blogs.
O 3º BlogProg será em junho de 2012 em Salvador, Bahia.
O lobby do governo baiano nessa edição do blogprog foi simplesmente insuperável e já sabemos que o viés político continuará sendo governista. Pelo menos teremos as mesas LGBT e mulheres, mesmo já sabendo que não fazem parte da macrodiscussão “progressista”.
Por fim, gostaria de salientar um detalhe estranho.
Até a véspera do 2º BlogProg Brasília, a coordenação passava a ideia de que estava muito complicado financiar a estrutura toda do encontro e essa foi a desculpa para não ter uma creche no encontro.
Eis que na avaliação de um dos coordenadores gerais, Renato Rovai, surge um excedente de R$ 180 mil reais.
Eu vi mulheres que participaram precariamente do encontro porque precisaram levar seus filhos (afinal, era um final de semana) para o BlogProg e outras que deixaram de participar pelo mesmo motivo.
Tomar a decisão política de não organizar creche num encontro nacional em pleno 2011 é igual a desprezar a contribuição das mulheres.
Sempre que ouço falar em blogosfera progressista fatalmente associo a blogueiros em sua amplíssima maioria homens, héteros, brancos, apoiadores desse governo pseudoesquerda do PT-PMDB-e-mais-tudo-que-couber-num-mesmo-saco e excludentes.
O Eblog é claro em suas posições: Somos anticapitalistas, antimachistas e antihomofóbicos. Queremos uma blogosfera solidária, ampla, inclusiva, combatente e crítica.

Jornalistas convocados por Renato Rovai para se reunirem
antes da fala de Lula saem discretamente à sala ao lado.

Conceição Oliveira (@Maria_Fro) anuncia a entrada de
Lula na mesa; jornalistas correm para pegar suas câmeras

Enquanto Lula falava, massageava ego dos tuiteiros que
ajudaram com a campanha de Dilma nas eleições;
Jornalistas da imprensa capitalista atrás

Luiza Erundina (PSB), Fábio Konder Comparato e
Venício Lima na mesa de Democratização da Comunicação
Nota: O Eblog está assumindo a convocação da blogagem coletiva pela democratização da comunicação.
Diário Liberdade
*
domingo, 26 de junho de 2011
São Paulo: Festa da Cidadania e da Diversidade
Carta Aberta da Associação da Parada do Orgulho GLBT ao Povo Brasileiro

Carta aberta da APOGLBT para a população brasileira, contra o conservadorismo e o fundamentalismo
Incluir e amparar indiscriminadamente todas as pessoas não seria o princípio básico da religião?
07/06/2011
Em 2010 mais de 260 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais foram assassinados no Brasil, em ataques tipificados pelas autoridades como crimes de ódio. Uma sociedade que vende para o resto do mundo uma imagem de “acolhedora” e “diversa” está com suas mãos sujas de sangue. Nós, brasileiros, carregamos o título de país líder em assassinatos e violência contra LGBT.
Aqui se mata mais homossexuais do que nos países islâmicos em que a homossexualidade ainda é condenada pela lei com a pena de morte. A semelhança entre o Brasil e nações como o Irã, Arábia Saudita e os Emirados Árabes é que aqui a pena de morte aos LGBT também se dá através da fé e da religião, que, na teoria, não têm poder de interferência em nossa constituição, porém, na prática, têm sistematicamente regido a tão profanada Lei dos Homens, que deveria ser isenta e igualitária.
É inegável que a conquista da cidadania tem avançado para a população LGBT; um mérito que não é apenas da militância e do movimento organizado, mas também da nossa sociedade como um todo, que tem se mostrado comprometida contra o preconceito e todas as formas de discriminação.
Em 2010 mais de 260 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais foram assassinados no Brasil, em ataques tipificados pelas autoridades como crimes de ódio. Uma sociedade que vende para o resto do mundo uma imagem de “acolhedora” e “diversa” está com suas mãos sujas de sangue. Nós, brasileiros, carregamos o título de país líder em assassinatos e violência contra LGBT.
