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quarta-feira, 9 de março de 2011

Mulheres na Luta Armada


Mulher, brasileira e guerrilheira

Vanessa Gonçalves

"Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela nossa procura
Ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta"
(Idílica Estudantil - Alex Polari de Alverga)


Caixa de texto:

A violência institucional, que derrubou o estado de direito, surgiu poderosa o suficiente para mostrar suas garras antes mesmo que as primeiras ações armadas viessem à luz.

Após o imobilismo durante o golpe, a esquerda reagiu e decidiu que somente através da luta armada seria possível derrubar a ditadura.

Com um grande otimismo, a esquerda acreditava que era possível se armar, lutar e vencer, pois o povo certamente iria aderir. À medida que a ditadura proibia pela força qualquer tipo de participação política democrática, velhos e novos militantes aderiam a organizações como: ALN (Ação Libertadora Nacional), PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), entre outras.

Embora o espaço político fosse majoritariamente reservado aos homens, nas décadas de 60 e 70 ocorria um fenômeno que marcaria para sempre a história da participação feminina na política brasileira.



As Mulheres na Luta Armada

Contrariando inúmeras teses, a luta armada não foi um exercício de intransigência da esquerda, mas sim um duro e penoso enfrentamento ao Estado militarizado que em 21 anos foi responsável por cerca de 352 mortes (oficiais), 144 desaparecimentos, 2 mil torturados, 4.500 pessoas privadas de direitos civis, 10 mil exilados e 2.828 sentenciados à prisão pela Justiça Militar, tudo isso sem contar a violência contra os sindicatos, a imprensa, as entidades estudantis e a sociedade civil.

Indignadas com esse cenário de autoritarismo e violência, inúmeras mulheres aderiram ao sonho de derrubar a ditadura e libertar o povo da opressão. Adentraram no espaço público, pegaram em armas e fizeram história.

É certo que muitas dessas mulheres enfrentaram a oposição da família e da sociedade ao optar por esse caminho. Deixaram para trás - como todos os que atuaram nesse palco da história do Brasil - sonhos, amores, trabalhos, enfim, uma vida inteira para lutar por ideais.

É muito difícil precisar a quantidade de mulheres que foram à luta armada. Os números mais próximos fazem parte do levantamento realizado pelo Projeto Brasil Nunca Mais em 707 processos judiciais militares relativos ao período. No entanto, somente 695 deles puderam ser submetidos ao cruzamento de informações e levantamento de dados. Nesses 695 processos constatou-se que 7.367 cidadãos foram denunciados por atuação contra a ditadura. Desse total, 12% são mulheres, nos levando à marca de 884 militantes do sexo feminino.

Caixa de texto:

Não há como identificar quantas mulheres realmente participaram da luta armada, mas podemos observar que elas marcaram significativamente sua presença nesse movimento.

A participação feminina na luta armada implicou não apenas em sua insurgência contra a ordem política vigente, mas representou uma profunda transgressão ao que na época era designado espaço próprio das mulheres, ou seja, o espaço privado em que lhes restava apenas o papel de esposa, mãe e dona-de-casa, com exceção das operárias, que além de conquistar espaço no mercado de trabalho, tinham participação ativa no movimento sindical. Ao pegarem em armas, essas mulheres romperam tabu e, com certo êxito, conquistaram sua emancipação, conquistando, assim, seu lugar na história política do país.



O Prazer e a Dor de Ser uma Mulher Guerrilheira

Conquistar espaço na política foi uma vitória para as mulheres. Embora agumas tenham sofrido com o machismo de seus companheiros de organização, no início as mulheres tinham o privilégio de circular sem despertar a atenção dos militares. Por causa disso, conseguiam manter uma "fachada legal", o que garantiu a sobrevivência por mais tempo das organizações clandestinas.

Caixa de texto:

Durante algum tempo, foram até musas, como a militante Renata Guerra de Andrade (da VPR), conhecida como "a loura dos assaltos". Mas, quando caíram nas mãos da repressão eram única e exclusivamente inimigas do regime e aí sentiram a dor de ser guerrilheira.

Para a repressão a mulher não tinha capacidade de decidir por si só sua entrada no mundo político, portanto, para os militares a "mulher subversiva" era uma mulher desviante dos padrões normais definidos pela sociedade, assim, desmoralizavam-as com duas idéias: a de que estavam na luta buscando homens, então eram "putas comunistas"; ou eram mulher-macho, ou seja, homossexuais.

A repressão entendia que ao se insurgir contra o regime militar a mulher cometia dois pecados: o de lutar juntamente com os homens e o de ousar sair do espaço privado e adentrar no espaço público, político que historicamente era exclusivamente masculino. A pena para isso foi a tortura sem limites.

Caixa de texto:

Foram várias as formas de tortura aplicadas às mulheres, no entanto, a forma recorrente foi a ameaça de tortura física, de estupro e prisão/tortura de seus familiares. Além disso, eram constantemente humilhadas através da nudez e da vendagem dos olhos.

A sanha dos torturadores foi tamanha contra as mulheres que a militante Sônia Angel Jones (do MR-8) teve os dois seios arrancados durante a tortura que a levou à morte.

Dulce Maia (da VPR) revelou em seu relato para o jornalista Luiz Maklouf de Carvalho a violência da tortura: "O sargento metia a cabeça entre as minhas pernas e gritava: ´Você vai parir eletricidade´" . Dulce sobreviveu à tortura, mas até hoje sofre com as seqüelas da violência de seus seviciadores.

Em outro relato contundente sobre a tortura prestado por Maria Auxiliadora Lara Barcelos para o livro Memórias das Mulheres no Exílio fica evidente as marcas profundas deixadas pela violência: "Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, me cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos".

Apesar de tudo, todas viveram intensamente a vida. Em situações de clandestinidade "havia intensidade em cada instante" , como afirma a ex-guerrilheira Nancy Mangabeira Unger (do PCBR).

