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quinta-feira, 10 de março de 2011

Morre freira torturada pela ditadura

Faleceu, no último sábado, Madre Maurina, inocente freira franciscana presa e torturada pelos militares na ditadura. A religiosa, com 84 anos, vivia num convento da Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, em Araraquara, interior de São Paulo.

Presa em outubro de 1969, foi acusada de acobertar subversivos da Frente Armada de Libertação Nacional (FALN), em Ribeirão Preto.

"Madre Maurina foi uma grande vítima da ditadura militar, porque não tinha nenhuma participação política e jamais participou de organização que pregava a luta armada", disse d. Angélico Sandro Bernardino, bispo emérito (aposentado) de Blumenau-SC.

Publico abaixo coluna de Rose Nogueira homenageando Madre Maurina, no blog do Zé Dirceu, e em seguida entrevista da freira a Luíz Carlos Eblak, a partir do blog da Gabriela Yamada 


Direitos Humanos e Sociedade
Madre Maurina, Minha Lembrança

ImageRose Nogueira

Madre Maurina era clarinha, tão branquinha e sua pele tão rosada que, mesmo naquela situação, a gente prestava atenção.

Ocupei sua cela, a 4 do Fundão do corredor do DOPS. Levaram-na para o presídio Tiradentes naquele mesmo dia para que a cela fosse ocupada por mim, pela Ana Vilma Penafiel e por Tiana, uma professora que gritava ter sido presa por engano. À noite trouxeram Makiko Kishi, presa por ter fotografado o grande Carlos Marighella logo depois de ter sido assassinado pelo Esquadrão da Morte em 04 de novembro de 1969. 

Tiana estava agressiva, inconformada. Quando parou de gritar na pequena janela da porta grossa, disse-nos mais ou menos o seguinte: "Por que vocês não são como a Madre Maurina, que falava comigo e me acalmava? Ela era o meu remédio!" E voltou a gritar na janelinha: "Cadê a Madre Maurina, cadê a Madre Maurina?" Como esquecer daquela noite, em que os gritos de Tiana foram abafados pela outra gritaria que se seguiu, quando os assassinos desceram para o corredor das celas festejando seu crime? Nós não éramos a Madre Maurina, a doce pessoa descrita nervosamente por Tiana. Não tínhamos a sabedoria e o poder para, numa situação daquelas, ser o seu remédio, o bálsamo necessário para alguém que sofria com seu próprio transtorno.   

Nas vésperas do Natal, ao chegar ao presídio Tiradentes, subir a escada monumental da torre e ser levada para a cela da direita, vi dois rostos na cela maior em frente, à esquerda, observando quem chegava. Um deles o da Dulce Maia, que eu ainda não conhecia e depois, até hoje, passou a ser muito querida. O outro, eu reconheci pela descrição constante de Tiana: era clarinha, muito rosada, já tinha idade, de óculos, a bondade percebida à distância. A Madre Maurina.

Ficamos juntas poucos dias no Tiradentes. Logo depois abriram as celas porque a cada dia chegavam mais meninas e ela foi transferida para Ribeirão Preto, se não me engano. Ocupei de novo o lugar da Madre Maurina: fiquei na cela grande, a celona. Sabíamos que tinha sido barbaramente torturada. Havia rumores que teria sido violentada. Acho que nunca houve quem lhe perguntasse isso, não sei. Lembro-me dela com um roupão florido, comprido, e para mim perguntou apenas do meu bebê, que tinha um mês na época da prisão. Contei-lhe que havia tomado uma injeção à força no DOPS para cortar o leite. Ela me disse: "Foi uma descarga de estrógeno". E mais: "massageie os seios, use soutien, tenha cuidado que um dia podem aparecer nódulos...", enquanto segurava minha mão. Esse foi nosso único contato. Ela foi embora, para uma outra prisão.

Acompanhamos, tensas, meses depois, a troca da Madre e de outros companheiros pelo cônsul do Japão Nobuo Oguchi. O mundo todo falou nela, a freira presa pela ditadura. Foi banida, perdeu seus direitos políticos e sua cidadania, não podia voltar ao país. Mas voltou.

Em 1979, quando era repórter do Jornal Nacional, fui escalada para cobrir o julgamento dela, que insistiu em voltar ao Brasil apesar de ter sido banida. Pedi para não ir. Gostaria de ter ido como companheira e não como profissional. Mas o chefe foi irredutível. E ainda ouvi: "sem emoção, hem, sem emoção... postura profissional!" Naquele tempo era assim. Ele estava me pedindo o impossível.

Na auditoria militar, no mesmo lugar onde eu tinha sido julgada anos antes, revi Madre Maurina, ao lado de dom Paulo Evaristo Arns. Dessa vez, ela ocupava uma cadeira daquelas, como a que tinha sido minha: a de ré, na segunda fila - acho que a primeira estava vazia; é assim na minha lembrança. Estava ali como eu tinha estado, diante de um tribunal composto por quatro homens fardados e um juiz de toga no meio. Quem eram eles? Quem pensavam que eram?

A imprensa só podia ficar em pé ao lado daquele pequeno auditório. Fui até a frente, queria vê-la, queria que me visse, dei um adeus rápido com a mão, mas mandaram-me voltar para trás. Ela me olhou e sorriu.

Isso foi um pouco antes da lei da Anistia. Estava nas ruas, em todo lado, a campanha pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Dom Paulo estava certo: era preciso furar as leis da ditadura. A vinda da Madre Maurina para ser julgada foi uma exigência dela e acho que um acordo dele.

Na calçada da avenida Brigadeiro Luiz Antonio todos se abraçavam. Ela fora absolvida. Mas queria voltar para o México, onde vivia num convento - explicou no microfone à minha pergunta sobre o exílio. Depois me olhou nos olhos, sorriu, pegou minha mão e perguntou: "E o nenê, como é que está o nenê?" Nos abraçamos longamente, chorei na hora e choro agora. Voltei pro jornal, levei a maior bronca pela emoção e pedi demissão - mas isso é uma outra história, que continua com o Carlito Maia, irmão da Dulce, a dona do outro rosto da celona, que me fez voltar atrás um mês ou dois depois, para trabalhar no projeto da TV Mulher.


Madre Maurina foi para o México, disse que ia tranquila e não pensava voltar tão cedo. Agora está no céu.

Rose Nogueira é jornalista e membro do grupo Tortura Nunca Mais.  

