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domingo, 12 de dezembro de 2010

Nunca antes na História deste País...

Fim de governo. Mais vinte dias, e Lula deixará saudades, esperanças, alegrias e muitas realizações. No artigo abaixo, Frei Betto faz um balanço crítico do governo Lula, apontando até o que ficou por fazer. E agradece ao Presidente, em nome de todos nós, cidadãos brasileiros.


Obrigado, Lula




Nunca antes na história deste país um metalúrgico havia ocupado a presidência da República. Quantos temores e terrores a cada vez que você se apresentava como candidato! Diziam que o PT, a ferro e fogo, implantaria o socialismo no Brasil.

Quanta esperança refletida na euforia que contaminou a Esplanada dos Ministérios no dia de sua posse! Decorridos oito anos, eis que a aprovação de seu governo alcança o admirável índice de 84% que o consideram ótimo e bom. Apenas 3% o reprovam.

O Brasil mudou para melhor. Cerca de 20 milhões de pessoas, graças ao Bolsa Família e outros programas sociais, saíram da miséria, e 30 milhões ingressaram na classe média. Ainda temos outros 30 milhões sobrevivendo sob o espectro da fome e quem sabe o Fome Zero, com seu caráter emancipatório, a tivesse erradicado se o seu governo não o trocasse pelo Bolsa Família, de caráter compensatório, e que até hoje não encontrou a porta de saída para as famílias beneficiárias.



Você resgatou o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e, através dos programas sociais e da Previdência, promoveu a distribuição de renda que aqueceu o mercado interno de consumo. O BNDES tornou as grandes empresas brasileiras competitivas no mercado internacional. Tomara que no governo Dilma seja possível destinar recursos também a empreendimentos de pequeno e médio porte e favorecer nossas pesquisas em ciência e tecnologia.

Enquanto os países metropolitanos, afetados pela crise financeira, enxugam a liquidez do mercado e travam o aumento de salários, você ampliou o acesso ao crédito (R$ 1 trilhão disponíveis), aumentou o salário mínimo acima da inflação, manteve sob controle os preços da cesta básica e desonerou eletrodomésticos e carros. Hoje, 72% dos domicílios brasileiros possuem geladeira, televisor, fogão, máquina de lavar, embora 52% ainda careçam de saneamento básico.

Seu governo multiplicou o emprego formal, sobretudo no Nordeste, cujo perfil social sofre substancial mudança para melhor. Hoje, numa população de 190 milhões, 105 milhões são trabalhadores, dos quais 59,6% possuem carteira assinada. É verdade que, a muitos, falta melhor qualificação profissional. Contudo, avançou-se: 43,1% completaram o ensino médio e 11,1% o ensino superior.

Na política externa o Brasil afirmou-se como soberano e independente, livrando-se da órbita usamericana, rechaçando a Alca proposta pela Casa Branca, apoiando a Unasul e empenhando-se na unidade latino-americana e caribenha. Graças à sua vontade política, nosso país mira com simpatia a ascensão de novos governantes democráticos-populares na América Latina; condena o bloqueio dos EUA a Cuba e defende a autodeterminação deste país; investe em países da África; estreita relações com o mundo árabe; e denuncia a hipocrisia de se querer impedir o acesso do Irã ao urânio enriquecido, enquanto países vizinhos a ele, como Israel, dispõem de artefatos nucleares.

Seu governo, Lula, incutiu autoestima no povo brasileiro e, hoje, é admirado em todo o mundo. Poderia ter sido melhor se houvesse realizado reformas estruturais, como a agrária, a política e a tributária; determinado a abertura dos arquivos da ditadura em poder das Forças Armadas; duplicado o investimento em educação, saúde e cultura.

Nunca antes na história deste país um governo respaldou sua Polícia Federal para levar à cadeia dois governadores; prender políticos e empresários corruptos; combater com rigor o narcotráfico. Pena que o Plano Nacional dos Direitos Humanos 3 – quase um plágio dos 1 e 2 do governo FHC – tenha sido escanteado por preconceitos e covardia de ministros que o aprovaram previamente e não tiveram a honradez de defendê-lo quando escutaram protestos de vozes conservadoras.

Espero que o governo Dilma complemente o que faltou ao seu: a federalização dos crimes contra os direitos humanos; uma agenda mais agressiva em defesa da preservação ambiental, em especial da Amazônia; a melhoria do nosso sistema de saúde, tão deficiente que obriga 40 milhões de brasileiros a dependerem de planos de empresas privadas; a reforma das redes de ensino público municipais e estaduais.

