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terça-feira, 17 de maio de 2011

O horror glamurizado de um jornalismo sem jornalistas

Nietzsche online


29/04/2011

O fantástico da Internet é que ela permite que as narrativas sobre os acontecimentos se deem em concomitância com estes – ou quase isso.  Guardadas as devidas proporções de tempo, nos anos de 1870 Nietzsche observou essa característica dos “tempos modernos”, referindo-se especificamente aos jornais. Ele comentou que nem bem uma guerra havia produzido seus primeiros mortos e os cadáveres apareciam nos jornais como história. E lembrou, é claro que em forma de chiste, que os periódicos não poderiam dizer a verdade porque eles sempre tinham mais ou menos o mesmo número de páginas, ao passo que o número de acontecimentos sempre estaria variando. Nietzsche escreveu isso em aforismos e, também, em um texto que os scholars qualificam como “de juventude”, uma das Extemporâneas.

Naquela época, Nietzsche avaliou que tal prática acentuava ainda mais um clima de época: a predominância do historicismo. (1) Nada teria mais presente. Tudo ganharia uma conotação histórica tão logo viesse a ocorrer. Aos poucos, então, haveria um número cada vez maior de pessoas predispostas a antes viver a história de outros, como espectadores, que viver suas próprias vidas. O “mundo da hegemonia das imagens (instantâneas)”, como é possível denominar o nosso mundo hoje, foi tomado por Nietzsche, há mais de cem anos, como uma verdadeira vítima do historicismo e, enfim, da “cultura filisteia”.

A cultura filisteia, como Nietzsche a viu e a caracterizou, viria como um subproduto negativo do historicismo. Seria a transformação da cultura em um tipo de “sobrecasaca burguesa”, um capote de frio que é vestido para se locomover ao serviço, mas não para ficar em casa. Um exemplo disso, citado por Nietzsche, foi o do filósofo que, transformado em funcionário público – em professor –, nada teria mais a fazer nas suas aulas senão contar a história da filosofia, entupido de erudição, mas incapaz de assumir qualquer das doutrinas ensinadas como algo para a condução de sua própria vida. É claro que o bom professor de filosofia não seria o real filisteu da cultura, aquele que, por exemplo, compra livros para ter uma biblioteca, e não para lê-los e segui-los. Mas, uma coisa atrairia a outra: uma universidade baseada na ideia de que a vida só precisa ocorrer para ser rapidamente registrada em história, já não seria uma universidade em favor do ensino e da pesquisa e, sim, um campo de extensão do jornalismo – um jornalismo irreflexivo à medida que aturdido pelo excesso de informação.

É claro que, com algum bom senso, podemos dizer que vivemos hoje esse mundo denunciado por Nietzsche. Quem duvidaria disso? No entanto, nosso filósofo, uma vez aqui hoje, não deixaria de ter seu Facebook, seu twitter e seu blog. Para um intelectual como Nietzsche, predisposto aos escritos aforismáticos e a certo gosto pelas metáforas, pela alusão às imagens, esses instrumentos não ficariam encostados. Nietzsche foi um conservador, é claro, mas não um passadista tolo. Ele tinha lá sua máquina de escrever e, de modo algum, achava que deveria dispensá-la em favor da escrita cursiva. Sem dúvida, Nietzsche, hoje, estaria longe de ter de se educar em programas governamentais de “inclusão digital”, que abocanharam vários professores universitários no Brasil. Mas, vivo hoje, ele saberia muito bem que aquilo que foi denunciado por ele há mais de um século, agora, é antes a regra para todos, e não apenas um clima posto somente entre as elites informadas. Mais que qualquer pessoa, ele entenderia a fundo a natureza de nossa época.

Todos nós sabemos bem que, dentro de qualquer evento, revolucionário ou corriqueiro, de protesto ou de entretenimento, moral ou exclusivamente estético, não raro as pessoas nem mesmo se preocupam em fazer o evento acontecer e, sim, em colocar seus celulares em disposição de registrar o momento. Os grandes eventos se tornam “maquinais”, eles têm um caminho próprio e são desencadeados e levados adiante por poucos, bem assessorados por máquinas (bandas eletrônicas ou dispositivos com telões e palavras de ordem vindas de situações já gravadas), e as pessoas, em meio ao que ocorre, se fotografam ou se filmam e de imediato distribuem tais imagens pela Internet. Outros, que continuam trabalhando na linha de produção, há milhares de quilômetros, olham de relance seus próprios celulares ou, então, telões ou pequenas TVs, e “ficam sabendo” de tudo. Tudo nem é mais informação. Tudo é história. Ou seja, na época do “fim da história” o que ocorre é a saturação da história. Um casaco continua a ser produzido na linha de produção de uma fábrica brasileira ao mesmo tempo em que uma jornalista é mostrada na tela sendo violentada em uma multidão no Egito e, também ao mesmo tempo, Cristiano Ronaldo aparece para fazer uma gracinha sem graça em campo. Todos são jornalistas de si mesmos. Antes passar a imagem, para que alguém tome providências (que nunca virão, pois do outro lado todos só assistem), ou para que alguém “também curta”, que intervir na situação, para o bem ou para o mal.

