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sábado, 4 de junho de 2011

São Paulo promove a Marcha das Vagabundas

Depois da Marcha da Maconha, da Marcha da Liberdade, do Churrasco da Gente Diferenciada, e antes da Parada do Orgulho Gay, São Paulo acolhe hoje a SlutWalks, ou seja, a Marcha das Vagabundas ou Marcha das Vadias.

Cidadãs paulistanas e de outras origens saem às ruas de São Paulo, precisamente na mais paulistana das avenidas, em manifestação pacífica e irreverente, protestando contra a violência que atinge as mulheres e pelo direito da mulher se vestir como quiser, sem ser molestada pelos trogloditas de plantão.

A SlutWalks, marcha mundial contra o machismo, surgiu em Toronto, no Canadá, como protesto ao palpite infeliz de um policial canadense, que aconselhou numa palestra que as mulheres deveriam evitar se vestir como putas (slut), para não serem vítimas de estupros e outras violências sexuais.  

"Mas não é culpa dos nossos vestidos, salto alto, regatas, saias e afins que todos os dias mulheres são desrespeitadas e agredidas sexualmente, isso é culpa do machismo ainda muito presente na nossa sociedade", explica o convite do evento no Facebook.

A Marcha das Vagabundas ganhou o mundo. E acontece também em Chicago, Amsterdam, Copenhague, Londres, Sidney e Dublin.

Veja imagens da SlutWalks de Toronto e artigo de Wálter Maierovitch.

                                                   


Link do video: http://www.youtube.com/watch?v=bjSr06_D8Tk


Marcha das Vadias

Tudo começou no Canadá, ou melhor, na Universidade de Toronto. Por lá, no campus, ocorreu uma escalada de estupros a vitimar universitárias.

Então, um seminário foi organizado para o dia 24 de janeiro. Tudo  para discussões sobre medidas de segurança nos campi das faculdades. Uma das palestras ficou por conta do policial canadense Michael Sanguinetti, que seria, no Brasil, ídolo do deputado Paulo Maluf.

Michael Sanguinetti, a mostrar que estultos existem em todas as polícias do mundo, soltou, preconceituosamente, uma pérola ao tachar as universitárias como corresponsáveis pelas violências sexuais. “Evitem vestir-se como putas se não desejarem se tornar vítimas de estupros. Vocês são estupradas porque se vestem assim.”

Depois dessa manifestação preconceituosa e machista de Sanguinetti, mais de 3 mil mulheres realizaram  passeata em Toronto: a Marcha das Vagabundas (SlutWalks). Todas as universitárias saíram vestidas com muito humor. Algumas com roupas íntimas. Muitas com cartazes contendo escritos sugestivos: “Jesus ama as putas”, “Os verdadeiros homens não estupram”, “Também as putas sonham” etc. etc.

A SlutWalks virou um movimento mundial de protesto contra a violência, pelo respeito à liberdade sexual e contra o preconceito. Em fevereiro já estava no ar o site “SlutWalks”. Pelo mundo ocidental foram realizadas manifestações contra o preconceito nos Estados Unidos, Austrália, Europa e América do Sul (Argentina).

No dia 4 serão realizadas marchas em Amsterdam e Londres.

A marcha  de Boston, no dia 7 de maio passado,  foi um grande sucesso na luta por civilidade e respeito. Uma das organizadoras observou: “Historicamente, a palavra puta foi sempre usada para ferir as mulheres que reivindicam igualdade de tratamento”.

Frise-se que o estupro é um hediondo crime contra a liberdade sexual da mulher. E a liberdade de trajar não pode ser vista como justificativa para predadores sexuais.

O movimento SlutWalks é chamado no Brasil de “marcha das vagabundas”. Neste sábado, espera-se milhares de manifestantes na praça dos Ciclistas, a partir das 14 h. A marcha é organizada por três amigos e divulgada no FaceBook. Mais de 4 mil internautas já confirmaram presença.

