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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Anistia, Comissão da Verdade e a lamentável fala do general

A propósito da criação de uma Comissão da Verdade pelo Congresso, pedido feito no discurso de posse da ministra Maria do Rosário, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, e das declarações infelizes do general ministro do GSI, chamado pela Presidenta Dilma a esclarecer suas afirmações, reproduzo abaixo artigo do jornalista Eric Nepomuceno, publicado agora à tarde no site da CartaCapital.


O direito à memória: uma lei discutível, palavras que envergonham


Por Eric Nepomuceno*


Em meados de dezembro, faltando duas semanas para o final do governo Lula, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA condenou o Brasil por não haver punido os responsáveis pelas prisões, torturas, mortes e desaparições de 62 membros do Partido Comunista do Brasil na região do Araguaia, entre 1972 e 1974. Naquele período foram mobilizados cerca de cinco mil soldados (entre eles, unidades de elite do Exército) para derrotar pouco mais de 80 guerrilheiros. A sentença da OEA se estende por 126 páginas, e afirma de maneira inequívoca que as disposições da Lei de Anistia decretada em 1979 não podem impedir as investigações e as sanções a essas graves violações dos direitos humanos. Diz que se trata de disposições que são “incompatíveis com a Convenção da OEA, carecem de efeitos jurídicos e não podem continuar representando um obstáculo para a investigação dos fatos, nem para a identificação e punição dos responsáveis”.

Dito em outras palavras, de maneira direta: a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA fez o que o Supremo Tribunal Federal brasileiro deixou de fazer. E o que o governo de Lula (com exceções como seu ministro de Justiça, Tarso Genro, e o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi) não quis ou não teve peito de levar adiante: dizer que a Lei de Anistia de 1979, quando o país ainda vivia debaixo dos rigores de uma ditadura encastelada no poder, é espúria e inconstitucional. Lula tampouco se animou a instalar a Comissão da Verdade, que levaria – levará? – a que se saiba quem fez o quê, e o que foi feito, e como foi feito, para que nunca mais ocorra o que ocorreu. Não para punir ninguém, que não é preciso chegar a tanto: só para que se recupere o direito à memória.

Lula deixou essa mancha em seu governo, apesar dos esforços de Genro e Vanucchi. E deixou também, na herança entregue a Dilma Rousseff, a presença incômoda, bizarra e poderosa do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que se mostrou absolutamente submisso aos quartéis. Foi, no governo de Lula, o principal aríete dos setores mais retrógrados da Igreja, das Forças Armadas, dos meios de comunicação e da sociedade. Defendeu a todo custo que a anistia imposta pela ditadura em 1979 – a única possível na época – efetivamente alcançou os dois lados. Aos que se opuseram a essa ditadura e aos que exerceram a barbárie em nome do Estado. Vale recordar que os opositores foram punidos com perseguição, exílio, prisão, tortura, morte, desaparição. Os assassinos e torturadores perambulam por aí com a certeza de que jamais serão punidos.

O tema não é novo, e há pelo menos uma década e meia é tratado com uma cautela tão extrema que mais justo seria chamá-la de temor. O governo de Fernando Henrique Cardoso bem que avançou bastante, mas com muita prudência, reconhecendo excessos do Estados, uma entidade sem rosto nem nome. Lula poderia ter avançado muito mais por essa trilha. Bem que quis levar adiante o Plano Nacional de Direitos Humanos, iniciado pelo seu antecessor. Tropeçou com o poder do medo, e ficou por aí.

No ano passado, a Ordem dos Advogados defendeu a tese de que a lei de anistia não incluía torturadores e assassinos. A iniciativa foi fulminada pelo Supremo Tribunal Federal. Argumento escuso da corte suprema: não era admissível revisar a Lei de Anistia. Acontece que ninguém queria revisar nada: tratava-se apenas de decidir se a Lei era ou não aplicável aos responsáveis por crimes de lesa humanidade, que são imprescritíveis à luz do direito. Uma infinidade de acordos internacionais firmados pelo Brasil dizem claramente que não há anistia para quem cometeu essa classe de crime.