 

Madre Maurina, por Luís Carlos Eblak

A madre franciscana Maurina Borges da Silveira morreu no final de semana. Única freira a ser presa e torturada durante a época da ditadura militar, em Ribeirão Preto, ela viveu no exílio durante 10 anos no México. Quando voltou, evitou falar com a imprensa sobre o que sofreu, alegando que já havia perdoado a todos.

Mas existe uma entrevista muito bacana concedida ao jornalista Luís Carlos Eblak, hoje editor da Folha Ribeirão (e nosso querido mestre, da faculdade), feita em 1998. No final da entrevista, uma revelação exclusiva sobre a alta sociedade de Ribeirão. Vale a pena ler.



Luis Eblak - Como foi o episódio da sua prisão?

Madre Maurina Borges da Silveira - Havia um grupo, o MEJ (Movimento Estudantil Jovem), que fazia reuniões em uma sala do Lar Santana. Num determinado dia, li nos jornais sobre as prisões. No jornal saiu que o presidente do MEJ, Mário Lorenzato, estava sendo procurado pela polícia. E já fazia muitas semanas que ele não aparecia mais no Lar Santana. Então, fiquei pensando o que teria ocorrido com ele. Fui até a salinha onde eles se reuniam. Tinha, no local, todo aquele material do jornal "O Berro", da FALN, e outras coisas. Não queria aquilo lá, então mandei queimar tudo. Aí a polícia apareceu no Lar para revistar a casa. Mas o que eles acharam foram somente as cadernetas do MEJ. E levaram tudo. Eles foram embora, mas continuei pensando: posso ser presa a qualquer momento... Aí, um dia, eu ainda estava nessa reunião quando eles me chamaram por telefone e avisaram que a polícia estava me esperando lá em casa, para me buscar. E eu cheguei na porta e nem me deixaram entrar. Já me levaram para a delegacia; me levaram para uma sala, na antiga Força Pública, hoje Delegacia Seccional. E lá eu fiquei até as duas da tarde... Fiquei lá. Tinha um monte de coisas no chão, coisas apreendidas pela polícia. Tinha armas, coisas de farmácia, glicerina, que eles falavam que era para fazer bombas... Chegaram seis homens, mais ou menos, entre eles estava o Fleury (Sérgio Paranhos Fleury). Começaram os interrogatórios... que foram os mais bobos que existiam... Uns falavam de virgindade, outros, que eu estava abandonada, outros, que a Igreja não queria mais saber de mim... Outros perguntavam se eu queria sacerdote para me interrogar... E, quando eles falavam essas besteiras, eu não respondia nada, ficava quieta... E, quando eu não respondia, eles me davam choque elétrico... Então, eles esperavam eu descansar para depois começar de novo... E isso durou muito tempo... Até, eu acho, umas três ou quatro da tarde. Vinha um, me interrogava, vinha outro, interrogava...

Eblak - A senhora conhecia os policiais?

Maurina - Não... O único que eu conhecia era o Fleury... Ele ficou danado da vida comigo. Ele me perguntou: "Quer que eu chame meu primo, que é padre, para te interrogar?". E eu não respondi... Passou um tempo, ele perguntou novamente: "Você não responde? Não olha na minha cara?". Eu olhei bem no olho dele... Ele perguntou: "Como você me conheceu?". E eu disse que tinha conhecido o Fleury na revista "Veja", quando ele tinha inventado uma história com os dominicanos. Ele ficou bravo quando falei isso, muito bravo. Simulou, bateu na mesa... E completei: "Foi aí que eu conheci você". Então, ele deu um murro na mesa e saiu da sala.

Eblak - A senhora se referia ao episódio do frei Betto e do frei Tito?

Maurina - Sim. Mas só falei dominicanos porque vi na revista. Depois, veio um delegado. Estava meio bêbado. Começou a me abraçar e eu disse: "Sai pra lá!".

Eblak - Quem era o delegado?

Maurina - Não sei quem era...

Eblak - Ele apenas abraçou a senhora?

Maurina - Sim, sim, só. Só sei que era um delegado de São Paulo. Não sei quem era ele. Ele pegou a arma e queria que eu pegasse na arma. Eu disse não. Disse que não iria pegar a arma. Ele queria que eu deixasse minhas digitais no objeto. Depois me colocaram numa sala com a Áurea Moretti. Ela não podia nem sentar nem deitar, pois estava toda machucada. Nas mãos e nos rostos, eles não faziam nada, mas no resto do corpo sim. Não podia nem falar, comunicava-se só com gestos. No dia seguinte, fomos transferidos para a Cadeia Pública de Cravinhos (23 km de Ribeirão Preto). Ficamos lá um mês. Eu fui interrogada só uma vez. E colocaram o Mário (Lorenzato) na minha frente porque eles diziam que ele era meu amante.

Eblak - A polícia falava isso?

Maurina - Sim, a polícia. E queriam porque queriam que nós confessássemos isso. Tanto que foram escrevendo tudo como se fosse depoimento nosso. Escreviam que eu era comunista, amante do Mário. E a polícia nos fez assinar isso. No dia seguinte, nos levaram para São Paulo. Fomos para o Dops (Departamento Estadual da Ordem Política e Social), depois eu fui para a prisão Tiradentes. Cheguei lá em novembro, fiquei dezembro, janeiro... Aí fui para a Penitenciária de Tremembé, que era cuidada por irmãs. Aí um dia eu estava vendo televisão. Era programa sobre a cultura japonesa. Mostrava todos os costumes do Japão, as características, a religião deles... Até que interromperam o programa e disseram que havia uma notícia importante. "O Presidente da República (Emílio Garrastazu Médici) já liberou os presos políticos que vão ser trocados pelo cônsul japonês e vão para o México", disse o moço da televisão. E o primeiro dos cinco nomes de presos políticos a ser mencionado foi o meu: "Madre Maurina Borges da Silveira". Foi um choque, uma surpresa desagradável.

Eblak - Do seqüestro, a senhora já sabia naquele momento?