Seu governo ousou criar, no ensino superior, o sistema de cotas; o ProUni e o Enem; a ampliação do número de escolas técnicas; maior atenção às universidades federais. Mas é preciso que o governo Dilma cumpra o preceito constitucional de investir 8% do PIB em educação.

Obrigado, Lula, por jamais criminalizar movimentos sociais; preservar áreas indígenas como Raposa Serra do Sol; trazer Luz para Todos. Sim, sei que você não fez mais do que a obrigação. Para isso foi eleito. Mas considerando os demais governantes de nossa história republicana, tão reféns da elite e com nojo do “cheiro de povo”, como um deles confessou, há que reconhecer os avanços e méritos de sua administração.

Deus permita que, o quanto antes, você consiga desencarnar-se da presidência e voltar a ser um cidadão militante em prol do Brasil e de um mundo melhor.

* Escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros
Fonte: jornal Sul 21 http://sul21.com.br

WikiLeaks: jornalismo ou criminalidade?

WikiNews

O jornal O Estado de S. Paulo ouviu quatro especialistas americanos das áreas jurídica, de política externa e de defesa sobre eventuais ameaças à liberdade de imprensa nos EUA com o vazamento de documentos sigilosos do governo americano e sua publicação pelo site WikiLeaks.

Perguntas que precisam ser urgentemente respondidas: Como proteger a segurança dos EUA sem ferir a liberdade de imprensa? Quem deve responder por eventual crime: quem vazou ou quem publica os documentos secretos? Julian Assange, criador do WikiLeaks, deve ser tratado como jornalista ou criminoso?

Leia os principais pontos da matéria, publicada hoje no portal do Estadão.


WikiLeaks traz à tona debate sobre limites

Quarenta anos após Papéis do Pentágono, EUA discutem alcance da Primeira Emenda


Tratado como uma ameaça à segurança nacional pelo governo dos EUA, o vazamento de documentos secretos pelo site WikiLeaks não pode limitar a liberdade de expressão no país. A conclusão é de quatro especialistas das áreas jurídica, de defesa e de política exterior consultados pelo "Estado".

Em sintonia, todos reconheceram que o episódio inaugurou uma nova série de dificuldades para as democracias, sobretudo a americana, manterem informações sensíveis sob sigilo sem coibir a liberdade de imprensa. Nos EUA, ela é uma garantia protegida pela Primeira Emenda da Constituição e tratada com deferência e orgulho. O texto expressa a proibição de formular leis para cercear a livre expressão e o trabalho da imprensa.

Diante do vazamento dos 251 mil telegramas diplomáticos, há duas semanas, o Departamento de Estado definiu o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, como um "criminoso" e "anarquista". No entanto, isentou de culpa os veículos de mídia que receberam o material do site em primeira mão.

"Nada do que ocorreu muda a importância que atribuímos à liberdade de imprensa. A existência de uma imprensa vibrante é vital para qualquer democracia", afirmou Philip Crowley, porta-voz do Departamento de Estado.

Responsável pela defesa jurídica do jornal The New York Times na época da publicação dos Papéis do Pentágono, nos anos 70, o jurista Floyd Abrams teme que a Primeira Emenda não seja suficiente para impedir ações legais do governo contra Assange ou para conter futuras ameaças legais ao trabalho da imprensa.

Em sua opinião, "perigosos limites" à atividade jornalística podem surgir em função de pressupostos de segurança nacional e de direito à privacidade. "Esse é um interessante caso de liberdade de expressão, porém significa uma potencial ameaça à segurança nacional dos EUA", disse.

"Se os EUA processarem Assange, será uma controvérsia e novas regras podem surgir para ameaçar a imprensa americana", disse Abrams. O jurista avalia que a responsabilidade maior deverá recair sobre o autor da entrega dos telegramas para o WikiLeaks, supostamente um funcionário público - a culpa tem sido atribuída ao soldado Bradley Manning.

Allen Weiner, diretor do Programa de Direito Internacional e Comparado da Universidade Stanford, acredita que o centro da discussão é o roubo. "Esse caso não é de Primeira Emenda, é um caso de roubo de informação do governo americano. É o mesmo que alguém entrar na sua casa, roubar um vídeo com imagens embaraçosas e entregá-lo a sites jornalísticos da internet."

Lawrence Korb, especialista em política internacional do Centro para o Progresso Americano, defende a divulgação de qualquer segredo oficial. Como referência, menciona a invasão ao Iraque, em 2003, que teve como base a necessidade de eliminar um arsenal de armas de destruição em massa, que nunca foi encontrado pelo Exército americano. Posteriormente, essas "provas" acabaram desmentidas.