PANO RÁPIDO. Vida longa à organização não-governamental SlutWalks e ao seu sítio de internet (http://www.slutwalktoronto.com/). Abaixo os Sanguinettes, Malufs e Bolsonaros.

Wálter Fanganiello Maierovitch

Portal Terra
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Fora, Palocci !

De trotskista a cínico arrivista.

O genial ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, que conseguiu, como consultor de empresas, a façanha de em curtíssimo tempo multiplicar por 20 a fortuna pessoal, concedeu ontem a um dos principais representantes do jornalismo de esgoto brasileiro, o Jornal Nacional, da TV Globo, uma entrevista exclusiva para explicar o "milagre da multiplicação das patacas".

Ridícula e patética. Na entrevista a seus amigos globais, o ministro em estado terminal se negou a nomear clientes e especificar serviços prestados por sua consultoria Projeto. Ou seja, continuou ludibriando o Brasil e o povo brasileiro e emporcalhando o governo da presidenta Dilma Rousseff.

Abaixo, os vídeos da entrevista, com o blablablá do genial e enrolão empresário.

A nós aqui do Abra a Boca, Cidadão! só resta dizer:

Fora, Palocci! 



Primeira parte da entrevista





Link do video: http://www.youtube.com/watch?v=2lfJbWHfcV0

Segunda parte da entrevista


Link do video: http://www.youtube.com/watch?v=iuXfpW9HoZY&feature=related

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

De Lady Gaga a Nietzsche, sobre o medo e a homofobia

O ABC! reproduz abaixo interessante artigo do blog Afinsophia, que traz um outro olhar sobre as manifestações que tiveram lugar em Brasília, no último dia primeiro, contra a aprovação de projeto de lei que criminaliza a homofobia.


Parlamentares evangélicos e católicos unidos contra a Razão praticam Homofobia, mas Lady Gaga, Spinoza e Nietzsche...



Lady Gaga, em um de seus shows, cantando e dançando sob as pernas de um de seus bailarinos, diz que ele ama garotos e garotas. É como Cristo, ama todos. Parlamentares da chamada bancada evangélica e católica, sem qualquer conhecimento sobre o tema que Lady Gaga tem conhecimento, se reuniram ontem, dia 1º, com seus fiéis, no Congresso Nacional para protestarem contra a aprovação do projeto de lei que criminaliza a homofobia, e aprovação de um projeto de decreto legislativo para suspender a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu a união estável do mesmo sexo.

O filósofo Spinoza, que viveu no século XVII, e logicamente não conheceu Lady Gaga, mas que teve um entendimento símile ao da cantora/dançante, e que por isso foi excomungado pela mesma crença que os malafaias imaginam defender, disse que o mais baixo grau de inteligência é o responsável pela criação no homem de um mundo cheio de medo e ódio, com profunda distância do mais alto grau de inteligência que é produzido pela razão.

O que Spinoza queria dizer é que aprisionados pela imaginação fabulosa saída do mais baixo grau da inteligência, certos homens tornam-se prisioneiros de suas próprias superstições, que os colocam na condição suprema de escravos, auxiliares diretos dos tiranos, que também se encontram fabulados nesses mais baixos graus de inteligência.

É aí que se encontram os disangélicos. Os que carregam consigo a má mensagem, a mensagem da dor, do ressentimento, da amargura, rancor, julgamento, cobrança, dívida, todos os afetos que mostram a condição triste de quem vive no medo produzido pela imaginação fabulosa, como diz o filósofo Nietzsche. Nisso a disposição anêmica de querer julgar os homoafetivos como se fossem os mais próximos da inteligência e vontade de Deus. Na verdade, seus atos discriminadores mostram o quanto se rivalizam com Ele, visto, que como bem disse Lady Gaga, Ele ama todos. E por incrível que pareça, até os disangelistas. Certo que possivelmente com ressalvas. Ressalvas do tipo: “Se queres entrar no Reino do Senhor, muda tua consciência. Entra primeiro no Reino da Razão. Posto que se te dei a Razão é para usá-la. Ou será que não sabes que também és racional?”