Maurina - Já tinha lido. Então, foi como se tivessem jogado um balde d'água sobre mim. Eu não poderia acreditar naquilo. Eu não queria sair do país. Queria provar minha inocência. Então, eu saí de Tremembé, fui para São Paulo. No aeroporto, entrei no avião da FAB e foi a mesma coisa: não me deixaram olhar pela janela, não deixaram ver o Brasil, o meu país, pela última vez... Isso porque nós éramos daqueles que estavam atrapalhando o país, então, não podíamos nem olhar uma última vez para o Brasil, pois tínhamos que sair do país sem ter uma imagem de despedida. No avião, os homens da polícia viajaram o tempo todo armados. No México, queriam que descêssemos algemados, mas o cônsul brasileiro impediu. Saímos do avião sem algemas. E os policiais brasileiros queriam descer no México, mas as autoridades não deixaram. O primeiro a me receber foi o padre Francisco Lages. A princípio, fiquei num hotel, depois fui para a congregação São José, de irmãs católicas do México. No México, foi minha fé em Deus que me sustentou. Por meio dela eu pude ter momentos felizes.

Eblak - A senhora viveu na Cidade do México?

Maurina - Fui para uma fazenda... Era uma cidade chamada Demascalapa, no Estado do México. Fiz trabalhos sociais, com os trabalhadores rurais.

Eblak - Voltando um pouco na história. Antes da prisão dos membros da FALN, a senhora sabia da existência do grupo guerrilheiro?

Maurina - Não sabia. Não sabia de nada. Só sabia do MEJ, mas nada da guerrilha. Nem desconfiava. Um dia, o pessoal do MEJ me pediu para fazer uma palestra sobre amor... Então, nem dá para imaginar que gente de um grupo guerrilheiro se interesse por palestra de uma freira sobre amor.

Eblak - De onde acha que vieram tantos boatos sobre a senhora, como os episódios do seu envolvimento com guerrilheiros e a violência sexual?

Maurina - Porque eles torturaram Mário Lorenzato para que ele mentisse... Agora, tem uma coisa que eu nunca disse a ninguém. É sobre os ricos de Ribeirão Preto. No Lar Santana, orfanato que eu dirigia, tinha muita criança filha de mãe solteira e rica, o que era um escândalo social para a época (1969). Então, as crianças ficavam lá, mas o lugar era para os pobres. Eram cerca de cem crianças, e pelo menos 15 eram filhas de mães solteiras e ricas. Elas estavam tomando o lugar de outras, pobres, que precisavam de fato ficar no orfanato Lar Santana. As famílias davam cheques para nós e tudo o mais, mas o correto era que as crianças vivessem em suas casas. O que eu fiz? Devolvi as 15 crianças. Fui à casa de cada uma delas e as devolvi. E eram mansões, casas enormes. Eu dizia para as famílias: "O orfanato é lugar de criança necessitada que precisa de um lugar para viver, que não tem pai nem mãe". Acho que isso acabou influenciando de algum jeito no que me ocorreu depois. Não sei quem eram as famílias, mas isso deve ter tido ligação com a minha prisão.




Senhora de Poderosas Palavras

Dando continuidade à publicação de textos em comemoração ao Mês da Mulher, falamos hoje de uma poeta.

E também doceira, vendedora de livros, linguiças e banha de porco.

Brasileira. Guerreira. Revolucionária.

A revolução da palavra.



Saber viver, segundo Cora Coralina


Saber viver, segundo Cora Coralina

Nascida Ana Lins Guimarães Peixoto, viveu quase 96 anos; somente na sua última década de vida é que o Brasil a conheceu. Imaginem quem  apresentou Cora Coralina para todos os brasileiros? O mestre de Itabira, que sempre nos diz: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”: Carlos Drummond de Andrade.

Sobre Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade nos diz em uma carta dirigida a ela, sob o título: Carta dirigida a Cora (1983):


“Minha querida amiga Cora Coralina: Seu “Vintém de Cobre” é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia…”


Muito mais que poetisa e contista, era uma sábia! Na sua sabedoria, escrevia coisas simples e repletas de lições para a vida. Uma delas?



Saber Viver


Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto dura.



Cedo na vida, aventurou-se pelos lados de São Paulo, saindo dos grotões do velho Goiás. Sempre escreveu, mas não conseguiu, por tantos anos, apresentar sua arte para todos nós. Não participou da Semana de Arte Moderna (1922), pois o marido não tinha permitido! Viúva cedo, foi vendedora de livros, mudou de cidades algumas vezes, vendendo e fazendo linguiças e banha de porco. Soube plantar muitas alegrias e flores em sua vida, mas também colheu muitas pedras durante a caminhada:


Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.




coracoralina Saber viver, segundo Cora Coralina

 

Por fim, manda-nos uma linda poesia, uma singela oração, que pode resumir numa palavra o que são as verdadeiras lições da vida e da sabedoria. Sua bênção, Dona Aninha CORA CORALINA!



Humildade


Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.


                                                           Do site Cuidar de Idosos, do Dr. Marcio Borges, médico geriatra.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mulheres na Luta Armada


Mulher, brasileira e guerrilheira

Vanessa Gonçalves

"Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela nossa procura
Ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta"
(Idílica Estudantil - Alex Polari de Alverga)


Caixa de texto:

A violência institucional, que derrubou o estado de direito, surgiu poderosa o suficiente para mostrar suas garras antes mesmo que as primeiras ações armadas viessem à luz.

Após o imobilismo durante o golpe, a esquerda reagiu e decidiu que somente através da luta armada seria possível derrubar a ditadura.

Com um grande otimismo, a esquerda acreditava que era possível se armar, lutar e vencer, pois o povo certamente iria aderir. À medida que a ditadura proibia pela força qualquer tipo de participação política democrática, velhos e novos militantes aderiam a organizações como: ALN (Ação Libertadora Nacional), PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), entre outras.

Embora o espaço político fosse majoritariamente reservado aos homens, nas décadas de 60 e 70 ocorria um fenômeno que marcaria para sempre a história da participação feminina na política brasileira.



As Mulheres na Luta Armada

Contrariando inúmeras teses, a luta armada não foi um exercício de intransigência da esquerda, mas sim um duro e penoso enfrentamento ao Estado militarizado que em 21 anos foi responsável por cerca de 352 mortes (oficiais), 144 desaparecimentos, 2 mil torturados, 4.500 pessoas privadas de direitos civis, 10 mil exilados e 2.828 sentenciados à prisão pela Justiça Militar, tudo isso sem contar a violência contra os sindicatos, a imprensa, as entidades estudantis e a sociedade civil.

Indignadas com esse cenário de autoritarismo e violência, inúmeras mulheres aderiram ao sonho de derrubar a ditadura e libertar o povo da opressão. Adentraram no espaço público, pegaram em armas e fizeram história.