Caixa de texto:

Todas evidentemente sofreram com as perdas e a destruição de um sonho partido em milhões de cacos. Entretanto, há um lado positivo em tudo isso, como relata a ex-guerrilheira Iara Xavier Pereira (ALN): "Nós fomos a geração que optou por enfrentar o regime militar em um momento em que isto era absolutamente necessário. Não éramos loucos nem terroristas sangüinários. Éramos jovens comprometidos com um ideal".

Por fim, valem as palavras da ex-guerrilheira Sônia Lafoz (ALN): "Não massageio meu próprio ego, mas tiro o chapéu para os homens e mulheres que tiveram a coragem de enfrentar aquela situação. No que diz respeito a nós, mulheres, as que pegaram ou não pegaram em armas, foi um momento singular de participação histórica. Devo dizer que eu faria tudo de novo".


* Todos os relatos desse artigo foram retirados do livro Mulheres que foram à luta armada do jornalista Luiz Maklouf de Carvalho.

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP), onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).

Indignação de professor e blogueira

A pedido da blogueira e educadora Rosa Zamp, do blog Palavras de Um Novo Mundo, o ABC! abre espaço para reproduzir abaixo post-denúncia contendo Carta de Indignação de um professor do ensino público sobre um fato que envolve criminalidade e estudantes no município de Hortolândia, próximo a Campinas, São Paulo.

Esperamos manifestação das autoridades da região a respeito.


terça-feira, 8 de março de 2011

Amigos blogueiros: jornalistas, educadores, escritores, todos que lutam por um país justo e de livre expressão... preciso de ajuda!

Vocês que aprendi a respeitar, admirar e acompanhar peço-lhes ajuda para um momento que tornou-se inevitável. É com tristeza que abrirei publicamente aquilo que tenho evitado desde que inaugurei este blog. Uma luta...uma luta árdua, doída e de consequências sofridas diretamente na minha vida profissional e pessoal ( e de muitas outras pessoas) por não aceitar atos inescrupulosos, ardis, covardes, ditatoriais.

Os motivos são muitos e aos que se interessarem - espero que sejam os que se dizem contra tudo o que citei acima - terão muitas razões para acompanhar e principalmente, divulgar o que se inicia agora com uma Carta de Indignação elaborada por um servidor público (professor) de Hortolândia-SP, que assim como eu trabalha em prol de uma sociedade no mínino coerente e na mesma cidade. Leiam na íntegra e a divulguem por que isso é só o começo de um grande conto que tenho pra lhes contar.

"Adolescente “surta” e mata primo de 7 anos: o que temos a ver com isso?"

Nos últimos dias uma manchete sobre o assassinato de uma criança nos pegou de surpresa: Adolescente chega em casa, provavelmente sob efeito de alguma substância ilícita, tem alucinações, mata primo de sete anos e fere prima também adolescente... Muitos de nós ficamos chocados com a história, mas já estamos acostumados com tanta violência e sabemos que com o tempo esqueceremos.

Desta vez, comigo foi diferente.

Era uma noite de sábado, estava em casa e de repente o telefone toca. Já era dez e meia da noite. Minha chefe diz: “Ronaldo, lembra daquele nosso aluninho, Reinaldo? Esse ano ele está com a professora Denise, ano passado esteve com a Deicla...” Assim pelo nome não conseguia lembrar, e eis que ela continuou, “lembra que teve um garoto que caiu na rampa da escola e machucou o rosto? É ele...”. Neste momento me lembrei daquele rostinho levemente desfigurado por causa de um tombo, afinal as crianças adoram correr na escola, e perguntei a ela o motivo do telefonema...

“Então, o primo mais velho esfaqueou e matou ele...”

(...)
Desde aquele momento até agora estou perplexo. Além de sofrer com a perda de um aluno (pois em nossa escola um aluno não é apenas de um professor, mas de todos), fico pensando sobre o que este ato de violência está nos querendo dizer. Uma vida tão pequena não pode ter sido abruptamente interrompida e ser passada assim. Ela nos ensina algo.

Se este final de semana deveria ser festivo para todos nós, afinal é carnaval, tenho certeza que minha comunidade está em luto. Ainda não consegui conversar com todos de lá. Apenas sei que fiquei tão chocado que não tive forças para ir ao enterro. Jamais conseguiria me deparar com aquele rostinho, que outrora estava machucado por um tombo corriqueiro, agora desfigurado por golpes de facas que lhe custaram a vida. Como alguém que é apaixonado por crianças e seus barulhos, conseguiria ver o silêncio e a quietude de um corpinho num caixão?

O sentimento de ódio e indignação pulsava em mim. E é óbvio que meu primeiro alvo foi o adolescente-assassino. Mas foi apenas pensar em tudo o que ocorrera que mudei minha opinião. O hoje adolescente possui marcas de uma infância muito mais presentes em sua vida, do que a de um ser já adulto. Mas que marcas são essas?

Comecei a lembrar de minha adolescência. Estudei em uma escola pública de período integral com mestres intelectuais que até hoje são referência para mim. Durante esta fase da minha vida, estes profissionais trabalhavam conosco o desejo por um sonho, por um projeto de vida, e como faríamos para alcançar nossos objetivos.

Quais são os sonhos deste adolescente? Qual será sua utopia? Ou será ele mais uma vítima da sociedade em que vivemos? Em quais escolas ele passou? O que o poder público fez e fará dele daqui pra frente, principalmente quando este caso cair no ostracismo? Será que teremos profissionais da saúde mental dando todo o suporte necessário para este, também, menino?

O que mais me impressiona neste caso é o silêncio das autoridades competentes no município de Hortolândia: Onde está a deputada estadual, o prefeito, a vice-prefeita, os secretários e os vereadores? Qual é o vosso pronunciamento? Quais atitudes serão tomadas daqui pra frente para que não tenhamos outros Reinaldos esfaqueados em nossa cidade? (grifo meu)

Infelizmente, este caso apenas deflagra a carência de políticas públicas eficazes neste mundo em que vivemos. Afinal, crianças que crescem em contato com educação, cultura e lazer não deixam de sonhar. Possuem um projeto de vida. Não se tornam adolescentes que se contentam em viver seus dias lidando com medidas e punições judiciais.

