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domingo, 13 de março de 2011

Riscos da cidadania ativa

O exercício da cidadania no Brasil não é fácil.

Primeiro, o cidadão ou cidadã se depara com uma série de entraves, a começar pela ignorância total de agentes públicos, por exemplo, que muitas vezes não têm a mínima vaga ideia dos direitos do cidadão estampados na Constituição Federal e demais ordenamentos.

Por outro lado, quando há o conhecimento da legislação e o exercício da cidadania "esbarra" em interesses mesquinhos, o cidadão e a cidadã precisam de muita perseverança para enfrentar esses bolsões de atraso e tacanhice.

E num plano mais radical, quando o cidadão ou cidadã tem o infortúnio de "trombar" com verdadeiras quadrilhas enquistadas no serviço público, aí, então, a "coisa" fica muitíssimo complicada, porque pode acontecer constrangimentos, ameaças, intimidações, atentados e até assassinato.

Gandhi, Chico Mendes, Irmã Dorothy e outros tantos, perseguidos, presos, torturados, brutalmente assassinados, são exemplos disso que falamos aqui.


Do blog Dando Pitacos, reproduzo a seguir um texto que trata desta questão.



OS PERIGOS DA CIDADANIA ATIVA

Paulo R. Santos

Ser cidadão ou cidadã, de fato e de direito, é perigoso? Sim. Tanto no Brasil como em qualquer outra parte do planeta. Afinal, fazer valerem direitos e respeito a costumes socialmente determinados, a leis que equilibram a convivência social, sempre vão esbarrar em interesses de casta, classe e, principalmente, em interesses pessoais.

Chico Mendes é atualmente lembrado e celebrado como um homem exemplar na defesa da Amazônia, do meio ambiente, dos direitos dos pequenos diante dos abusos e da tirania dos grandes e poderosos. Foi indiretamente ameaçado. Recebeu recados de que sua vida estava em perigo. Fez denúncia à Polícia, ao Ministério Público, mas só foi levado a sério depois de ter sido encontrado morto, com o peito cheio de chumbos de uma espingarda de grosso calibre.

Chico Mendes morreu por aquilo em que acreditava. Morreu por seus ideais, por causa de sua determinação, de sua ousadia em enfrentar os donos do negócio (o negócio, neste caso, é a Amazônia e suas riquezas naturais). Morreu por reclamar menos e fazer mais. A isso se denomina cidadania ativa.

Cidadania não se resume a um status jurídico. Um direito outorgado pelo Estado a partir de uma determinada idade. Cidadania é, sobretudo, uma escolha moral, e essa escolha pode acontecer em qualquer idade. Independe de sexo, etnia, idade, religião, grau de escolaridade, vida urbana ou rural.

Cidadania é um estado de alma. Um comprometimento com a vida coletiva, com o bem-estar de todos e de todas. A cidadania está colada à solidariedade e aos direitos para todos e para todas. Direitos e não privilégios. Os poderosos de todos os tempos defendem seus supostos privilégios de classe ou casta, e os revolucionários (ou cidadãos ativos) de sempre, morrem pela preservação ou conquista de direitos.

A cidadania passiva é conveniente para a democracia liberal-burguesa. Afinal, uma vez a cada quatro anos vamos às urnas para sacramentar o que já está decidido no topo da pirâmide do poder. Ainda assim, o voto é um meio de mudar os rumos da vida coletiva sem derramamento de sangue, ... mas depende de cidadãos ativos, atentos ao que de fato acontece na vida coletiva.

A cidadania ativa é cotidiana e, por isso mesmo, perigosa. Exige o enfrentamento das mazelas sociais, da corrupção, dos desmandos, dos maus tratos produzidos por aqueles que deveriam atender bem ao contribuinte. Exige posicionamento sobre assuntos controversos, que se admita o contraditório, que se treine a convivência entre diferenças e divergências dentro dos limites das leis do país e dos costumes.

A cidadania passiva é complacente, omissa e conivente, e seus adeptos sofrem da “síndrome de Pilatos” (“Isso não e comigo!”). Lavam as mãos diante de tudo que lhes afete a rotina ou lhes fira algum interesse pessoal.

A cidadania ativa é perigosa porque exige exposição pessoal, a denúncia e a renúncia. Só pode ser levada a efeito por aqueles que estão dispostos a sofrer (ou a morrer) pelo que é justo e bom para todos. São muitos os casos na história. Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King Jr., Chico Mendes, ... e muitos outros e outras, conhecidos e anônimos que, aliás, são maioria.

Reclamar e terceirizar responsabilidades ou ações não muda os rumos das coisas. Basta ver como anda a vida social na atualidade. Os indicadores crescentes de homicídios, suicídios, linchamentos, violências de todos os tipos, não serão reduzidos pelo poder público, fragilizado e contaminado pelo crime organizado. Os membros conscientes da sociedade civil terão que aliar-se à sociedade política (dos três poderes) para reverter, quanto possível, a curva ascendente da decadência social.






Toda Vida é Sagrada

Lemos hoje no portal do Estadão que o cãozinho Pinpoo continua desaparecido, e que uma testemunha afirma ter visto o animal ser enxotado das dependências do aeroporto Salgado Filho por funcionários da Infraero.