É certo que muitas dessas mulheres enfrentaram a oposição da família e da sociedade ao optar por esse caminho. Deixaram para trás - como todos os que atuaram nesse palco da história do Brasil - sonhos, amores, trabalhos, enfim, uma vida inteira para lutar por ideais.

É muito difícil precisar a quantidade de mulheres que foram à luta armada. Os números mais próximos fazem parte do levantamento realizado pelo Projeto Brasil Nunca Mais em 707 processos judiciais militares relativos ao período. No entanto, somente 695 deles puderam ser submetidos ao cruzamento de informações e levantamento de dados. Nesses 695 processos constatou-se que 7.367 cidadãos foram denunciados por atuação contra a ditadura. Desse total, 12% são mulheres, nos levando à marca de 884 militantes do sexo feminino.

Caixa de texto:

Não há como identificar quantas mulheres realmente participaram da luta armada, mas podemos observar que elas marcaram significativamente sua presença nesse movimento.

A participação feminina na luta armada implicou não apenas em sua insurgência contra a ordem política vigente, mas representou uma profunda transgressão ao que na época era designado espaço próprio das mulheres, ou seja, o espaço privado em que lhes restava apenas o papel de esposa, mãe e dona-de-casa, com exceção das operárias, que além de conquistar espaço no mercado de trabalho, tinham participação ativa no movimento sindical. Ao pegarem em armas, essas mulheres romperam tabu e, com certo êxito, conquistaram sua emancipação, conquistando, assim, seu lugar na história política do país.



O Prazer e a Dor de Ser uma Mulher Guerrilheira

Conquistar espaço na política foi uma vitória para as mulheres. Embora agumas tenham sofrido com o machismo de seus companheiros de organização, no início as mulheres tinham o privilégio de circular sem despertar a atenção dos militares. Por causa disso, conseguiam manter uma "fachada legal", o que garantiu a sobrevivência por mais tempo das organizações clandestinas.

Caixa de texto:

Durante algum tempo, foram até musas, como a militante Renata Guerra de Andrade (da VPR), conhecida como "a loura dos assaltos". Mas, quando caíram nas mãos da repressão eram única e exclusivamente inimigas do regime e aí sentiram a dor de ser guerrilheira.

Para a repressão a mulher não tinha capacidade de decidir por si só sua entrada no mundo político, portanto, para os militares a "mulher subversiva" era uma mulher desviante dos padrões normais definidos pela sociedade, assim, desmoralizavam-as com duas idéias: a de que estavam na luta buscando homens, então eram "putas comunistas"; ou eram mulher-macho, ou seja, homossexuais.

A repressão entendia que ao se insurgir contra o regime militar a mulher cometia dois pecados: o de lutar juntamente com os homens e o de ousar sair do espaço privado e adentrar no espaço público, político que historicamente era exclusivamente masculino. A pena para isso foi a tortura sem limites.

Caixa de texto:

Foram várias as formas de tortura aplicadas às mulheres, no entanto, a forma recorrente foi a ameaça de tortura física, de estupro e prisão/tortura de seus familiares. Além disso, eram constantemente humilhadas através da nudez e da vendagem dos olhos.

A sanha dos torturadores foi tamanha contra as mulheres que a militante Sônia Angel Jones (do MR-8) teve os dois seios arrancados durante a tortura que a levou à morte.

Dulce Maia (da VPR) revelou em seu relato para o jornalista Luiz Maklouf de Carvalho a violência da tortura: "O sargento metia a cabeça entre as minhas pernas e gritava: ´Você vai parir eletricidade´" . Dulce sobreviveu à tortura, mas até hoje sofre com as seqüelas da violência de seus seviciadores.

Em outro relato contundente sobre a tortura prestado por Maria Auxiliadora Lara Barcelos para o livro Memórias das Mulheres no Exílio fica evidente as marcas profundas deixadas pela violência: "Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, me cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos".

Apesar de tudo, todas viveram intensamente a vida. Em situações de clandestinidade "havia intensidade em cada instante" , como afirma a ex-guerrilheira Nancy Mangabeira Unger (do PCBR).

Caixa de texto:

Todas evidentemente sofreram com as perdas e a destruição de um sonho partido em milhões de cacos. Entretanto, há um lado positivo em tudo isso, como relata a ex-guerrilheira Iara Xavier Pereira (ALN): "Nós fomos a geração que optou por enfrentar o regime militar em um momento em que isto era absolutamente necessário. Não éramos loucos nem terroristas sangüinários. Éramos jovens comprometidos com um ideal".

Por fim, valem as palavras da ex-guerrilheira Sônia Lafoz (ALN): "Não massageio meu próprio ego, mas tiro o chapéu para os homens e mulheres que tiveram a coragem de enfrentar aquela situação. No que diz respeito a nós, mulheres, as que pegaram ou não pegaram em armas, foi um momento singular de participação histórica. Devo dizer que eu faria tudo de novo".


* Todos os relatos desse artigo foram retirados do livro Mulheres que foram à luta armada do jornalista Luiz Maklouf de Carvalho.

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP), onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).

Indignação de professor e blogueira

A pedido da blogueira e educadora Rosa Zamp, do blog Palavras de Um Novo Mundo, o ABC! abre espaço para reproduzir abaixo post-denúncia contendo Carta de Indignação de um professor do ensino público sobre um fato que envolve criminalidade e estudantes no município de Hortolândia, próximo a Campinas, São Paulo.

Esperamos manifestação das autoridades da região a respeito.


terça-feira, 8 de março de 2011

Amigos blogueiros: jornalistas, educadores, escritores, todos que lutam por um país justo e de livre expressão... preciso de ajuda!

Vocês que aprendi a respeitar, admirar e acompanhar peço-lhes ajuda para um momento que tornou-se inevitável. É com tristeza que abrirei publicamente aquilo que tenho evitado desde que inaugurei este blog. Uma luta...uma luta árdua, doída e de consequências sofridas diretamente na minha vida profissional e pessoal ( e de muitas outras pessoas) por não aceitar atos inescrupulosos, ardis, covardes, ditatoriais.