A criação de concorrentes do WikiLeaks, sob seu ponto de vista, é oportuna e bem-vinda. Pelo menos mais dois sites do gênero já entraram em operação. Dedicado ao vazamento de informações secretas da União Europeia, o OpenLeaks foi fundado pelo alemão Daniel Domscheit-Berg, ex-companheiro de Assange no WikiLeaks. Em Nova York, o arquiteto John Young criou o Cryptome.

"O direito dos cidadãos de saber como, onde e porque os EUA empregam suas forças é fundamental", defendeu Korb.

William Hartung, especialista da área de segurança da Fundação Nova América, ressalta a dificuldade de o governo americano controlar as informações. Mas defende a divulgação. "De qualquer maneira, a divulgação faz mais sentido do que a restrição", afirmou.

Denise Chrispim Marin/OESP
12.12.2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Depois do WikiLeaks, o mundo nunca mais será o mesmo


Grandes descobertas ou inventos nos suportes da escrita fizeram balançar as estruturas de sustentação da sociedade, provocando verdadeiras revoluções na Comunicação e nas relações de Poder.

Foi assim quando Gutenberg inventou a prensa e os tipos móveis na Alemanha de 1450. Está sendo assim agora, no novo milênio, com a internet.

Para desespero de muitos que defenderam, raivosamente, a "reserva de mercado" no trabalho de imprensa, agora cada cidadão pode se tornar, a qualquer momento, jornalista.

Com o furor WikiLeaks, então, nada mais será como antes. Nas relações de poder, no jornalismo, na mídia impressa e eletrônica, na comunicação.

Sobre esta revolução que se desenrola diante de nossos olhos e da qual participamos com nossos monitores, mouses e teclados, o Abra a Boca, Cidadão! publica um texto do jornalista Mauro Santayana, a partir de um post do blogue Com Texto Livre (http://contextolivre.blogspot.com), do jornalista, blogueiro e cidadão ZCarlos.  



O mundo, depois de Julian Assange

Todos os que sabem escrever e manipular um computador são cidadãos, e ser cidadão é muito mais do que ser jornalista.


O presidente Lula e o primeiro-ministro Putin tiveram o mesmo discurso, ontem, em defesa de Julian Assange, embora com argumentos diferentes. Lula foi ao ponto: Assange está apenas usando do velho direito da liberdade de imprensa, de informação. Não cabe acusá-lo de causar danos à maior potência da História, uma vez que divulga documentos cuja autenticidade não está sendo contestada. Todos sabem que as acusações de má conduta em relacionamento consentido com duas mulheres de origem cubana, na Suécia, são apenas um pretexto para imobilizá-lo, a fim de que outras acusações venham a ser montadas, e ele possa ser extraditado para os Estados Unidos.

O que cabe analisar são as conseqüências políticas da divulgação dos segredos da diplomacia ianque, alguns deles risíveis, outros extremamente graves. Ontem, em Bruxelas, o chanceler russo Sergei Lavrov comentava revelações do WikiLeaks sobre as atitudes da Otan com relação ao seu país: enquanto a organização, sob o domínio de Washington, convidava a Rússia a participar da aliança, atualizava seus planos de ação militar contra o Kremlin, na presumida defesa da Polônia e dos países bálticos. Lavrov indagou da Otan qual é a sua posição real, já que o que ela publicamente assume é o contrário do que dizem seus documentos secretos. Moscou foi além, ao propor o nome de Assange como candidato ao próximo Prêmio Nobel da Paz.

O exame da história mostra que todas as vezes que os suportes da palavra escrita mudaram, houve correspondente revolução social e política. Sem Gutenberg não teria havido o Renascimento; sem a multiplicação dos prelos, na França dos Luíses, seria impensável o Iluminismo e sua consequência política imediata, a Revolução Francesa. A constatação do imenso poder dos papéis impressos levou a Assembléia Constituinte aprovar o artigo XI da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, logo no início da Revolução, em agosto de 1789. O dispositivo do núcleo pétreo da Constituição determina que todo cidadão tem o direito de falar, escrever e imprimir com toda a liberdade. As leis punem os que, mentindo, atingem a honra alheia. A liberdade de imprensa, sendo dos cidadãos, é da sociedade. Das sociedades nacionais e, em nossa época de comunicações eletrônicas e livres, da sociedade planetária dos homens.

É surpreendente que, diante desta realidade irrefutável, jornalistas de ofício queiram reivindicar a liberdade de imprensa (vocábulo que abarca, do ponto de vista político, todos os meios de comunicação) como monopólio corporativo. A internet confirma a intenção dos legisladores franceses de há 221 anos: a liberdade de expressão é de todos, e todos nós somos jornalistas. Basta ter um endereço eletrônico. As pesadas e, relativamente caras, máquinas gráficas do passado são hoje leves e baratíssimos note-books, e de alcance universal.