Ignorantes. Incompetentes.

Se há um serviço ali de transporte de "cargas vivas", poderiam ao menos imaginar que o cãozinho tivesse fugido de alguma caixa de transporte.


                                        pinpoo (Foto: Arquivo Pessoal)
                                         Pinpoo: vítima da ignorância humana


A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados, disse certa vez o Mahatma Gandhi.

Mahatma quer dizer "grande alma". Enquanto o ser humano não modificar seus valores e continuar cultivando a displicência, a mesquinhez, o egoísmo, a ignorância, enquanto não tiver grandeza para tratar com respeito todos os seres da criação, não haverá paz no mundo.

Toda Vida é Sagrada.

Já na Antiguidade o filósofo grego Pitágoras alertava para os caminhos que a humanidade poderia trilhar, de acordo com as atitudes que tivesse em relação aos animais:

Enquanto o homem continuar a ser destruidor impiedoso dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor.

sábado, 12 de março de 2011

O que aconteceu ao Pinpoo?

Alguns leitores poderão achar descabido este post, já que o ABC! deveria estar tratando de Direitos Humanos, Cidadania, Mídia e Poder.

Acontece que esta blogueira ama os animais e não consegue ficar indiferente a este fato, noticiado pelos portais do Estadão e Globo (G1), principalmente.

Quem lê meu perfil aqui no blog vê que um dos meus interesses é "ativismo amplo".  Já me envolvi e apoiei muitas causas, inclusive no âmbito do direito e proteção animal.

Vocês sabiam que existe uma Declaração Universal dos Direitos dos Animais? E que há legislação brasileira em vários níveis para coibir ilícitos envolvendo animais? E que maus-tratos a animais, mesmo domésticos, é CRIME?

Como cidadã é direito meu acionar o ordenamento jurídico vigente para proteger os mais frágeis. Sejam eles pessoas ou animais.

Como cidadã, já exerci esse direito várias vezes. Denunciando inclusive sobrinha, maior, de nível universitário, que maltratava cães indefesos, alguns chegando inclusive a óbito. Triste pessoa foi denunciada na UIPA, União Internacional Protetora dos Animais, por maus-tratos a um cocker. Anos depois a mesma moça foi denunciada na Delegacia de Crimes Ambientais por maus-tratos a um cão velho, fraco e extremamente dócil, um boxer.

E há cerca de dois anos atrás, meu cãozinho Leonardo foi assassinado dentro de clínica veterinária de primeira linha, denunciada na Delegacia citada e no Conselho Regional de Médicos Veterinários do Estado de São Paulo.

Quanto ao cãozinho Pinpoo... Ele desapareceu no último dia 2, em trânsito, quando viajava de Porto Alegre a Vitória, em voo de empresa do grupo Gol. A dona do Pinpoo, dona Nair Flores, de 64 anos, ia para Guarapari pela empresa Azul, que não transporta animais com o peso do Pinpoo. O cãozinho teve que ser embarcado em voo de outra companhia, a Gollog, serviço de cargas da Gol.

Dona Nair pagou R$ 684,00 pelo transporte e o cãozinho não chegou ao destino. E pior: sumiu. Várias buscas têm sido feitas no aeroporto Salgado Filho e vizinhanças, inclusive por dona Nair, desesperada e desesperançada.

A empresa, que declarou que o cão fugiu antes do embarque, obviamente é responsável e deverá arcar com indenização à dona do animal, caso ele não seja encontrado. Mas é um episódio triste, que envolve a afeição de uma senhora de idade por um animalzinho de estimação submetido a uma situação de estresse e desamparo.

Num país que não respeita sequer os direitos básicos de cidadania, os direitos dos animais são muitas vezes considerados "perfumaria", coisa de gente louca e desocupada.

Reproduzo abaixo notícia a respeito e encaminharei email à companhia aérea pedindo informações e protestando pelo ocorrido.



Dona procura cão que deveria ter embarcado em voo para o ES

'Somos muito apegados, ele dormia na cama comigo', diz aposentada. Gol informou que apura o caso.

Vanessa Fajardo Do G1, em São Paulo

pinpoo (Foto: Arquivo Pessoal)
'Pinpoo' é a mistura de pincher com poodle
e fará 11 meses neste mês (Foto: Arquivo Pessoal)

O cachorro 'Pinpoo' deveria ter viajado de Porto Alegre (RS) para o Espírito Santo no dia 2 de março em voo da Gol, mas nunca chegou. A dona do cão, a aposentada Nair Flores, de 64 anos, seguia para o mesmo destino em outra companhia aérea que só recebe animais com menos peso. Soube que o cão não chegaria, quando parou em uma conexão em Minas Gerais, e foi avisada por telefone que 'Pinpoo' teria fugido antes do embarque.

O retorno da visita na casa da filha em Guarapari (ES) que duraria até 15 de março, foi antecipado para o dia 8. "Nem vi o mar, voltei antes porque queria procurar o 'Pinpoo'. Estava tão nervosa que passei mal durante o voo", disse Nair.