A regra de conseguir o “eu estava lá” só vale se eu registro no celular o evento. Mas, antes que registrar, o que preciso fazer é disponibilizar a imagem na Internet imediatamente, para que o mundo diga que “eu estou lá”. Caso o mundo não possa, instantaneamente, me ver “lá”, eu mesmo não saberei onde estou. Então, o celular em punho é minha atividade. Posso estar num baile, dançando com a homenageada (ou uma moça qualquer), mas um dos braços não está nela e, sim, esticado, servindo de apoio para o celular que nos transmite dançando para o mundo (ou quase dançando, pois é estranho dançar com um braço esticado). Isso sem contar as inúmeras cenas de sexo que são jogadas instantaneamente para a Internet, cenas que acabam não raro ocorrendo com dificuldade, caso eu não pare de acertar o celular, tentando achar o meu melhor ângulo de coito.

Walter Benjamin escreveu que os que voltavam da Primeira Guerra Mundial não tinham histórias para contar, diferente dos que haviam voltado das guerras anteriores. A Primeira Guerra havia sido a guerra das máquinas, da morte sem glória, do puro extermínio, do desaparecimento até mesmo dos restos mortais. A Primeira Guerra já foi uma guerra onde a propaganda e o jornais, criando a história no momento mesmo de sua ocorrência, ocupou o espaço das histórias antes que elas pudessem ser contadas pelos que seriam seus protagonistas. E elas não foram contadas, depois que os soldados voltaram. Eles haviam tido o experimento da guerra, mas não a experiência da guerra, não a vivência. Nossas guerras atuais mostram isso. Quem volta não conta a história, pois o que se faz é ligar o celular de modo a deixar que, em qualquer lugar, cada um possa ver o horror instantâneo e, portanto, se acostumar com todo e qualquer horror.

Walter Benjamin foi o primeiro a ver que esse tipo de mundo era aquele de seu tempo, em que uma foto que apresenta horrores pode ser vista por alguém que, enfim, exclama: “nossa, que linda foto”. O horror não mais choca, pois tudo tem um caráter estético, tudo é para informar e ser objeto de deleite ou de julgamento moral apressado – uma época em que a denúncia do preconceito só é regra porque o preconceito é o que há de mais atual. Nada é vivo, tudo é só imagem. Nada é para ocorrer, tudo é para ver. Um clima de hiperhistoricismo se consubstancia por meio de um clima de abundância jornalística. Um jornalismo sem jornalistas, só com repórteres – todos os nós. Conectadíssimos!

Essa ideia de que todos nós seríamos Big Brothers de nós mesmos e que, além disso, faríamos tudo se transformar em espetáculo, se realizou. Ela parece ser positiva para nós. Mas, quando vemos Nietzsche analisá-la em sua forma embrionária, podemos perceber sua essência. Só assim a entendemos.

Marx nos ensinou a ver o que ocorreria no século XX e, é claro, o que continua ocorrendo no século XXI quanto às revoluções e guerras. Mas Nietzsche, logo em seguida de Marx, nos deu as pistas para entendermos nossas atitudes no interior desses movimentos, como estamos fazendo agora. Marx foi o filósofo que mostrou como poderia ser o conteúdo das imagens desse nosso tempo. Nietzsche foi o filósofo que mostrou como poderia ser a forma das imagens desse nosso tempo. E com um detalhe, em nosso tempo, às vezes a forma faz o conteúdo! Marx tinha certeza que a modernização continuaria a fazer as coisas mais sólidas se desmancharem no ar. Nietzsche intuiu que cada etapa dessas coisas sólidas, uma vez se desmanchando no ar, seria notícia em cada celular.

© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr. Filósofo, escritor e professor da UFRRJ.
(1)    Ghiraldelli Jr, P. A aventura da filosofia – de Heidegger a Danto. Editora Manole: Barueri-SP, 2011, vol. II


www.ghiraldelli.pro.br

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Celebração da Lua Cheia Full Moon Celebration

Nesta terça-feira, 17, às 8:10 h, hora de Brasília, estaremos vivenciando um momento especial para a humanidade, o da mais importante Lua Cheia do ano, que coincide com um alinhamento planetário raro, quando sutis e poderosas energias cósmicas incidem sobre o planeta.