É sempre citável a observação de Isidoro de Sevilha, sábio que marcou o sétimo século, a de que “Roma não era tão forte assim”. Bradley Manning e Julian Assange estão mostrando que Washington – cujo medo é transparente em seus papéis diplomáticos – não é tão poderosa assim. É interessante registrar que o nome de Santo Isidoro de Sevilha está sendo sugerido, por blogueiros católicos, como o padroeiro da internet.

Os jornalistas devem acostumar-se à ideia de renunciar a seus presumidos privilégios. Todos os que sabem escrever e manipular um computador são cidadãos, e ser cidadão é muito mais do que ser jornalista. São esses cidadãos que, na mesma linha de Putin e Lula, se mobilizam, na ágora virtual, para defender Assange, da mesma forma que se mobilizaram em defesa da mulher condenada à morte por adultério. O mundo mudou, mas nem todos perceberam essa mudança.

Mauro Santayana
Jornal do Brasil
10.12.2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

WikiLeaks: terror ou esperança para o Jornalismo?

Acho que não há dúvidas quanto à posição do Abra a Boca, Cidadão!, sempre irrestritamente favorável à divulgação da verdade e da liberdade de pensamento e expressão. Como blogue que se ocupa prioritariamente da Cidadania e Comunicação, o ABC! defende todos os valores e princípios da Declaração Universal dos Direitos do Homem, da Constituição Federal de 1988 e demais tratados assinados pelo Brasil.

Sobre o WikiLeaks, o ABC! inaugurou ontem a seção WikiNews, com o post "WikiLeaks, o Fenômeno", e vai continuar postando aqui vez por outra artigos de estudiosos, profissionais da comunicação e outros, analisando o polêmico site, seu criador e as eventuais repercussões e consequências, para o jornalismo e a política, dos vazamentos de documentos sigilosos que o WL promove aos borbotões.

Abaixo, mais um texto a respeito, do professor e pesquisador Rogério Christofoletti, no blogue OBJETHOS http://objethos.wordpress.com/ .


WikiLeaks ensina

Rogério Christofoletti

Professor do Departamento de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS


Um site que publica documentos mantidos em segredo parece ser uma ideia explosiva, e é. Ainda mais quando esses documentos são autênticos, guardados por setores governamentais, em grande quantidade e com variados interesses em jogo. Pois é esta a receita do Wikileaks, o endereço que mais vem chamando a atenção na internet. Milhares de memorandos, relatórios, correspondências sobre ofensivas militares norte-americanas, sobre ações diplomáticas e intervencionistas, entre outros, estão ali, livres para serem acessados por qualquer um. Como eu disse, é uma dessas ideias explosivas, revolucionárias para alguns, subversivas para outros.

Nos Estados Unidos e na Europa, a repercussão é grande, conforme se pode acompanhar pela mídia convencional e pela galáxia dos meios alternativos. Os impactos são variados tanto na política quanto nos meios de comunicação. Entre os políticos, há queixas sobre o vazamento de documentos nem sempre confiáveis, temendo alarme social e o descrédito de certos governantes. Entre os jornalistas, as reclamações se dão na esfera corporativa, receando ver esvaziar seu poder de denúncia, sua capacidade de fiscalização dos poderes. Quer dizer, nos gabinetes e nas redações, o Wikileaks atua como um fantasma, pesadelo sem fim.

Evidentemente, não se pode generalizar, mas o fato é que a novidade que o Wikileaks traz colide sim contra alguns pilares de sustentação de certas relações de poder. Relações constituídas na exclusividade, no controle da informação, na definição do que pode vir a público e o que não pode. Durante séculos, os poderes centralizados usaram e abusaram dessa estratégia: dominar, usando seu poder de veto. E, convenhamos, durante décadas, o jornalismo convencional se apoiou na primazia de informar, na delegação pública de atualizar o noticiário.

