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sábado, 2 de abril de 2011

Comissão da Verdade no Ministério Público

O jurista e ativista de direitos humanos Hélio Bicudo tem um outro ponto de vista sobre a Comissão da Verdade a ser instalada nos próximos meses, segundo vontade do governo Dilma e da sociedade como um todo.

O jurista afirma que tal Comissão, pela atual proposta, terá caráter restrito, administrativo, insuficiente para a apuração ampla da verdade, pois desprovida de poderes jurisdicionais e persecutórios. 

Bicudo propõe uma Comissão da Verdade na esfera do Ministério Público, que teria maiores poderes e estrutura para as investigações necessárias.

Abaixo, artigo do jurista a respeito.

Sobre a Comissão da Verdade

A chamada Comissão da Verdade, reclamada pela Sociedade Civil para que sejam esclarecidas as graves violações de Direitos Humanos praticadas durante a ditadura militar – mediante a atuação de seus agentes nas Forças Armadas e na Polícia – foi objeto de estudos pelo Governo Federal e convertida em projeto de Lei ora em andamento no Congresso Nacional.


Essa iniciativa tem sido criticada no âmbito das Forças Armadas, tendo como porta-voz o ministro Nelson Jobim, titular da pasta da Defesa.


Contudo, se críticas podem ser aduzidas ao projeto, cabem elas muito mais à sua irrelevância na descoberta da verdade do que a um possível desenlace que possa desgastar, aos olhos da opinião pública, as suas Forças Armadas e órgãos das polícias civil e militar.


Basta considerar que seus membros serão designados pelo presidente da República e que não existe prazo para o término dos trabalhos de que serão incumbidos. Acrescente-se que, não tendo as atividades da comissão caráter jurisdicional ou persecutório, não poderá, ademais, divulgar documentos e informações considerados sigilosos.


É evidente que uma comissão administrativa não tem poderes persecutórios, que cabem ao Ministério Público (M.P.). E aqui vai uma pergunta: por que o Ministério Público, guardião do estado democrático de direito, nos termos do artigo 127, da Constituição Federal, não está à frente dessas investigações, dispondo, de um lado, de ampla liberdade persecutória e, de outro, da infraestrutura necessária ao desenrolar das investigações?


O procurador geral da República, depois de admitido para mandato, somente pode ser destituído mediante processo a ter lugar no Senado da República, em decisão tomada por maioria absoluta (artigo 128, 2º). Portanto, se já temos um órgão autônomo, com a ampla competência que lhe impõe o artigo 129 da Constituição Federal, por que a duplicidade aventada, quando o caminho deveria ser o de pressionar o M.P. para que cumpra suas atribuições constitucionais de defesa do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indispensáveis?


Comissões administrativas não têm força de convencimento, mesmo porque, no caso em exame, seus membros são de livre escolha do presidente da República e, evidentemente – nos ensina a história – não irão se opor aos desígnios do Executivo, que até o momento não se inclinaram pela descoberta da verdade e punição dos culpados pelas violações havidas no período ditatorial.


Exemplo gritante dessa atuação é a interpretação infantil da Lei de Anistia e a recusa – por omissão – do cumprimento de sentença emanada da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que ordena a reformulação de sua atual interpretação.


Comissões se fazem e se desfazem segundo os interesses do governo de plantão.


E é exatamente para impedir que nada se faça – como até hoje, mais de 50 anos depois, nada ainda se fez – que devemos exigir do Ministério Público o cumprimento de suas atribuições específicas, tornando-as públicas como se espera de um órgão que trabalha sob o fundamento da verdade.


É evidente que não temos nada a opor a uma Comissão da Verdade, mas, sobretudo, deve-se impor ao Ministério Público o cumprimento de suas funções constitucionais.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

"Abriu a boca" e tomou 4 tiros

Não. O Abra a Boca, Cidadão! não virou blog policial, como o título do post pode sugerir...

Acontece que não vivemos na sociedade civilizada que imaginamos viver. O crime corre solto em todos os estratos da sociedade. E quando denunciada, muitas vezes a "nata" desta mesma sociedade desce do "andar de cima", mostra sua verdadeira face e vira a fina flor da cafajestagem.

Teve alta ontem, depois de uma semana de internação, o blogueiro carioca Ricardo Gama, alvejado com três tiros no último 23 de março, num atentado sofrido em Copacabana.

Em seu blog, Ricardo costuma criticar acidamente o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o prefeito da cidade, Eduardo Paes, a Polícia Militar e outras autoridades.

Gente, todos sabem que fui vítima de 4 tiros, não morri por que Deus não quis. Mais uma vez, e sempre, OBRIGADO Papai do Céu. 

Esta é a mensagem que Ricardo postou ontem em seu blog.

Liberdade de expressão é direito fundamental do cidadão. No Estado de Direito, quem se sente atingido por crítica ou opinião deve buscar reparação a eventual violação de direitos. Dentro da lei, do ordenamento jurídico. O resto é "lei da selva".