Aqui se mata mais homossexuais do que nos países islâmicos em que a homossexualidade ainda é condenada pela lei com a pena de morte. A semelhança entre o Brasil e nações como o Irã, Arábia Saudita e os Emirados Árabes é que aqui a pena de morte aos LGBT também se dá através da fé e da religião, que, na teoria, não têm poder de interferência em nossa constituição, porém, na prática, têm sistematicamente regido a tão profanada Lei dos Homens, que deveria ser isenta e igualitária.
É inegável que a conquista da cidadania tem avançado para a população LGBT; um mérito que não é apenas da militância e do movimento organizado, mas também da nossa sociedade como um todo, que tem se mostrado comprometida contra o preconceito e todas as formas de discriminação.
Porém, como toda ação gera uma reação, observamos o recrudescimento dos setores conservadores. Eis que vemos no Brasil o surgimento de uma mobilização capaz de unir fundamentalistas e extremistas de direita, religiosos e nazifascistas, que numa voz uníssona bradam contra os direitos humanos de milhões de cidadãs e cidadãos.
Antes, nossos algozes agiam na calada da noite, nos violentando em becos à surdina, como se, nos atingindo individualmente, pudessem nos exterminar pelas beiradas. Hoje, saem às ruas, fazem abaixo-assinados, manifestam-se na Avenida Paulista e marcham sobre a Esplanada dos Ministérios para barrar a garantia de nossa dignidade.
Trata-se de uma versão brasileira do movimento norte-americano “God Hates Fags”. A diferença é que, aqui, os que creem que “Deus odeia as bichas” são muitos, têm forte representatividade no Congresso, recebem a atenção da imprensa e, infelizmente, ganham adeptos.
Na história da humanidade, o nome de Deus não somente foi usado diversas vezes em vão, como serviu para respaldar a violência e morte de diversas minorias. A escravidão dos negros africanos, a condenação dos judeus e a perseguição às mulheres no período de “caça às bruxas” são exemplos disso. Como herança cultural, ainda temos estabelecido o patriarcalismo e a soberania de brancos como regras informais de nossa civilização ocidental contemporânea. A Inquisição ainda está viva no que diz respeito à homofobia, mas não só a ela.
Em tempos modernos, os inquisidores apenas trocaram a tocha e a fogueira pela lâmpada fluorescente, mas a condenação ainda ocorre em praça pública, consentida e assistida por muitos.
Há quinze anos, a primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo reuniu 2 mil pessoas para dizer que “somos muitos, estamos em todas as profissões”. Nos dias de hoje, os mais de 3 milhões que nos acompanham, multiplicados pelas mais de 200 Paradas que ocorrem em todo o território nacional, reafirmam isso e vão além.
Estamos em todas as profissões, famílias, lares, escolas, esportes e igrejas. Sim, mesmo sem você saber, sempre existiu e sempre existirá um LGBT ao seu lado, a quem você jamais gostaria de saber ter sido vítima de bullying, humilhação, agressão moral, violência física, sexual ou homicídio. Incluir e amparar indiscriminadamente todas as pessoas não seria o principio básico da religião?
Se “quem ama conhece a Deus”, qual seria a determinação religiosa para aqueles que professam o ódio e a ira? Não é condenável levantar falsos testemunhos sobre a compreensão da complexidade humana, assim como sobre toda e qualquer ação que visa proporcionar o reconhecimento da existência de uma população comum? Se para os crédulos, Deus não faz acepção de pessoas e todos são iguais perante a Ele, porque insistem em nos manter à margem?
Respeitosamente, nos apropriamos da frase “Amai-vos uns aos outros” para pedir fim à guerra travada entre religião e direitos humanos, financiada pelas brasileiras e brasileiros que dão voz aos fundamentalistas e extremistas que ocupam as cadeiras do Parlamento e espaço nas mídias. Nós, os perseguidos, apesar de já estarmos calejados de oferecer a outra face, usamos de suas crenças para dizer: “Perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.