No mais, o filósofo Spinoza, que afirmou que a grande importância da Bíblia está em ela ser um tratado político do Estado Hebreu, portanto, preenchido de enunciações racionais e não fabulosas, apesar das fantasias milagrosas, sintetizando a escolha que os disangelistas fizeram em se tornar escravos, alimentos dos tiranos, disse: “O medo é a origem, o alimento e permanência da superstição”. É essa a arma dos que perseguem os homoafetivos: o medo. E um dos piores medos: o medo da existência do outro. Daí essa perseguição paranóica exacerbada como se os homoafetivos fossem destruir o mundo. Daí, essa moral irracional que pretende anular o Estar-Ontológico do outro. E tudo em nome de Deus.

Que blasfêmia! Ah, se Deus fosse vingativo! Mas não é. Se assim fosse não seria Deus, seria um tirano. Deus não trama vingança, mesmo vendo que esses disangelistas querem usurpar seu trono, pretendendo diante dos incautos serem mais semelhantes a Ele, quando pela própria recusa do outro, o próximo, confirmam que são o simulacro. O que finge ser o que não é.
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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Presidenta Dilma lança "Brasil Sem Miséria"

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A presidenta Dilma Rousseff lançou hoje no Palácio do Planalto, em Brasília, o Plano Brasil Sem Miséria, ambicioso programa que pretende romper a linha da miséria, retirando 16,2 milhões de brasileiros da extrema pobreza, em sua maioria do Norte e Nordeste.

O plano está vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, comandado pela ministra Tereza Campello, e será implementado por uma Secretaria Extraordinária dirigida pela Dra. Ana Fonseca.

O lançamento do Brasil Sem Miséria teve dois pontos altos: o discurso de improviso da sra. Marize Alvez Prazeres Rodrigues, presidenta da Cooperativa de Costura de Osasco, São Paulo, e o discurso belíssimo e emocionado, também de improviso, da presidenta Dilma.


Fotos do Dia
               "De Presidenta para Presidenta"                            Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

 
Com simpatia e humildade, dona Marize, aplaudida de pé pelas autoridades presentes, deu um carinhoso testemunho sobre a importância dos programas sociais do governo para os despossuídos, afirmando estar ali falando "de presidenta para presidenta"... Por sua vez, a presidenta Dilma, entre outras tantas referências felizes, lúcidas e emocionadas, lembrou: "Nossos pobres já foram acusados de tudo, inclusive de serem responsáveis pela própria pobreza..." Abaixo os dois vídeos.

O testemunho da presidenta Marize

 

 
O discurso da presidenta Dilma

 




Os números do Brasil Sem Miséria

Retirar 16,2 milhões da extrema pobreza

Renda familiar de até R$ 70 por pessoa

59% do público alvo está no Nordeste, 40% tem até 14 anos e 47% vivem na área rural

Qualificar 1,7 milhão de pessoas entre 18 e 65 anos

Capacitar e fortalecer a participação na coleta seletiva de 60 mil catadores até 2014

Viabilizar a infraestrutura para 280 mil catadores e incrementar cem redes de comercialização

Aumentar em quatro vezes, elevando para 255 mil, o número de agricultores familiares, em situação de extrema pobreza, atendidos pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)

Equipe de 11 técnicos para cada mil famílias de agricultores

Fomento semestral de R$ 2,4 mil por família, durante dois anos, para apoiar a produção e a comercialização excedente dos alimentos

253 mil famílias receberão sementes e insumos

600 mil famílias terão cisternas para produção

257 mil receberão energia elétrica

Construir cisternas para 750 mil famílias nos próximos dois anos e meio
Implantação de sistemas complementares e coletivos de abastecimento para 272 mil famílias

Bolsa Verde: R$ 300 para preservação ambiental

Bolsa Família incluirá 800 mil famílias

Mais 1,3 milhão de crianças e adolescentes incluídos no Bolsa Família

                                                                           Foto: Roberto Stuckert Filho/PR


Fontes: Blog do Planalto e Secretaria de Imprensa da Presidência da República








 

Sobre homens e sábios

Nos tempos em que o ter suplantou o ser, o texto abaixo poderá provocar um certo estranhamento a alguns. Mas quem sabe um pouco de alegria e cumplicidade a outros tantos...