Agora aguardamos a elucidação do caso pelas autoridades constituídas.

Com a palavra, o Poder Judiciário.

Fiquem com uma pequena amostra do estilo irreverente, combativo e destemido, sem papas na língua, do blogueiro Ricardo Gama.



 

quinta-feira, 31 de março de 2011

Zilda Santa: mulher extraordinária

Encerro o Mês da Mulher homenageando a Dra. Zilda Arns Neumann, extraordinária cidadã brasileira, fundadora da Pastoral da Criança e da Pastoral do Idoso. Médica pediatra e sanitarista, morreu em janeiro de 2010, no terremoto do Haiti, quando visitava o país em missão humanitária.





Sabemos que a força propulsora da transformação social está na prática do

maior de todos os mandamentos da Lei de Deus: o Amor, expressado na

solidariedade fraterna, capaz de mover montanhas. "Amar a Deus sobre todas

as coisas e ao próximo como a nós mesmos" significa trabalhar pela inclusão

social, fruto da Justiça; significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores

talentos em favor da vida plena, prioritariamente daqueles que mais

necessitam. Somar esforços para alcançar os objetivos, servir com humildade

e misericórdia, sem perder a própria identidade.


Cremos que esta transformação social exige um investimento máximo de

esforços para o desenvolvimento integral das crianças. Este desenvolvimento

começa quando a criança se encontra ainda no ventre sagrado da sua mãe. As

crianças, quando estão bem cuidadas, são sementes de paz e esperança. Não

existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos

que as crianças.


Como os pássaros, que cuidam dos seus filhos ao fazer um ninho no alto das

árvores e das montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais

perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado,

promover o respeito a seus direitos e protegê-los.

Muito obrigada. Que Deus esteja com todos!

(fragmentos do último discurso, pronunciado minutos antes do falecimento)

Política: substantivo feminino

O Poder é masculino. Está vinculado à ideia de força, de truculência. Isso fica mais patente nas ditaduras, militares ou não.

Já a Política, essa é feminina. Pelo menos a palavra. Uma atividade que requer habilidade, jogo de cintura, astúcia e quem sabe até uma certa leveza, para que haja abertura aos contrários, negociações etc.

O ex-presidente Lula foi muito bem-sucedido na política, sobretudo na Presidência, por toda a sua bagagem construída na vida sindical e também, no meu entendimento, por lidar bem com seu lado feminino: é um homem emotivo, carinhoso, afetivo. Não esconde e não reprime suas emoções. A dureza nas portas das fábricas e nos palanques deu lugar a uma doçura em muitos momentos no exercício do Poder.

Apesar de uma mulher na Presidência da República, algumas à frente de administrações nos estados e capitais e várias no Parlamento, a participação da mulher na vida política brasileira ainda é ínfima. Na prática, a Política continua sendo o mundo dos homens.

Dos mais doces e meigos, como um Eduardo Suplicy, cantando Bob Dylan na tribuna do Senado, aos mais prepotentes e grosseirões, como o ridículo troglodita e deputado Bolsonaro, no momento sob os holofotes da mídia depois de produzir pérolas e mais pérolas de preconceito e tacanhice contra gays, negros e outras minorias.

Neste Mês de Março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, falamos de mulheres guerrilheiras, mulheres ativistas, mulheres camponesas, mulheres educadoras, mulheres jornalistas, mulheres cientistas...

E hoje encerro essa série lembrando de uma mulher, que beirando os 80 anos, ainda continua guerreira política, enfrentando bravamente preconceitos por ser mulher, nordestina, solteira, de esquerda, de origem humilde: Luiza Erundina.

As más línguas, inclusive na blogosfera dita progressista, difundem que São Paulo é uma cidade preconceituosa e hostil a nordestinos.

Nada mais falacioso. Há bolsões de preconceito, claro. Como os há no Rio de Janeiro, no Nordeste, em Paris, em toda a parte onde houver seres humanos ignorantes.

São Paulo é cosmopolita, multicultural. Aqui vive pacificamente gente do mundo inteiro: italianos, japoneses, alemães, portugueses, espanhois, árabes, judeus, africanos de várias origens, coreanos, bolivianos, chineses, indianos... E brasileiros de toda a parte. Principalmente nordestinos.

Assim como o pernambucano e retirante Lula da Silva, a paraibana Luiza Erundina brilhou para o mundo da política a partir da cidade de São Paulo, que abriu as portas e o coração para ambos. 

Abaixo publico trechos selecionados de matéria sobre a bela história de vida da deputada federal por São Paulo, Luiza Erundina.