Acho que esta foi a gota d’água que faltava em meu copo de indignação política. Precisamos de medidas urgentes e eficazes nesta cidade. Os responsáveis por esta cidade precisam assumir as rédeas de suas responsabilidades. Não dá pra esperar mais! (grifo meu)

Por hora, ainda não sei como será voltar para a escola depois do carnaval. Já soube que algumas crianças disseram que Reinaldo estará lá na quinta-feira. Ainda precisaremos ensinar as crianças a lidar com a perda, num mundo que está cada vez mais violento e sem perspectivas. Ainda não sei se aprendi a lidar esta perda, mas terei que fazê-lo: Ser professor não é tarefa fácil.

E ao nosso pequeno Reinaldo, a única coisa que posso dizer é que fique com Deus!

(Ronaldo Alexandrino)
Mestre em Educação e professor na mesma escola onde estudou Reinaldo.

Hortolândia...não lhes parece um nome que nos leva intuitivamente a pensar numa terra distante...de contos...da terra do nunca?

Ahh...antes fosse a terra dos contos de fadas, dos nobres bondosos contra as bruxas do mal onde o bem sempre vence. Infelizmente é exatamente o contrário. Uma legião de súditos de origem humilde, porém de brava gente são os meros servos desse nobre poder que administra essa cidade.

Porque a ironia? Aos muito bem informados, certamente saberão do que estou falando e que fique bem claro que o desabafo é independente de questões partidárias, até por que sabemos que partidos políticos não retratam mais uma ideologia irrevogável. Trata-se do Poder econômico (independente das fontes) que se sobrepõem aos ideais políticos e partidários, lamentavelmente.

Conto com vocês e aguardem o desenrolar do "conto"...

(Rosa Zamp)

terça-feira, 8 de março de 2011

Brava Gente Brasileira

Ao longo deste Mês da Mulher, vamos procurar entremear aqui no ABC! relatos sobre mulheres do povo, mulheres da elite, guerreiras, guerrilheiras, trabalhadoras urbanas e rurais, exemplos de força, coragem e dignidade da Brava Gente Brasileira.


Mulheres Guerrilheiras 


Quando os militares marcharam pelas ruas das principais cidades brasileiras, proclamando o golpe de estado, em 1964, foram recebidos de braços abertos pelas mulheres representantes da família e dos bons costumes da moral vigente. Se a presença da mulher foi decisiva na consolidação do golpe militar, ela não foi menor na luta contra a ditadura. Contrariando os princípios estabelecidos pela sociedade do seu tempo, elas abandonaram a vida burguesa para a qual foram criadas, deixaram as salas de aulas das faculdades, pegaram em armas e foram para as ruas das grandes cidades ou para o meio das selvas, combatendo os canhões e fuzis da repressão. Eram as mulheres guerrilheiras.
A maioria delas eram jovens de pouco mais de vinte anos, nascidas nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial ou pouco tempo depois, filhas das ideologias da Guerra Fria. Desabrocharam na década de sessenta, divididas entre a revolução sexual, a liberação feminina e os ideais de esquerdas. Lutaram contra a repressão da sociedade do seu tempo e, fundamentalmente, contra a opressão de uma ditadura sanguinária.

Valentes, destemidas, bonitas, femininas, elas suscitaram as mais controversas opiniões, chegando a ser admiradas e respeitadas pelos seus algozes. Muitas sucumbiram às torturas ou tombaram executadas nas matas. Todas muito jovens, universitárias em sua maioria, vindas da militância do movimento estudantil. Depois da queda da UNE, com as prisões das suas lideranças no congresso de Ibiúna e o decreto do AI-5, elas caíram na clandestinidade. Restou, como um último fôlego, a luta armada.

Não perdiam o seu lado feminino, vivendo amores intensos com os companheiros de luta, muitas vezes transformados em maridos. Mas a grande paixão era a ideologia, o que lhes dava força para continuar quando, muitas vezes, viam o companheiro tombar à frente.
Despidas das vaidades femininas, elas foram para as ruas, assaltaram bancos, seqüestraram embaixadores, empunhando armas e coragem. Além das guerrilhas urbanas, dezesseis mulheres fizeram parte das operações da guerrilha do Araguaia. Doze foram executadas, duas foram presas logo no início e duas outras, grávidas, desertaram.

Mulheres guerrilheiras, com a sua tenacidade heróica, tornaram-se ícones e mitos da história recente do Brasil. Muitas foram friamente torturadas e executadas. Algumas sobreviveram, viram ruir a ditadura, as ideologias que defendiam, a mudança dos tempos. Outras desapareceram em valas comuns, sem nunca serem veladas pelas famílias. Outrora os nomes de algumas delas constavam em cartazes de “procura-se” espalhados pelo país, agora voltaram, sendo homenageadas com nomes de ruas ou de centros acadêmicos. O Brasil democrático deve respeito e admiração a essas mulheres, que mesmo errando, resistiram e gritaram, quando a ordem era silenciar e ajoelhar-se ante as truculências de um regime feito nas casernas militares, longe da participação do povo brasileiro.


Vera Sílvia, a Loura Noventa

Nascida em uma classe média alta do Rio de Janeiro, em 5 de fevereiro de 1948, Vera Sílvia Magalhães tinha tudo para desfrutar com tranqüilidade dos benefícios que lhe proporcionava o capitalismo burguês. Bonita, economicamente favorecida, inteligente, ela escolheu caminhar pela esquerda da vida, política e sociologicamente.

