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quinta-feira, 3 de março de 2011

Mulheres Brasileiras: Maria do Rosário

A julgar pelo perfil traçado por jornais e portais noticiosos na época da escolha do ministério da presidenta Dilma Rousseff, a ministra Maria do Rosário, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, também pode se enquadrar na homenagem a importantes Mulheres Brasileiras nas comemorações deste Mês da Mulher.

Ao que tudo indica, a gaúcha talvez seja a segunda "mulher durona" na administração federal, só perdendo para a mandatária da nação.

E tem que ser assim mesmo. Suavidade e meiguice na gestão dos negócios públicos não leva a nada, a não ser à construção de biografia pessoal. E certamente não é o que quer nenhum de nós.

A ministra terá muitas "batalhas" pela frente. Algumas, duríssimas. Incluindo abertura de arquivos da ditadura e Comissão da Verdade, para contar a verdadeira história das vítimas e algozes do regime de exceção. E a ministra terá como opositores até gente do próprio governo, como já demonstraram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general José Elito Siqueira.

Não vamos só acompanhar de longe estas batalhas. Este blog desde seu primeiro dia firmou compromisso com os direitos do cidadão e, mais do que isto, com os direitos humanos. E a reles blogueira já está nesta luta há muitas décadas...

Abaixo reproduzo uma interessante matéria sobre a ministra Maria do Rosário publicada pela revista ISTOÉ. Que o tempo e as políticas implementadas pelo governo venham a confirmar esse perfil guerreiro e destemido da ministra! 


A ministra das trombadas


Ao comprar briga com a Igreja, militares e ruralistas, a secretária nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário Nunes, dá ao cargo uma dimensão que ele jamais teve

Hugo Marques


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Aos 12 anos de idade, a gaúcha Maria do Rosário Nunes entrou no grêmio estudantil da escola e iniciou o seu histórico de militância. Aos 14, fez um jornal para tentar derrubar o vice-diretor do colégio. 

Na vida adulta, se destacou no movimento dos professores, filiou-se ao PT e foi eleita vereadora, deputada estadual e depois deputada federal. Em outubro passado, conquistou o terceiro mandato para a Câmara, com 143 mil votos, na sexta maior votação do Rio Grande do Sul, mas pediu licença para assumir a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, como uma das nove ministras de Dilma Rousseff. 

Em apenas dois meses, Maria do Rosário, 44 anos, deu ao cargo uma dimensão que ele jamais teve. Conseguiu isso ao defender com veemência a união civil de homossexuais, a comissão da verdade sobre os mortos da ditadura e a desapropriação de fazendas que exploram trabalho escravo. 

Destemida, também cobrou espaço para sua secretaria na coordenação da comissão que procura as ossadas de guerrilheiros no Araguaia. 

O efeito da postura agressiva foi imediato. 

Em menos de 100 dias de governo, ela comprou brigas com a Igreja, militares e ruralistas. “Para sentar nesta cadeira aqui, tem que ter coragem”, disse Maria do Rosário à ISTOÉ.

Os principais embates da ministra têm como alvo a área militar e começaram quando o ministro da Defesa, Nelson Jobim, avisou que não ia cumprir decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que responsabiliza o Brasil pelos guerrilheiros desaparecidos do Araguaia. “Ministra, as decisões da corte internacional não se sobrepõem às decisões do STF”, afirmou Jobim a Maria do Rosário, quando conversavam sobre a questão. A resposta foi ligeira e sem meias palavras. “Vamos cumprir a decisão da corte da OEA. Temos de reconhecer as mortes no Araguaia e a responsabilidade do Estado”, rebateu a ministra, que pretende abrir os arquivos da ditadura que as Forças Armadas se recusam a revelar. 

Há divergências também quanto à proposta de criação da comissão da verdade, para investigar os crimes do regime militar. Maria do Rosário quer passar a limpo os anos de chumbo e tem aval dos grupos de direitos humanos para cobrar responsabilidades. “A criação da comissão é uma determinação da presidente Dilma”, diz ela. 

Pressionado pelo Exército, Jobim prefere uma comissão mais burocrática. “Não sou favorável à punição de eventuais culpados, porque a Lei da Anistia veda”, explicou Jobim à ministra. 

Em entrevista à ISTOÉ, Maria do Rosário reforçou sua postura assertiva. “A minha conversa com o ministro Jobim é de igual para igual, todos os ministérios têm igual importância”, disse. “Uma questão essencial do nosso diálogo é que quem comanda é a presidente Dilma. Nós dois temos que seguir as diretrizes dela”, afirmou a ministra, mostrando força política.