Sobre Simplicidade e Sabedoria*

Rubem Alves**


Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.

No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.

Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas joias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma joia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única.

Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, "as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar". O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: "Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’" Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o "muitos" é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: "De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?" (Mateus 16.26).

O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: "Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne" (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: "Cheguei, finalmente, ao lar". Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa.

Diz o Tao-Te-Ching: "Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa".

Diz T. S. Eliot: "Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?"

Diz Manoel de Barros: "Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha".

Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem dos saberes, diante da multiplicidade, "precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço". Mas o sábio está à procura das "coisas dignas de serem conhecidas". Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: "De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?" E assim, depois de meditar, escolhe um...

A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.

O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de "Resta..." Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. "Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas..." "Resta essa capacidade de ternura..." "Resta esse antigo respeito pela noite..." "Resta essa vontade de chorar diante da beleza...". Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.

As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: "Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás..." Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.

Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.

Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: "Papai, eu gosto muito de você!"; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando a cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: "Veja como estão agradecidas!" Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas.

Diz Guimarães Rosa que "felicidade, só em raros momentos de distração..." Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: "É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai..." Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma, p. 9.)



* Em A casa de Rubem Alves.
** Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Unicamp.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

São Paulo: cidadãos fazem "Desinauguração de Praça"

Depois da "insurreição" de duas semanas atrás, quando a cidadania organizada promoveu no charmosíssimo bairro de Higienópolis o mais que bem-humorado "Churrasco da Gente Diferenciada", com direito a farofa, refrigerante popular e muito pagode, para defender a construção de estação do metrô no coração do bairro, evento que correu solto nas proximidades de um dos ícones da granfinagem paulistana, o Shopping Higienópolis, chegou a vez do tradicional bairro da Lapa, mais precisamente a Vila Anglo, dar continuidade à "revolução paulistana"...

Os ventos libertários que começaram a soprar no norte da África e no Oriente Médio, ao que parece, finalmente chegaram por aqui, trazendo sementes de coragem e insatisfação aos corações e mentes.

Alvíssaras!

O povo brasileiro, que em geral não sabe a força que tem, pode "pegar gosto pela coisa"... Tomara!

Cidadãos de boa vontade, abram a boca, protestem, denunciem, reivindiquem... com bom humor, educação, cordialidade, fraternidade e alegria.

Assumam de uma vez seu papel extraordinário, na cidade e no mundo.

Como gritávamos estudantes da USP nas passeatas pelas ruas de São Paulo nos anos 70, contra os ditadores de plantão:

"O Povo, Unido, Jamais Será Vencido!"...




Praça paulistana é "desinaugurada"




São Paulo – Moradores de vários bairros da zona oeste de São Paulo desautorizaram publicamente a prefeitura de São Paulo a considerar pronta para o uso pela comunidade a praça Paulo Schiesari, na Vila Anglo-Brasileira, zona oeste da capital paulista. O local está em reforma desde 2009 e já consumiu R$ 80 mil (R$ 60 mil para reforma e R$ 20 mil para iluminação).

O ato, chamado de "Desinauguração da Praça", foi promovido no domingo (29) pelo movimento Boa Praça, com moradores de bairros próximos, como a própria vila, a Lapa e Alto de Pinheiros. A administração municipal não havia informado data para a inauguração da obra.

Ricardo Ferraz, um dos idealizadores da ação, contesta o trabalho da prefeitura. “Hoje (domingo) resolvemos 'desinaugurar' a praça, usando bom humor para protestar”, reforça. Cerca de 400 pessoas passaram pelo local.

“Há duas semanas a praça estava cheia de entulho e mato alto; já nem se notava a reforma, mas talvez por causa do evento (inauguração) limparam tudo nesta semana”, diz Cecília Lotufo, outra idealizadora do movimento.