Somos o que pensamos. Nossos pensamentos moldam o mundo.

Independente de religiões, convidamos todos os que se sentem cidadãos planetários a participar ativamente desta celebração, mentalizando neste dia LUZ para este planeta tão conflituado e projetando em suas mentes e em seus corações PAZ entre todas as pessoas e entre todas as nações.

Que a Paz prevaleça na Terra!




Video: http://www.youtube.com/watch?v=sL3p6ey9hrw

Música: Mantra da Compaixão "Om Mani Padme Hum" (Salve a Joia no Lótus) / Tibetan Incantations

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Olhos para ver, ouvidos para ouvir

A complicada arte de ver

Rubem Alves*

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria!

Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.

De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.

Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”.

Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.

“Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”.

Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.

Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.

Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…


*Educador e escritor.

Texto originalmente publicado no caderno “Sinapse”, Folha de S. Paulo, em 26/10/2004.

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domingo, 15 de maio de 2011

Direitos Humanos no Brasil, segundo a Anistia Internacional

Não é nada confortável a situação dos direitos humanos no Brasil. Pelo contrário. É preocupante. O último relatório anual da Anistia Internacional, divulgado na quinta-feira, 12, em Londres, mostra que apesar dos avanços econômicos e sociais no governo Lula, graves violações de direitos humanos continuam acontecendo diariamente, vitimando sobretudo os despossuídos.

O Informe 2011 - O Estado dos Direitos Humanos no Mundo, referente a 2010, último ano do governo Lula, aponta violações de direitos humanos no sistema carcerário, na luta pela terra, na ação policial, contra populações indígenas, vitimando defensores de direitos humanos e outros.

Leia mais abaixo.


INFORME 2011 - CAPÍTULO SOBRE O BRASIL


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Apesar dos avanços consideráveis na redução da pobreza,
o país permaneceu marcado por profundas desigualdades.                            

                       
BRASIL
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL


Chefe de Estado e de governo: Luiz Inácio Lula da Silva
Pena de morte: abolicionista para crimes comuns
População: 195,4 milhões
Expectativa de vida: 72,9 anos
Mortalidade de crianças até 5 anos (m/f): 33/25 por mil
Taxa de alfabetização: 90 por cento
 
   
As comunidades que vivem em situação de pobreza continuaram a enfrentar uma série de abusos dos seus direitos humanos, como despejos forçados e falta de acesso a serviços básicos. Apesar de algumas cidades registrarem redução na taxa de homicídios, o índice de violência criminal e policial permaneceu elevado nas favelas, agravando ainda mais a situação de desigualdade. Tortura, superlotação e condições degradantes continuaram a caracterizar os sistemas penitenciários adulto e juvenil. A falta de controle efetivo sobre o setor resultou em distúrbios que provocaram diversas mortes. Povos indígenas, quilombolas e trabalhadores sem terras enfrentaram ameaças, intimidações e violências em decorrência de disputas por terra. Defensores dos direitos humanos continuaram correndo perigo, tendo dificuldades para obter proteção do Estado.

  
Informações gerais

Ao fim do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil desfrutava de crescimento econômico, de estabilidade política e de uma presença de destaque no cenário internacional. Apesar dos avanços consideráveis na redução da pobreza, o país permaneceu marcado por profundas desigualdades. Em outubro, prometendo continuidade, Dilma Rousseff venceu as eleições presidenciais no segundo turno. Antes de tomar posse, em janeiro de 2011, ela declarou que a erradicação da miséria, a segurança pública e a saúde seriam prioridades de seu governo.Em maio, o Presidente Lula aprovou uma versão modificada do terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos. A remoção das referências à descriminalização do aborto, à mediação de conflitos agrários e aos crimes cometidos durante o regime militar (1964-85) foi motivo de críticas.Em outubro, numa decisão inédita, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) aprovou a federalização do caso do assassinato de Manoel Mattos, ex-vereador e ativista de direitos humanos. Foi a primeira vez que o STJ deferiu o deslocamento de competência da esfera estadual para a federal, desde que uma emenda constitucional de 2004 passou a permitir que casos graves de violações de direitos humanos fossem transferidos para a Justiça Federal. Manoel Mattos havia denunciado as atividades de grupos de extermínio que atuavam na divisa entre os estados da Paraíba e de Pernambuco. As investigações sobre o assassinato foram prejudicadas por ameaças às testemunhas.