O surgimento de um site, mantido por uma organização sem fins lucrativos, transnacional, e meio que clandestina, coloca a nu – mais uma vez – essas relações de poder que hoje se revelam bastante arcaicas e fissuradas. É o fim da política? A ruína do jornalismo? Nem uma coisa nem outra, claro. O episódio pode ser muito mais interessante e positivo. Na minha opinião, o Wikileaks traz lições que podem ser bem usadas por políticos, jornalistas e cidadãos em geral. A coragem, a ousadia, a sagacidade e o senso (quase anárquico) de transparência ensinam e nos trazem ao menos quatro bons lembretes:

a) políticos devem orientar suas ações pelo interesse da coletividade, e tudo aquilo que contraria isso, deveria ser descartado de seu cardápio de serviços;

b) empresas e governos não podem enganar ou esconder algo por muito tempo, ainda mais numa sociedade cada vez mais observada e ansiosa por ver tudo;

c) cidadãos comuns podem se organizar muito rapidamente no meio virtual de maneira a buscar informações e direitos. A internet não reinventa a política, mas a atualiza;

d) o jornalismo, com Wikileaks ou sem ele, deve continuar a perseguir informações que sejam de interesse público e que estejam mantidas em sigilo. O desvelamento de segredos e a fiscalização dos poderes continuam a ser importantes funções públicas dessa atividade.

Como se pode ver, o Wikileaks pode ser visto com terror ou com uma ponta de esperança. O site não vai trazer à tona todos os segredos do mundo, não está reinventando as relações de poder entre pessoas e organizações, talvez nem dure tanto tempo. Boa parte do valor dessa iniciativa está no seu surgimento, no fato de ter se mostrado viável e audível por todos. É uma ponta do iceberg, uma parcela diminuta do que se pode fazer quando há organização, propósito e coragem.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

WikiLeaks, o Fenômeno


O mundo da política e da mídia anda em polvorosa com os vazamentos de documentos diplomáticos secretos pelo site WikiLeaks, do ciberativista Julian Assange, que se encontra detido em Londres. Até o Presidente Lula se manifestou há pouco, cobrando protestos a favor da liberdade de expressão violada pela prisão de Assange.

A mídia tem se ocupado em divulgar falas e informações comprometedoras dos vários governos que estão sendo divulgadas nos documentos vazados, ou tem se concentrado em desvendar a biografia de Assange, uma mente privilegiada, um ativista cibernético, um terrorista disfarçado de ativista, um criminoso sexual...

O que quer o WikiLeaks? O que realmente pretende Julian Assange e seu grupo? O que os vazamentos podem provocar na política global e nas relações de poder mundial? 

No artigo abaixo, o jornalista, professor e pesquisador Carlos Castilho estimula o debate sobre este fenômeno do jornalismo mundial e adverte sobre aspectos importantes que estão sendo desconsiderados pela mídia, como a autenticidade e as consequências do vazamento de documentos secretos.


Wikileaks coloca jornalistas diante de dilema complicado
Carlos Castilho 

A mais recente leva de documentos secretos divulgados pelo site Wikileaks acabou respingando também no Brasil, com as revelações que colocaram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, numa tremenda saia justa.  Mas nosso envolvimento não passa de fofocas envolvendo egos e ciúmes entre ministros do governo Lula.
Muito mais importante é o debate que está ganhando força e que já colocou a imprensa mundial diante de um dilema bem complicado. Ou ela pega a deixa do Wikileaks e passa a investigar a autenticidade e os detalhes dos documentos publicados, ou vai se acomodar tornando-se cúmplice de uma eventual ação de governos impondo a censura ao site criado pelo australiano Julian Assange.
Enquanto os governos buscam formulas legais para acabar com a sequência de documentos secretos trazidos à luz do dia pelo Wikileaks, entre os jornalistas surge um debate que, embora ainda encabulado, já começa a provocar uma aguda divisão em campos opostos.
A maioria dos jornais e dos jornalistas não está discutindo a autenticidade ou as conseqüências dos documentos revelados, mas sim as motivações de Assange. Se é um ególatra em busca de fama, se é um terrorista disfarçado de ativista social, se é um estuprador, e por aí vai.
Os norte-americanos Robert Niles, do Instituto Poynter, e Jay Rosen, na Universidade de Nova York (NYU) *, ambos professores de jornalismo,  defendem a tese de que o Wikileaks pode ter lá seus motivos ocultos, mas uma coisa é real:  o site fez aquilo que a imprensa mundial deveria ter feito para expor à luz pública o que corre pelos bastidores da política mundial e que o cidadão comum nunca toma conhecimento.
O fenômeno Wikileaks está dividindo os jornalistas em duas correntes, segundo Niles. De  um lado estão os que defendem a tese de que a informação deve chegar até o público, não importa os meios e formas, para que o cidadão possa exercer o seu direito de decidir sobre os rumos do país; e do outro, os profissionais que desejam controlar o fluxo da informação para manter os seus empregos.
Há também os que acreditam como Jay Rosen, que “se a imprensa realmente patrulhasse os governos, políticos e empresários, a existência do site Wikileaks se tornaria desnecessária”. Talvez esteja aí a chave para recolocar o debate sobre o vazamento de documento secretos no seu verdadeiro contexto. 
Outro elemento importante para entender a polêmica é a leitura de um texto de Julian Assange, publicado pelo blog Zunguzungu, no qual o criador do Wikileaks diz que se inspira nas idéias do presidente norte-americano Theodor Roosevelt sobre a necessidade da transparência universal  e prega uma “conspiração computacional para acabar com o governo invisível“ globalizado.
Na sexta-feira (3/12), começou uma guerrilha cibernética em torno da hospedagem do Wikileaks. O site perdeu seu endereço nos Estados Unidos, porque foi retirado do ar pela empresa que o hospedava, e a partir daí teve que migrar sucessivamente para  a Suíça, Alemanha, Finlândia e Dinamarca. Tanto o site como Assange estão a um passo de se transformarem em párias mundiais no meio da polêmica sobre liberdade dos fluxos informativos.