Aos onze anos foi presenteada por um tio, com o livro que trazia o “Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engel. Precoce e ingenuamente, ela assumiu os princípios de ser socialista, distribuindo os seus pertences com os pobres à sua volta. Aos quinze anos, começou a sua militância política através do movimento estudantil. Aos dezenove já pertencia ao comitê central da Dissidência da Guanabara, surgida de um racha do PCB da Guanabara, futuramente chamado de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

Quanto mais envolvida na militância política contra a ditadura militar, Vera Sílvia rompia com a sua vida burguesa, deixando aos poucos, a família, os estudos e os antigos amigos. Quando deu por si, já estava a escrever a linha a ser seguida pelo seu partido, ao lado de Franklin Martins, rompendo com a linha pacifista de 1967, herdada do PCB, transformando-o em um partido militarista, radicalizado pelo esquerdismo e disposto a travar a luta armada contra o regime militar. Seguindo esta linha, foi treinada em táticas de guerrilha, por João Lopes Salgado, na mata da Tijuca. Surgia a valente guerrilheira, que de arma em punho, passou ao lado dos companheiros, a fazer ações de assaltos a supermercados e a bancos.

Nos assaltos praticados, Vera Sílvia aparecia usando uma peruca loura, atraindo para si as atenções, tida no imaginário popular como bela e perigosa. Lendas começaram a girar ao seu redor, passando a ser conhecida popularmente como a “Loura dos Assaltos", ou a “Loura 90”, uma referência ao mito de que usava nos assaltos, duas pistolas de calibre 45. A própria Vera Sílvia desfez, mais tarde, a lenda, afirmando que mal tinha um velho revólver 38, que de vez em quando falhava nos disparos.

Mas a ação que deu notoriedade a Vera Sílvia foi o seqüestro ao embaixador norte- americano, Charles Elbrick, em setembro de 1969. Sendo a única mulher a participar da ação, passou a ser a mais procurada e odiada pelo regime militar. O seqüestro resultou em uma grande derrota para a ditadura, que se viu obrigada a negociar com os guerrilheiros, trocando prisioneiros políticos pelo embaixador. A partir de então, os militares endureceram na caça aos guerrilheiros. Em fevereiro de 1970, Vera Sílvia sobreviveu a um cerco policial, mas viu o seu companheiro, José Roberto Spigner, a tombar na sua frente.

Em março de 1970, seis meses após o seqüestro do embaixador norte-americano, Vera Sílvia fazia uma panfletagem na favela do Jacarezinho, quando foi cercada e atingida com um tiro na cabeça. Foi levada para o Hospital Central do Exército (HCE), onde teve a sorte de ser atendida por um companheiro de luta, ali residente como médico. Para evitar que fosse torturada naquele dia, o médico simulou uma convulsão na paciente. No dia seguinte, ela foi levada pelos policiais, com a promessa de que “seria torturada como um homem, como Jesus Cristo”, alusão feita já que estavam na semana da Páscoa. Oito homens torturaram com perversos requintes de sadismo, à “Loura 90”, aplicando-lhe choques, pendurando-a no pau-de-arara, fustigando-lhe todas as partes do corpo. Debilitada e com uma hemorragia renal, ela foi levada para o hospital, em junho, sem poder andar. Foi nesta ocasião que aconteceu o seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, trocado mediante a libertação de 39 presos políticos. Vera Sílvia tinha o seu nome incluído na lista. De todos que ali estavam, ela foi a única que gerou constrangimentos ao regime militar, visto que estava tão debilitada, que não podia andar, sendo levada em uma cadeira de rodas até o avião que partiria para a cidade de Argel, tendo a bordo os 39 guerrilheiros rumo ao exílio. O caso de Vera Sílvia atraiu os holofotes internacionais, que ao ver o seu estado precário, numa cadeira de rodas e com 25 quilos a menos, confirmou a tortura nos calabouços da ditadura, veementemente negada pelos militares.

No exílio, Vera Sílvia chegou a seguir para Cuba, onde se tratou e fez treinamentos de guerrilhas. Perambulou pelo Chile, Argentina, Suécia e França, onde permaneceu até a Anistia, em 1979. Em 1973, Vera Lúcia deixou definitivamente a militância em organizações guerrilheiras. Costumava dizer que ela e os seus companheiros não amavam a democracia, amavam a revolução, lutavam pela ditadura do proletariado, não pela democracia.

Vera Sílvia morreu aos 59 anos, em 4 de dezembro de 2007, no Rio de Janeiro. Trazia seqüelas da tortura no corpo e na alma. Da beleza da guerrilheira trazia a determinação, movida por um semblante pesado e pela velha ternura obstinada. Em uma reportagem, disse sobre o período que foi guerrilheira: “Valeu. Só não valeu para quem morreu... O que havia de melhor na minha geração fez o que eu fiz.

Virtuália, o Manifesto Digital

Dilma: quem ama, cuida

A presidenta Dilma Rousseff interrompeu ontem seu descanso nas praias da Barreira do Inferno, próximo de Natal, Rio Grande do Norte, para conhecer melhor os trabalhos desenvolvidos pelo Brasil na astronáutica, e participou também, com um grupo de preservacionistas do Projeto Tamar (Tartarugas Marinhas), da soltura de filhotes de tartarugas ao mar.

         Presidente Dilma participa da soltura de tartarugas no Rio Grande do Norte. (Foto: Marcelo Garrido/Agência Força Aérea)
                                                                                   Foto: Marcelo Garrido/Agência Força Aérea


No Dia Internacional da Mulher, quando a gente abre os portais da internet e só vê um festival descarado de bundas, peitos, coxas... mais do que tostados, balançando, requebrando, reduzindo a mulher a seu nível mais baixo e mostrando a apologia do lado mais frágil e perecível do ser humano, feita pela mídia de mercado, é confortador ver a presidenta numa atitude carinhosa, amorosa, ajudando a cuidar das tartaruguinhas, do meio ambiente, da natureza, do planeta, de todos nós.

Ótima notícia. Ganhei o dia!

Parabéns, Presidenta Dilma Rousseff!