Em fevereiro, mesmo diante da forte oposição de comunidades indígenas e rurais, de ambientalistas, de ativistas de direitos humanos e do Ministério Público, o controverso projeto de construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, estado do Pará, recebeu a licença ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA). ONGs locais argumentaram que o projeto da represa de Belo Monte poderia desalojar milhares de famílias e alagar uma vasta área de território indígena tradicional. Em outubro, o governo federal deu um passo positivo ao emitir um decreto prevendo a criação de um cadastro socioeconômico para qualificação e registro público da população atingida por barragens.
 
Em fevereiro, o Brasil aprovou uma emenda constitucional que acrescenta o direito à alimentação ao conjunto dos direitos econômicos, sociais e culturais já estabelecidos. Em novembro, o país ratificou a Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados. Porém, o Brasil não reconheceu a competência do Comitê sobre Desaparecimentos Forçados para receber comunicados provenientes ou em nome de vítimas ou Estados, quando as autoridades nacionais deixam de cumprir suas obrigações.
  
Segurança pública
  
A violência dos grupos criminosos e da polícia continuou sendo um grave problema nas maiores cidades do país. Em um relatório de seguimento sobre o progresso do Brasil, o relator especial da ONU sobre execuções sumárias, arbitrárias ou extrajudiciais afirmou que “os cidadãos, principalmente os moradores de favelas, continuam sendo reféns da violência dos grupos criminosos, das milícias e da polícia” e que as “execuções extrajudiciais ainda são amplamente praticadas”.
 
No Rio de Janeiro, Unidades de Polícia Pacificadora foram instaladas em um maior número de favelas, com a consequente diminuição da violência nesses locais. Entretanto, nas áreas não contempladas pelo projeto, a violência policial continuou generalizada, inclusive com o registro de vários homicídios. Segundo dados oficiais, em 2010 a polícia matou 855 pessoas em circunstâncias descritas como “autos de resistência”.
 
Em novembro, numa reação à violência dos grupos criminosos, que incendiaram mais de 150 veículos e atacaram bases policiais, a polícia montou diversas operações em diferentes pontos da cidade. No período de uma semana, mais de 50 pessoas foram mortas nos confrontos entre policiais e traficantes. A Polícia Civil matou sete pessoas em uma única operação na favela do Jacarezinho. Na comunidade de Vila Cruzeiro, uma menina de 14 anos foi morta dentro de casa ao ser atingida por uma bala perdida. No final daquela semana, mais de 2.600 homens, apoiados pelo Exército e pela Marinha, efetuaram uma operação de grandes proporções no Complexo do Alemão, um conjunto de favelas na zona norte da cidade, onde o Comando Vermelho, a maior facção do tráfico do Rio de Janeiro, havia estabelecido sua base de atuação. Em pouco tempo, todo o complexo havia sido dominado e, no final do ano, enquanto aguardava a possível instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora, o local estava sob controle do Exército.
  
Milícias e grupos de extermínio 

As milícias (grupos parapoliciais armados) continuaram a controlar muitas áreas do Rio de Janeiro. Grande parte das recomendações da CPI das Milícias, de 2008, ainda não havia sido implementada no fim de 2010.

Em setembro, Leandro Baring Rodrigues foi morto a tiros quando dirigia seu automóvel. Um ano antes, ele presenciara o assassinato de seu irmão, Leonardo Baring Rodrigues, que havia testemunhado contra as milícias no caso de uma chacina de sete pessoas ocorrida em 2008 na favela do Barbante.
 
Grupos de extermínio, muitos deles formados por agentes policiais fora do horário de serviço, continuaram a operar em diversos estados. Em agosto, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), um órgão federal que investiga violações de direitos humanos, concluiu que os grupos de extermínio, geralmente contratados por empresários locais para ameaçar, torturar e matar pessoas que cometem crimes de baixa gravidade, atuavam com impunidade no estado do Ceará.
 
Mais de 30 moradores de rua foram mortos em Maceió, capital do estado de Alagoas. Promotores de justiça sugeriram que os crimes poderiam ser uma tentativa de grupos “justiceiros” de fazer uma “limpeza” na cidade. As investigações transcorreram com grande lentidão. Até novembro, somente quatro inquéritos haviam sido concluídos e encaminhados ao Ministério Público.
 
Em São Paulo, houve uma série de chacinas cujos responsáveis estariam ligados a grupos policiais de extermínio e a grupos criminosos. Segundo dados oficiais, entre o início de janeiro e o final de setembro, 240 pessoas foram mortas em 68 diferentes incidentes ocorridos na capital e na grande São Paulo.
  