Quando ministro da Justiça, Tarso Genro chegou a defender um argumento insólito: os torturadores e violadores agiram fora da lei da própria ditadura, uma vez que não existiam ordens formais de serviço ou qualquer norma legal que permitissem a tortura, a execução sumária ou o sequestro e desaparição de pessoas que se encontravam sob a tutela do Estado. Foi em vão: no Brasil persiste o temor esdrúxulo às casernas, que dizem que o que importa é olhar para a frente, e que não há que se perder tempo olhando o passado. Como se uma coisa impedisse a outra.

Maria do Rosário, substituta de Paulo Vanucchi na secretaria de Direitos Humanos no governo de Dilma Rousseff, pediu, em seu discurso de posse, que o Congresso crie uma Comissão da Verdade para que se saiba o que ocorreu nos porões da ditadura e que seus responsáveis sejam conhecidos. Não falou em punição. Assegurou que não se trata de revanchismo ou vingança, mas do direito à memória e à verdade. Do direito dos familiares de mortos e desaparecidos enfim saberem o que aconteceu com eles, e como aconteceu.

Num instante veio a resposta do general José Elito Siqueira, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional: é preciso olhar para a frente, o que passou, passou. É história. Se houve desaparecidos, não há por quê sentir vergonha ou se vangloriar.

Aos seus 64 anos, o general é da turma de 1969 do Exército, quando a tortura corria solta no Brasil. Ele tinha 23 anos. É um pouco mais velho que eu. E, sendo quase da mesma idade, posso admitir que ele não soubesse o que acontecia. Que não tenha participado de nada. Mas não é fácil admitir que não saiba, agora, o peso de suas palavras.

Não, general: é, sim, uma tremenda vergonha que tenham acontecido desaparições. E outra vergonha é dizer o que o senhor disse. Ao dizê-lo, o senhor ofende a minha memória, ofende a farda que veste. Uma vergonha, general. Uma vergonha. Oxalá tudo não tenha passado de um mal-entendido, apesar da clareza de suas palavras.

*Eric Nepomuceno é jornalista e escritor. Texto publicado originalmente no Página/12




Presidenta Dilma: Manda quem pode...

E pelo noticiário dos jornais e portais nestes primeiros dias de governo, parece que a Presidenta Dilma já está delimitando seu território, imprimindo sua marca, fazendo cobranças, mostrando a que veio...

"Manda quem pode e obedece quem tem juízo"... não é o que diz a sabedoria popular?

Pois então. A Presidenta Dilma, talvez hoje a mulher mais poderosa do mundo, se considerarmos os 190 milhões de brasileiros sob seus cuidados, já começou a implementar uma "rotina dura" dentro do governo, com seus assessores e ministros. E até pediu explicações ao general ministro do Gabinete de Segurança Institucional sobre suas desastradas declarações à imprensa favoráveis à ditadura e suas vítimas...

Sai o Presidente bonachão, chorão, coração mole... e entra a "Dama de Ferro", também chorona e beijoqueira, como vimos nas solenidades da posse, afinal, como ela mesma declarou no discurso na Câmara, "mulher também é carinho"...

Mas agora é hora de união e trabalho. Tempo de arregaçar as mangas, tomar pé da situação, fazer escolhas, tomar decisões, cobrar, comandar. Doa a quem doer.

Leiam abaixo notícia do Portal IG sobre o estilo "non-stop" da Presidenta, que já está vigorando no Planalto...





Pontual e exigente, Dilma inaugura nova rotina no Planalto



Presidenta não se abala em interromper almoços e já mostrou que não quer atrasos nas reuniões da equipe de governo


Andréia Sadi e Adriano Ceolin, iG Brasília | 04/01/2011

A eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República já previa alterações na rotina do Planalto, com seguranças e ajudantes de ordem mulheres, mas é o estilo da primeira presidenta brasileira que mudou o ritmo do dia a dia dos ministros e assessores. Conhecida por ser exigente e perfeccionista, Dilma deu sinais logo no dia seguinte a sua posse de como pretende conduzir a sua gestão à frente do País.