Os motivos são muitos e aos que se interessarem - espero que sejam os que se dizem contra tudo o que citei acima - terão muitas razões para acompanhar e principalmente, divulgar o que se inicia agora com uma Carta de Indignação elaborada por um servidor público (professor) de Hortolândia-SP, que assim como eu trabalha em prol de uma sociedade no mínino coerente e na mesma cidade. Leiam na íntegra e a divulguem por que isso é só o começo de um grande conto que tenho pra lhes contar.

"Adolescente “surta” e mata primo de 7 anos: o que temos a ver com isso?"

Nos últimos dias uma manchete sobre o assassinato de uma criança nos pegou de surpresa: Adolescente chega em casa, provavelmente sob efeito de alguma substância ilícita, tem alucinações, mata primo de sete anos e fere prima também adolescente... Muitos de nós ficamos chocados com a história, mas já estamos acostumados com tanta violência e sabemos que com o tempo esqueceremos.

Desta vez, comigo foi diferente.

Era uma noite de sábado, estava em casa e de repente o telefone toca. Já era dez e meia da noite. Minha chefe diz: “Ronaldo, lembra daquele nosso aluninho, Reinaldo? Esse ano ele está com a professora Denise, ano passado esteve com a Deicla...” Assim pelo nome não conseguia lembrar, e eis que ela continuou, “lembra que teve um garoto que caiu na rampa da escola e machucou o rosto? É ele...”. Neste momento me lembrei daquele rostinho levemente desfigurado por causa de um tombo, afinal as crianças adoram correr na escola, e perguntei a ela o motivo do telefonema...

“Então, o primo mais velho esfaqueou e matou ele...”

(...)
Desde aquele momento até agora estou perplexo. Além de sofrer com a perda de um aluno (pois em nossa escola um aluno não é apenas de um professor, mas de todos), fico pensando sobre o que este ato de violência está nos querendo dizer. Uma vida tão pequena não pode ter sido abruptamente interrompida e ser passada assim. Ela nos ensina algo.

Se este final de semana deveria ser festivo para todos nós, afinal é carnaval, tenho certeza que minha comunidade está em luto. Ainda não consegui conversar com todos de lá. Apenas sei que fiquei tão chocado que não tive forças para ir ao enterro. Jamais conseguiria me deparar com aquele rostinho, que outrora estava machucado por um tombo corriqueiro, agora desfigurado por golpes de facas que lhe custaram a vida. Como alguém que é apaixonado por crianças e seus barulhos, conseguiria ver o silêncio e a quietude de um corpinho num caixão?

O sentimento de ódio e indignação pulsava em mim. E é óbvio que meu primeiro alvo foi o adolescente-assassino. Mas foi apenas pensar em tudo o que ocorrera que mudei minha opinião. O hoje adolescente possui marcas de uma infância muito mais presentes em sua vida, do que a de um ser já adulto. Mas que marcas são essas?

Comecei a lembrar de minha adolescência. Estudei em uma escola pública de período integral com mestres intelectuais que até hoje são referência para mim. Durante esta fase da minha vida, estes profissionais trabalhavam conosco o desejo por um sonho, por um projeto de vida, e como faríamos para alcançar nossos objetivos.

Quais são os sonhos deste adolescente? Qual será sua utopia? Ou será ele mais uma vítima da sociedade em que vivemos? Em quais escolas ele passou? O que o poder público fez e fará dele daqui pra frente, principalmente quando este caso cair no ostracismo? Será que teremos profissionais da saúde mental dando todo o suporte necessário para este, também, menino?

O que mais me impressiona neste caso é o silêncio das autoridades competentes no município de Hortolândia: Onde está a deputada estadual, o prefeito, a vice-prefeita, os secretários e os vereadores? Qual é o vosso pronunciamento? Quais atitudes serão tomadas daqui pra frente para que não tenhamos outros Reinaldos esfaqueados em nossa cidade? (grifo meu)

Infelizmente, este caso apenas deflagra a carência de políticas públicas eficazes neste mundo em que vivemos. Afinal, crianças que crescem em contato com educação, cultura e lazer não deixam de sonhar. Possuem um projeto de vida. Não se tornam adolescentes que se contentam em viver seus dias lidando com medidas e punições judiciais.

Acho que esta foi a gota d’água que faltava em meu copo de indignação política. Precisamos de medidas urgentes e eficazes nesta cidade. Os responsáveis por esta cidade precisam assumir as rédeas de suas responsabilidades. Não dá pra esperar mais! (grifo meu)

Por hora, ainda não sei como será voltar para a escola depois do carnaval. Já soube que algumas crianças disseram que Reinaldo estará lá na quinta-feira. Ainda precisaremos ensinar as crianças a lidar com a perda, num mundo que está cada vez mais violento e sem perspectivas. Ainda não sei se aprendi a lidar esta perda, mas terei que fazê-lo: Ser professor não é tarefa fácil.

E ao nosso pequeno Reinaldo, a única coisa que posso dizer é que fique com Deus!

(Ronaldo Alexandrino)
Mestre em Educação e professor na mesma escola onde estudou Reinaldo.

Hortolândia...não lhes parece um nome que nos leva intuitivamente a pensar numa terra distante...de contos...da terra do nunca?

Ahh...antes fosse a terra dos contos de fadas, dos nobres bondosos contra as bruxas do mal onde o bem sempre vence. Infelizmente é exatamente o contrário. Uma legião de súditos de origem humilde, porém de brava gente são os meros servos desse nobre poder que administra essa cidade.

Porque a ironia? Aos muito bem informados, certamente saberão do que estou falando e que fique bem claro que o desabafo é independente de questões partidárias, até por que sabemos que partidos políticos não retratam mais uma ideologia irrevogável. Trata-se do Poder econômico (independente das fontes) que se sobrepõem aos ideais políticos e partidários, lamentavelmente.

Conto com vocês e aguardem o desenrolar do "conto"...

(Rosa Zamp)

terça-feira, 8 de março de 2011

Brava Gente Brasileira

Ao longo deste Mês da Mulher, vamos procurar entremear aqui no ABC! relatos sobre mulheres do povo, mulheres da elite, guerreiras, guerrilheiras, trabalhadoras urbanas e rurais, exemplos de força, coragem e dignidade da Brava Gente Brasileira.