Desde então, a busca no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, não para. "Somos muito apegados, ele dormia na cama comigo. Já procurei pelas matas do aeroporto gritando o nome dele. Se tivesse me ouvido, teria vindo correndo", afirmou. Nair até espalhou peças de roupas dela pelas árvores para tentar atrair o cão pelo cheiro, mas não teve sucesso.

'Pinpoo' mescla as raças pincher e poodle, por isso tem este nome, e fará 11 meses neste mês. O animal foi doado a Nair pela filha, para substituir o cão que ela perdeu em janeiro.

A aposentada pagou R$ 684 mais a caixa pelo serviço de transporte do cão. Não pediu o reembolso. Porém, registrou boletim de ocorrência e pretende acionar a Justiça, caso não encontre o bicho.

Para Nair, a sensação é de um filho sequestrado. "Não acredito que ele esteja no aeroporto. Ou morreu ou foi roubado. Ele é bem amistoso, gosta de colo. É um cão caseiro, não sabe viver sozinho. Alguém pode ter levado."

A Gol informou que está apurando o caso e tem prestado apoio à cliente.

Portal G1








sexta-feira, 11 de março de 2011

Do que a mídia tem medo?

Quem não deve não teme, diz o dito popular.

E aí cabe indagar: por que a velha mídia (Folha, Globo...) é contrária à instalação da Comissão da Verdade?

Que fatos, acontecimentos, personagens precisam continuar escondidos, desconhecidos, protegidos sob o manto da ignorância?

A que interesses servem veículos de comunicação que reverberam posições ultraconservadoras vindas da caserna?

Por que o povo brasileiro não tem direito de saber a verdadeira história do período de arbítrio, conhecendo seus herois, suas vítimas, seus algozes?

Por que a exumação deste passado sombrio incomoda tanto as mazelas midiáticas?

Abaixo, artigo do site da CartaCapital a propósito.



Quem tem medo da verdade?



Temos diante de nós uma oportunidade de ouro: a de colocar em pratos limpos quem é democrata de fato no País e quem usa a democracia como uma bandeira de conveniência.

Durante oito anos, a grande imprensa brasileira cobrou do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva fictícios atentados contra a liberdade de expressão. Acusavam Lula de possuir “anseios autoritários”. Nunca antes na história viram-se jornais tão zelosos do sagrado direito do cidadão de se informar. Mas quem agora, dentre estes baluartes da democracia, será capaz de se posicionar ao lado da presidenta Dilma Rousseff em favor da instalação da Comissão da Verdade, que pretende apurar os crimes cometidos durante a ditadura? Ou isto não é direito à informação?

Dilma tem manifestado a auxiliares seu interesse em proporcionar uma satisfação oficial do Estado a familiares e vítimas da ditadura, como fizeram nossos vizinhos na Argentina, Chile e Uruguai. Faz parte da agenda da ex-guerrilheira, presa e torturada, destacar-se na defesa dos Direitos Humanos. A titular da pasta, ministra Maria do Rosário, declarou, de chegada, ser assunto prioritário do governo a instalação da comissão. Mas foi só a presidenta assumir, que sumiram das páginas mais “liberais” de nossa imprensa os artigos dos colunistas fixos em defesa da comissão. Foram suplantados por textos em defesa da… Defesa, o poderoso ministério que abriga os militares das três Forças.

No final do governo Lula, um articulista da nobre página 2 da Folha de S. Paulo, por exemplo, chegou a publicar várias colunas cobrando do presidente mais vigor na investigação do período militar, que tirasse a Comissão da Verdade do papel. Depois que Dilma demonstrou estar decidida a encarar o desafio, nunca mais. O que se vê atualmente são matérias, à guisa de furos de reportagem, ecoando a opinião dos militares mais obtusos da ativa, se não simplesmente já em seus pijamas. Em editoriais, mesmo, nenhum dos nossos grandes e democráticos jornais foi capaz de defender a instalação da comissão.

O Globo, aliás, fez justamente o contrário: espinafrou qualquer possibilidade de se mexer num passado que não lhe foi, afinal, o que poderia se chamar de “período de vacas magras”. Em editoriais, o jornal dos Marinho, sempre tão vigilante na hora de apontar tendências antidemocráticas em Lula, chamou a comissão de “orwelliana” e “encharcada de revanchismo”. Uma verdadeira “CPI da Ditadura” – como se isso não fosse algo a celebrar. O diário carioca fez malabarismos ao aliar o suposto “autoritarismo” de Lula a uma comissão “ao gosto dos regimes stalinistas”. É certo que Stalin reescreveu a verdade a seu bel-prazer. O Globo, porém, parece preferir que ela não seja nem sequer contada.

No início deste ano, a Folha bem que tentou disfarçar sua real opinião sobre o período que alcunhou de “ditabranda”, intercalando artigos de convidados contra e a favor da instalação da comissão. E uma ou outra carta apareceu em seu painel do leitor francamente favorável à investigação do passado. Mas a posição oficial do jornal é de editorial publicado em 31 de dezembro de 2009. Os crimes da ditadura, assegurava a Folha, “foram cometidos pelos dois lados em conflito”. Revisar a Lei da Anistia, nem pensar, publicou no editorial: “Não há nenhuma vantagem para a democracia em atiçar ressentimentos”. Para concluir: “O passado não deve ser esquecido – mas que não seja entrave e fonte de perturbação para o presente”.