Foto: Agência Estado
Reuniões como a da coordenação política do governo agora acontecem pontualmente, diferentemente do que ocorria sob Lula


Os ministros que haviam trabalhado com Dilma quando a presidenta era chefe da Casa Civil do governo Lula não estranharam o estilo "non-stop" da petista. Já os novatos na Esplanada brincam nos bastidores que “acabou a paz” na rotina diária com a nova chefe.


Dilma não esperou o primeiro dia útil do ano e deu início aos trabalhos no terceiro andar do Palácio do Planalto no último domingo, quando recebeu chefes de Estado de outros países para discutir questões internacionais. Na segunda-feira, após reuniões com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Marco Maia, Dilma parou para almoçar. A presidenta, no entanto, não quis perder tempo com deslocamentos e comeu no próprio gabinete.


Candidato a presidente da Câmara pelo PT, o deputado Marco Maia (RS) teve uma reunião com Dilma na tarde de segunda-feira. Apesar de se tratar de um primeiro encontro apenas protocolar, Dilma pediu detalhes sobre as negociações para a disputa pelo comando da Casa. Maia definiu Dilma como firme, porém tranquila. Os dois foram colegas de secretariado no governo de Olívio Dutra.


Após uma manhã com agenda pesada na segunda-feira, o novo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, fez uma parada rápida para almoçar antes da maratona vespertina no ministério. Sentou-se em um restaurante para comer e, menos de 15 minutos após chegar ao local, recebeu uma ligação da presidenta chamando para uma conversa. Cardozo disse que já estava terminando de comer e iria encontrá-la imediatamente. Em tom de ironia, a nova chefe respondeu: ‘’Embrulha e traga para comer aqui. Não tem comida no seu ministério, não?”. O novo ministro caiu na gargalhada, largou o prato cheio e seguiu para o Palácio do Planalto.

Na primeira reunião de coordenação política, onde estiveram presentes os principais ministros de Dilma, a presidenta deu mais uma indicação de como será a rotina no Planalto. Marcada para as 18 horas, a reunião começou pontualmente, diferentemente do que acontecia na época do antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido por seus atrasos. Após agenda intensa durante o dia, o encontro de Dilma com Antonio Palocci, José Eduardo Cardozo, Luiz Sérgio, Miriam Belchior, Helena Chagas e Guido Mantega durou três horas. Hoje, por volta das 9h30, a presidenta já estava despachando no terceiro andar do Planalto.





terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dilma e a "Solidão do Poder"

Após todas as concorridas, emocionantes e exaustivas solenidades da festa de posse, na tarde e noite do sábado, primeiro dia do ano, já no domingo a Presidenta Dilma teve várias reuniões com Chefes de Estado e representantes de governos estrangeiros que solicitaram audiência.

Ontem, primeiro dia útil do ano, a Presidenta também encarou outra série de encontros: com os Presidentes da Câmara e do Senado, com o Presidente do STF, com ministros do seu governo. E no final da tarde, sorridente mas com um olhar visivelmente cansado, comandou a primeira reunião de coordenação, com oito ministros e mais o vice-presidente, quando foi agendada a primeira reunião ministerial, para o próximo dia 14, para se analisar o cenário da economia mundial.


Presidenta Dilma Rousseff durante reunião de coordenação no Palácio do Planalto
                                       Foto: Roberto Stuckert Filho/PR


Tantas solenidades e formalidades, inúmeros compromissos, beijos, abraços, apertos de mão, sobe-escadas-desce-escadas, sobe-rampa-desce-rampa, sob os cliques implacáveis de máquinas sofisticadas de um batalhão de repórteres, pedidos descabidos de jornalistas profissionais (?) por declarações e entrevistas, assédios despropositados dos inevitáveis "papagaios de pirata" e outros "ilustres desconhecidos" e "oportunistas de plantão", buscando uma foto e seus "cinco minutos de fama", claro... 