Segundo Ferraz, o projeto previa desde a desapropriação do terreno baldio vizinho à praça até a reforma de escadas, entradas, iluminação e substituição dos brinquedos. “Mas só reformaram os limites do parquinho, readequaram o piso do patamar inferior da praça e, não se sabe por que refizeram todo calçamento ao redor da praça, que não era necessário e nem estava previsto no projeto”, diz.

Há 35 anos morando perto da praça, Maria Aparecida Martins Brandão sustenta que a instalação feita à época no governo de Luiza Erundina (1989-1992) agora está suja e perigosa. “Aqui é ponto de drogas, o terreno baldio sempre tem lixo, por isso não tenho coragem de trazer meus netos para brincarem aqui”,afirma.


Ativismo desde criança

O Movimento Boa Praça começou no aniversário de quatro anos da pequena Alice Lotufo, que pediu que a comemoração tivesse como palco a praça, situada nas proximidades de casa. Cecília Lotufo, a mãe, explicou à filha que isso não seria possível, pois a praça estava abandonada e os brinquedos do parquinho, quebrados.

“Ela me disse então para a gente começar uma reforma na praça”, diz Cecília, que aceitou o desafio da filha. “Mas expliquei que se a reforma fosse feita ela não ganharia presentes.” A pequena Alice aceitou a contraproposta e a reforma começou. “Mas pouco tempo depois tudo voltou a ser como antes, foi então que entendi que não conseguiríamos resolver esse tipo de problema a não ser que a ação fosse contínua e que a comunidade participasse”, conta Cecília.

O movimento apartidário tem reuniões semanais às segundas-feiras para discutir os problemas da região. No
site Boa Praça, eles divulgam mais detalhes dos encontros. “Eventos como o 'churrasco da gente diferenciada', ou esta 'desinauguração' são verdadeiras audiências públicas, formas inovadoras de convocar as pessoas a participar das tomadas de decisão e exigirem atitudes do governo”, diz Paulo Salvador, diretor da Rede Brasil Atual. “Para uma grande cidade como São Paulo, é impraticável essa política do poder e das tomadas de decisões serem feitas apenas pela prefeitura.”


Ecologia e arte

Durante a "Desinauguração da Praça" foram realizadas uma feira de produtos orgânicos e uma oficina de produtos de limpeza ecológicos. O ato acabou com a exibição de uma sessão de cinema, organizada pelo
Cine B, projeto do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região em parceria com a Brazucah Produções. Brasil de FatoCine B, projeto do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região em parceria com a Brazucah Produções. Brasil de Fato

Do blog O Terror do Nordeste


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terça-feira, 31 de maio de 2011

Mídias sociais, praças e ruas: o outro lado do poder

Oriente Médio, Norte da África, capitais europeias, cidades brasileiras...

Alguma coisa significativa acontece longe dos tradicionais, sisudos e fechados espaços que abrigam o poder.

Da Praça Tahir no Cairo de Mubarak à frente do Shopping Higienópolis na São Paulo de Alkmin/Kassab... cidadãos do mundo todo abrem a boca para expressar seu descontentamento com as velhas e apodrecidas estruturas.

Nas mídias sociais e logo em seguida nas manifestações temperadas com ironia, humor, alegria, cordialidade e espírito fraternal, que ganham praças e ruas.


A arrogância aristocrata dá lugar à irreverência pluralista.

Cidadania planetária.

Exercitada na virtualidade. E em espaços abertos de ruas, parques, praças...


 A imprensa e o fenômeno mundial das manifestações em praças públicas

 Carlos Castilho no Observatório da Imprensa



A imprensa precisa começar a olhar para o outro lado do poder. Não apenas aqui no Brasil, mas em todo o mundo. É que são cada dia mais claros os sinais de que algo está acontecendo fora dos palácios, parlamentos, ministérios, tribunais, sedes partidárias, organizações empresariais e sindicais. Está acontecendo mais precisamente nas praças públicas, locais que voltam a ser o ponto de encontro de multidões, em plena era das relações virtuais via internet.