Uma mulher em movimento

Luiza Erundina é destacada como uma das 100 mulheres do século XX


Mulher, nordestina, migrante, solteira, socialista, ex-prefeita da cidade de São Paulo. Não é à toa que Luiza Erundina figura entre as mulheres que revolucionaram o século 20. A revista IstoÉ Gente a coloca em destaque como uma das 100 mulheres do século, na área de Política, ao lado de Margareth Tatcher, Hillary Clinton, Evita Perón, Indira Gandhi, Bertha Lutz. Erundina sabe como poucas a força do preconceito e da pobreza. Mas não fez deles um sentimento de lamúria. Pelo contrário. O preconceito em relação aos diferentes a mobiliza, a põe em movimento. Sua trajetória é de luta. Ela saiu do sertão da Paraíba e veio para São Paulo, no auge da ditadura militar, em 1971. Dá aulas, presta concurso público e é nomeada assistente social da Prefeitura. Vai trabalhar nas favelas da periferia da cidade, onde reencontra, em situação de pobreza, o povo nordestino. Trabalha para conscientizar a população e ajudá-la a se organizar. “Eu me sinto uma educadora. Isso imprime uma marca própria naquilo que eu faço”, afirma Luiza Erundina.

Em 1979, é eleita presidente da Associação Profissional das Assistentes Sociais de São Paulo e recebe convite do metalúrgico Lula para fundar o Partido dos Trabalhadores. Em 1982, elege-se vereadora pelo PT em São Paulo, com 26 mil votos. Em 1986, é eleita deputada estadual, com 35 mil votos. No dia 16 de novembro de 1988, o país fica sabendo que São Paulo, uma das quatro maiores cidade do mundo, tem pela primeira vez na história uma prefeita eleita, com 1.534.547 votos, vencendo todos os prognósticos. Nesse bate-papo com os editores da Ao Mestre com Carinho, colhemos as palavras definidoras de Luiza Erundina pela própria Luiza Erundina.


Herança materna

Nasci em 30 de novembro de 1934, numa casa pobre do sertão semi-árido da Paraíba, no Nordeste brasileiro, na periferia do povoado de Belém do Rio do Peixe, mais tarde cidade de Uiraúna, que significa pássaro negro em tupi-guarani. Meu pai, Antônio Evangelista de Souza, o mestre Tonheiro, era artesão além de trabalhador no campo. Fabricava selas e arreios de couro, para cavalo. Menina ainda, eu ajudava meu pai no manejo do couro. Minha mãe, dona Enedina, era a fortaleza, que dava estrutura à família tão numerosa e pobre. Ela vendia café e bolo na feira local. Tive 9 irmãos.

Aos 10 anos mudei-me para Patos, para a casa de minha tia, para terminar o primário e fazer o ginásio. Para que meus irmãos também pudessem estudar, aos 14 anos fui trabalhar como balconista em um armazém e como professora no Colégio das Irmãs de Caridade. Lecionei em Campina Grande, em escola de religiosas, onde liderava um coral. Em 1958, aos 24 anos, fui secretária municipal de educação em Campina Grande, interinamente. Tinha pretensões de fazer medicina, mas suspendi os estudos por 9 anos. Quando fui fazer faculdade já tinha outro apelo que me sugeria fazer Serviço Social. Fiz mestrado em Ciências Sociais na Fundação Escola de Sociologia e Política, de São Paulo. Retornei a João Pessoa para lecionar na universidade. Em 1971, voltei para São Paulo.



Política


Toda minha prática na política tem uma tônica pedagógica, devido à minha formação e porque entendo que a política é um instrumento de educação e organização política do povo. A política veio em decorrência da minha militância sindical e profissional. Portanto, o modo de ser vereadora, deputada, prefeita, tem sempre uma marca decorrente da minha formação educacional, da minha vocação de educadora. Eu me sinto uma educadora. Isso imprime uma marca própria naquilo que eu faço.


Determinação

Foi muito por causa da minha origem pobre, em que a gente é submetida a situações de injustiça, tendo de migrar por causa da seca. A gente, ainda muito pequena, percebia que havia diferença entre pessoas que tinham uma melhor condição, que não precisavam fugir da seca, e outras, como nós, que precisavam migrar para algum lugar desse país. O que é lamentável é que a situação não mudou. Tomei consciência e me determinei, me senti chamada a lutar para mudar aquilo lá.


Igreja


Fui uma das pessoas que se beneficiou da formação da Igreja Católica numa perspectiva de encarnar o evangelho e ver a fé muito ligada à participação social e de mudar aquilo que precisava ser mudado. Eu vi que o estudo era o instrumento que eu precisava para dar a minha contribuição para mudar a realidade na qual eu nasci. Aí eu me dediquei.


Palavra

Luta. Busca de uma perspectiva de esperança, acreditando no futuro, na possibilidade de construir uma sociedade justa, fraterna, igualitária, que é o que me dá força até hoje. É acreditar na possibilidade de se construir uma sociedade melhor, onde todos têm direito ao básico, ao fundamental. Isso é que me mantém na militância política, de novo considerando a política como um instrumento de mudança.


Pobreza

Na década de 70 eu participei das ligas camponesas na Paraíba e quando vim para São Paulo fui trabalhar nas favelas da periferia. A situação dessa população hoje não é melhor. A dimensão dos problemas atinge mais gente e a deterioração é muito maior e mais grave. Naquela época havia pobreza, problema de habitação e desemprego, não na escala atual. Hoje a situação é mais aguda.