*
São Paulo: a maior Parada do Orgulho Gay do mundo
É hoje.
É na Capital da Diversidade e da Tolerância.
É na cidade de São Paulo.
A maior Parada do Orgulho Gay do mundo.
A 15a. edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do mundo, acontece hoje aqui, na cidade de São Paulo, com a expectativa de reunir na Avenida Paulista e em outras vias importantes 3,5 milhões de manifestantes, dançando, cantando, defendendo seus direitos de cidadania com alegria e bom humor ao som de 16 trios elétricos.
Ontem foi a vez de Paris e Berlim.
O tema deste ano, em resposta ao conservadorismo e à homofobia das religiões, é:
"Amai-vos uns aos outros"
Saiba mais sobre toda a programação, acompanhe ao vivo a transmissão, acessando o site da Parada do Orgulho Gay.
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É na Capital da Diversidade e da Tolerância.
É na cidade de São Paulo.
A maior Parada do Orgulho Gay do mundo.
A 15a. edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do mundo, acontece hoje aqui, na cidade de São Paulo, com a expectativa de reunir na Avenida Paulista e em outras vias importantes 3,5 milhões de manifestantes, dançando, cantando, defendendo seus direitos de cidadania com alegria e bom humor ao som de 16 trios elétricos.
Ontem foi a vez de Paris e Berlim.
O tema deste ano, em resposta ao conservadorismo e à homofobia das religiões, é:
"Amai-vos uns aos outros"
Saiba mais sobre toda a programação, acompanhe ao vivo a transmissão, acessando o site da Parada do Orgulho Gay.
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sábado, 25 de junho de 2011
Lésbicas e bissexuais marcham na Avenida Paulista
Antes da maior Parada do Orgulho Gay do mundo, que acontecerá nas ruas da cidade de São Paulo amanhã, 26 de junho, hoje as mulheres homo e bissexuais, numa marcha de cunho mais político, desfilaram na Avenida Paulista.
Lésbicas fazem marcha na Paulista um dia antes da Parada Gay
Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de SP está na 9ª edição.
Evento pede aprovação de projeto de lei que criminaliza homofobia.
Darlan Alvarenga
G1 São Paulo
Trio elétrico seguiu até a Praça dos Ciclistas
(Foto: Darlan Alvarenga/G1)
Lésbicas e bissexuais fizeram na tarde deste sábado (25) uma marcha na Avenida Paulista, um dia antes da 15ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Com um trio elétrico, a passeata saiu da praça Osvaldo Cruz e seguiu até a Praça dos Ciclistas, onde está prevista a realização de shows até as 18h.
De acordo com a Polícia Militar, o trecho entre a rua Bela Cintra e a Avenida Consolação, no sentido Consolação, ficará interditado até o término do evento. Cerca de 1.500 participaram da caminhada, segundo polícias militares que fizeram a escolta até a praça.
Lésbicas e bissexuais participam de marcha, um dia antes
da Parada Gay (Foto: Darlan Alvarenga/G1)
Esta é a 9ª Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo. Márcia Balades, da comissão organizadora, explicou que essa marcha sempre acontece um dia antes da Parada Gay. “A Parada Gay é uma coisa mais festiva. A nossa caminhada tem caráter mais político”, disse.
Segundo os organizadores, o objetivo do evento é tirar as lésbicas e bissexuais da condição de invisibilidade.
Nos cartazes e nas palavras de ordem exclamadas do trio elétrico, mensagens de protesto contra a violência, o racismo, o machismo a homofobia, "a bifobia" e a "lesbofobia".
A caminhada comemora este ano a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu o direito à união estável, e reivindica a aprovação projeto de lei que criminaliza a homofobia.
Participantes protestaram contra o machismo e a homofobia
(Foto: Darlan Alvarenga/G1)
Os participantes também defendem uma política de saúde pública direcionada para as lésbicas. "É comum a gente ir a um posto de saúde e nos oferecerem camisinhas. Se esquecem que também existe sexo quando são duas mulheres envolvidas", protestou Natália Ribeiro.