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A presidente Dilma deu carta branca para Maria do Rosário
 

Logo nos primeiros dias do governo, Maria do Rosário exibiu sua marca ao pedir explicações ao ministro-chefe do Gabinete Institucional da Presidência da República, general José Elito Siqueira, por uma declaração que o Palácio do Planalto considerou desastrada. O general dissera que os desaparecidos políticos durante a ditadura eram um “fato histórico” do qual os militares não tinham que se envergonhar. 

Maria do Rosário foi pessoalmente ao gabinete de Elito. “Eu queria que o senhor esclarecesse sua posição”, afirmou a ministra. O general saiu-se com um pedido de desculpas atravessado, para não criar mais polêmica. “Foi um mal-entendido, ministra, eu não quis dizer aquilo”, justificou-se Elito. 

Há dez dias, a ministra foi à sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na pauta do governo com a Igreja está o 3º Plano Nacional dos Direitos Humanos, que trata do casamento de homossexuais, do aborto e da invasão de terras. 

“Ministra, do governo, esperamos diálogo”, ponderou o presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha. “Há outras instituições, além do Estado, que também podem colaborar muito na questão dos direitos humanos.” Maria do Rosário concordou, mas com ressalvas. “Reconhecemos a importância do trabalho da Igreja Católica, mas temos um Estado laico.” 

A ministra também foi à Câmara dos Deputados pedir ajuda à bancada feminina para aprovar matérias de interesse do governo. Mas ela não poupa críticas ao Congresso. “O Poder Judiciário no Brasil avançou muito mais que o Legislativo”, ataca.

A disposição da ministra para brigas se estende a representantes de diversos setores. Recentemente, ela procurou o senador Blairo Maggi (PR-MT), maior produtor de soja do mundo, e entrou de sola no delicado assunto dos conflitos agrários. “Precisamos do apoio do agronegócio para enfrentar esse problema e o trabalho escravo”, disse ela. Maggi, que não quer entrar em guerra com a bancada ruralista da Câmara, prometeu considerar o assunto. “Vamos ver, ministra”, respondeu, sem grande entusiasmo. 

Maria do Rosário, porém, insistiu e afirmou que quer “separar o agronegócio da pistolagem”. À ISTOÉ, a ministra ratificou que vai fazer de tudo para separar o joio do trigo no campo. Como se vê, a gaúcha Maria do Rosário está na cadeira certa e é realmente um osso duro de roer. 

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                                                             IstoÉ Independente






quarta-feira, 2 de março de 2011

Mulheres Brasileiras: Railda Alves



Aqui não temos nenhum interesse em falar de hebes e anas marias. O que nos mobiliza é a "Brava Gente Brasileira". Anônima, vestida por roupas sem grife, desprovida do charme que alimenta a mídia de mercado. E nos interessa também contar sua história de vida, sua luta diária pela sobrevivência com dignidade.

Railda Alves: mulher, empreendedora, microempresária no sertão baiano.

Assim como Maria da Paixão, cuja história foi contada em post anterior, dona Railda é trabalhadora rural e vive da agricultura familiar, cultivando hortaliças e até as industrializando e comercializando em forma de conservas e temperos.


 

De mãe para filha: mulheres se organizam em associações para melhorar renda familiar


                                Dona Railda Alves (de vermelho) incentivou os filhos a participar da
                                agricultura familiar. Ela, as filhas e as noras são integrantes da
                                Associação de Mulheres Quilombolas da Comunidade Lagoa de Gaudêncio.
                                Foto: Rafael Alencar/PR


Setenta trabalhadoras rurais de municípios da Bahia expuseram seus produtos à presidenta Dilma Rousseff ontem (1/3) na “Mostra dos Grupos Produtivos de Mulheres Rurais”, em Irecê (BA). A exposição deu início ao Mês da mulher, que está sendo comemorado pelo governo da primeira mulher presidente da República com diversos eventos e ações sociais.

Dona Railda Alves, da comunidade quilombola Lagoa de Gaudêncio, em Lapão (BA), é uma das expositoras. Mãe de sete filhos, dedicou grande parte da vida à lavoura de feijão e milho de outros produtores, ganhando como diarista, sem carteira de trabalho assinada e com rendimento vinculado à produção diária.
“Quando tinha lavoura a gente ganhava um pouquinho e quando não tinha, a gente ficava sem nada”, conta do tempo de que não tem saudade.
Dona Railda prepara o vidro com os temperos que estão expostos na Mostra dos Grupos Produtivos de Mulheres Rurais. Foto: Rafael Alencar/PR

Foi por meio da agricultura familiar que dona Railda passou de empregada à produtora rural autônoma. “Após mais de 30 anos criando os filhos sem a certeza de que a renda viria”, ela e outras mulheres da região fundaram a Associação de Mulheres Quilombolas da Comunidade Lagoa de Gaudêncio. A associação é responsável por comercializar toda a produção de temperos e derivados de cenoura que é produzida pelas mulheres de forma caseira. Aos poucos, a culinária das mulheres de Lagoa de Gaudêncio vem conquistando a região: lá é possível experimentar a cocada e a rapadura de cenoura, os bolos e o famoso tempero de dona Railda, que tem destaque no estande de Lapão durante a mostra de Irecê.