Mulheres Guerrilheiras 


Quando os militares marcharam pelas ruas das principais cidades brasileiras, proclamando o golpe de estado, em 1964, foram recebidos de braços abertos pelas mulheres representantes da família e dos bons costumes da moral vigente. Se a presença da mulher foi decisiva na consolidação do golpe militar, ela não foi menor na luta contra a ditadura. Contrariando os princípios estabelecidos pela sociedade do seu tempo, elas abandonaram a vida burguesa para a qual foram criadas, deixaram as salas de aulas das faculdades, pegaram em armas e foram para as ruas das grandes cidades ou para o meio das selvas, combatendo os canhões e fuzis da repressão. Eram as mulheres guerrilheiras.
A maioria delas eram jovens de pouco mais de vinte anos, nascidas nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial ou pouco tempo depois, filhas das ideologias da Guerra Fria. Desabrocharam na década de sessenta, divididas entre a revolução sexual, a liberação feminina e os ideais de esquerdas. Lutaram contra a repressão da sociedade do seu tempo e, fundamentalmente, contra a opressão de uma ditadura sanguinária.

Valentes, destemidas, bonitas, femininas, elas suscitaram as mais controversas opiniões, chegando a ser admiradas e respeitadas pelos seus algozes. Muitas sucumbiram às torturas ou tombaram executadas nas matas. Todas muito jovens, universitárias em sua maioria, vindas da militância do movimento estudantil. Depois da queda da UNE, com as prisões das suas lideranças no congresso de Ibiúna e o decreto do AI-5, elas caíram na clandestinidade. Restou, como um último fôlego, a luta armada.

Não perdiam o seu lado feminino, vivendo amores intensos com os companheiros de luta, muitas vezes transformados em maridos. Mas a grande paixão era a ideologia, o que lhes dava força para continuar quando, muitas vezes, viam o companheiro tombar à frente.
Despidas das vaidades femininas, elas foram para as ruas, assaltaram bancos, seqüestraram embaixadores, empunhando armas e coragem. Além das guerrilhas urbanas, dezesseis mulheres fizeram parte das operações da guerrilha do Araguaia. Doze foram executadas, duas foram presas logo no início e duas outras, grávidas, desertaram.

Mulheres guerrilheiras, com a sua tenacidade heróica, tornaram-se ícones e mitos da história recente do Brasil. Muitas foram friamente torturadas e executadas. Algumas sobreviveram, viram ruir a ditadura, as ideologias que defendiam, a mudança dos tempos. Outras desapareceram em valas comuns, sem nunca serem veladas pelas famílias. Outrora os nomes de algumas delas constavam em cartazes de “procura-se” espalhados pelo país, agora voltaram, sendo homenageadas com nomes de ruas ou de centros acadêmicos. O Brasil democrático deve respeito e admiração a essas mulheres, que mesmo errando, resistiram e gritaram, quando a ordem era silenciar e ajoelhar-se ante as truculências de um regime feito nas casernas militares, longe da participação do povo brasileiro.


Vera Sílvia, a Loura Noventa

Nascida em uma classe média alta do Rio de Janeiro, em 5 de fevereiro de 1948, Vera Sílvia Magalhães tinha tudo para desfrutar com tranqüilidade dos benefícios que lhe proporcionava o capitalismo burguês. Bonita, economicamente favorecida, inteligente, ela escolheu caminhar pela esquerda da vida, política e sociologicamente.

Aos onze anos foi presenteada por um tio, com o livro que trazia o “Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engel. Precoce e ingenuamente, ela assumiu os princípios de ser socialista, distribuindo os seus pertences com os pobres à sua volta. Aos quinze anos, começou a sua militância política através do movimento estudantil. Aos dezenove já pertencia ao comitê central da Dissidência da Guanabara, surgida de um racha do PCB da Guanabara, futuramente chamado de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

Quanto mais envolvida na militância política contra a ditadura militar, Vera Sílvia rompia com a sua vida burguesa, deixando aos poucos, a família, os estudos e os antigos amigos. Quando deu por si, já estava a escrever a linha a ser seguida pelo seu partido, ao lado de Franklin Martins, rompendo com a linha pacifista de 1967, herdada do PCB, transformando-o em um partido militarista, radicalizado pelo esquerdismo e disposto a travar a luta armada contra o regime militar. Seguindo esta linha, foi treinada em táticas de guerrilha, por João Lopes Salgado, na mata da Tijuca. Surgia a valente guerrilheira, que de arma em punho, passou ao lado dos companheiros, a fazer ações de assaltos a supermercados e a bancos.

Nos assaltos praticados, Vera Sílvia aparecia usando uma peruca loura, atraindo para si as atenções, tida no imaginário popular como bela e perigosa. Lendas começaram a girar ao seu redor, passando a ser conhecida popularmente como a “Loura dos Assaltos", ou a “Loura 90”, uma referência ao mito de que usava nos assaltos, duas pistolas de calibre 45. A própria Vera Sílvia desfez, mais tarde, a lenda, afirmando que mal tinha um velho revólver 38, que de vez em quando falhava nos disparos.

Mas a ação que deu notoriedade a Vera Sílvia foi o seqüestro ao embaixador norte- americano, Charles Elbrick, em setembro de 1969. Sendo a única mulher a participar da ação, passou a ser a mais procurada e odiada pelo regime militar. O seqüestro resultou em uma grande derrota para a ditadura, que se viu obrigada a negociar com os guerrilheiros, trocando prisioneiros políticos pelo embaixador. A partir de então, os militares endureceram na caça aos guerrilheiros. Em fevereiro de 1970, Vera Sílvia sobreviveu a um cerco policial, mas viu o seu companheiro, José Roberto Spigner, a tombar na sua frente.

Em março de 1970, seis meses após o seqüestro do embaixador norte-americano, Vera Sílvia fazia uma panfletagem na favela do Jacarezinho, quando foi cercada e atingida com um tiro na cabeça. Foi levada para o Hospital Central do Exército (HCE), onde teve a sorte de ser atendida por um companheiro de luta, ali residente como médico. Para evitar que fosse torturada naquele dia, o médico simulou uma convulsão na paciente. No dia seguinte, ela foi levada pelos policiais, com a promessa de que “seria torturada como um homem, como Jesus Cristo”, alusão feita já que estavam na semana da Páscoa. Oito homens torturaram com perversos requintes de sadismo, à “Loura 90”, aplicando-lhe choques, pendurando-a no pau-de-arara, fustigando-lhe todas as partes do corpo. Debilitada e com uma hemorragia renal, ela foi levada para o hospital, em junho, sem poder andar. Foi nesta ocasião que aconteceu o seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, trocado mediante a libertação de 39 presos políticos. Vera Sílvia tinha o seu nome incluído na lista. De todos que ali estavam, ela foi a única que gerou constrangimentos ao regime militar, visto que estava tão debilitada, que não podia andar, sendo levada em uma cadeira de rodas até o avião que partiria para a cidade de Argel, tendo a bordo os 39 guerrilheiros rumo ao exílio. O caso de Vera Sílvia atraiu os holofotes internacionais, que ao ver o seu estado precário, numa cadeira de rodas e com 25 quilos a menos, confirmou a tortura nos calabouços da ditadura, veementemente negada pelos militares.