Feliz Dia Internacional da Mulher!

segunda-feira, 7 de março de 2011

O podre "latifúndio" blogosférico (em apoio ao André Lux)

Desde a histórica entrevista do presidente Lula a um grupo de blogueiros autodenominados "progressistas", em 24.11.2010, vimos alertando a blogosfera sobre as atitudes autoritárias,  preconceituosas e antidemocráticas de alguns destes blogueiros em relação aos demais editores/redatores de blogs independentes.

Começamos a manifestar preocupação com o comportamento destes "colegas de ciberespaço" no post Fogueira de vaidades e demos continuidade nos posts O "grito dos excluídos", Sabujice blogosférica, Em nome da verdade, Alerta geral: risco à blogosfera e Rebelião blogosférica, todos publicados aqui no final de novembro do ano passado.

O Abra a Boca, Cidadão! é um blog novo, completará 5 meses na próxima semana. Estes posts alertando sobre os riscos de um "pig blogosférico" tiveram pequena repercussão. A questão não foi amplamente debatida, esta reles blogueira foi desautorizada por gracejos e insinuações de alguns blogueiros "medalhões" e o problema continua.

Felizmente, há "vida inteligente" na blogosfera. Gente que pensa com a própria cabeça, que não precisa de "mentores", que rechaça e denuncia intolerância, autoritarismo, vaidade doentia, arrogância, prepotência e outras atitudes típicas da velha mídia reproduzidas em alguns setores da blogosfera.

É o caso do jornalista e blogueiro André Lux, que lucidamente vem postando em seu blog Tudo Em Cima artigos sobre esse grupelho de blogueiros "tubarões", que se dizem "progressistas", mas se comportam ridiculamente como proprietários do ciberespaço, transformando-o numa espécie de feudo, onde eles são os senhores e os demais (nós todos), reles vassalos, relegados ao papel de elogiá-los, aplaudi-los, incensá-los.

Adeptos do pensamento único, não admitindo opiniões divergentes nem vozes dissonantes, costumam falar em nome da blogosfera, sem que tenhamos dado qualquer procuração a eles. E é aí que está o problema.

E quando criticados, denunciados, se colocam como vítimas, ridicularizam, menosprezam, diminuem, fazem pouco. Mas nunca descem do pedestal onde se colocaram. 

Se não nos posicionarmos e denunciarmos tais atitudes, se permitirmos, podem vir a criar oligarquicamente alguma regulamentação, "carteira/registro de blogueiro", crachá, anuidades e outras espertezas mais...

Blogosfera não tem dono. Pioneirismo, número de seguidores, organização de atos públicos, entrevista com Lula... não são credenciais pra ninguém se colocar em torre de marfim, em altar, como semideus. E exigir dos demais coluna vergada, incensamento.

O ABC! não aceita e não faz idolatria de quem quer que seja. Muito menos de reles, imperfeitos e falíveis mortais.

Abaixo o post do André Lux, que apoiamos.

Desabafo: Há algo de podre no reino da blogolândia...


Grupo de blogueiros ataca em bloco a fim
de formar opinião única na blogolândia
Hoje vou tocar num assunto
muito delicado e que certamente vai causar polêmica na blogolândia, mas que vem me incomodando já há algum tempo. Não falei sobre isso antes para não ser acusado de disparar “fogo amigo”, principalmente durante as sofridas eleições do ano passado.

Mas sinto que agora é a hora de colocar o dedo na ferida. O assunto diz respeito ao comportamento de alguns blogueiros ditos progressistas ou de esquerda que, de uns tempos para cá, vem atuando em bloco para construir uma espécie de “pensamento único” dentro da blogolândia e também para barrar qualquer um que pense diferente deles. Ou seja, começam a atuar justamente como o PiG que tanto criticam! Não vou citar nomes aqui porque minha intenção não é acusar ninguém, mas sim desabafar e, quem sabe, chamar a atenção das pessoas para esse fato que certamente vem incomodando outros blogueiros como eu.

O episódio da participação da Dilma na festa da Folha de S.Paulo foi o divisor de águas que finalmente, na minha opinião, escancarou a prática dessa turminha que, infelizmente, está agindo assim por vaidade, soberba, sectarismo, necessidade de autoafirmação ou algum outro motivo obscuro que só seus membros podem conhecer.

O fato de esse grupo ter se ofendido com a participação da presidenta na citada festa não é o problema em si, mas sim a maneira como seus membros agem em bloco para vender a idéia de que a blogolândia em peso possui a mesma visão deles e, pior, a forma grosseira e intolerante como tentam enquadrar os que pensam diferente.

A impressão que dá é que agem da seguinte forma. O blogueiro A liga para o blogueiro B e diz:
- Você viu que absurdo a Dilma na Festa da Folha?
- Vi sim, fiquei revoltado!
- Pois é, depois de tudo que a gente fez para eleger ela, é inadmissível que vá até a Folha!
- Concordo, eu mesmo me sacrifico todos os dias na minha luta contra a imprensa golpista e agora a Dilma vai lá na festa deles, na maior tranqüilidade?
- Faz o seguinte: publica um texto criticando essa atitude dela no seu blog que eu publico depois no meu, com grande destaque. Você sabe que o meu blog é super bem visitado, né?
- Sei sim, o meu também. Inclusive vou ligar para aquela blogueira C amiga nossa e falar para ela também criticar a Dilma e publicar no blog dela outros textos do mesmo naipe dos amigos dela.
- Legal! Aí tenho certeza que toda a blogosfera vem na nossa onda.
- Com certeza, afinal eles devem muito a nós por tudo que fizemos esses anos todos para eles.
- Mas e se alguém reclamar, ficar contra a gente?
- Aí a gente usa aquela velha tática. Eu me faço de vítima no meu blog, jogo na cara de todo mundo o quanto sofro e o quanto já fiz pela blogosfera e você repercute tudo no seu blog.
- Isso, boa!