As namoradas Eliane Dias e Jully Soares vieram de Belo Horizonte para participar da caminhada e da parada gay. "Sou militante, mas é a primeira vez que venho participar dessa parada que tem repercussão política nacional", disse Jully. "Somos parceiras afetivas e sociais", completou Eliane.
Parte dos integrantes da caminhada também deve participar da Parada Gay deste domingo, de acordo com os organizadores.
Caminhada interditou trecho entre a Bela Cintra e a
Consolação neste sábado (Foto: Darlan Alvarenga/G1)
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Lésbicas fazem marcha na Paulista um dia antes da Parada Gay
Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de SP está na 9ª edição.
Evento pede aprovação de projeto de lei que criminaliza homofobia.
Darlan Alvarenga
G1 São Paulo

(Foto: Darlan Alvarenga/G1)
Lésbicas e bissexuais fizeram na tarde deste sábado (25) uma marcha na Avenida Paulista, um dia antes da 15ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Com um trio elétrico, a passeata saiu da praça Osvaldo Cruz e seguiu até a Praça dos Ciclistas, onde está prevista a realização de shows até as 18h.
De acordo com a Polícia Militar, o trecho entre a rua Bela Cintra e a Avenida Consolação, no sentido Consolação, ficará interditado até o término do evento. Cerca de 1.500 participaram da caminhada, segundo polícias militares que fizeram a escolta até a praça.

da Parada Gay (Foto: Darlan Alvarenga/G1)
Esta é a 9ª Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo. Márcia Balades, da comissão organizadora, explicou que essa marcha sempre acontece um dia antes da Parada Gay. “A Parada Gay é uma coisa mais festiva. A nossa caminhada tem caráter mais político”, disse.
Segundo os organizadores, o objetivo do evento é tirar as lésbicas e bissexuais da condição de invisibilidade.
Nos cartazes e nas palavras de ordem exclamadas do trio elétrico, mensagens de protesto contra a violência, o racismo, o machismo a homofobia, "a bifobia" e a "lesbofobia".
A caminhada comemora este ano a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu o direito à união estável, e reivindica a aprovação projeto de lei que criminaliza a homofobia.

(Foto: Darlan Alvarenga/G1)
Os participantes também defendem uma política de saúde pública direcionada para as lésbicas. "É comum a gente ir a um posto de saúde e nos oferecerem camisinhas. Se esquecem que também existe sexo quando são duas mulheres envolvidas", protestou Natália Ribeiro.
As namoradas Eliane Dias e Jully Soares vieram de Belo Horizonte para participar da caminhada e da parada gay. "Sou militante, mas é a primeira vez que venho participar dessa parada que tem repercussão política nacional", disse Jully. "Somos parceiras afetivas e sociais", completou Eliane.
Parte dos integrantes da caminhada também deve participar da Parada Gay deste domingo, de acordo com os organizadores.

Consolação neste sábado (Foto: Darlan Alvarenga/G1)
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São Paulo: Gay ou Evangélica?
Quem conhece bem e tem uma visão isenta de preconceitos sabe que São Paulo é cosmopolita, multicultural. E ao contrário do que falam as más línguas, São Paulo é a Capital da Tolerância.
Como considero a diversidade o ponto mais interessante da cidade de São Paulo, gosto da ideia de termos, tão próximas, as paradas gay e evangélica tomando as ruas pacificamente. Tão próximas no tempo e no espaço, elas têm diferenças brutais.
Incidentes e ilícitos acontecem: ataques preconceituosos a homossexuais, negros, nordestinos. Como em outras capitais e cidades brasileiras.
Mas todos os dias milhões de cidadãos das mais variadas origens étnicas e regionais, das mais diversas culturas convivem pacificamente na cidade de São Paulo: nos abarrotados trens do metrô e da CPTU, em milhares de ônibus e lotações, nas ruas e avenidas, entupidas de gente e de automóveis, motocicletas e outros veículos.