Depois de "sobreviver" heroicamente a toda esta maratona político-midiática, a Presidenta Dilma em algum momento nestes primeiros dias de governo terá um "encontro consigo mesma", experimentará provavelmente alguns minutos de solidão, em que constatará ao mesmo tempo o Poder depositado em suas mãos e todos os interesses, muitos descaradamente mesquinhos, que a rodeiam...

E buscará talvez refúgio e acolhimento em algumas leituras e livros, esses eternos amigos, procurará, quem sabe, luzes, apoio, aconselhamento, para tomar as decisões mais acertadas que deverá enfrentar no turbilhão do Poder.

Conselheira fiel do Presidente Lula, de quem Dilma se aproximará para estabelecer uma interlocução confiável, luminosa, esclarecedora?

Publico abaixo artigo em forma de carta, do professor e conferencista Stephen Kanitz [aqui], sobre esse momento complexo que certamente será vivido em algum instante pela Presidenta.



Dilma e a Solidão do Poder


Images Exma. Sra. Dilma Rousseff
Presidente do Brasil

Um dos grandes problemas de todo presidente de empresa, empresário, governador e Presidente da República é a síndrome da solidão do poder.

Ela surge logo depois da posse, depois da euforia da conquista, quando cai a ficha que você é o chefe supremo da organização. 

Harry Truman, Presidente dos EEUU em 1930, colocava na sua mesa a placa "Os pontapés terminam aqui".

Ou seja, o Presidente não pode mais culpar os outros pelos seus fracassos. Ele ou ela são os únicos culpados.

A culpa pelas decisões equivocadas da sua empresa ou governo será sempre sua, o que gera imensa solidão.

E esta solidão, Exma Sra. Dilma, poderá lhe tornar presa de dois grupos de subordinados.

O primeiro é a turma dos puxa-sacos.

Eles percebem que o presidente da empresa está inseguro e mentem descaradamente dizendo que tudo está bem, que o presidente é o máximo, que as decisões foram brilhantes. É o que está acontecendo com Hugo Chávez.

Aí, o presidente tende a procurar cada vez mais os puxa-sacos, e eles ganham cada vez mais poder.

O segundo grupo é a turma do "deixa comigo" e dos "eu resolvo este problema para o senhor/a".

Inseguro, o presidente começa a delegar cada vez mais decisões que ele deveria tomar e os "deixa comigo" ganham cada vez mais poder.

Aí, a solidão do poder entra na sua fase aguda. 

É quando o presidente percebe que seus "melhores" auxiliares não são auxiliares, mas pessoas que estão lutando para substitui-lo, mais dia menos dia.

Nesta fase, o presidente começa a não confiar mais em ninguém, não discute mais com ninguém  e começa a tomar todas as decisões sozinho.

É o aconteceu com Stalin, na sua fase "Stalinista".

Outros sucumbem à solidão do poder entrando em depressão, tomando calmantes, procurando sexo como Bill Clinton.

A solução para a "Solidão do Poder" é a criação de um pequeno grupo de "consiglieris", um nome muito infeliz, mas eu explico.

O consiglieri ficou famoso no filme O Poderoso Chefão, onde Don Corleone tinha um conselheiro irlandês, brilhantemente interpretado por Robert Duvall.

Por que um irlandês? Porque um irlandês jamais teria ambições políticas de ser líder da máfia italiana. 

Pedir conselhos para os subordinados que querem seu cargo é querer ser traído ou ver tudo sendo vazado para a imprensa.

Foi o erro de Lula quando escolheu você sabe quem.  

Presidentes de empresas criam Conselhos Consultivos ou de Administração, que são compostos de outros presidentes ou consultores aposentados, e portanto não são ameaça.

Bons consiglieris jamais tomarão por você as decisões que precisam ser tomadas nem lhe puxarão o saco.

Consiglieris sempre lhe dirão a verdade. Darão as informações que o presidente precisa para tomar suas decisões.