Tortura e outros maus-tratos/condições prisionais
  
A tortura foi amplamente praticada no momento da prisão, nas celas policiais, nas penitenciárias e no sistema de detenção juvenil.
 
Em abril, um motoboy foi torturado até a morte dentro de um prédio da Polícia Militar em São Paulo. Ele foi chutado repetidamente no rosto e espancado com cassetetes e correntes por um grupo de policiais, tendo morrido em decorrência da agressão. Doze policiais foram indiciados por tortura e homicídio.
 
As prisões continuaram extremamente superlotadas, com os internos mantidos em condições que configuravam tratamento cruel, desumano ou degradante. As autoridades perderam o controle efetivo de muitas unidades, situação que provocou uma série de rebeliões e de homicídios.
 
Em outubro, facções rivais mataram 18 prisioneiros em duas penitenciárias do Maranhão. Quatro foram decapitados. Os distúrbios começaram quando os presos reclamaram da superlotação, da péssima qualidade da comida e da falta de água.
 
Em novembro, depois das críticas recebidas da Comissão Estadual de Direitos Humanos e de ONGs locais, as autoridades estaduais do Espírito Santo resolveram fechar o Departamento de Polícia Judiciária de Vila Velha. O local abrigava uma quantidade de presos oito vezes maior que sua capacidade máxima e vinha sendo objeto de diversas denúncias de tortura. O polêmico uso de contêineres de navio para encarcerar prisioneiros, verificado em diversas penitenciárias, também foi suspenso. Ainda assim, as inspeções realizadas pelo Conselho Nacional de Justiça apontaram a persistência de vários problemas, como superlotação e condições insalubres, principalmente no Presídio Feminino de Tucum.
 
No fim do ano, projetos para uma lei federal que introduziria mecanismos preventivos em conformidade com o Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura – ratificado pelo Brasil em 2007 – permaneciam parados na Casa Civil. Enquanto isso, dois estados, Alagoas e Rio de Janeiro, aprovaram legislações, respectivamente em maio e junho, com vistas a implementar o Protocolo Facultativo.
 
Direito à moradia adequada
  
Centenas de pessoas morreram e dezenas de milhares ficaram desabrigadas em consequência das inundações que atingiram os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas e Pernambuco no primeiro semestre do ano. As enxurradas trouxeram à tona a situação inadequada da maior parte das moradias, evidenciando a negligência das autoridades em lidar com riscos potenciais claramente identificáveis.
 
Outras comunidades tiveram que enfrentar ameaças de despejos em função dos projetos de infraestrutura planejados para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016.
 
Em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, mais de 100 pessoas morreram quando um deslizamento de terra devastou uma área da favela do Morro do Bumba. A favela havia sido construída sobre um depósito de lixo e, apesar das inúmeras advertências sobre a instabilidade e a toxicidade do terreno, já apontadas num estudo de 2004 da Universidade Federal Fluminense, nada foi feito para diminuir os riscos ou para realocar os moradores. No fim do ano, sobreviventes das enchentes, inclusive os residentes do Morro do Bumba, estavam sendo abrigados em condições extremamente precárias em dois quartéis desativados. Eles disseram à Anistia Internacional que, mais de seis meses após ficarem desalojados, as autoridades municipais não haviam oferecido nenhuma alternativa de alojamento para as famílias, e que o aluguel social que estavam recebendo era insuficiente e frequentemente atrasava. Após meses de ameaças, às 9 horas da manhã do dia 22 de outubro, funcionários da subprefeitura, acompanhados por policiais civis e militares fortemente armados, começaram a demolir com escavadeiras um distrito comercial que funcionava havia mais de 20 anos na comunidade da Restinga, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro. Cinco lojas foram destruídas para dar lugar à construção da via expressa Transoeste. A comunidade não recebeu nenhum aviso prévio alertando sobre a intervenção.

Moradores da favela do Metrô, próxima ao estádio do Maracanã, no Rio, receberam várias ameaças de despejo. Em junho, sem que os moradores fossem informados e sem que houvesse qualquer consulta ou negociação, funcionários da prefeitura marcaram com spray as casas que seriam demolidas. Eles avisaram que os moradores ou seriam transferidos para conjuntos habitacionais no bairro do Cosmos, a cerca de 60 km de distância, na periferia do Rio de Janeiro, ou seriam levados para abrigos temporários sem receber nenhuma compensação.
 