No exílio, Vera Sílvia chegou a seguir para Cuba, onde se tratou e fez treinamentos de guerrilhas. Perambulou pelo Chile, Argentina, Suécia e França, onde permaneceu até a Anistia, em 1979. Em 1973, Vera Lúcia deixou definitivamente a militância em organizações guerrilheiras. Costumava dizer que ela e os seus companheiros não amavam a democracia, amavam a revolução, lutavam pela ditadura do proletariado, não pela democracia.

Vera Sílvia morreu aos 59 anos, em 4 de dezembro de 2007, no Rio de Janeiro. Trazia seqüelas da tortura no corpo e na alma. Da beleza da guerrilheira trazia a determinação, movida por um semblante pesado e pela velha ternura obstinada. Em uma reportagem, disse sobre o período que foi guerrilheira: “Valeu. Só não valeu para quem morreu... O que havia de melhor na minha geração fez o que eu fiz.

Virtuália, o Manifesto Digital

Dilma: quem ama, cuida

A presidenta Dilma Rousseff interrompeu ontem seu descanso nas praias da Barreira do Inferno, próximo de Natal, Rio Grande do Norte, para conhecer melhor os trabalhos desenvolvidos pelo Brasil na astronáutica, e participou também, com um grupo de preservacionistas do Projeto Tamar (Tartarugas Marinhas), da soltura de filhotes de tartarugas ao mar.

         Presidente Dilma participa da soltura de tartarugas no Rio Grande do Norte. (Foto: Marcelo Garrido/Agência Força Aérea)
                                                                                   Foto: Marcelo Garrido/Agência Força Aérea


No Dia Internacional da Mulher, quando a gente abre os portais da internet e só vê um festival descarado de bundas, peitos, coxas... mais do que tostados, balançando, requebrando, reduzindo a mulher a seu nível mais baixo e mostrando a apologia do lado mais frágil e perecível do ser humano, feita pela mídia de mercado, é confortador ver a presidenta numa atitude carinhosa, amorosa, ajudando a cuidar das tartaruguinhas, do meio ambiente, da natureza, do planeta, de todos nós.

Ótima notícia. Ganhei o dia!

Parabéns, Presidenta Dilma Rousseff!

Feliz Dia Internacional da Mulher!

segunda-feira, 7 de março de 2011

O podre "latifúndio" blogosférico (em apoio ao André Lux)

Desde a histórica entrevista do presidente Lula a um grupo de blogueiros autodenominados "progressistas", em 24.11.2010, vimos alertando a blogosfera sobre as atitudes autoritárias,  preconceituosas e antidemocráticas de alguns destes blogueiros em relação aos demais editores/redatores de blogs independentes.

Começamos a manifestar preocupação com o comportamento destes "colegas de ciberespaço" no post Fogueira de vaidades e demos continuidade nos posts O "grito dos excluídos", Sabujice blogosférica, Em nome da verdade, Alerta geral: risco à blogosfera e Rebelião blogosférica, todos publicados aqui no final de novembro do ano passado.

O Abra a Boca, Cidadão! é um blog novo, completará 5 meses na próxima semana. Estes posts alertando sobre os riscos de um "pig blogosférico" tiveram pequena repercussão. A questão não foi amplamente debatida, esta reles blogueira foi desautorizada por gracejos e insinuações de alguns blogueiros "medalhões" e o problema continua.

Felizmente, há "vida inteligente" na blogosfera. Gente que pensa com a própria cabeça, que não precisa de "mentores", que rechaça e denuncia intolerância, autoritarismo, vaidade doentia, arrogância, prepotência e outras atitudes típicas da velha mídia reproduzidas em alguns setores da blogosfera.

É o caso do jornalista e blogueiro André Lux, que lucidamente vem postando em seu blog Tudo Em Cima artigos sobre esse grupelho de blogueiros "tubarões", que se dizem "progressistas", mas se comportam ridiculamente como proprietários do ciberespaço, transformando-o numa espécie de feudo, onde eles são os senhores e os demais (nós todos), reles vassalos, relegados ao papel de elogiá-los, aplaudi-los, incensá-los.

Adeptos do pensamento único, não admitindo opiniões divergentes nem vozes dissonantes, costumam falar em nome da blogosfera, sem que tenhamos dado qualquer procuração a eles. E é aí que está o problema.

E quando criticados, denunciados, se colocam como vítimas, ridicularizam, menosprezam, diminuem, fazem pouco. Mas nunca descem do pedestal onde se colocaram. 

Se não nos posicionarmos e denunciarmos tais atitudes, se permitirmos, podem vir a criar oligarquicamente alguma regulamentação, "carteira/registro de blogueiro", crachá, anuidades e outras espertezas mais...

Blogosfera não tem dono. Pioneirismo, número de seguidores, organização de atos públicos, entrevista com Lula... não são credenciais pra ninguém se colocar em torre de marfim, em altar, como semideus. E exigir dos demais coluna vergada, incensamento.

O ABC! não aceita e não faz idolatria de quem quer que seja. Muito menos de reles, imperfeitos e falíveis mortais.

Abaixo o post do André Lux, que apoiamos.

Desabafo: Há algo de podre no reino da blogolândia...


Grupo de blogueiros ataca em bloco a fim
de formar opinião única na blogolândia
Hoje vou tocar num assunto
muito delicado e que certamente vai causar polêmica na blogolândia, mas que vem me incomodando já há algum tempo. Não falei sobre isso antes para não ser acusado de disparar “fogo amigo”, principalmente durante as sofridas eleições do ano passado.