(postado no Observatório da Imprensa - www.observatoriodaimprensa.com.br 03.12.2010)

Dilma anuncia mais três mulheres


A presidenta eleita Dilma Rousseff, que já manifestou seu desejo de ter pelo menos um terço de mulheres no seu ministério, anunciou ontem por meio de sua assessoria mais três nomes femininos: a senadora Ideli Salvatti, Ministério da Pesca e Aquicultura; a jornalista Helena Chagas, Secretaria de Comunicação Social; e a deputada Maria do Rosário, Secretaria de Direitos Humanos.

O Abra a Boca, Cidadão! não é blogue feminista, mas pretende acompanhar com muita atenção o desempenho de todas as mulheres no governo Dilma, sobretudo dos ministérios ligados às suas áreas de interesse: Comunicação e Cidadania.  Por isso, reproduz abaixo uma pequena biografia das escolhidas para as secretarias da Comunicação Social e Direitos Humanos.


Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República - Helena Chagas

A jornalista Helena Chagas foi a coordenadora de imprensa da presidenta eleita Dilma Rousseff durante a campanha eleitoral e a transição. Colunista do jornal O Globo e também do Jornal de Brasília, ela se destacou como analista política. Na internet, em 2007, experimentou o colunismo online, ao dirigir o Blog dos Blogs, do portal de internet iG. 

Em novembro de 2007, assumiu como diretora de jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a rede pública de TV, cargo que deixou para entrar na campanha eleitoral. Ela era responsável pela cobertura noticiosa dos veículos televisão, rádio e agência da EBC – que inclui a TV Brasil, a Rádio Nacional, a Rádio MEC e a Agência Brasil.

Antes, a partir de maio de 2006, dirigiu a sucursal de Brasília do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) e foi comentarista de política no jornal matutino da emissora. 

Filha do jornalista Carlos Chagas, freqüentou redações desde criança e foi educada numa casa onde a leitura dos jornais era rotineira. Formada pela Universidade de Brasília (UNB) em 1982, Helena iniciou a carreira como repórter do Jornal de Brasília, trabalhou no Diário da Manhã e depois em O Globo, onde foi repórter por dez anos. Em seguida, trabalhou por dois anos na TV Senado, no Estado de S. Paulo e voltou ao Globo para mais um período de 11 anos, quando exerceu as funções de coordenadora de Política, chefe de redação e diretora da Sucursal Brasília.



Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República - Maria do Rosário

Maria do Rosário Nunes iniciou sua militância no movimento estudantil secundarista e no Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul - CPERS/Sindicato. Professora da rede pública, a pedagoga formada e com mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é especialista em estudos sobre violência doméstica pelo Laboratório de Estudos da Criança da Universidade de São Paulo (Lacri/USP). 

Maria do Rosário foi vereadora de Porto Alegre por dois mandatos (1993-1999), tendo presidido as comissões de Educação e de Direitos Humanos. Como deputada estadual (1999-2003), ela foi presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos e vice-presidente da Assembleia Legislativa gaúcha por dois anos. 

Em 2002, foi eleita deputada federal, sendo reeleita em 2006, sempre com expressivas votações. No Congresso Nacional, foi relatora da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou as redes de exploração sexual de crianças e adolescentes. Representou a Câmara na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos durante a Ditadura Militar e foi presidente da Comissão Especial da Lei Nacional da Adoção. Desde 2003, coordena a Frente Parlamentar de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. Foi vice-presidente das Comissões de Direitos Humanos e Minorias, e Educação e Cultura. Em 2009, presidiu a Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal, tendo se destacado, entre tantos temas, por coordenar uma série de debates em todo o Brasil sobre o novo Plano Nacional de Educação (PNE 2011-2020). 