Em outubro, três mil integrantes do movimento dos sem-teto ocuparam quatro prédios abandonados no centro de São Paulo. Inicialmente, a polícia impediu a entrada de alimentos e de água nos edifícios. Em novembro, depois de serem expulsas de um dos prédios que ocupavam, as famílias montaram acampamento em frente à Câmara Municipal para protestar. No dia 22 de novembro, em meio a um forte temporal, guardas municipais expulsaram violentamente as famílias, usando gás lacrimogêneo, spray de pimenta e cassetetes. Dez mulheres e sete homens ficaram feridos.
 
Direitos dos povos indígenas
  
Os povos indígenas que lutam pelo direito constitucional a suas terras ancestrais continuaram a enfrentar discriminação, ameaças e violência. A situação era especialmente grave no estado do Mato Grosso do Sul, onde as comunidades Guarani-Kaiowá sofreram constante perseguição de pistoleiros contratados por fazendeiros locais. Apesar dos esforços dos promotores federais para acelerar o processo de reconhecimento do direito dos índios a suas terras tradicionais, os trâmites continuam paralisados.
 
As comunidades Guarani-Kaiowá de Y’poí, Ita’y Ka’aguyrusu e Kurusú Ambá, no sul do estado do Mato Grosso do Sul, foram hostilizadas e atacadas por pistoleiros armados. Em setembro, na comunidade Kurusú Ambá, um menino de três anos morreu depois de apresentar um quadro de diarréia. Na época, por considerar perigoso o clima de insegurança que cercava a comunidade, a Fundação Nacional da Saúde havia suspendido suas visitas ao local.
 
Em outubro, no sul do estado da Bahia, um líder Pataxó Hã-Hã-Hãe, José de Jesus Silva (conhecido como Zé da Gata), foi morto a tiros por um pistoleiro que passou em uma moto. José de Jesus Silva tentava levar mantimentos a um grupo de índios que ocupava suas terras tradicionais. A demarcação das terras dos Pataxós Hã-Hã-Hãe depende de uma decisão do Supremo Tribunal Federal que é aguardada desde 1983.
  
Disputas por terra
 
Prosseguiram as ameaças e a violência contra trabalhadores sem terras. Geralmente, esses atos eram praticados por pistoleiros contratados por fazendeiros. Poucos casos foram investigados adequadamente.

No município de São Vicente de Férrer, estado do Maranhão, fazendeiros locais ameaçavam constantemente a comunidade do Charco, que realizava uma campanha para que suas terras fossem reconhecidas como um assentamento quilombola. No dia 30 de outubro, o líder comunitário Flaviano Pinto Neto foi morto com sete tiros na cabeça. Outro líder comunitário, Manoel Santana Costa, foi diversas vezes ameaçado de morte, assim como outros 20 membros da comunidade.
  
Direitos dos trabalhadores
  
Condições degradantes de trabalho ainda persistem por todo o país. Em maio, a relatora especial da ONU sobre formas contemporâneas de escravidão visitou o Brasil. Ela constatou que o trabalho forçado e outras práticas análogas à escravidão tinham maior prevalência no setor pecuário e nas plantações de cana-de-açúcar. A relatora exortou as autoridades federais a aprovarem uma emenda constitucional que possibilita a desapropriação de terras onde for constatada a prática de trabalho forçado. A emenda, que havia sido proposta em 1999, continuava parada no Congresso no fim de 2010.
  
Defensores dos direitos humanos
  
Até o final do ano, o Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH) havia expandido suas operações para seis estados. No entanto, a inconstância de financiamento e a falta de coordenação entre autoridades federais e estaduais fizeram com que muitos defensores dos direitos humanos incluídos no programa continuassem sem proteção.
 
Em maio, Josilmar Macário dos Santos foi alvo de um tiro quando passava com seu táxi por um viaduto do bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro. O atentado aconteceu na mesma época em que transcorriam as audiências de um processo envolvendo quatro policiais acusados de matar seis jovens, entre eles o irmão de Josilmar, Josenildo dos Santos. Mesmo tendo sido incluído no PPDDH, Josilmar Macário dos Santos não recebeu proteção adequada.
 
Alexandre Anderson de Souza, presidente da Associação dos Homens do Mar (AHOMAR), em Magé, no Rio de Janeiro, recebeu uma série de ameaças de morte devido ao seu trabalho como líder comunitário. Ele participava de protestos denunciando o impacto ambiental causado pela construção de um gasoduto na baía em que sua comunidade pescava.
  