Mais informações na matéria completa publicada no Blog do Planalto.

terça-feira, 1 de março de 2011

A verdadeira Dilma

Esta é a nossa Presidenta!

É esta a Presidenta em quem votamos.

É esta Presidenta que apoiamos. E que apoiaremos sempre aqui.


                  Dilma cumprimenta populares na chegada a Irecê; no local, presidente anuncia reajuste no Bolsa Família
                                                                                                      Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Mulheres, Brasileiras e Trabalhadoras

Irecê, Bahia, sertão nordestino.

Primeiro dia do Mês da Mulher de 2011.


Presidenta Dilma Rousseff durante visita ao Expresso Cidadã

Presidenta Dilma encontra trabalhadoras rurais no interior da Bahia.


                                                                            (Fotos: Roberto Stuckert Filho/PR)





Dilma, Trabalho e Cidadania

Chega de amenidades!

Depois de festinha com os inimigos do povo brasileiro "naquele jornal", ao som de Villa-Lobos. Pelo menos isso... Depois de entrevista-trololó com a Primeira Dama da Televisão Brasileira, Hebe Camargo, na casa do povo, Palácio da Alvorada... Depois de um dia inteiro, ontem, segunda-feira "braba" pra qualquer brasileiro... "tricotando" e cozinhando com Ana Maria Braga e o Louro José nos estúdios "daquela emissora", em Jacarepaguá, Rio de Janeiro...

Agenda particular ou oficial, é de se perguntar... Agenda de presidenta ou candidata...

Como candidata, na recente e inesquecível, para o Bem e para o Mal, campanha eleitoral, dona Dilma pisou o palco do Super Pop da Rede TV! para "tricotar" e cozinhar omeletes com Luciana Gimenez...

Candidato, como o "príncipe dos sociólogos" nos ensinou, come até "buchada de bode" [sem qualquer demérito ao prato], no vale-tudo eleitoral que é a campanha no Brasil. O "negócio" é "ficar bem na foto", conquistar votos.

Mas a campanha já acabou. Felizmente.

E depois desse oba-oba todo, Dilma Rousseff desembarcará no meio da manhã de hoje em Lençóis, interior da Bahia, para o que realmente interessa às cidadãs e cidadãos brasileiros: cumprir agenda de trabalho como presidenta da República. Ver abaixo.

Vamos acompanhar a cerimônia, os discursos, as festividades em comemoração ao Mês da Mulher, o reajuste do Bolsa Família, os outros programas e medidas que serão anunciados para o Bem do povo e do País.



                                                 Presidência da República


AGENDA DA SENHORA PRESIDENTA DA REPÚBLICA


Terça-feira
1º de março de 2011


09h      - Partida para Lençóis (BA)

  Base Aérea de Brasília (DF)


10h20   - Chegada a Lençóis

              Aeroporto de Lençóis


11h30   - Visita ao "Expresso Cidadã"
  Espaço Gran Fest, avenida Santos Lopes, s/n, Centro, Irecê (BA)

11h45   - Visita à mostra da Feira Feminista e Solidária do Programa de
  Organização Produtiva de Mulheres Rurais (POMR)

12h15   - Cerimônia de início do Mês da Mulher: Trabalho e Cidadania

15h10   - Partida para Salvador (BA)

              Aeroporto de Lençóis


15h40   - Chegada a Salvador

              Base Aérea de Salvador


16h30   - Cerimônia de anúncio da implantação do Terminal de
  Regaseificação de Gás Natural Liquefeito (GNL) da Bahia
 Gran Hotel Stella Maris, praça Stella  Maris, nº 200, Stella Maris

18h20   - Partida para Brasília
              Base Aérea de Salvador
             
19h50   - Chegada a Brasília

              Base Aérea de Brasília





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Mulheres Brasileiras: Maria da Paixão


Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher e ao Mês da Mulher, o governo da primeira mulher presidente da República do Brasil publicará no Blog do Planalto artigos sobre importantes e lutadoras mulheres brasileiras. Mulheres guerreiras, mulheres do povo.