A mim parece no mínimo curioso que órgãos de imprensa tão ciosos da democracia acatem os argumentos dos generais que impingiram ao país – eles sim, não Lula – uma ditadura. O projeto da Comissão da Verdade inclusive contempla a caserna, ao propor também a investigação de possíveis abusos cometidos pelos que lutaram contra o regime militar. Exigência, como se vê, dos militares, aliados aos jornais, e levada a cabo pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, que por fim conseguiu embuti-la no texto levado ao Congresso.

Ainda assim, continuam as restrições à comissão, pelos soldados armados e os de papel.

Um observador atento diria que a atitude reticente dos jornais em relação à Comissão da Verdade deixa transparecer um certo temor das investigações. Mas por que a grande imprensa brasileira teria medo da verdade? Acaso seria uma verdade inconveniente?

Tempos estranhos estes em que democratas preferem o obscurantismo à luz.

Uma nota: O Estado de S.Paulo fica de fora desta análise apenas porque não encontrei em seu arquivo online e na internet nenhuma opinião do jornal sobre a Comissão da Verdade. Teria optado pelo silêncio?
Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.






quinta-feira, 10 de março de 2011

Morre freira torturada pela ditadura

Faleceu, no último sábado, Madre Maurina, inocente freira franciscana presa e torturada pelos militares na ditadura. A religiosa, com 84 anos, vivia num convento da Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, em Araraquara, interior de São Paulo.

Presa em outubro de 1969, foi acusada de acobertar subversivos da Frente Armada de Libertação Nacional (FALN), em Ribeirão Preto.

"Madre Maurina foi uma grande vítima da ditadura militar, porque não tinha nenhuma participação política e jamais participou de organização que pregava a luta armada", disse d. Angélico Sandro Bernardino, bispo emérito (aposentado) de Blumenau-SC.

Publico abaixo coluna de Rose Nogueira homenageando Madre Maurina, no blog do Zé Dirceu, e em seguida entrevista da freira a Luíz Carlos Eblak, a partir do blog da Gabriela Yamada 


Direitos Humanos e Sociedade
Madre Maurina, Minha Lembrança

ImageRose Nogueira

Madre Maurina era clarinha, tão branquinha e sua pele tão rosada que, mesmo naquela situação, a gente prestava atenção.

Ocupei sua cela, a 4 do Fundão do corredor do DOPS. Levaram-na para o presídio Tiradentes naquele mesmo dia para que a cela fosse ocupada por mim, pela Ana Vilma Penafiel e por Tiana, uma professora que gritava ter sido presa por engano. À noite trouxeram Makiko Kishi, presa por ter fotografado o grande Carlos Marighella logo depois de ter sido assassinado pelo Esquadrão da Morte em 04 de novembro de 1969. 

Tiana estava agressiva, inconformada. Quando parou de gritar na pequena janela da porta grossa, disse-nos mais ou menos o seguinte: "Por que vocês não são como a Madre Maurina, que falava comigo e me acalmava? Ela era o meu remédio!" E voltou a gritar na janelinha: "Cadê a Madre Maurina, cadê a Madre Maurina?" Como esquecer daquela noite, em que os gritos de Tiana foram abafados pela outra gritaria que se seguiu, quando os assassinos desceram para o corredor das celas festejando seu crime? Nós não éramos a Madre Maurina, a doce pessoa descrita nervosamente por Tiana. Não tínhamos a sabedoria e o poder para, numa situação daquelas, ser o seu remédio, o bálsamo necessário para alguém que sofria com seu próprio transtorno.   

Nas vésperas do Natal, ao chegar ao presídio Tiradentes, subir a escada monumental da torre e ser levada para a cela da direita, vi dois rostos na cela maior em frente, à esquerda, observando quem chegava. Um deles o da Dulce Maia, que eu ainda não conhecia e depois, até hoje, passou a ser muito querida. O outro, eu reconheci pela descrição constante de Tiana: era clarinha, muito rosada, já tinha idade, de óculos, a bondade percebida à distância. A Madre Maurina.

Ficamos juntas poucos dias no Tiradentes. Logo depois abriram as celas porque a cada dia chegavam mais meninas e ela foi transferida para Ribeirão Preto, se não me engano. Ocupei de novo o lugar da Madre Maurina: fiquei na cela grande, a celona. Sabíamos que tinha sido barbaramente torturada. Havia rumores que teria sido violentada. Acho que nunca houve quem lhe perguntasse isso, não sei. Lembro-me dela com um roupão florido, comprido, e para mim perguntou apenas do meu bebê, que tinha um mês na época da prisão. Contei-lhe que havia tomado uma injeção à força no DOPS para cortar o leite. Ela me disse: "Foi uma descarga de estrógeno". E mais: "massageie os seios, use soutien, tenha cuidado que um dia podem aparecer nódulos...", enquanto segurava minha mão. Esse foi nosso único contato. Ela foi embora, para uma outra prisão.