Esta semana, duas manifestações ocorrem em São Paulo: a Marcha para Jesus, promovida pelos evangélicos, que aconteceu no feriado de Corpus Christi, e a Parada do Orgulho Gay, que terá lugar no próximo domingo.
Um olhar mais atento para estas duas movimentações gigantescas e pacíficas de milhões de pessoas nas principais avenidas da cidade de São Paulo mostra o quanto São Paulo convive bem com a diversidade e estimula algumas reflexões curiosas e interessantes sobre a cidade, como a que faz abaixo o jornalista Gilberto Dimenstein*.
São Paulo é mais gay ou evangélica?
Como considero a diversidade o ponto mais interessante da cidade de São Paulo, gosto da ideia de termos, tão próximas, as paradas gay e evangélica tomando as ruas pacificamente. Tão próximas no tempo e no espaço, elas têm diferenças brutais.
Os gays não querem tirar o direito dos evangélicos (nem de ninguém) de serem respeitados. Já a parada evangélica não respeita os direitos dos gays (o que, vamos reconhecer, é um direito deles). Ou seja, quer uma sociedade com menos direitos e menos diversidade.
Os gays usam a alegria para falar e se manifestar. A parada evangélica tem um ranço um tanto raivoso, já que, em meio à sua pregação, faz ataques a diversos segmentos da sociedade. Nesse ano, um dos seus focos foi o STF.
Por trás da parada gay, não há esquemas políticos nem partidários. Na parada evangélica há uma relação que mistura religião com eleições, basta ver o número de políticos no desfile em posição de liderança. Isso para não falar de muitos personagens que, se não têm contas a acertar com Deus, certamente têm com a Justiça dos mortais, acusados de fraudes financeiras.
Nada contra -- muito pelo contrário -- o direito dos evangélicos terem seu direito de se manifestarem. Mas prefiro a alegria dos gays que querem que todos sejam alegres. Inclusive os evangélicos.
Civilidade é a diversidade. São Paulo, portanto, é mais gay do que evangélica.
Gilberto Dimenstein é membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha.
Portal Folha
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sexta-feira, 24 de junho de 2011
Olho por olho e dente por dente? Nem sempre...
A irracionalidade do perdão contra a irracionalidade da violência.
Não é fácil.
Mas é possível.
Quebrando o ciclo do ódio
O que têm em comum Mark Strohan (texano preso por homicídio e que deverá ser executado no próximo dia 20 de julho) e Rais Bhuyan (bengali, imigrante legal, vivendo nos Estados Unidos há vários anos, cego de um olho)? O traço em comum entre os dois é justamente o olho perdido de Rais Bhuyan. Pois o responsável pela perda parcial de visão do bengali foi justamente Mark Strohan, que o atacou com um tiro no rosto.
Tudo começou no dia 11 de setembro de 2001, data que marca um novo ciclo na história ocidental e do mundo inteiro. O ataque às torres gêmeas plantou o terror e o ódio no centro do hemisfério, deixando um lastro de morte e destruição. Neste dia, Mark Strohan perdeu sua irmã e a inocência que lhe restava no coração. Passou a ser movido pelo desejo de vingança e pelo ódio a tudo e a todos que levassem qualquer proximidade e semelhança com os autores do atentado, responsáveis por sua perda e a dor incurável que ela provocara em sua vida.
Mark Strohan passou a perseguir e atacar imigrantes. Atirava para matar. Com dois, conseguiu seus intentos: um paquistanês e um indiano. Com Rais Bhuyan conseguiu apenas destruir seu olho. O bengali sobreviveu. E Mark Strohan foi preso. Era o dia 21 de setembro, dez dias depois do atentado que mudou o mundo e plantou o ódio no seu coração. O bengali retomou aos poucos sua vida, tendo que aprender a conviver com sua nova situação física. O texano ficou dez anos preso, foi condenado à pena capital e agora sua execução foi marcada.