Esse diálogo acima é totalmente fictício, porém não ficaria surpreso se ele tivesse realmente ocorrido. O que interessa é que esse grupo de blogueiros que se julgam os “reis da cocada preta” começa então a atuar em bloco para vender uma opinião deles como se fosse a voz da blogosfera. E aí, caso alguém ouse discordar deles, passam a atacar essas pessoas da pior forma possível: se fazendo de vítimas (alguns chegam ao cúmulo de dizer que foram ameaçados de censura!) ou simplesmente denegrindo quem ousou discordar deles.

Talvez o fato de terem alcançado seus 15 minutos de fama por causa da blogagem tenha cegado os componentes desse grupelho para um fato importante: a blogolândia não tem dono, nem voz única, muito menos xerife. E quem tenta ser dono, porta voz ou xerife da blogolândia apenas se expõe ao ridículo.

Eu sei bem do que estou falando porque justamente nesse episódio “Dilma na festa da Folha” fui vítima de ataques e retaliações por parte de gente que jura de pé junto que é democrata e defensor da diversidade de opiniões e da liberdade de expressão. Um desses blogueiros, que realmente passou a se julgar o “guru da blogolândia”, chegou a enviar um email pedindo que eu tivesse “grandeza” nesse assunto. No começo não entendi nada, mas depois percebi que na verdade ele tentava me fazer parar de criticar uma blogueira descontrolada que estava agredindo e ofendendo a todos que discordaram dela, inclusive pelo twitter. Quando, depois de argumentar que eu estava apenas defendendo meu ponto de vista e reagindo aos citados ataques, eu perguntei ao sujeito se ele estava querendo que eu oferecesse a outra face, pronto, fez-se de ofendido e cortou relações comigo. Chegou ao ponto de tirar meu blog da lista de indicados do dele - vejam só que coisa terrível, por pouco não me suicidei!

O mais engraçado da história é que esse tal blogueiro não teve nenhuma “grandeza” quando foi ele o alvo de ataques semelhantes ao que eu sofri, os quais ele revidou de forma bastante veemente e, inclusive, contou com o meu apoio, pois as críticas eram infundadas e injustas. Mas, no meu caso ele fez o contrário: escreveu um texto elogiando justamente a tal blogueira histérica que ofendia a todos que discordavam da opinião dela! Isso que é companheirismo, não?

Muita gente deve ficar triste e preocupada com esses fatos que estou narrando e não entende como isso pode acontecer. A verdade é que blogosfera é um micro cosmo do que é a esquerda na vida real. E, assim como na vida real muitos projetos e sonhos esquerdistas são destruídos por causa da vaidade, do sectarismo, da soberba e da necessidade de autoafirmação de algumas pessoas (mesmo das mais bem intencionadas), a blogosfera também sofre desse mesmo mal. É uma infelicidade, porém algo bem palpável.

Eu depois de ser atacado novamente pelos que
se julgam os "reis da cocada preta" da blogolândia
Da minha parte, espero que esse meu texto sirva para que esses blogueiros parem e reflitam um pouco sobre o que andam fazendo e sobre a forma como agem quando alguém discorda de seus pontos de vista - até porque tenho certeza que são pessoas bem intencionadas.

Mas, como conheço bem a natureza humana, duvido muito que isso vai acontecer. O mais provável é que amanhã pipoquem textos me detonando (direta ou indiretamente), o que no final das contas será apenas uma prova de que vestiram a carapuça mais uma vez. Eu nem ligo. Para quem já foi difamado publicamente pelo editor do jornal mais lido de Jundiaí e por poderosos profissionais da opinião, ser xingado por um blogueiro com delírios de grandeza é fichinha.

Finalizo afirmando que a verdadeira militância não condiz com cobranças, rabos presos ou ataques de estrelismo. Quem se dedica a uma causa de maneira sincera e abnegada não sente jamais necessidade de ficar jogando na cara dos outros o quanto se sacrifica por aquilo ou de ficar enumerando tudo que fez pelo bem daquela causa. O verdadeiro militante é, acima de tudo, um anônimo – e tem orgulho disso! Desconfie sempre, portanto, de quem faz o contrário.

Presidenta Dilma: unanimidade nacional

Até o momento, parece ser esta a posição da presidenta Dilma Rousseff na mídia tradicional e na sociedade como um todo.

O estilo Dilma de governo, muito trabalho e pouco palavrório, tem dado certo. Ao mesmo tempo que neutraliza ou pelo menos dificulta a futricaria midiática, seduz pela dedicação com que gerencia a grande empresa chamada Brasil.

Vozes dissonantes? Existem, claro. Centrais sindicais que pretendiam um reajuste maior no salário mínimo. Parlamentares ligados a estas centrais e da oposição em geral, que precisam exercitar o discurso, obviamente.

Vozes dissonantes também em setores da blogosfera. Não críticas propriamente ao governo da presidenta, mas contrárias ao seu comparecimento na festa de 90 anos do arquiinimigo jornal Folha de S. Paulo. A velha e boa pluralidade de pensamento, diversidade de opinião. Extremamente saudáveis, benvindas e necessárias numa democracia.

Voltando à presidenta... É positivo que Dilma use toda a sua competência também para serenar os ânimos exaltados pela baixaria da campanha eleitoral, promover a civilidade, o respeito às posições contrárias, o convívio pacífico com os adversários. Não se trata de capitular, de abrir mão de posições. Mas como ela mesma deixou claro em seus discursos: é a presidenta de TODOS os brasileiros. O que inclui, gostemos ou não, a velha mídia, seus anunciantes, colaboradores e leitores. O que inclui também artistas populares como Hebe e Ana Maria Braga e seus milhões de fãs e telespectadores.

Reparem que raramente a presidenta vestiu vermelho após a posse. E quando o fez, foi em ocasiões mais "apropriadas". Por exemplo, quando compareceu à festa dos 30 anos do PT. Ela é "antenada". Sabe das coisas...

Abaixo mais um artigo favorável publicado no Estadão a propósito dos posicionamentos e manifestações da presidenta Dilma sobre liberdade de imprensa e outros temas, nestes pouco mais de dois meses de governo. 