O caso mais recente foi o da praça Puerta del Sol, em Madri, onde um acampamento de jovens antecipou uma fragorosa derrota do partido socialista espanhol nas eleições de domingo. O PSOE acabou pagando o preço de uma manifestação que era contra todos os partidos, para expressar o cansaço e a desilusão dos jovens em relação a uma estrutura política e econômica da qual eles se consideram párias.

A Puerta del Sol é a reedição mais recente do mesmo fenômeno que transformou a praça Tahir no epicentro da rebelião de jovens egípcios que levou à derrubada do presidente Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011. Três anos antes, outra praça ficou mundialmente famosa por conta de protestos contra a quebra do sistema bancário da pacata república europeia da Islândia.

Em outubro de 2008, um jovem músico pegou o seu violão e foi para a praça em frente ao parlamento islandês, em Reykjavík, num sábado, e convidou os transeuntes para expressar, cantando, seu descontentamento com as consequências da quebra do principal banco do país, o Kaupthing.

No primeiro dia, o número de participantes não passou de 20 curiosos. No sábado seguinte, o teimoso Hördur Torfason já reunia 200 participantes e, três fins de semana mais tarde, já era uma pequena multidão. Aí o caso se tornou nacional, colocando o governo islandês de joelhos diante da gravidade do protesto.

Se recuar mais tempo poderemos chegar aos acontecimentos da praça da Paz Celestial, em Pequim, em 1989, antes da internet. Mas o que nos interessa aqui mostrar é como a era digital está alterando a forma como o descontentamento político surge aos olhos da opinião publica — e como a imprensa tem uma enorme dificuldade em detectá-lo nos seus primeiros estágios.

Em meados da primeira década do seculo 21, quando os jovens do mundo inteiro estavam fascinados pela descoberta do telefone celular como arma política, surgiram os primeiros protestos rotulados de smart mob (multidões inteligentes), pelo pesquisador norte-americano Howard Rheingold.

O caso mais clássico foi o ocorrido nas Filipinas em 2002, quando 900 mil jovens vestidos de preto usaram torpedos por celular para organizar, em menos de 24 horas, uma manifestação na praça em frente ao santuário da Virgem Maria, na área central de Manila. Eles exigiam a derrubada do presidente Joseph Estrada, cujo governo não resistiu a quatro dias de protestos.

Mas o caso mais curioso da nova tendência, mencionado no livro The Virtual Community (Comunidades Virtuais, de Howard Rheingold), ocorreu na Europa Central, numa antiga república socialista onde um grupo de jovens resolveu protestar contra o custo de vida convocando uma manifestação em que eles caminhariam em círculos na praça central da cidade, chupando picolé.

Nenhum cartaz e tudo em silêncio, mas os quase três mil jovens que aderiram ao protesto deixaram perplexas as forças da repressão e provocaram reuniões de emergência das autoridades. A manifestação tornou-se um fato político nacional não pelo seus slogans, mas pela forma. A criatividade dos jovens deixou o governo sem ação porque este esperava tudo, menos o uso do picolé como arma política.

As praças passaram a ser vistas pelos jovens como o ambiente presencial que completa o relacionamento virtual que eles criam entre si por meio das redes sociais como Twitter, Facebook e outros. O protesto é combinado pela internet e aparece fisicamente nas praças, mas eles são apenas o sintoma de algo mais amplo e que precisa ser levado em conta pela imprensa.

Estamos diante do surgimento de um novo tipo de expressão da vontade popular que não passa mais pelos mecanismos tradicionais, sejam eles legais ou à margem da lei. Os jovens espanhóis da Puerta del Sol não eram contra este ou aquele partido, mas contra todos eles. Não estavam interessados em votar e pouco lhes importava o resultado do pleito, já que não esperavam nenhuma mudança significativa no poder. Sua desilusão e desesperança estavam expressas em cartazes cheios de ironia e humor.

Mas estão longe de serem niilistas. Eles conseguiram transformar a antipolítica em sua forma política de expressão. E é isso que os torna protagonistas de um processo político inovador que revela também como a imprensa tornou-se escrava do jogo de poder tradicional.

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