Acompanhamos, tensas, meses depois, a troca da Madre e de outros companheiros pelo cônsul do Japão Nobuo Oguchi. O mundo todo falou nela, a freira presa pela ditadura. Foi banida, perdeu seus direitos políticos e sua cidadania, não podia voltar ao país. Mas voltou.

Em 1979, quando era repórter do Jornal Nacional, fui escalada para cobrir o julgamento dela, que insistiu em voltar ao Brasil apesar de ter sido banida. Pedi para não ir. Gostaria de ter ido como companheira e não como profissional. Mas o chefe foi irredutível. E ainda ouvi: "sem emoção, hem, sem emoção... postura profissional!" Naquele tempo era assim. Ele estava me pedindo o impossível.

Na auditoria militar, no mesmo lugar onde eu tinha sido julgada anos antes, revi Madre Maurina, ao lado de dom Paulo Evaristo Arns. Dessa vez, ela ocupava uma cadeira daquelas, como a que tinha sido minha: a de ré, na segunda fila - acho que a primeira estava vazia; é assim na minha lembrança. Estava ali como eu tinha estado, diante de um tribunal composto por quatro homens fardados e um juiz de toga no meio. Quem eram eles? Quem pensavam que eram?

A imprensa só podia ficar em pé ao lado daquele pequeno auditório. Fui até a frente, queria vê-la, queria que me visse, dei um adeus rápido com a mão, mas mandaram-me voltar para trás. Ela me olhou e sorriu.

Isso foi um pouco antes da lei da Anistia. Estava nas ruas, em todo lado, a campanha pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Dom Paulo estava certo: era preciso furar as leis da ditadura. A vinda da Madre Maurina para ser julgada foi uma exigência dela e acho que um acordo dele.

Na calçada da avenida Brigadeiro Luiz Antonio todos se abraçavam. Ela fora absolvida. Mas queria voltar para o México, onde vivia num convento - explicou no microfone à minha pergunta sobre o exílio. Depois me olhou nos olhos, sorriu, pegou minha mão e perguntou: "E o nenê, como é que está o nenê?" Nos abraçamos longamente, chorei na hora e choro agora. Voltei pro jornal, levei a maior bronca pela emoção e pedi demissão - mas isso é uma outra história, que continua com o Carlito Maia, irmão da Dulce, a dona do outro rosto da celona, que me fez voltar atrás um mês ou dois depois, para trabalhar no projeto da TV Mulher.


Madre Maurina foi para o México, disse que ia tranquila e não pensava voltar tão cedo. Agora está no céu.

Rose Nogueira é jornalista e membro do grupo Tortura Nunca Mais.  

 

Madre Maurina, por Luís Carlos Eblak

A madre franciscana Maurina Borges da Silveira morreu no final de semana. Única freira a ser presa e torturada durante a época da ditadura militar, em Ribeirão Preto, ela viveu no exílio durante 10 anos no México. Quando voltou, evitou falar com a imprensa sobre o que sofreu, alegando que já havia perdoado a todos.

Mas existe uma entrevista muito bacana concedida ao jornalista Luís Carlos Eblak, hoje editor da Folha Ribeirão (e nosso querido mestre, da faculdade), feita em 1998. No final da entrevista, uma revelação exclusiva sobre a alta sociedade de Ribeirão. Vale a pena ler.



Luis Eblak - Como foi o episódio da sua prisão?

Madre Maurina Borges da Silveira - Havia um grupo, o MEJ (Movimento Estudantil Jovem), que fazia reuniões em uma sala do Lar Santana. Num determinado dia, li nos jornais sobre as prisões. No jornal saiu que o presidente do MEJ, Mário Lorenzato, estava sendo procurado pela polícia. E já fazia muitas semanas que ele não aparecia mais no Lar Santana. Então, fiquei pensando o que teria ocorrido com ele. Fui até a salinha onde eles se reuniam. Tinha, no local, todo aquele material do jornal "O Berro", da FALN, e outras coisas. Não queria aquilo lá, então mandei queimar tudo. Aí a polícia apareceu no Lar para revistar a casa. Mas o que eles acharam foram somente as cadernetas do MEJ. E levaram tudo. Eles foram embora, mas continuei pensando: posso ser presa a qualquer momento... Aí, um dia, eu ainda estava nessa reunião quando eles me chamaram por telefone e avisaram que a polícia estava me esperando lá em casa, para me buscar. E eu cheguei na porta e nem me deixaram entrar. Já me levaram para a delegacia; me levaram para uma sala, na antiga Força Pública, hoje Delegacia Seccional. E lá eu fiquei até as duas da tarde... Fiquei lá. Tinha um monte de coisas no chão, coisas apreendidas pela polícia. Tinha armas, coisas de farmácia, glicerina, que eles falavam que era para fazer bombas... Chegaram seis homens, mais ou menos, entre eles estava o Fleury (Sérgio Paranhos Fleury). Começaram os interrogatórios... que foram os mais bobos que existiam... Uns falavam de virgindade, outros, que eu estava abandonada, outros, que a Igreja não queria mais saber de mim... Outros perguntavam se eu queria sacerdote para me interrogar... E, quando eles falavam essas besteiras, eu não respondia nada, ficava quieta... E, quando eu não respondia, eles me davam choque elétrico... Então, eles esperavam eu descansar para depois começar de novo... E isso durou muito tempo... Até, eu acho, umas três ou quatro da tarde. Vinha um, me interrogava, vinha outro, interrogava...