Dilma e a liberdade de imprensa


Carlos Alberto Di Franco*

Na celebração dos 90 anos da Folha de S. Paulo, a presidente Dilma Rousseff, armada de um texto sem ambiguidades, resgatou o clima de respeito e de compreensão que, sem prejuízo da necessária independência, deve caracterizar a convivência entre o poder público e a imprensa numa sociedade democrática.

"Uma imprensa livre, pluralista e investigativa é imprescindível para um país como o nosso. (?) Devemos preferir o som das vozes críticas da imprensa livre ao silêncio das ditaduras", disse a presidente da República no evento comemorativo de um importante jornal. Essas mesmas palavras ela já havia dito quando, recém-eleita, pronunciou seu primeiro discurso.

O pronunciamento feito na Sala São Paulo diante de uma plateia de 1.200 convidados teve forte carga simbólica. Dilma, de fato, assumiu um inequívoco compromisso com a liberdade de imprensa e de expressão. E sinalizou uma positiva ruptura com o passado recente de permanente ataque à liberdade de imprensa, ao jornalismo independente e aos formadores de opinião.

Esta coluna, com frequência, criticou a então candidata Dilma Rousseff, sobretudo por sua suposta atuação na primeira edição do 3.º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Mas a honestidade intelectual e o dever de isenção, pré-requisitos de quem pretende fazer jornalismo ético, me obrigam a reconhecer o saldo francamente favorável do início do governo de Dilma Rousseff.

Sua posição em relação ao Irã e às ditaduras que pisoteiam os direitos humanos está bem distante da ambiguidade do governo anterior. Sua firmeza na questão do novo salário mínimo também foi emblemática. Dilma, não obstante as dificuldades de navegação nas águas da política fisiológica, demonstra autoridade e rapidez de decisão. Agora, a presidente da República manifesta clara percepção da importância do pluralismo informativo e da investigação jornalística como cimento da democracia. "A multiplicidade de pontos de vista, a abordagem investigativa e sem preconceitos dos grandes temas de interesse nacional constituem requisitos indispensáveis para o pleno usufruto da democracia, mesmo quando são irritantes, mesmo quando nos afetam, mesmo quando nos atingem. E o amadurecimento da consciência cívica da nossa sociedade faz com que nós tenhamos a obrigação de conviver de forma civilizada com as diferenças de opinião, de crença e de propostas." Há muitos anos não se ouviam do chefe da Nação declarações tão claras e diretas sobre os fundamentos da democracia e o papel da imprensa.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), reconhecida liderança do Estado de São Paulo e figura de projeção nacional, foi na mesma toada. Ressaltou a importância de o País manter uma imprensa livre para que a democracia se aprofunde. "A expressão "imprensa livre" deveria ser um pleonasmo. A imprensa só é se for livre", sublinhou. A festa da Folha de S. Paulo foi a moldura de um quadro auspicioso: o reencontro do Brasil com suas raízes de liberdade, pluralismo e tolerância. Foi, também, o reconhecimento da importância do jornalismo.

Perguntam-me alguns, a propósito, se o jornalismo de denúncia não estaria extrapolando as suas funções e assumindo tarefas reservadas à polícia e ao Poder Judiciário. Outros, ao contrário, preocupados com reiterados precedentes de impunidade, gostariam de ver repórteres transformados em juízes ou travestidos de policiais.

Um exame sereno, no entanto, indica um saldo favorável ao esforço investigativo dos meios de comunicação. A exposição da chaga, embora desagradável, é sempre um dever ético. Não se constrói um país num pântano. Impõe-se o empenho de drenagem ética. E só um jornalismo de denúncia, comprometido com a verdade, é capaz de evitar a frustração da cidadania. Os meios de comunicação existem para incomodar. Um jornalismo cor-de-rosa é socialmente irrelevante. A imprensa, sem precipitação e injustos prejulgamentos, desempenha importante papel na recuperação da ética na vida pública.

Políticos, pródigos em soluções de palanque, não costumam perder o sono com rotineiro descumprimento da palavra empenhada. Afinal, para muitos deles, infelizmente, a política é a arte do engodo. Além disso, contam com a amnésia coletiva. Ao jornalismo cabe assumir o papel de memória da cidadania. Precisamos falar do futuro, dos projetos e dos planos de governo. Mas devemos também falar do passado, das coerências e das ambiguidades. Para certos políticos, imprensa boa é a que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda e deve ser amordaçado.

Não é a visão da presidente da República. Felizmente. Dilma Rousseff demonstrou clara percepção da importância da imprensa ao reiterar seu "compromisso inabalável com a garantia plena das liberdades democráticas, entre elas a liberdade de imprensa e de opinião". E foi assertiva: "Um governo deve saber conviver com as críticas dos jornais para ter um compromisso real com a democracia. Porque a democracia exige, sobretudo, este contraditório, e repito mais uma vez: o convívio civilizado, com a multiplicidade de opiniões, crenças, aspirações".

A consciência da necessidade do contraditório, de pesos e contrapesos que garantam o equilíbrio da convivência democrática, ficou muito clara no discurso presidencial. Igualmente, a noção do papel insubstituível da imprensa livre e independente como garantia de transparência nos assuntos de interesse público.

O Brasil depende, e muito, da qualidade ética e técnica da sua imprensa. Os jornais, comprometidos com o interesse público, necessitam de ampla liberdade para investigar, apurar, informar e opinar. A liberdade é o oxigênio da democracia. O discurso de Dilma foi um bom começo.


* DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO E-MAIL: FRANCO@IICS.ORG.BR





domingo, 6 de março de 2011

No palco, a "Maestrina Dilma"

Mais uma vez, neste curto período de governo, o vetusto e arquiconservador jornal O Estado de S. Paulo, órgão pertencente à tradicional família Mesquita, estampou em editorial, surpreendentemente, elogios à presidenta Dilma Rousseff.