Consiglieris têm a função primordial de auxiliar outras pessoas a tomar a decisão certa, nunca insinuarão a decisão a ser tomada, uma sutil diferença.

Um consiglieri jamais dirá, acho que Ministro Y deve ser substituído ou que o Programa Z deve ser descontinuado.

Ele faria as perguntas apropriadas para aprimorar a sua capacidade de tomar decisões, e não substituí-la. "Por que a V. Exma. não consulta o fulano e sicrano, ou analisa este dado?" Apontaria consequências não abordadas, aspectos ainda não analisados, sugeriria outras pessoas a serem consultadas, mas a decisão seria sempre sua.

Um consiglieri faz você crescer como pessoa.

Todos nós deveríamos desenvolver um ou dois consiglieris pessoais.

Eu sugiro que a V. Exma. converse com meu amigo, Claudio Galeazzi, um dos melhores turn-around managers do Brasil.

Ele faz o que a V. Exma. pretende fazer no primeiro ano de mandato. Ele melhor do que ninguém, poderá alertar os erros a serem evitados. Será um excelente consiglieri.

Pelo que me consta, Lula a escolheu porque você era uma excelente Consiglieri.

Lula confidenciou a um amigo meu que você era uma entre poucos Ministros que o ajudavam a tomar a decisão certa, que colocava todos os ângulos da questão, que não insinuava que decisão deveria ser tomada, pelo menos não no primeiro momento.

Ou seja, que você era intelectualmente honesta, algo que a imprensa nunca comentou. Foi por isto que Lula escolheu você quando tinha várias outras opções, algo que tenho certeza ele ainda não lhe contou, porque ficaria mal com os demais Ministros. 

Os consiglieris nas empresas servem ao cargo, não cobiçam o cargo.

O peso do cargo de Presidente da República continuará insuportável, mas se você constituir um pequeno grupo fora do poder, que não cobiça o poder, que somente tem como objetivo aguçar o seu pensamento e capacidade de decidir, você não ficará tão sozinha nem vulnerável.

Pense nisso.

Atenciosamente, seu eterno contribuinte de impostos cada vez mais insuportáveis,

@StephenKanitz

http://blog.kanitz.com.br

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

E a Presidenta Dilma NÃO vestiu vermelho...

Contrariando um blogueiro "progressista" que dias antes da posse se constituiu numa espécie de "personal stylist", aconselhando que ela politizasse a posse e usasse vermelho durante as solenidades, a Presidenta Dilma transitou, ao longo deste dia histórico, sob sol e sob chuva, em ambientes abertos e fechados, junto a autoridades no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e no Itamaraty, e bem próximo ao povo, nos desfiles em carro aberto pela Praça dos Três Poderes... a Presidenta transitou, elegantíssima, com um vestido e casaquinho no tom pérola.


                             
Numa das cenas mais emocionantes da posse, a Presidenta Dilma passa as tropas em revista. 
                                                                                                                Foto: Roberto Stuckert Filho/PR


Além de elegante, inteligente, antenada e atenta. Tem gente que não entendeu ainda, mas a campanha acabou e agora estamos diante de uma estadista. Dilma deixou claro em várias ocasiões, e reafirmou em várias passagens do seu discurso, que governa para todos, que é Presidenta de todos os brasileiros. Leiam abaixo trechos selecionados dos dois pronunciamentos onde isso fica manifesto:


Não venho para enaltecer a minha biografia; mas para glorificar a vida de cada mulher brasileira. Meu compromisso supremo – eu reitero – é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos!

Por isso, ao saudar os extraordinários avanços recentes, liderados pelo Presidente Lula, é justo lembrar que muitos, a seu tempo e a seu modo, deram grandes contribuições às conquistas do Brasil de hoje.

A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos.

Esta não é tarefa isolada de um governo, mas um compromisso a ser abraçado por toda a nossa sociedade. Para isso peço com humildade o apoio das instituições públicas e privadas, de todos os partidos, das entidades empresariais e dos trabalhadores, das universidades, da juventude, de toda a imprensa e das pessoas de bem.