Em 2008, Maria do Rosário foi candidata à Prefeitura de Porto Alegre, tendo conquistado 328 mil votos no segundo turno das eleições na Capital gaúcha. 


(Portal Brasil - 08/12/2010)

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lula, o Amigo do Povo

Tem gente que vai ler o título e o conteúdo deste post, e vai dizer que ele é fruto do fanatismo e da sabujice de uma petista roxa... ou vermelha.

Não sou petista. Nem roxa nem vermelha. Socialista, sim. Mas sem filiação a qualquer partido ou grupo de poder. E com mais de 30 anos "na estrada" do ativismo. Com muito orgulho.

Conheci este presidente ainda operário e sindicalista. Eu, estudante da mais importante universidade do País. Em esferas distintas, lutávamos juntos pela abertura política, pela derrubada do regime de exceção. Mais de trinta anos depois, só sinto gratidão por ter podido viver esse período difícil, conturbado e inesquecível da vida brasileira.

Mais vinte e poucos dias, e o Presidente Amigo do Povo deixa o governo. Ao que tudo indica, para continuar sua surpreendente História de Vida, ampliando sua atuação para o resto do mundo, África, América Latina...

Mas há um quê de saudade, de nostalgia no ar... nos corações mais sensíveis que acompanharam esses 8 anos. O Presidente vem chorando em várias solenidades, em encontros com chefes de Estado, nesse momento de despedida... E o povo mais humilde, a quem ele deu sobretudo confiança e autoestima, começa a manifestar seu reconhecimento, carinho e gratidão.

O Abra a Boca, Cidadão! se permite hoje sair um pouco da esfera de análise política e midiática, para registrar alguns momentos deste encontro entre o grande líder e seu povo. Leia e veja abaixo cenas deste emocionante momento histórico.



Tchau e até a próxima: Eleitores se despedem do presidente por carta
 



"Aqui na minha cidade, quando escrevi a primeira vez para você pedindo a cadeira de rodas para minha esposa, muitos riram de mim, achavam que nunca esta carta chegaria às suas mãos. Mas chegou e todos aqueles que acreditaram e não acreditaram ficaram muito felizes, pois nunca nenhum presidente se comunicou com a classe mais pobre. Você fez a diferença."

A mensagem, enviada a Lula em 9 de novembro deste ano, chegou de Rio Tinto, na Paraíba. É uma das 631.977 correspondências recebidas pelo presidente Lula por meio de cartas ou e-mails em oito anos de governo. O tom das mensagens mapeia altos e baixos durante seu governo: a expectativa e a torcida do início, as decepções e conquistas pelo trajeto.


A 26 dias do fim do mandato, Lula continua recebendo cartas. Como na carta de Rio Tinto, o tom agora é de nostalgia.

Muitos pedidos. Ao ler as primeiras cartas chegadas à Presidência, no início de 2003, já era possível ter uma pista da relação que a população teria com o presidente metalúrgico. "Oi, Lula", começam muitas delas, dispensando o cerimonioso "excelentíssimo senhor presidente da República do Brasil". Antes de desfiar suas histórias, muitos exibem uma intimidade e uma expectativa na solução dos problemas que é resumida assim: "O senhor que é do povo como eu vai me entender..."


Quase todos os textos seguem um padrão: quem escreve primeiro faz um elogio, uma crítica ou dá uma sugestão, depois conta um pedaço de sua história e faz um pedido no final. Tem quem procure dinheiro, remédio, emprego, uma casa, um empréstimo para comprar um carro e até a intervenção do presidente para ajudar marido e mulher a salvarem o casamento em crise.


Tem convite de aniversário, pedido de autógrafos, fotos, a oportunidade de viajar com Lula no avião presidencial. Não há nada mais que surpreenda Cláudio Rocha, chefe do Departamento de Documentação Histórica da Presidência (DDH), órgão responsável por receber, catalogar e responder cada uma das cartas que o presidente recebe. Para as opiniões, a resposta é um agradecimento. Para os pedidos, o DDH informa sobre programas do governo que eventualmente atendam àquela demanda.


Uma por dia. Algumas histórias entraram para o folclore da Presidência. Um eleitor escreveu uma carta por dia ao presidente, desde o início do governo. Outro deu de presente a Lula um torno mecânico velho, como o que Lula operava quando jovem. Algumas mulheres são apaixonadas pelo presidente e pedem a oportunidade de trabalhar "cuidando dele".