  Em campanha, em 1996


Preconceito

Sofri e ainda sofro. Até pelo fato de eu somar vários traços que levam as pessoas a ter preconceito — mulher, nordestina, de esquerda, solteira, só falta eu ser negra para completar o quadro. Para mim, a questão do preconceito se supera de várias formas. A primeira é não sendo vítima do preconceito. Ao invés de me abater, fiz disso uma bandeira de luta e uma das minhas principais tarefas, como mulher, trabalhadora, nordestina, socialista. O preconceito em relação aos diferentes me mobiliza, me põe em movimento. Não o preconceito em relação a mim, mas principalmente à mulher, que ousa fazer política neste país. E mais agora, o preconceito contra a minha idade. É um desafio que eu tenho que superar.


Casamento

Eu não me casei exatamente por causa dessa opção de vida que eu fiz. Desde muito criança eu acordei para o coletivo. Na minha família, as minhas primas se casavam muito cedo e viravam donas de casa, servindo ao marido, numa cultura muito machista, com uma filharada enorme. A vida não ia além daquilo. Eu tinha outras exigências. Eu me realizei a vida toda no coletivo e sempre que me colocava a hipótese de casamento me sentia limitada, era incompatível com a opção de vida que havia feito. Optei por aquilo que considerava melhor.



Mulher

Ainda não ocupamos o espaço ao qual temos direito. Nosso preparo ainda deixa a desejar. A disputa coloca para nós uma exigência muito maior do que para os homens. A sociedade é muito mais tolerante com os homens do que com as mulheres. A nossa formação sempre nos coloca no plano secundário em relação aos homens nos espaços do poder. Educamos meninos e meninas de modo a privilegiar o desenvolvimento da liderança no menino. A menina, não, é sempre levada ao trabalho doméstico, a ajudar a mãe, sua formação é toda orientada a ser mãe e esposa. Isso é tão forte que as mulheres reproduzem isso na sua vida como esposa, como mãe e como educadora. À medida que algumas de nós ousa, luta, paga o preço, mais e mais mulheres se animam, se interessam a entrar nessa luta. Por isso, nossa responsabilidade é muito grande.


Partido

A saída do PT foi a decisão mais difícil da minha vida. Fiquei 17 anos no PT, sou uma das fundadoras do PT, nunca fui de outro partido. Eu me formei no PT e sou devedora do PT. Mas em dado momento percebi, até por conta da minha experiência na Prefeitura de São Paulo, que algumas coisas tinham que mudar. Nós não podíamos nos manter fechados, intransigentes. Quando decidimos ir ao governo Itamar Franco, desrespeitando uma decisão do partido — porque eu dizia que se havíamos ajudado a derrubar o Collor, nós tínhamos a obrigação de ajudar o país —, minha vida no PT foi ficando insuportável. Eu fiquei um ano numa crise quase existencial. Até cheguei a pensar em sair da política e continuar no PT. Por outro lado, entendia que ainda tinha uma vida útil, muita energia, uma experiência acumulada. Também entendi que o partido não é o fim, mas o meio. Sem nenhuma crítica ao partido, mudei de casa mas não mudei de rua. Eu continuo no campo do socialismo e de esquerda. Não fiz nenhuma concessão.


Autocrítica

Na prefeitura de São Paulo, eu não governaria mais com um partido só. Governaria com o máximo de partidos no mesmo campo ou próximo ao nosso, para ter melhor condição de governar. Basicamente teria uma relação mais aberta e habilidosa com a Câmara Municipal, sem transigir nas práticas fisiológicas. E com muito mais participação da sociedade.


100 dias de governo na prefeitura de São Paulo



Com o educador Paulo Freire,
seu Secretário de Educação
1986


Hobby

Eu gosto de ler e ouvir música. Literatura em geral e textos políticos. Sou uma pessoa muito sequiosa por aprender mais, vivo numa busca permanente de aprender, me atualizar. Em geral tenho vários livros na cabeceira, ao mesmo tempo, e não consigo dormir antes de ler alguma coisa. Música clássica, fico com Mozart, Bethoven, Chopin e os clássicos da música popular brasileira. E quando estou mais livre adoro andar no Parque Ibirapuera.


Imagem

A imprensa busca o erro, o escândalo, o espetacular, aquilo que vende jornal. Temos que ter habilidade para tratar com ela. Eu falhei muito, não reservava tempo para a mídia. Isso gerou muita resistência. Eu mudaria a minha relação com a imprensa. A imprensa continua exigente. Mas hoje não sou mais a pessoa que metia medo, despreparada. A minha imagem foi se reconstruindo, foram sendo derrubados os muros que me separavam de alguns setores da sociedade.

Ao Mestre com Carinho

terça-feira, 29 de março de 2011

O empresário e o operário

Nesta singela homenagem que o ABC! faz ao cidadão brasileiro José Alencar, que descansou hoje, queremos que ele seja sempre lembrado ao lado do seu grande companheiro. Ambos, empresário e operário, numa parceria inédita, comandaram o Brasil por oito inesquecíveis anos e o elevaram a um novo patamar entre as nações.