A série teve início hoje, com a trabalhadora rural Maria da Paixão, da cidade de Lapão, Bahia, que vive, como outras tantas mulheres, da agricultura familiar.

Dona Maria da Paixão planta hortaliças - alface, brócolis e coentro - e também mamona, para a produção de biodiesel. Além disso, dedica-se à criação de caprinos.

A presidenta Dilma estará amanhã, terça, em Irecê, Bahia, para lançar programas que beneficiam trabalhadores rurais, em especial as agricultoras como Maria da Paixão.

Mais  detalhes sobre os programas governamentais e sobre a cerimônia de amanhã, "Trabalho e Cidadania", no sertão baiano, abaixo e no post completo do Blog do Planalto.



‘Ônibus da cidadania’ permitirá emissão de bloco de notas fiscais às trabalhadoras rurais


Maria da Paixão, produtora familiar rural de Lapão (BA), é uma das
mulheres que poderá ser beneficiada pelo programa 'Bloco da Produtora Rural'.
Foto: Rafael Alencar/PR

Selo da série especial Dia internacional da Mulher

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o Blog do Planalto traz uma série especial dedicada às mulheres brasileiras. Nosso primeiro post é sobre a agricultura familiar, atividade que vem resgatando cada vez mais famílias da pobreza e que é tema central da Cerimônia de Início das Comemorações do Mês da Mulher: Trabalho e Cidadania, que acontece amanhã (1/3), em Irecê (BA).

A partir desta terça-feira, as trabalhadoras rurais terão acesso à emissão do ‘Bloco da Produtora Rural’ – serviço que permite a emissão de notas fiscais para a comercialização de seus produtos – sem precisar se deslocar de seus municípios. A ação que será lançada nacionalmente em Irecê fará parte do Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural (PNDTR), que leva a emissão de documentação civil e trabalhista em ônibus que percorrem todo o território nacional.

Expresso Cidadã levará a emissão gratuita do Bloco da Produtora Rural a todo o território brasileiro. Foto: Rafael Alencar/PR

Com o bloco de notas fiscais em mão, a trabalhadora rural poderá comercializar sua produção de formal legal e expandir a venda para mercados, órgãos públicos e à comunidade em geral. O documento possibilita à trabalhadora ter uma inscrição estadual e registrar toda a movimentação de compra e venda dentro da propriedade rural no bloco.

Outra garantia é a inscrição como asseguradas especiais no INSS e comprova a atividade agrícola para fins previdenciários (aposentadoria, auxílio maternidade, auxílio doença).

O foco do programa são as produtoras familiares que tocam a produção de forma artesanal, muitas vezes organizadas em associação de mulheres, e que ficam impossibilitadas de expandir a venda de seus produtos por não poderem emitir o documento fiscal.

Maria da Paixão Rocha, produtora familiar do município de Lapão, no sertão baiano, é uma das trabalhadoras foco da ação. Há 15 anos dona Paixão, como é conhecida, toca a produção de uma pequena propriedade rural que divide com a família, onde é praticada a policultura. Lá se encontra desde hortaliças como alface, brócolis e coentro, à mamona – utilizada para a produção de biodiesel –, além da criação de caprinos. Tudo o que é produzido pela família é vendido para a comunidade local.

(...)

Dilma e Gandhi: alguma semelhança?

“Tia Dilma na festa da Folha é prova de feminina astúcia, de fragilidade confessa, de amnésia, de ingenuidade ou de falta de vergonha na cara...”

     (Nilson Lage, jornalista e professor aposentado da UFSC, em seu twitter)



A ida da presidenta Dilma Rousseff ao "serpentário político-midiático" armado para a comemoração dos 90 anos do jornal Folha de S. Paulo na semana passada continua rendendo manifestações e análises. De blogueiros, leitores de blogs, jornalistas, estudiosos da comunicação, cidadãos e cidadãs que pensam o Brasil.

Não foi, pois, um acontecimento "menor". Tem propiciado variados pontos de vista, estimulado debates e observações, das mais leves às mais veementes e apaixonadas.

O tempo dirá se a atitude da presidenta foi a mais acertada para o País e para a cidadania.

O artigo abaixo contribui com novas reflexões. Apreciem sem moderação.