Mas sinto que agora é a hora de colocar o dedo na ferida. O assunto diz respeito ao comportamento de alguns blogueiros ditos progressistas ou de esquerda que, de uns tempos para cá, vem atuando em bloco para construir uma espécie de “pensamento único” dentro da blogolândia e também para barrar qualquer um que pense diferente deles. Ou seja, começam a atuar justamente como o PiG que tanto criticam! Não vou citar nomes aqui porque minha intenção não é acusar ninguém, mas sim desabafar e, quem sabe, chamar a atenção das pessoas para esse fato que certamente vem incomodando outros blogueiros como eu.

O episódio da participação da Dilma na festa da Folha de S.Paulo foi o divisor de águas que finalmente, na minha opinião, escancarou a prática dessa turminha que, infelizmente, está agindo assim por vaidade, soberba, sectarismo, necessidade de autoafirmação ou algum outro motivo obscuro que só seus membros podem conhecer.

O fato de esse grupo ter se ofendido com a participação da presidenta na citada festa não é o problema em si, mas sim a maneira como seus membros agem em bloco para vender a idéia de que a blogolândia em peso possui a mesma visão deles e, pior, a forma grosseira e intolerante como tentam enquadrar os que pensam diferente.

A impressão que dá é que agem da seguinte forma. O blogueiro A liga para o blogueiro B e diz:
- Você viu que absurdo a Dilma na Festa da Folha?
- Vi sim, fiquei revoltado!
- Pois é, depois de tudo que a gente fez para eleger ela, é inadmissível que vá até a Folha!
- Concordo, eu mesmo me sacrifico todos os dias na minha luta contra a imprensa golpista e agora a Dilma vai lá na festa deles, na maior tranqüilidade?
- Faz o seguinte: publica um texto criticando essa atitude dela no seu blog que eu publico depois no meu, com grande destaque. Você sabe que o meu blog é super bem visitado, né?
- Sei sim, o meu também. Inclusive vou ligar para aquela blogueira C amiga nossa e falar para ela também criticar a Dilma e publicar no blog dela outros textos do mesmo naipe dos amigos dela.
- Legal! Aí tenho certeza que toda a blogosfera vem na nossa onda.
- Com certeza, afinal eles devem muito a nós por tudo que fizemos esses anos todos para eles.
- Mas e se alguém reclamar, ficar contra a gente?
- Aí a gente usa aquela velha tática. Eu me faço de vítima no meu blog, jogo na cara de todo mundo o quanto sofro e o quanto já fiz pela blogosfera e você repercute tudo no seu blog.
- Isso, boa!

Esse diálogo acima é totalmente fictício, porém não ficaria surpreso se ele tivesse realmente ocorrido. O que interessa é que esse grupo de blogueiros que se julgam os “reis da cocada preta” começa então a atuar em bloco para vender uma opinião deles como se fosse a voz da blogosfera. E aí, caso alguém ouse discordar deles, passam a atacar essas pessoas da pior forma possível: se fazendo de vítimas (alguns chegam ao cúmulo de dizer que foram ameaçados de censura!) ou simplesmente denegrindo quem ousou discordar deles.

Talvez o fato de terem alcançado seus 15 minutos de fama por causa da blogagem tenha cegado os componentes desse grupelho para um fato importante: a blogolândia não tem dono, nem voz única, muito menos xerife. E quem tenta ser dono, porta voz ou xerife da blogolândia apenas se expõe ao ridículo.

Eu sei bem do que estou falando porque justamente nesse episódio “Dilma na festa da Folha” fui vítima de ataques e retaliações por parte de gente que jura de pé junto que é democrata e defensor da diversidade de opiniões e da liberdade de expressão. Um desses blogueiros, que realmente passou a se julgar o “guru da blogolândia”, chegou a enviar um email pedindo que eu tivesse “grandeza” nesse assunto. No começo não entendi nada, mas depois percebi que na verdade ele tentava me fazer parar de criticar uma blogueira descontrolada que estava agredindo e ofendendo a todos que discordaram dela, inclusive pelo twitter. Quando, depois de argumentar que eu estava apenas defendendo meu ponto de vista e reagindo aos citados ataques, eu perguntei ao sujeito se ele estava querendo que eu oferecesse a outra face, pronto, fez-se de ofendido e cortou relações comigo. Chegou ao ponto de tirar meu blog da lista de indicados do dele - vejam só que coisa terrível, por pouco não me suicidei!

O mais engraçado da história é que esse tal blogueiro não teve nenhuma “grandeza” quando foi ele o alvo de ataques semelhantes ao que eu sofri, os quais ele revidou de forma bastante veemente e, inclusive, contou com o meu apoio, pois as críticas eram infundadas e injustas. Mas, no meu caso ele fez o contrário: escreveu um texto elogiando justamente a tal blogueira histérica que ofendia a todos que discordavam da opinião dela! Isso que é companheirismo, não?

Muita gente deve ficar triste e preocupada com esses fatos que estou narrando e não entende como isso pode acontecer. A verdade é que blogosfera é um micro cosmo do que é a esquerda na vida real. E, assim como na vida real muitos projetos e sonhos esquerdistas são destruídos por causa da vaidade, do sectarismo, da soberba e da necessidade de autoafirmação de algumas pessoas (mesmo das mais bem intencionadas), a blogosfera também sofre desse mesmo mal. É uma infelicidade, porém algo bem palpável.

Eu depois de ser atacado novamente pelos que
se julgam os "reis da cocada preta" da blogolândia
Da minha parte, espero que esse meu texto sirva para que esses blogueiros parem e reflitam um pouco sobre o que andam fazendo e sobre a forma como agem quando alguém discorda de seus pontos de vista - até porque tenho certeza que são pessoas bem intencionadas.

Mas, como conheço bem a natureza humana, duvido muito que isso vai acontecer. O mais provável é que amanhã pipoquem textos me detonando (direta ou indiretamente), o que no final das contas será apenas uma prova de que vestiram a carapuça mais uma vez. Eu nem ligo. Para quem já foi difamado publicamente pelo editor do jornal mais lido de Jundiaí e por poderosos profissionais da opinião, ser xingado por um blogueiro com delírios de grandeza é fichinha.

Finalizo afirmando que a verdadeira militância não condiz com cobranças, rabos presos ou ataques de estrelismo. Quem se dedica a uma causa de maneira sincera e abnegada não sente jamais necessidade de ficar jogando na cara dos outros o quanto se sacrifica por aquilo ou de ficar enumerando tudo que fez pelo bem daquela causa. O verdadeiro militante é, acima de tudo, um anônimo – e tem orgulho disso! Desconfie sempre, portanto, de quem faz o contrário.