Descansa em Paz, guerreiro.


Presidente Lula, já com a faixa presidencial, sobe a rampa do Palácio do Planalto ao lado do vice-presidente José Alencar, durante a cerimônia de posse para o segundo mandato _ (Brasília, DF, Palácio do Planalto, 01/01/2007) _ Foto: Ricardo Stuckert/PR



Presidente Lula e o vice-presidente, José Alencar, durante cerimônia em comemoração ao Dia Internacional da Biodiversidade _ (Brasília, DF, Palácio do Planalto, 20/05/2005) _ Foto: Ricardo Stuckert/PR



 
   
                                                                              Fotos: Ricardo Stuckert/PR
 
 
 
 
 

Brasileiras na ciência

O Mês da Mulher já está terminando, mas ainda dá tempo de falar sobre as Mulheres Cientistas Brasileiras e suas realizações no mundo tradicionalmente masculino da ciência.

Publico abaixo um artigo sobre a dificuldade que as cientistas brasileiras encontram para chegar a cargos de chefia em suas instituições ou mesmo conquistar igualdade salarial. Embora o brilho e a visibilidade continuem monopólio dos homens, há verdadeiras "estrelas" na ciência brasileira, como mostra a matéria seguinte.



Muitas cientistas brasileiras, poucas na chefia


Fabiana Frayssinet, da IPS


A quantidade de mulheres cientistas quase se equipara à dos homens no Brasil. Porém, na prática do laboratório ou na vida acadêmica enfrentam sutis barreiras que as impedem de ter as mesmas oportunidades de carreira ou igualdade salarial. Segundo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1993 as mulheres representavam 39% do total de pesquisadores científicos, e agora são 49%. Contudo, quando se trata de chefias de laboratórios, essa porcentagem cai para 45%, e mais ainda em cargos superiores.

“De forma geral, o número de mulheres cresce de maneira contínua na ciência brasileira”, disse à IPS Jacqueline Leta, especialista na situação de gênero na ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com dados do censo de 2008, o estudo diz que havia nos laboratórios 60.291 homens e 57.662 mulheres. Entretanto, a situação varia quando se analisa cada área, esclarece Jacqueline, que integra o Programa de Educação, Gestão e Difusão em Ciências do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.

A presença é maior nas áreas de saúde e biologia. Há casos emblemáticos como o da renomada geneticista Maiana Zats, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP). A genética é um setor onde as mulheres são maioria, segundo o CNPq, com 1.049 pesquisadoras contra 976 homens. E a presença feminina cai em áreas como pesquisa em engenharia, onde a proporção de mulheres é 4.151 para 15.203 homens.

“Ninguém escolhe uma carreira dez dias antes de prestar o vestibular”, disse Jacqueline ao atribuir essa decisão a “anos de influência cultural, do pai e da mãe, do clube, do que é divulgado na Internet e nos noticiários”, onde o avental branco e o microscópio são majoritariamente para os homens. São “complexas e diversas influências que começam por cenas remotas na infância, de meninas brincando com bonecas ou brincadeiras de costura, e homens, com videogames ou jogos de ciências”, afirmou.

A física Belita Koiller diz que a mudança deve ser cultural, com os meios de comunicação mostrando mais mulheres cientistas e estimulando a aproximação das meninas e das adolescentes aos laboratórios. “Muitas meninas que vêm em visita com suas escolas ficam fascinadas e assustadas ao mesmo tempo ao verem mulheres em um laboratório”, contou à IPS. São mitos sexistas que se desfazem em casa, mas também na escola.

Jorge Werthein, vice-presidente da Sangari Brasil, disse à IPS que mitos como o de que “as mulheres não têm cabeça para ciência” são rebatidos pelos números. A Sangari é uma empresa com sede na cidade de São Paulo que promove a ciência desde a educação primária, mediante métodos e materiais didáticos inovadores. Jorge também é diretor do Instituto Sangari, dedicado a democratizar o acesso à ciência, e destacou que o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes “mostra pouquíssima diferença no desempenho entre meninos e meninas na área de ciências”.

Jorge considera que a melhor política de inclusão “é a universalização da qualidade do ensino fundamental, para qualquer profissional de qualquer área, especialmente na de ciências”. Se dermos “condições iguais para mulheres e homens, terão oportunidades iguais. Se as meninas tiverem acesso a uma educação científica de qualidade desde a infância, poderão disputar o mercado de trabalho em melhores condições”, ressaltou.

É no mercado de trabalho e na concessão de bolsas que começam a se manifestar as diferenças de gênero mais visíveis. Jacqueline disse que, no Brasil, de cada cem pessoas com doutorado, 54 são mulheres. Porém, apenas 25% das bolsas de pós-graduação são concedidas a mulheres. Uma proporção que, por exemplo, se mantém nos cargos de direção da UFRJ, onde trabalha, embora metade dos docentes sejam mulheres.