Impunidade
  
O Brasil continua atrasado em comparação aos demais países da região na sua resposta às graves violações de direitos humanos cometidas no período militar. Em abril, o Supremo Tribunal Federal se manifestou contrário a uma ação que questionava a interpretação da Lei da Anistia de 1979. As atuais interpretações resultaram na impunidade dos indivíduos acusados de violações graves contra os direitos humanos, como torturas, estupros e desaparecimentos forçados, cometidos na época da ditadura militar que governou o país (1964-85).
 
Em novembro, a Corte Interamericana de Direitos Humanos concluiu que o Brasil é responsável pelo desaparecimento forçado de 62 guerrilheiros no estado do Pará, entre 1970 e 1972. A Corte constatou que o Brasil havia violado o direito à justiça ao não investigar adequadamente esses casos e ao sonegar informações. O tribunal concluiu ainda que a Lei da Anistia de 1979 está em desacordo com as obrigações de direito internacional do país e que não pode ser usada para impedir a abertura de processos por graves violações dos direitos humanos.
 
No fim do ano, o Presidente Lula ainda não havia acatado integralmente uma ordem de 2009 da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que determinava o pagamento de indenização à família do trabalhador sem-terra Sétimo Garibaldi. Segundo testemunhas, Sétimo Garibaldi foi morto a tiros por homens encapuzados, em novembro de 1998, na fazenda São Francisco, em Querência do Norte, nordeste do estado do Pará.
 
Visitas/relatórios da AI
  
·         Representantes da Anistia Internacional visitaram o Brasil em outubro.
 
·         “Sabemos dos nossos direitos e vamos batalhar por eles”: Direitos indígenas no Brasil - os Guarani-Kaiowá (AMR 19/014/2010)

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sábado, 14 de maio de 2011

Se alguém estiver olhando, a violência pára

O filósofo francês Michel Foucault afirmou que todos nós agimos de modo diferente se estivermos sendo vigiados. Exemplo: se estivermos num ambiente onde há câmeras por toda a parte, gravando, filmando a movimentação das pessoas, nosso comportamento muda.

Atos ilícitos podem ser inibidos se o infrator souber que sua ação está sendo monitorada.

Criminosos geralmente são covardes. E não pretendem ser descobertos. Violência física, moral, psicológica pode ser coibida se a vítima contar o que sofre para vizinhança, colegas de trabalho, familiares, conhecidos e outros.

As pessoas em geral têm medo de intervir, de tomar partido, de serem testemunhas. Mas às vezes basta um olhar incisivo, e o criminoso já se amedronta...

Vamos usar isso a nosso favor.

Está sofrendo violência? Denuncie, conte, comunique, abra a boca...

Ficou sabendo de violência? Não tenha medo, seja solidário. Mostre ao criminoso que você está vendo a violência que ele pratica.

A Anistia Internacional, organização que há 50 anos defende a liberdade e os direitos humanos no mundo, produziu um vídeo que mostra claramente essa situação.

Se alguém estiver olhando, a violência pára.







Videohttp://www.youtube.com/watch?v=bDGM4-AWGnw






Sobre poder e arrogância

Algumas reflexões sobre o poder, a arrogância e a arrogância do poder.


Os riscos da arrogância do Império

12/05/2011
 
Leonardo Boff, teólogo, filósofo, ambientalista
 
Conto-me entre os que se entusiasmaram com a eleição de Barack Obama para Presidente dos EUA, especialmente vindo depois de George Bush Jr., Presidente belicoso, fundamentalista e de pouquíssimas luzes. Este acreditava na iminência do Armagedon bíblico e seguia à risca a ideologia do Destino Manifesto, um texto inventado pela vontade imperial norte-americana, para justificar a guerra contra o México, segundo o qual os EUA seriam o novo povo escolhido por Deus para levar ao mundo os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Esta excepcionalidade se traduziu numa histórica arrogância que fazia os EUA se arrogarem o direito de levarem ao mundo inteiro, pela política ou pelas armas, o seu estilo de vida e sua visão de mundo.

Esperava que o novo Presidente não fosse mais refém desta nefasta e forjada eleição divina, pois anunciava em seu programa o multilateralismo e a não hegemonia. Mas tinha lá minhas desconfianças, pois atrás do Yes, we can (“sim, nós podemos”) podia se esconder a velha arrogância. Face à crise econômico-financeira, apregoava que os EUA mostraram em sua história que podiam tudo e que iam superar a atual situação. Agora por ocasião do assassinato de Osama bin Laden ordenada por ele (num Estado de direito que separa os poderes, tem o Executivo o poder de mandar matar ou não cabe isso ao Judiciário que manda prender, julgar e punir?) caiu a máscara. Não teve como esconder a arrogância atávica.