As cartas que chegaram nas últimas semanas já começam a felicitar Lula e a primeira-dama Marisa Letícia pelas festas de fim de ano, fazem um saldo do governo e despedem-se do presidente. Mas, até na saída, dá tempo de pedir um último socorro. "Tenho a honra de parabenizar o excelente trabalho feito para a nossa nação. (...) Tenho a esperança que um dia volte a comandar esta nação tão carente de homens que olhem para os mais pobres", diz um homem de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia. O pedido: "Para finalizar, gostaria de receber uma foto do casal para eu colocar em um pôster na sala da minha residência."

De Alvorada, no Rio Grande do Sul, um porteiro pede que Lula volte à Presidência daqui a quatro anos e conta que voltou a estudar e pretende tornar-se eletricista: "Minha esposa está em tratamento de câncer de mama, por isso que quero fazer um curso de eletricista em Porto Alegre, mas no momento não estou conseguindo pagar o curso, gostaria se fosse possível para o senhor conseguir um desconto no curso aqui no Senai para mim."

"Meu pai é pedreiro. Antes de 2003 o emprego era muito disputado porque tinham poucos, então ele tinha de esperar para pegar um emprego, e agora até escolhe qual ele quer pegar para trabalhar", relata um menino de 10 anos, de Conselheiro Lafaiete (MG), em carta de 29 de outubro. "Quero te pedir uma foto autografada para mostrar que além de bom presidente é um bom homem. Tchau, e até a próxima."

1,4 milhão de lembranças na mudança de Lula

Cada carta, presente e momento do governo Lula foi catalogado e guardado no subsolo do Palácio do Planalto, um acervo que compõe 3 mil caixas de arquivo e que agora seguem viagem para São Paulo, onde farão parte do Instituto Lula.

As polêmicas, as crises e a popularidade do governo refletem-se em números superlativos: foram 1.403.417 itens catalogados pelo DDH em oito anos. Entram aí 355.825 cartas, 287.152 mensagens eletrônicas, 9.697 fotos e vídeos, 9.027 livros, 8.511 presentes, 14.992 textos e bilhetes, e 718.213 material de campanhas feitas por movimentos civis.

Será preciso mobilizar 11 caminhões para transportar todo o material. Cláudio Rocha, chefe do DDH, é quem organiza o trabalho de fazer a mudança de tudo o que cuidadosamente catalogou, arquivou e preservou. "Só nesta semana chegaram mais 14 caixas de livros que estavam no Palácio da Alvorada e ainda precisam ser catalogados aqui", conta. E ainda há mais para chegar. Parte dos presentes fica na residência oficial do presidente.

O desafio do curador do Instituto Lula, que será um misto de memorial com plataforma política do presidente, será organizar um acervo tão plural para visitação pública. São presentes caros (colares de ouro e espadas incrustadas de pedras preciosas enviadas por líderes árabes) e únicos (um capacete usado por Ayrton Senna, camisetas de futebol assinadas por Kaká e Christiano Ronaldo, obras de Antônio Potero e Miró).

A história diplomática e governamental mistura-se ainda à contribuição dos populares. São inúmeras obras de artesanato, bordados, orações escritas, fotos de família, desenhos de criança – pedaços de histórias que formam um mosaico da trajetória brasileira nos últimos oito anos e dão ao acervo um valor inestimável.


TRECHOS

"Sua resposta a um certo jornalista nestes últimos dias foi de uma precisão muito especial. O senhor disse: não sei se estarei vivo até lá. A pergunta era se o senhor seria candidato em 2014. Para o senhor que dizem que és um analfabeto foi um xeque-mate! Quer aprender a aperfeiçoar a arte do carisma, passe aqui em casa uma hora dessas para aprender comigo"

" Tenho a honra de parabenizar o excelente trabalho feito para a nossa nação. Na minha avaliação, foi o melhor presidente do Brasil".

"Creio, oh, senhor presidente, que tudo em sua vida teve origem na luta e na miséria que outrora viveste. Meus sinceros parabéns porque tu foste um vencedor, para muitos um analfabeto, mas para mim um especial, um sábio. Não um sábio qualquer, mas um sábio especial do povo".

"O senhor fez várias coisas boas para o Brasil, mas quero te pedir uma foto autografada para mostrar que o senhor além de um bom presidente é um bom homem".

"É uma honra para mim escrever para o senhor. Parabéns por governar nosso país, é o melhor presidente da história do Brasil. Espero que daqui a quatro anos volte à Presidência. Moro em Alvorada, no Rio Grande do Sul, e trabalho em Porto Alegre de porteiro, mas quero melhorar um pouco e por isso estou terminando os estudos".

(Texto/Agência Estado; Post do blogue Os Amigos do Presidente Lula http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com, 5 de dezembro de 2010)