Beatriz Silveira Barbuy, renomada astrofísica brasileira, disse à IPS que a situação melhora gradualmente, mas que as jovens cientistas ainda têm problemas de gênero para pesquisar. “As mulheres, nas ciências, são tão capazes, ou mais, quanto os homens. E todas as que conheço são excepcionais”, afirmou. No entanto, “precisam ser melhores do que os homens para serem reconhecidas”, acrescentou Beatriz, especialista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. Ela reconhece que houve avanços no tema, como a licença maternidade para bolsistas de mestrado e doutorado. Entretanto, destacou a dificuldade de compatibilizar os longuíssimos horários nos laboratórios com a maternidade.

Outra renomada cientista, a física Belita Koiller, ironizou dizendo que, para superar este problema, a mulher acaba por continuar dependente da família e do marido também no laboratório. “É necessária a sensibilidade do marido para que possa assumir e compartilhar tarefas como cuidar dos filhos”, disse Belita, do Instituto de Física da UFRJ. “Precisam de uma família de alta qualidade” para aceitar seus horários, funções e viagens, acrescentou Beatriz. Como as demais entrevistadas, Jacqueline destacou que “o momento de ascensão na carreira” ainda representa uma barreira, às vezes sutil, mas real, para as cientistas. É neste momento que procedimentos de “senso comum” são substituídos por um sistema de “meritocracia” que beneficia os homens. “Existem diferenças enormes. Cargos de maior hierarquia e poder ainda estão nas mãos de pesquisadores”, afirmou Jacqueline. A maioria dos cargos de direção, coordenação de pesquisas ou concessão de bolsas está nas mãos dos homens, e “os homens acabam escolhendo homens”, completou.

As diferenças também são salariais. No Brasil, de 80% a 90% dos pesquisadores estão nas universidades, onde também são docentes, e nestas instituições a igualdade salarial é regulamentada. Porém, na prática a remuneração acaba sendo menor para as mulheres. Jacqueline atribuiu isso a dois fatores, como existência de pontuações adicionais, que aumentam os salários básicos se, por exemplo, têm cargos de comissão ou direção de unidade, majoritariamente controlados pelos homens.

São barreiras que, como os mitos sexistas, a pesquisadora considera que precisam ser derrubados também em carreiras consideradas “femininas” e com carência de homens, como as ciências da educação, nutrição e enfermagem. “Quando há homens e mulheres atuando juntos são potencializadas a criatividade, a diversidade do pensamento e da ação. Ali teremos um ganho real. Só a soma produz o progresso, e isso também na ciência”, concluiu Jacqueline.

*Este artigo integra a cobertura da IPS pelo Dia Internacional da Mulher, 8 de março, que este ano a ONU dedica ao tema “Igualdade de acesso à educação, à capacitação, à ciência e à tecnologia. Caminho para o trabalho decente para as mulheres”.

IPS/Envolverde

6 pesquisadoras brasileiras de destaque nos últimos anos


Ana Carolina Prado


Você que lê a SUPER já deve ter percebido que a maioria dos cientistas de destaque é do sexo masculino. Mas talvez a situação esteja melhorando – pelo menos no Brasil. O Ministério da Ciência e Tecnologia informou que, desde 2004, as brasileiras são maioria na conclusão de doutorados a cada ano e o Brasil é atualmente o terceiro colocado mundial na formação de doutoras (ficando atrás apenas de Portugal e Itália).

Listamos aqui 6 nomes que se destacaram nos últimos anos em várias áreas, da astronomia à genética. Elas receberam prêmios importantes e ajudaram a colocar o Brasil em um lugar de destaque na ciência mundial.

1 - Aldina Maria Prado Barral, uma médica que se diz “fiel à leishmaniose” (Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal da Bahia – UFBA)




A relação de Aldina Barral com a leishmaniose já dura mais do que muitos casamentos por aí. Ela estuda a doença, comum em países tropicais, há quase 40 anos e ganhou o Prêmio Claudia na categoria “Ciências” em 2008. Um dos maiores avanços obtidos em suas pesquisas tem a ver com o diagnóstico precoce: ela descobriu que geralmente aparece uma íngua na pessoa antes que ela desenvolva a ferida característica da doença. Descobrindo mais cedo fica mais fácil de tratar.

2 - Beatriz Leonor Silveira Barbuy, a astrônoma que desde pequena gosta de observar as estrelas (Universidade de São Paulo – USP)





A linha de pesquisa de Beatriz não é para qualquer um: ela estuda populações estelares, evolução química da galáxia, nucleossíntese e atmosferas estelares. Depois de receber um prêmio internacional dado pela UNESCO a mulheres notáveis da ciência em 2009, ela foi convidada para participar do programa do Jô Soares e falou sobre a vida na astronomia. Lá, disse que os astrônomos geralmente decidem bem cedo seguir a profissão e contou que adorava subir em árvores para observar as estrelas quando era criança.