Nossa política externa estará baseada nos valores clássicos da tradição diplomática brasileira: promoção da paz, respeito ao princípio de não intervenção, defesa dos Direitos Humanos e fortalecimento do multilateralismo.

Disse, ao início deste discurso, que eu governarei para todos os brasileiros e brasileiras. E vou fazê-lo.

Mais uma vez estendo minha mão aos partidos de oposição e às parcelas da sociedade que não estiveram conosco na recente jornada eleitoral. Não haverá de minha parte e do meu governo discriminação, privilégios ou compadrio. A partir deste momento sou a presidenta de todos os brasileiros, sob a égide dos valores republicanos.

          Reafirmo aqui outro compromisso: cuidarei com muito carinho dos mais frágeis e mais necessitados. Governarei para todos e todas as brasileiras.

Uma mulher, uma importante líder indiana disse um dia que não se pode trocar um aperto de mão com os punhos fechados. Pois eu digo: minhas mãos vão estar abertas e estendidas para todos, desde os nossos aliados de primeira hora até aqueles que não nos acompanharam neste processo eleitoral.

         É com este espírito de união que eu assumo hoje o governo do meu país. Acredito e trabalharei para que estejamos todos unidos pelas mudanças necessárias na educação, na saúde, na segurança e, sobretudo, na luta para acabar com a pobreza, com a miséria.

         Não peço a ninguém que abdique de suas convicções. Buscarei o apoio, respeitarei a crítica. É o embate civilizado entre as ideias que move as grandes democracias como a nossa.

Agora é hora de trabalho. Agora é hora de união. União de todos nós pela educação das crianças e dos jovens. União pela saúde de qualidade para todos. União pela segurança de nossas comunidades. União para o Brasil continuar crescendo, gerando empregos. União para o Brasil continuar crescendo, gerando empregos para as atuais e para as futuras gerações. União, enfim, para criar mais e melhores oportunidades para todos nós.

          Para consolidar e avançar as grandes conquistas recentes precisarei muito do apoio de todos vocês.

          Quero pedir o apoio de todos, de Leste a Oeste, do Norte ao Sul do nosso país.

Que todos nós juntos possamos construir um mundo de paz.

          Um abraço a todos, homens e mulheres do meu Brasil.


Já imaginaram uma presidenta tomando posse, vestida toda de vermelho, cor associada à esquerda, ao socialismo, ao comunismo... num país com tamanha diversidade como o Brasil? E depois de uma campanha eleitoral tão agressiva e de ânimos tão acirrados? Já na posse estaria instigando ódios, rancores, confrontos...

Como mulher inteligente, globalizada, e verdadeira estadista, escolheu se apresentar com discrição e sobriedade, vestindo algo que reafirmasse os valores e princípios difundidos em seus discursos. Ponto pra ela!

E ontem, domingo, em seu primeiro dia de trabalho como maior executiva da nação, a Presidenta usou apropriadamente um terninho preto em suas diversas reuniões com chefes de Estado, como mostra a foto com o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates.


                                                Presidenta Dilma Rousseff conversa com o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, durante audiência no Palácio do Planalto _ (Brasília, DF, 02/01/2011) _Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
                                                                                 Foto: Roberto Stuckert Filho/PR


Também na posse, a Presidenta Dilma mostrou que, além de coragem e competência, esbanja compostura, elegância e inteligência.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Dilma Presidenta: ousadia do Povo Brasileiro