Há, porém, uma voz que se levanta entre Mark Strohan e sua programada morte: surpreendentemente, a de Rais Bhuyan. O bengali que perdeu parte da visão pela arma do condenado não parece reger-se pela lei do Talião : “Olho por olho, dente por dente”. Mas sim pela compaixão que ensina a ver no outro, qualquer que ele seja, não importa o que haja feito, um irmão em humanidade. No intrincado aparelho judicial estadunidense, Rais Bhuyan luta para transformar a pena de morte decretada para Strohan em prisão perpétua. Não deseja a morte de seu agressor e, pelo contrário, luta para devolver-lhe a vida.
Bhuyan declara haver chegado à decisão de empreender este combate pela vida do homem que atirou em seu rosto e perfurou seu olho após um longo e duro processo de sofrimento e purificação. Dele saiu sem ódio no coração, mas cheio de gratidão por lhe ter sido dada a chance de viver. Sentia em si o desejo de fazer algo pelos outros. E logo essa alteridade em direção à qual se movia a nova compaixão que o habitava recebeu um rosto e um nome: o de Mark Strohan. Após consultar as famílias dos dois outros homens mortos pelo texano e delas receber a aprovação para o que desejava fazer, Rais lançou-se de corpo e alma na luta para libertar Strohan da injeção letal que deverá levá-lo à morte no próximo mês de julho.
Sua conduta chama a atenção e surpreende a opinião pública. Bhuyan tem que dar entrevistas explicando por que, em vez de vingar-se, escolheu perdoar. Como vítima do ódio, não seria mais lógico alegrar-se com a morte do agressor? A esta pergunta ele responde dizendo que deseja quebrar o ciclo do ódio e que o único caminho para isso é o perdão. Não vê Strohan como inimigo, mas como seu semelhante. Entende o que fez como fruto de uma perda de consciência e privação de sentidos. Deseja resgatá-lo como ser humano e dar-lhe a chance de ter sua vida de volta e redescobrir-se como ser humano.
Trabalhando em parceria com a advogada do condenado, Bhuyan tem esperança de conseguir seu intento. Quer encontrar-se com Strohan, falar com ele, declarar-lhe pessoalmente seu perdão. Ao saber disso, o texano chorou muito. Está disposto a receber seu defensor na prisão. O perfume do perdão derramado sobre o ódio e a violência que separou estes dois homens ungiu a distância e inaugurou uma nova aproximação. Uma ponte foi construída, o fosso foi transposto, Bhuyan e Strohan contemplam sua condição de seres criados para o amor e a relação, recém recuperada e renovada.
Contra a irracionalidade da violência, apenas a irracionalidade do perdão pode ter algum poder, alguma eficácia. Porque, como a palavra mesma diz, per-doar é persistir no dom. O dom da vida foi generosamente concedido a Strohan e a Bhuyan. Rompido pela violência de um, é restaurado pelo perdão do outro que persiste na doação. E o dinamismo vital continua em movimento, sem ser lançado no país escuro do “rigor mortis”. Contemplando a maravilha deste milagre, louvamos a Deus que criou a Strohan e a Bhuyan à sua imagem e semelhança.
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
Dom Total
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Não é fácil.
Mas é possível.
Quebrando o ciclo do ódio
O que têm em comum Mark Strohan (texano preso por homicídio e que deverá ser executado no próximo dia 20 de julho) e Rais Bhuyan (bengali, imigrante legal, vivendo nos Estados Unidos há vários anos, cego de um olho)? O traço em comum entre os dois é justamente o olho perdido de Rais Bhuyan. Pois o responsável pela perda parcial de visão do bengali foi justamente Mark Strohan, que o atacou com um tiro no rosto.
Tudo começou no dia 11 de setembro de 2001, data que marca um novo ciclo na história ocidental e do mundo inteiro. O ataque às torres gêmeas plantou o terror e o ódio no centro do hemisfério, deixando um lastro de morte e destruição. Neste dia, Mark Strohan perdeu sua irmã e a inocência que lhe restava no coração. Passou a ser movido pelo desejo de vingança e pelo ódio a tudo e a todos que levassem qualquer proximidade e semelhança com os autores do atentado, responsáveis por sua perda e a dor incurável que ela provocara em sua vida.