3 – Cristina Wayne Nogueira: um elemento perigoso para o meio ambiente pode fazer bem contra radicais livres (Universidade Federal de Santa Maria – UFSM)





A bioquímica gaúcha descobriu que, embora seja perigoso para o meio ambiente, o selênio (elemento obtido como subproduto da refinação do cobre) possui um papel importante no combate aos radicais livres (moléculas formadas no nosso organismo que provocam alterações patológicas, envelhecimento precoce e manchas na pele). Suas pesquisas renderam um artigo na Chemical Reviews, uma das mais importantes publicações acadêmicas de Química do mundo.

4 – Thaisa Storchi-Bergmann: atlas de galáxias e buracos negros supermassivos (Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS)





A astrônoma Thaisa foi considerada a pesquisadora brasileira mais citada internacionalmente na área de Ciências Espaciais, em 2004, pela Veja. Suas descobertas ajudaram a fundamentar a teoria vigente de que há buracos negros supermassivos no núcleo da maioria das galáxias. Ela ainda criou um atlas de galáxias muito usado pela comunidade astronômica internacional.

5 – Maria Fátima Grossi de Sá: como combater insetos em plantações por meio manipulação genética (EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária -  e Universidade Católica de Brasília – UCB)





A biomédica Maria Fátima pesquisa meios de proteger plantações contra fungos, insetos e vírus por meio da manipulação genética. A vantagem desse método está no fato de que ele combateria apenas os animais que prejudicam a espécie, o que não acontece com inseticidas comuns. Suas descobertas renderam patentes nacionais e internacionais na área de Biotecnologia Vegetal. Ela, junto com as outras quatro primeiras cientistas da lista, recebeu o Prêmio Scopus Brasil 2010, dado pela Editora Elsevier e pela CAPES/MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação) para pesquisadores de relevância no Brasil e no mundo.

6 - Rosaly Lopes (Nasa)





A astrônoma carioca, cientista planetária e especialista em Vulcanologia do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, na Califórnia, foi a primeira brasileira a ganhar o prêmio internacional Wings Worldquest Women of Discovery. Rosaly já esteve em quase 50 vulcões espalhados pelo mundo – e estuda outros fora dele também. Ela já descobriu mais de 71 vulcões ativos na lua Io de Júpiter, os primeiros vulcões ativos fora da Terra de que se tem confirmação.

Superinteressante





segunda-feira, 28 de março de 2011

O que move a alma ativista

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, disse o poeta.



Até onde pude perceber a blogosfera brasileira independente (progressista, para alguns) não deu muita importância à celebração mundial Hora do Planeta/Earth Hour, promovida no sábado pela ong WWF International, que mobilizou mais de um bilhão de pessoas em milhares de cidades pelo mundo.

Durante 60 minutos a iluminação de casas, prédios públicos, estabelecimentos comerciais, empresas e monumentos foi apagada total ou parcialmente, para chamar a atenção da humanidade sobre a gravidade das mudanças climáticas vividas no planeta já há muitos anos, provocando inclusive milhares de vítimas em terremotos, tsunamis, furacões, chuvas torrenciais e outras catástrofes.

Criticada por um colega blogueiro por dar força ao "engodo" do aquecimento global, justifiquei minha adesão ao movimento pela solidariedade ao planeta e aos milhões que sofrem ou sofreram perdas irreparáveis.

Interesses escusos, manipulações de informação e outras mazelas do gênero continuarão existindo, enquanto o ser humano não crescer por dentro, não subir alguns degraus na evolução e não substituir o TER pelo SER. Mas entendo que a existência de mazelas não devem impedir a adesão de qualquer pessoa a um movimento que celebra a defesa da vida, da natureza em toda a sua diversidade e do planeta.

Eu que aqui falo tanto em cidadania ativa. Eu que me apresento aqui no perfil ao lado como adepta do ativismo amplo. Não consigo ver algo positivo na neutralidade, na negação, na não-participação, no não-fazer, no silêncio. No caso desta mobilização mundial pelo bem-estar da Terra.

Ações afirmativas, ainda que ingênuas ou românticas, ainda que eventualmente equivocadas, são o alimento para a alma do verdadeiro ativista. E podem ter pelo menos o poder de chamar a atenção para uma causa justa. E esta, além de justa, é urgente.

Milhões de páginas, bilhões de palavras são diariamente escritas a favor da vida, do amor, da natureza, da democracia... Mas atitudes concretas, ainda que simbólicas, ainda que restritas a um intervalo mínimo de sessenta minutos, mas que poderão ser multiplicadas, reproduzidas exponencialmente nos próximos anos (depende de nós), nos nossos anônimos cotidianos, nas nossas pequenas vidas diárias, não poderão acarretar mudanças significativas no nível global?