Eblak - A senhora conhecia os policiais?

Maurina - Não... O único que eu conhecia era o Fleury... Ele ficou danado da vida comigo. Ele me perguntou: "Quer que eu chame meu primo, que é padre, para te interrogar?". E eu não respondi... Passou um tempo, ele perguntou novamente: "Você não responde? Não olha na minha cara?". Eu olhei bem no olho dele... Ele perguntou: "Como você me conheceu?". E eu disse que tinha conhecido o Fleury na revista "Veja", quando ele tinha inventado uma história com os dominicanos. Ele ficou bravo quando falei isso, muito bravo. Simulou, bateu na mesa... E completei: "Foi aí que eu conheci você". Então, ele deu um murro na mesa e saiu da sala.

Eblak - A senhora se referia ao episódio do frei Betto e do frei Tito?

Maurina - Sim. Mas só falei dominicanos porque vi na revista. Depois, veio um delegado. Estava meio bêbado. Começou a me abraçar e eu disse: "Sai pra lá!".

Eblak - Quem era o delegado?

Maurina - Não sei quem era...

Eblak - Ele apenas abraçou a senhora?

Maurina - Sim, sim, só. Só sei que era um delegado de São Paulo. Não sei quem era ele. Ele pegou a arma e queria que eu pegasse na arma. Eu disse não. Disse que não iria pegar a arma. Ele queria que eu deixasse minhas digitais no objeto. Depois me colocaram numa sala com a Áurea Moretti. Ela não podia nem sentar nem deitar, pois estava toda machucada. Nas mãos e nos rostos, eles não faziam nada, mas no resto do corpo sim. Não podia nem falar, comunicava-se só com gestos. No dia seguinte, fomos transferidos para a Cadeia Pública de Cravinhos (23 km de Ribeirão Preto). Ficamos lá um mês. Eu fui interrogada só uma vez. E colocaram o Mário (Lorenzato) na minha frente porque eles diziam que ele era meu amante.

Eblak - A polícia falava isso?

Maurina - Sim, a polícia. E queriam porque queriam que nós confessássemos isso. Tanto que foram escrevendo tudo como se fosse depoimento nosso. Escreviam que eu era comunista, amante do Mário. E a polícia nos fez assinar isso. No dia seguinte, nos levaram para São Paulo. Fomos para o Dops (Departamento Estadual da Ordem Política e Social), depois eu fui para a prisão Tiradentes. Cheguei lá em novembro, fiquei dezembro, janeiro... Aí fui para a Penitenciária de Tremembé, que era cuidada por irmãs. Aí um dia eu estava vendo televisão. Era programa sobre a cultura japonesa. Mostrava todos os costumes do Japão, as características, a religião deles... Até que interromperam o programa e disseram que havia uma notícia importante. "O Presidente da República (Emílio Garrastazu Médici) já liberou os presos políticos que vão ser trocados pelo cônsul japonês e vão para o México", disse o moço da televisão. E o primeiro dos cinco nomes de presos políticos a ser mencionado foi o meu: "Madre Maurina Borges da Silveira". Foi um choque, uma surpresa desagradável.

Eblak - Do seqüestro, a senhora já sabia naquele momento?

Maurina - Já tinha lido. Então, foi como se tivessem jogado um balde d'água sobre mim. Eu não poderia acreditar naquilo. Eu não queria sair do país. Queria provar minha inocência. Então, eu saí de Tremembé, fui para São Paulo. No aeroporto, entrei no avião da FAB e foi a mesma coisa: não me deixaram olhar pela janela, não deixaram ver o Brasil, o meu país, pela última vez... Isso porque nós éramos daqueles que estavam atrapalhando o país, então, não podíamos nem olhar uma última vez para o Brasil, pois tínhamos que sair do país sem ter uma imagem de despedida. No avião, os homens da polícia viajaram o tempo todo armados. No México, queriam que descêssemos algemados, mas o cônsul brasileiro impediu. Saímos do avião sem algemas. E os policiais brasileiros queriam descer no México, mas as autoridades não deixaram. O primeiro a me receber foi o padre Francisco Lages. A princípio, fiquei num hotel, depois fui para a congregação São José, de irmãs católicas do México. No México, foi minha fé em Deus que me sustentou. Por meio dela eu pude ter momentos felizes.

Eblak - A senhora viveu na Cidade do México?

Maurina - Fui para uma fazenda... Era uma cidade chamada Demascalapa, no Estado do México. Fiz trabalhos sociais, com os trabalhadores rurais.

Eblak - Voltando um pouco na história. Antes da prisão dos membros da FALN, a senhora sabia da existência do grupo guerrilheiro?

Maurina - Não sabia. Não sabia de nada. Só sabia do MEJ, mas nada da guerrilha. Nem desconfiava. Um dia, o pessoal do MEJ me pediu para fazer uma palestra sobre amor... Então, nem dá para imaginar que gente de um grupo guerrilheiro se interesse por palestra de uma freira sobre amor.