Mark Strohan passou a perseguir e atacar imigrantes. Atirava para matar. Com dois, conseguiu seus intentos: um paquistanês e um indiano. Com Rais Bhuyan conseguiu apenas destruir seu olho. O bengali sobreviveu. E Mark Strohan foi preso. Era o dia 21 de setembro, dez dias depois do atentado que mudou o mundo e plantou o ódio no seu coração. O bengali retomou aos poucos sua vida, tendo que aprender a conviver com sua nova situação física. O texano ficou dez anos preso, foi condenado à pena capital e agora sua execução foi marcada.
Há, porém, uma voz que se levanta entre Mark Strohan e sua programada morte: surpreendentemente, a de Rais Bhuyan. O bengali que perdeu parte da visão pela arma do condenado não parece reger-se pela lei do Talião : “Olho por olho, dente por dente”. Mas sim pela compaixão que ensina a ver no outro, qualquer que ele seja, não importa o que haja feito, um irmão em humanidade. No intrincado aparelho judicial estadunidense, Rais Bhuyan luta para transformar a pena de morte decretada para Strohan em prisão perpétua. Não deseja a morte de seu agressor e, pelo contrário, luta para devolver-lhe a vida.
Bhuyan declara haver chegado à decisão de empreender este combate pela vida do homem que atirou em seu rosto e perfurou seu olho após um longo e duro processo de sofrimento e purificação. Dele saiu sem ódio no coração, mas cheio de gratidão por lhe ter sido dada a chance de viver. Sentia em si o desejo de fazer algo pelos outros. E logo essa alteridade em direção à qual se movia a nova compaixão que o habitava recebeu um rosto e um nome: o de Mark Strohan. Após consultar as famílias dos dois outros homens mortos pelo texano e delas receber a aprovação para o que desejava fazer, Rais lançou-se de corpo e alma na luta para libertar Strohan da injeção letal que deverá levá-lo à morte no próximo mês de julho.
Sua conduta chama a atenção e surpreende a opinião pública. Bhuyan tem que dar entrevistas explicando por que, em vez de vingar-se, escolheu perdoar. Como vítima do ódio, não seria mais lógico alegrar-se com a morte do agressor? A esta pergunta ele responde dizendo que deseja quebrar o ciclo do ódio e que o único caminho para isso é o perdão. Não vê Strohan como inimigo, mas como seu semelhante. Entende o que fez como fruto de uma perda de consciência e privação de sentidos. Deseja resgatá-lo como ser humano e dar-lhe a chance de ter sua vida de volta e redescobrir-se como ser humano.
Trabalhando em parceria com a advogada do condenado, Bhuyan tem esperança de conseguir seu intento. Quer encontrar-se com Strohan, falar com ele, declarar-lhe pessoalmente seu perdão. Ao saber disso, o texano chorou muito. Está disposto a receber seu defensor na prisão. O perfume do perdão derramado sobre o ódio e a violência que separou estes dois homens ungiu a distância e inaugurou uma nova aproximação. Uma ponte foi construída, o fosso foi transposto, Bhuyan e Strohan contemplam sua condição de seres criados para o amor e a relação, recém recuperada e renovada.
Contra a irracionalidade da violência, apenas a irracionalidade do perdão pode ter algum poder, alguma eficácia. Porque, como a palavra mesma diz, per-doar é persistir no dom. O dom da vida foi generosamente concedido a Strohan e a Bhuyan. Rompido pela violência de um, é restaurado pelo perdão do outro que persiste na doação. E o dinamismo vital continua em movimento, sem ser lançado no país escuro do “rigor mortis”. Contemplando a maravilha deste milagre, louvamos a Deus que criou a Strohan e a Bhuyan à sua imagem e semelhança.
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.Dom Total
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