Eu que já declarei aqui meu amor aos animais, sei que não "resolve" nada parar o carro, descer, por um pouco de ração na calçada para um cão abandonado. E também não "resolve" nada adotar o cãozinho da rua em vez de comprar um de raça. E continua não "resolvendo" nada se tornar vegetariano. Há muitos interesses inconfessáveis por trás desta questão também. Os animais não deixarão de sofrer no mundo. Não deixarão de ser maltratados, cruelmente assassinados, ferozmente barbarizados de todas as formas. Inclusive nas grandes fazendas de criação e matadouros. Mas a omissão, o virar o rosto, o dar de ombros, o ignorar representariam uma contribuição maior à causa animal?

Solidariedade, compaixão. É disto que se trata. É isto o que move, o que alimenta, muitas vezes, uma alma ativista.


A seguir reproduzo um artigo do teólogo e ambientalista Leonardo Boff que fala destas qualidades humanas.



Compaixão: a mais humana das virtudes

Leonardo Boff*


Três cenas aterradoras: o terremoto no Japão, seguido de um devastador tsunami, o vazamento deletério de gases radioativos de usinas nucleares afetadas e os deslizamentos destruidores, ocorridos nas cidades serranas do Rio de Janeiro, provocaram em nós, com certeza, duas atitudes: compaixão e solidariedade.


Primeiro, irrompe a compaixão. A compaixão talvez seja, entre as virtudes humanas, a mais humana de todas, porque não só nos abre ao outro, como expressão de amor dolorido, mas ao outro mais vitimado e mortificado. Pouco importam a ideologia, a religião, o status social e cultural das pessoas. A compaixão anula estas diferenças e faz estender as mãos às vítimas. Ficarmos cinicamente indiferentes mostra suprema desumanidade, que nos transforma em inimigos de nossa própria humanidade. Diante da desgraça do outro não há como não sermos os samaritanos compassivos da parábola bíblica.


A compaixão implica assumir a paixão do outro. É transladar-se ao lugar do outro para estar junto dele, para sofrer com ele, para chorar com ele, para sentir com ele o coração despedaçado. Talvez não tenhamos nada a lhe dar e até as palavras nos morram na garganta. Mas o importante é estar aí junto dele e jamais permitir que sofra sozinho.


Mesmo que estejamos a milhares de quilômetros de distância de nossos irmãos e irmãs japoneses ou perto de nossos vizinhos das cidades serranas cariocas, o padecimento deles é o nosso padecimento, o seu desespero é o nosso desespero, os gritos lancinantes que lançam ao céu, perguntando, “por que, meu Deus, por que?” são nossos gritos lancinantes. E partilhamos da mesma dor de não recebermos nenhuma explicação razoável. E mesmo que existisse, ela não desfaria a devastação, não reergueria as casas destruídas nem ressuscitaria os entes queridos mortos, especialmente as crianças inocentes.


A compaixão tem algo de singular: ela não exige nenhuma reflexão prévia, nem argumento que a fundamente. Ela simplesmente se nos impõe porque somos essencialmente seres compassivos. A compaixão refuta por si mesma a noção do biólogo Richard Dawkins do “gene egoísta”. Ou o pressuposto de Charles Darwin de que a competição e o triunfo do mais forte regeriam a dinâmica da evolução. Ao contrário, não existem genes solitários, mas todos são inter-retro-conectados e nós humanos somos enredados em teias incontáveis de relações que nos fazem seres de cooperação e de solidariedade.


Mais e mais cientistas vindos da mecânica quântica, da astrofísica e da bioantropologia sustentam a tese de que a lei suprema do processo cosmogênico é o entrelaçamento de todos com todos e não a competição que exclui. O sutil equilíbrio da Terra, tido como um superorganismo que se autoregula, requer a cooperação de um sem número de fatores que interagem entre si, com as energias do universo, com a atmosfera, com a biosfera e com o próprio sistema-Terra. Esta cooperação é responsável por seu equilíbrio, agora perturbado pela excessiva pressão que a nossa sociedade consumista e esbanjadora faz sobre todos os ecossistemas e que se manifesta pela crise ecológica generalizada.


Na compaixão se dá o encontro de todas as religiões, do Oriente e do Ocidente, de todas as éticas, de todas as filosofias e de todas as culturas. No centro está a dignidade e a autoridade dos que sofrem, provocando em nós a compaixão ativa.


A segunda atitude, afim à compaixão, é a solidariedade. Ela obedece à mesma lógica da compaixão. Vamos ao encontro do outro para salvar-lhe a vida, trazer-lhe água, alimentos, agasalho e especialmente o calor humano. Sabemos pela antropogênese que nos fizemos humanos quando superamos a fase da busca individual dos meios de subsistência e começamos a buscá-los coletivamente e a distribuí-los cooperativamente entre todos. O que nos humanizou ontem, nos humanizará ainda hoje. Por isso é tão comovedor assistir como tantos e tantas se mobilizam, de todas as partes, para ajudar as vítimas e pela solidariedade dar-lhes o que precisam e sobretudo a esperança de que, apesar da desgraça, ainda vale a pena viver.


*Leonardo Boff é autor do livro O princípio compaixão e cuidado, Vozes, 2009.

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