Eblak - De onde acha que vieram tantos boatos sobre a senhora, como os episódios do seu envolvimento com guerrilheiros e a violência sexual?

Maurina - Porque eles torturaram Mário Lorenzato para que ele mentisse... Agora, tem uma coisa que eu nunca disse a ninguém. É sobre os ricos de Ribeirão Preto. No Lar Santana, orfanato que eu dirigia, tinha muita criança filha de mãe solteira e rica, o que era um escândalo social para a época (1969). Então, as crianças ficavam lá, mas o lugar era para os pobres. Eram cerca de cem crianças, e pelo menos 15 eram filhas de mães solteiras e ricas. Elas estavam tomando o lugar de outras, pobres, que precisavam de fato ficar no orfanato Lar Santana. As famílias davam cheques para nós e tudo o mais, mas o correto era que as crianças vivessem em suas casas. O que eu fiz? Devolvi as 15 crianças. Fui à casa de cada uma delas e as devolvi. E eram mansões, casas enormes. Eu dizia para as famílias: "O orfanato é lugar de criança necessitada que precisa de um lugar para viver, que não tem pai nem mãe". Acho que isso acabou influenciando de algum jeito no que me ocorreu depois. Não sei quem eram as famílias, mas isso deve ter tido ligação com a minha prisão.




Senhora de Poderosas Palavras

Dando continuidade à publicação de textos em comemoração ao Mês da Mulher, falamos hoje de uma poeta.

E também doceira, vendedora de livros, linguiças e banha de porco.

Brasileira. Guerreira. Revolucionária.

A revolução da palavra.



Saber viver, segundo Cora Coralina


Saber viver, segundo Cora Coralina

Nascida Ana Lins Guimarães Peixoto, viveu quase 96 anos; somente na sua última década de vida é que o Brasil a conheceu. Imaginem quem  apresentou Cora Coralina para todos os brasileiros? O mestre de Itabira, que sempre nos diz: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”: Carlos Drummond de Andrade.

Sobre Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade nos diz em uma carta dirigida a ela, sob o título: Carta dirigida a Cora (1983):


“Minha querida amiga Cora Coralina: Seu “Vintém de Cobre” é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia…”


Muito mais que poetisa e contista, era uma sábia! Na sua sabedoria, escrevia coisas simples e repletas de lições para a vida. Uma delas?



Saber Viver


Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto dura.



Cedo na vida, aventurou-se pelos lados de São Paulo, saindo dos grotões do velho Goiás. Sempre escreveu, mas não conseguiu, por tantos anos, apresentar sua arte para todos nós. Não participou da Semana de Arte Moderna (1922), pois o marido não tinha permitido! Viúva cedo, foi vendedora de livros, mudou de cidades algumas vezes, vendendo e fazendo linguiças e banha de porco. Soube plantar muitas alegrias e flores em sua vida, mas também colheu muitas pedras durante a caminhada:


Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.




coracoralina Saber viver, segundo Cora Coralina

 

Por fim, manda-nos uma linda poesia, uma singela oração, que pode resumir numa palavra o que são as verdadeiras lições da vida e da sabedoria. Sua bênção, Dona Aninha CORA CORALINA!



Humildade


Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.


                                                           Do site Cuidar de Idosos, do Dr. Marcio Borges, médico geriatra.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mulheres na Luta Armada


Mulher, brasileira e guerrilheira

Vanessa Gonçalves

"Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela nossa procura
Ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta"
(Idílica Estudantil - Alex Polari de Alverga)


Caixa de texto:

A violência institucional, que derrubou o estado de direito, surgiu poderosa o suficiente para mostrar suas garras antes mesmo que as primeiras ações armadas viessem à luz.

Após o imobilismo durante o golpe, a esquerda reagiu e decidiu que somente através da luta armada seria possível derrubar a ditadura.

Com um grande otimismo, a esquerda acreditava que era possível se armar, lutar e vencer, pois o povo certamente iria aderir. À medida que a ditadura proibia pela força qualquer tipo de participação política democrática, velhos e novos militantes aderiam a organizações como: ALN (Ação Libertadora Nacional), PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), entre outras.

Embora o espaço político fosse majoritariamente reservado aos homens, nas décadas de 60 e 70 ocorria um fenômeno que marcaria para sempre a história da participação feminina na política brasileira.



As Mulheres na Luta Armada

Contrariando inúmeras teses, a luta armada não foi um exercício de intransigência da esquerda, mas sim um duro e penoso enfrentamento ao Estado militarizado que em 21 anos foi responsável por cerca de 352 mortes (oficiais), 144 desaparecimentos, 2 mil torturados, 4.500 pessoas privadas de direitos civis, 10 mil exilados e 2.828 sentenciados à prisão pela Justiça Militar, tudo isso sem contar a violência contra os sindicatos, a imprensa, as entidades estudantis e a sociedade civil.

Indignadas com esse cenário de autoritarismo e violência, inúmeras mulheres aderiram ao sonho de derrubar a ditadura e libertar o povo da opressão. Adentraram no espaço público, pegaram em armas e fizeram história.