Desta vez, o pomo da discórdia, o motivo da crise, foi o sociólogo Emir Sader, convidado para a direção da Casa de Rui Barbosa pela ministra da Cultura e irmã do Chico, Ana de Hollanda.

Antes de tomar posse, Sader concedeu entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, falando de planos mirabolantes para a Casa, dando declarações polêmicas, fazendo críticas à ministra, a quem chamou até de "meio autista".

O governo Dilma funciona como uma orquestra. Uma orquestra sinfônica. Complexa, sofisticada, comandada por uma maestrina exigente, perfeccionista, de percepção apurada, conhecedora em profundidade de cada músico, cada instrumento, cada obra a ser executada, com domínio de partitura e harmonia, e sabedora de que ela e sua orquestra estão o tempo todo sob os holofotes mais potentes.

É óbvio que com tal regente não será permitida a mínima "desafinação" dos músicos e dos instrumentos. Levantada a batuta, iniciado o espetáculo, a orquestra tem que "arrasar", ser aplaudida de pé!...

Resumo da ópera: a dona e regente da orquestra mostrou quem está no comando. Sader nem começou a tocar as primeiras notas e "dançou"... Não teve tempo nem de afinar direito seu instrumento, nem de vestir sua roupa de gala para subir ao palco...

Nem assumiu e já foi descartado. Comportou-se como um "músico" insubordinado, insolente, vaidoso, metido a Mozart, ou melhor, a Salieri. Imaginava ser algum gênio ou algo assim, que pretendia "desafinar" na orquestra e ser estrondosamente ovacionado...

Não com esta regente, não com esta "chefe de orquestra"...

Foi pro "chuveiro". Ou melhor, pro camarim... E de lá, para casa.

Abaixo o editorial elogioso do Estadão sobre a "maestrina revelação do ano"...




A autoridade de Dilma


Ao enfrentar a crise deflagrada por uma sucessão de desastrosas declarações feitas pelo sociólogo Emir Sader às vésperas de sua nomeação como diretor da Fundação Casa de Rui Barbosa, a presidente Dilma Rousseff agiu com precisão cirúrgica. Ela avalizou a decisão da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, que cancelou a indicação de Sader, depois que este a chamou de "meio autista", em entrevista à Folha de S. Paulo, para deixar claro que não admite quebra de hierarquia e que em seu governo não haverá espaço para que membros do segundo escalão critiquem ou desautorizem publicamente seus superiores.

A crise no Ministério da Cultura (MinC) começou há duas semanas, quando Sader - que pretendeu ser ministro da Cultura e, com a nomeação de Ana de Hollanda, recebeu a direção da Fundação Casa de Rui Barbosa como prêmio de consolação - anunciou seus planos. Por lei, a entidade, criada em 1928, é um misto de arquivo, museu e biblioteca, com a obrigação de preservar e difundir a obra de seu patrono. Entre outras iniciativas, Sader prometeu converter a instituição em centro de debates, anunciou a vinda de "intelectuais cuja voz não tem sido contemplada na esfera pública" - como Marilena Chauí, Leonardo Boff, Eduardo Galeano e Slavoj Zizek - e anunciou seminários para discutir "temas contemporâneos", com foco no "Brasil de Lula".

Esses planos foram vistos como uma agenda paralela à do Ministério da Cultura, à qual a Fundação Casa de Rui Barbosa está vinculada. Além de preservar arquivos e documentos históricos do final do Império e do início da República, nas últimas três décadas a entidade tornou-se referência em duas linhas de pesquisas - uma envolvendo temas de direito público e outra voltada à literatura. As pesquisas jurídicas da entidade, por exemplo, fundamentaram a Emenda Constitucional n.º 45, que introduziu a reforma do Judiciário. E grande parte das recentes biografias e edições críticas de autores como Clarice Lispector, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade teve origem em estudos ali realizados.

Por isso, vários escritores e artistas acusaram Sader de pretender aparelhar ideologicamente a Fundação Casa de Rui Barbosa e de desvirtuar suas funções, substituindo as linhas de pesquisa por uma "cultura de eventos" e pelo proselitismo político-ideológico.

"Discutir assuntos de esquerda não tem nada a ver com a história da Casa. Quando qualquer instituição fica muito politizada, a pesquisa sai perdendo", disse o historiador Ronaldo Vainfas, que trabalhou na entidade nos anos 80. "Transformar uma casa que pertenceu a um ícone do liberalismo num espaço para seus inimigos ideológicos seria uma grande traição", afirmou José Murilo de Carvalho, da Academia Brasileira de Letras.

Acirrada a polêmica, intelectuais próximos a Sader passaram a criticar, pela imprensa e pela internet, o nome indicado por Ana de Hollanda para a Diretoria de Direitos Intelectuais do MinC e a proposta por ela apresentada de rever o projeto da nova Lei do Direito Autoral, herança do governo Lula. E, no último domingo, também pela imprensa, depois de chamar a ministra de "meio autista", Sader a acusou de não ter reagido aos cortes orçamentários.

Como era de esperar, Ana de Hollanda reagiu com irritação às críticas, cobrando explicações de Sader e exigindo retratação pública. O sociólogo ainda tentou "limpar a barra" afirmando que o repórter que o entrevistou colocou na sua boca palavras que não dissera, mas se desmoralizou quando a gravação da entrevista foi divulgada. Apesar de Sader ter fortes ligações políticas com o PT e de ter recebido apoio do coordenador da campanha de Dilma pela internet, Marcelo Branco, que chamou Ana de Hollanda de "ministra da Cultura do atraso", Dilma agiu de forma exemplar, consciente de que a confirmação de Sader à frente da Fundação Casa de Rui Barbosa abriria um perigoso precedente em seu governo.

Dilma mostrou capacidade de comando, preservando a autoridade de Ana de Hollanda, enquanto Emir Sader, revelando-se por inteiro, apresentava-se como "vítima privilegiada" da mídia conservadora e da "truculência da direita".