Dilma e Gandhi - o sal e o pré-sal

 Samuel Lima
Docente da UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS


O gesto de um homem chamado Mahatma Ghandi atravessou o tempo. Corriam os anos 1930 e os tiranos ingleses haviam proibido a extração e comércio de sal em território indiano porque pretendiam eliminar qualquer competição com o seu produto. A decisão dos colonizadores condenava milhares de pessoas à fome porque colher sal era crime. Desafiando a ordem injusta, um homem aparentemente frágil catou um punhado de sal, numa praia de Gujarat, ergueu o punho e começou a luta efetiva pela independência do país, que seria vitoriosa 20 anos depois. Um homem, um punhado de sal e um gesto que mudou a História.

Dilma Rousseff, que comanda um governo cuja jóia são as riquezas existentes na camada pré-sal, pode ter marcado sua trajetória no poder a partir de outro gesto simbólico. No dia 21 de fevereiro, Dilma foi ao encontro de seus algozes, “comemorar” o aniversário de 90 anos do jornal Folha de S. Paulo. Mais que uma simples visita de cortesia a um veículo que publicou sua ficha falsa na capa (e jamais fez nenhuma autocrítica) e respaldou um de seus colunistas mais conhecidos a xingá-la de “vadia e vagabunda”, ela fez um discurso incompreensível àqueles que lutam pela liberdade de expressão e o direito à comunicação no país. A síntese é clara: “Ao comemorar o aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, este grande jornal brasileiro, o que estamos celebrando também é a existência da liberdade de imprensa no Brasil”.

Gesto e discurso são objetos de intenso debate na blogosfera, a partir de alguns conhecidos “blogueiros sujos” (assim chamados por José Serra), que na recente disputa eleitoral posicionaram-se ao lado da presidenta. O jornalista Leandro Fortes escreveu:

O pecado capital de Dilma foi ter, quase que de maneira singela, corroborado com a falsa retórica da velha mídia sobre liberdade de imprensa e de expressão. (...) A presidenta usou como seu o discurso distorcido sobre dois temas distintos transformados, deliberadamente, em um só para, justamente, não ser uma coisa nem outra. Uma manipulação conceitual bolada como estratégia de defesa e ataque prévios à possível disposição do governo em rever as leis e normas que transformaram o Brasil num país dominado por barões de mídia dispostos, quando necessário, a apelar para o golpismo editorial puro e simples. (Fonte: http://brasiliaeuvi.wordpress.com/)

O repórter especial de CartaCapital enxerga, na atitude de Dilma, algo a mais. Trata-se, para Fortes, de “uma concessão que está no cerne das muitas desgraças recentes da história política brasileira, baseada na arte de beijar a mão do algoz na esperança, tão vã como previsível, de que esta não irá outra vez se levantar contra ela. Ledo engano. (...) A presidenta conhece a verdadeira natureza dos agressores. Deveria saber, portanto, da proverbial inutilidade de se colocar civilizadamente entre eles”, vaticina o jornalista. Já o blogueiro Altamiro Borges, observa a cena a partir de duas interpretações possíveis:

Os mais otimistas afirmam que Dilma cumpriu o seu papel de chefe de Estado, que não tinha como evitar o ritual – junto com ela estiveram os presidentes do Senado e da Câmara, ministros do STF e lideranças políticas de distintos partidos. Já os mais incrédulos criticam a participação da presidenta na homenagem aos algozes da Folha. Alguns suspeitam que sua atitude sinalize nova cedência aos barões da mídia. (Fonte: http://altamiroborges.blogspot.com/)

Ao coro dos contentes veio se juntar o jornalista Alberto Dines, decano do Observatório da Imprensa, em comentário radiofônico publicado no OI (25/02/11). Para Dines, a participação da presidenta nos 90 anos da Folha é parte da "Doutrina Dilma para a Mídia". Para o Observador, sua presença no convescote dos Frias é uma “saudação a uma imprensa livre e plural”.

Estranha coincidência, três dias depois coube ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo (PT), “suitar” a fala de Dilma na festa da Folha. Bernardo foi categórico e sinalizou o recuo, já desqualificando o projeto herdado do governo Lula: só irá encaminhar o projeto do novo marco regulatório do setor no segundo semestre, à apreciação do Congresso Nacional, porque “tem grandes chances de ter uma besteira no meio” (grifo nosso). Por “besteira” entenda-se algo que possa contrariar os interesses dos empresários da comunicação...

Mais que meia palavra, basta um gesto para bons e maus entendedores. Ao invés de um punhado de sal erguido contra os grilhões da ditadura midiática, a mandatária maior do país preferiu desafiar a lógica política. O enigma está posto e o maestro Nilson Lage (professor aposentado da UFSC) deu algumas pistas, em seu twitter: “Tia Dilma na festa da Folha é prova de feminina astúcia, de fragilidade confessa, de amnésia, de ingenuidade ou de falta de vergonha na cara...”. A ver.


objETHOS