É certo que muitas dessas mulheres enfrentaram a oposição da família e da sociedade ao optar por esse caminho. Deixaram para trás - como todos os que atuaram nesse palco da história do Brasil - sonhos, amores, trabalhos, enfim, uma vida inteira para lutar por ideais.

É muito difícil precisar a quantidade de mulheres que foram à luta armada. Os números mais próximos fazem parte do levantamento realizado pelo Projeto Brasil Nunca Mais em 707 processos judiciais militares relativos ao período. No entanto, somente 695 deles puderam ser submetidos ao cruzamento de informações e levantamento de dados. Nesses 695 processos constatou-se que 7.367 cidadãos foram denunciados por atuação contra a ditadura. Desse total, 12% são mulheres, nos levando à marca de 884 militantes do sexo feminino.

Caixa de texto:

Não há como identificar quantas mulheres realmente participaram da luta armada, mas podemos observar que elas marcaram significativamente sua presença nesse movimento.

A participação feminina na luta armada implicou não apenas em sua insurgência contra a ordem política vigente, mas representou uma profunda transgressão ao que na época era designado espaço próprio das mulheres, ou seja, o espaço privado em que lhes restava apenas o papel de esposa, mãe e dona-de-casa, com exceção das operárias, que além de conquistar espaço no mercado de trabalho, tinham participação ativa no movimento sindical. Ao pegarem em armas, essas mulheres romperam tabu e, com certo êxito, conquistaram sua emancipação, conquistando, assim, seu lugar na história política do país.



O Prazer e a Dor de Ser uma Mulher Guerrilheira

Conquistar espaço na política foi uma vitória para as mulheres. Embora agumas tenham sofrido com o machismo de seus companheiros de organização, no início as mulheres tinham o privilégio de circular sem despertar a atenção dos militares. Por causa disso, conseguiam manter uma "fachada legal", o que garantiu a sobrevivência por mais tempo das organizações clandestinas.

Caixa de texto:

Durante algum tempo, foram até musas, como a militante Renata Guerra de Andrade (da VPR), conhecida como "a loura dos assaltos". Mas, quando caíram nas mãos da repressão eram única e exclusivamente inimigas do regime e aí sentiram a dor de ser guerrilheira.

Para a repressão a mulher não tinha capacidade de decidir por si só sua entrada no mundo político, portanto, para os militares a "mulher subversiva" era uma mulher desviante dos padrões normais definidos pela sociedade, assim, desmoralizavam-as com duas idéias: a de que estavam na luta buscando homens, então eram "putas comunistas"; ou eram mulher-macho, ou seja, homossexuais.

A repressão entendia que ao se insurgir contra o regime militar a mulher cometia dois pecados: o de lutar juntamente com os homens e o de ousar sair do espaço privado e adentrar no espaço público, político que historicamente era exclusivamente masculino. A pena para isso foi a tortura sem limites.

Caixa de texto:

Foram várias as formas de tortura aplicadas às mulheres, no entanto, a forma recorrente foi a ameaça de tortura física, de estupro e prisão/tortura de seus familiares. Além disso, eram constantemente humilhadas através da nudez e da vendagem dos olhos.

A sanha dos torturadores foi tamanha contra as mulheres que a militante Sônia Angel Jones (do MR-8) teve os dois seios arrancados durante a tortura que a levou à morte.

Dulce Maia (da VPR) revelou em seu relato para o jornalista Luiz Maklouf de Carvalho a violência da tortura: "O sargento metia a cabeça entre as minhas pernas e gritava: ´Você vai parir eletricidade´" . Dulce sobreviveu à tortura, mas até hoje sofre com as seqüelas da violência de seus seviciadores.

Em outro relato contundente sobre a tortura prestado por Maria Auxiliadora Lara Barcelos para o livro Memórias das Mulheres no Exílio fica evidente as marcas profundas deixadas pela violência: "Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, me cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos".

Apesar de tudo, todas viveram intensamente a vida. Em situações de clandestinidade "havia intensidade em cada instante" , como afirma a ex-guerrilheira Nancy Mangabeira Unger (do PCBR).

Caixa de texto:

Todas evidentemente sofreram com as perdas e a destruição de um sonho partido em milhões de cacos. Entretanto, há um lado positivo em tudo isso, como relata a ex-guerrilheira Iara Xavier Pereira (ALN): "Nós fomos a geração que optou por enfrentar o regime militar em um momento em que isto era absolutamente necessário. Não éramos loucos nem terroristas sangüinários. Éramos jovens comprometidos com um ideal".

Por fim, valem as palavras da ex-guerrilheira Sônia Lafoz (ALN): "Não massageio meu próprio ego, mas tiro o chapéu para os homens e mulheres que tiveram a coragem de enfrentar aquela situação. No que diz respeito a nós, mulheres, as que pegaram ou não pegaram em armas, foi um momento singular de participação histórica. Devo dizer que eu faria tudo de novo".


* Todos os relatos desse artigo foram retirados do livro Mulheres que foram à luta armada do jornalista Luiz Maklouf de Carvalho.

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP), onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).