Pela decisão soberana do povo, hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher.
Sinto uma imensa honra por essa escolha do povo brasileiro e sei do significado histórico desta decisão.
Sei, também, como é aparente a suavidade da seda verde-amarela da faixa presidencial, pois ela traz consigo uma enorme responsabilidade perante a nação.
Para assumi-la, tenho comigo a força e o exemplo da mulher brasileira. Abro meu coração para receber, neste momento, uma centelha da sua imensa energia.
E sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa desta ousadia do voto popular que, após levar à Presidência um homem do povo, um trabalhador, decide convocar uma mulher para dirigir os destinos do país.
Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, ser presidentas; e para que – no dia de hoje – todas as mulheres brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher.
Não venho para enaltecer a minha biografia; mas para glorificar a vida de cada mulher brasileira. Meu compromisso supremo – eu reitero – é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos!
Venho, antes de tudo, para dar continuidade ao maior processo de afirmação que este país já viveu nos tempos recentes.
Venho para consolidar a obra transformadora do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, venho para consolidar a obra transformadora do Presidente Lula, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida e o privilégio de servir ao país, ao seu lado, nestes últimos anos.
De um presidente que mudou a forma de governar e levou o povo brasileiro a confiar ainda mais em si mesmo e no futuro do país.
A maior homenagem que posso prestar a ele é ampliar e avançar as conquistas do seu governo. Reconhecer, acreditar e investir na força do povo foi a maior lição que o Presidente Lula deixa para todos nós.
Sob a sua liderança, o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da nossa história.
Minha missão agora é de consolidar esta passagem e avançar no caminho de uma nação geradora das mais amplas oportunidades.



Reduzimos, sobretudo, a nossa dívida social, a nossa histórica dívida social, resgatando milhões de brasileiros da tragédia da miséria e ajudando outros milhões a alcançarem a classe média.
Mas, em um país com a complexidade do nosso, é preciso sempre querer mais, descobrir mais, inovar nos caminhos e buscar sempre novas soluções.
Só assim poderemos garantir, aos que melhoraram de vida, que eles podem alcançar mais; e provar, aos que ainda lutam para sair da miséria, que eles podem, com a ajuda do governo e de toda a sociedade, mudar de vida e de patamar.
Que podemos ser, de fato, uma das nações mais desenvolvidas e menos desiguais do mundo – um país de classe média sólida e empreendedora.
Uma democracia vibrante e moderna, plena de compromisso social, liberdade política e criatividade.




A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos.
Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do Presidente Lula. Mas ainda existe pobreza a envergonhar nosso país e a impedir nossa afirmação plena como povo desenvolvido.
Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte. O congraçamento das famílias se dá no alimento, na paz e na alegria. É este o sonho que vou perseguir!




Em suma: temos que combater a miséria, que é a forma mais trágica de atraso, e, ao mesmo tempo, avançar investindo fortemente nas áreas mais modernas e sofisticadas da invenção tecnológica, da criação intelectual e da produção artística e cultural.
Justiça social, moralidade, conhecimento, invenção e criatividade devem ser, mais que nunca, conceitos vivos no dia a dia da nossa nação.




Defender o equilíbrio ambiental do Planeta é um dos nossos compromissos nacionais mais universais.




Mas é importante lembrar que o destino de um país não se resume à ação de seu governo. Ele é o resultado do trabalho e da ação transformadora de todos os brasileiros e brasileiras. O Brasil do futuro será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ele hoje. Do tamanho da participação de todos e de cada um:
dos movimentos sociais,
dos que labutam no campo,
dos profissionais liberais,
dos trabalhadores e dos pequenos empreendedores,
dos intelectuais,
dos servidores públicos,
dos empresários,
das mulheres,
dos negros, dos índios, dos jovens,
de todos aqueles que lutam para superar distintas formas de discriminação.
Quero estar ao lado dos que trabalham pelo bem do Brasil na solidão amazônica, no semiárido nordestino e em todos os seus rincões, na imensidão do cerrado, na vastidão dos pampas.
Quero estar ao lado dos que vivem nos aglomerados metropolitanos, na vastidão das florestas, no interior ou no litoral, nas capitais e nas fronteiras do Brasil.
Quero convocar todos a participar do esforço de transformação do nosso país.

                                             

O ser humano não é só realização prática, mas sonho; não é só cautela racional, mas coragem, invenção e ousadia. E esses são os elementos fundamentais para a afirmação coletiva da nossa nação.


                                                

A partir deste momento sou a presidenta de todos os brasileiros, sob a égide dos valores republicanos.
Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para atuarem com firmeza e autonomia.