O Presidente, de extração humilde, afrodescendente, nascido fora do Continente, primeiramente muçulmano e depois convertido evangélico, disse claramente: “O que aconteceu domingo envia uma mensagem a todo o mundo: quando dizemos que nunca vamos esquecer, estamos falando sério”. Em outras palavras: “Terroristas do mundo inteiro, nós vamos assassinar vocês”. Aqui está revelada, sem meias palavras, toda a arrogância e a atitude imperial de se sobrepor a toda ética.

Isso me faz lembrar uma frase de um teólogo que serviu por 12 anos como assessor da ex-Inquisição em Roma e que veio me prestar solidariedade por ocasião do processo doutrinário que lá sofri. Confessou-me: ”Aprenda da minha experiência: a ex-Inquisição, não esquece nada, não perdoa nada e cobra tudo; prepare-se”. Efetivamente assim foi o que senti. Pior ocorreu com um teólogo moralista, queridíssimo em toda a cristandade, o alemão Bernhard Hâring, com câncer na garganta a ponto de quase não poder falar. Mesmo assim foi submetido a rigoroso interrogatório na sala escura daquela instância de terror psicológico por causa de algumas afirmações sobre sexualidade. Ao sair confessou: “O interrogatório foi pior do que aquele que sofri com a SS nazista durante a guerra”. O que significa: pouco importa a etiqueta, católico ou nazista, todo sistema autoritário e totalitário obedece à mesma lógica: cobra tudo, não esquece e não perdoa. Assim prometeu Barack Obama e se propõe levar avante o Estado terrorista, criado pelo seu antecessor, mantendo o Ato Patriótico que autoriza a suspensão de certos direitos e a prisão preventiva de suspeitos sem sequer avisar aos familiares, o que configura sequestro. Não sem razão escreveu Johan Galtung, norueguês, o homem da cultura da paz, criador de duas instituições de pesquisa da paz e inventor do método Transcend na mediação dos conflitos (uma espécie de política do ganha-ganha): tais atos aproximam os EUA ao Estado fascista.

O fato é que estamos diante de um Império. Ele é consequência lógica e necessária do presumido excepcionalismo. É um império singular, não baseado na ocupação territorial ou em colônias, mas nas 800 bases militares distribuídas pelo mundo todo, a maioria desnecessária para a segurança americana. Elas estão lá para meter medo e garantir a hegemonia no mundo. Nada disso foi desmontado pelo novo Imperador, nem fechou Guantánamo como prometeu e ainda mais, enviou outros trinta mil soldados ao Afeganistão para uma guerra de antemão perdida.

Podemos discordar da tese básica de Abraham P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações. Mas nele há observações, dignas de nota, como esta: “A crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa” (p. 395). Mais ainda: “A intervenção ocidental provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional” (p. 397). Pois as condições para semelhante tragédia estão sendo criadas pelos EUA e pelos seus súcubos europeus.

Uma coisa é o povo norte-americano, bom, engenhoso, trabalhador e até ingênuo que admiramos, outra é o Governo imperial, que não respeita tratados internacionais que vão contra seus interesses e é capaz de todo tipo de violência. Mas não há impérios eternos. Chegará o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos.

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A arrogância do poder

Mestre e discípulo conversavam numa esquina, quando uma velha os abordou:

“Saiam da frente da minha vitrine!”, gritou a velha. “Vocês estão atrapalhando os fregueses”.

O mestre pediu desculpas, e mudou de calçada.

Continuaram a conversa, quando um oficial aproximou-se.

“Precisamos que o senhor se afaste desta calçada”, disse o oficial. “O conde irá passar por aqui daqui a pouco.”

“Que o conde use o outro lado da rua”, respondeu o mestre, sem se mover. Depois se virou para seu discípulo:

“Não esqueça: jamais seja arrogante com os humildes. E jamais seja humilde com os arrogantes”.

O Mago

sexta-feira, 13 de maio de 2011

12 de Maio de 2011

Ontem foi um dia muito especial pra mim. Logo cedo publiquei um post com o nome do mantra da compaixão. Por problemas no Blogger/Google, o post saiu do ar ao longo do dia e desapareceu. Só agora o Blogger foi restaurado. Republico o post abaixo, reformulado.

Om Mani Padme Hum

Salve a Jóia no Lótus!

 

Minha foto


As sementes da iluminação estão no mundo.

Pratiquem a bondade. Não criem sofrimento. Dirijam a própria mente.

Por uma revolução espiritual!





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