                                                 

Chegamos ao final deste longo discurso. Queria dizer a vocês que eu dediquei toda a minha vida à causa do Brasil. Entreguei, como muitos aqui presentes, minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco não tenho ressentimento ou rancor.
Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista, e rendo-lhes minha homenagem.
Esta, às vezes, dura caminhada me fez valorizar e amar muito mais a vida e me deu sobretudo coragem para enfrentar desafios ainda maiores. Recorro mais uma vez ao poeta da minha terra:
“O correr da vida” – diz ele – “embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
É com essa coragem que vou governar o Brasil.
Mas mulher não é só coragem. É carinho também.
Carinho que dedico a minha filha e ao meu neto. Carinho com que abraço a minha mãe que me acompanha e me abençoa.
É com esse imenso carinho que quero cuidar do meu povo, e a ele dedicar os próximos anos da minha vida.
Que Deus abençoe o Brasil!
Que Deus abençoe a todos nós!
E que tenhamos paz no mundo!

                                          

           Eu estou feliz, como raras vezes estive na minha vida, pela oportunidade que a história me deu de ser a primeira mulher a governar o Brasil. Mas eu estou muito emocionada pelo encerramento do mandato do maior líder popular que este país já teve. Ter a honra do seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guardam para a vida toda.
          Conviver todos estes anos com o presidente Lula me deu a dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu país e por sua gente. A alegria que sinto pela minha posse como presidenta se mistura com a emoção da sua despedida. Mas Lula estará conosco. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade.
          A tarefa de suceder o presidente Lula é desafiadora. Eu saberei honrar este legado e saberei consolidar e avançar nesta obra de transformação do Brasil. A vontade de mudança do nosso povo levou um operário à Presidência do Brasil. Seu esforço, sua dedicação e seu nome já estão gravados no coração do povo, o lugar mais sagrado da nossa nação.
         Hoje o presidente Lula deixa o governo depois de oito anos, período em que liderou as mais importantes transformações na vida do país. A força dessas transformações permitiu que vocês, o povo brasileiro, tivessem uma nova ousadia: colocar, pela primeira vez, uma mulher na Presidência do Brasil.

                                                     

            Não peço a ninguém que abdique de suas convicções. Buscarei o apoio, respeitarei a crítica. É o embate civilizado entre as ideias que move as grandes democracias como a nossa.
            Não carrego, hoje, nenhum ressentimento nem nenhuma espécie de rancor. A minha geração veio para a política em busca da liberdade, num tempo de escuridão e medo. Pagamos o preço da nossa ousadia ajudando, entre outros, o país a chegar até aqui. Aos companheiros meus que tombaram nessa caminhada, minha comovida homenagem e minha eterna lembrança.

                                     

            Acho bom que seja assim. Para governar um país, um país continental do tamanho do Brasil, é também preciso ter sonhos. É preciso ter grandes sonhos e persegui-los.
            Foi por não acreditar que havia o impossível que o presidente Lula fez tanto pelo país nesses últimos anos. Sonhar e perseguir os sonhos é exatamente romper o limite do possível.
            Para consolidar e avançar as grandes conquistas recentes precisarei muito do apoio de todos vocês.
            Quero pedir o apoio de todos, de Leste a Oeste, do Norte ao Sul do nosso país.

                                             

            Que Deus abençoe o Brasil e o povo brasileiro.
            Que todos nós juntos possamos construir um mundo de paz.
            Eu quero, neste momento, dizer a vocês que eu darei todo o meu empenho, toda a minha dedicação para fazer com que as transformações que nós começamos nesses últimos oito anos continuem, prossigam e se expandam porque o povo brasileiro e o nosso país têm condições, hoje, de se transformar no maior e no melhor país para se viver.
            Um abraço a todos, homens e mulheres do meu Brasil.



(Trechos selecionados dos pronunciamentos no Congresso Nacional e no Parlatório/Palácio do Planalto; Fotos: Roberto Stuckert Filho/PR)